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21/02/2014
REVIEW - CINEMA: ROBOCOP
 
 
Robocop
 
 
 
 
 
 
 
 
 


É indiscutível que nos últimos anos Hollywood vem exagerando na quantidade de remakes e reboots. Diga-se de passagem, a maioria das pessoas sequer entende a diferença entre os dois, e realmente é uma linha tênue, pois as próprias produtoras demonstram não saber bem essa diferença, por vezes se embananando em suas declarações. Um remake, em teoria, é uma refilmagem quase ao pé da letra de um filme, caso do Psicose de 1998. Já um reboot, pega a ideia básica e muda algumas coisas, dando um novo início a uma franquia, algo que está sendo feito atualmente com o Quarteto Fantástico.

Resgatar um filme do passado e criar uma nova versão, por si só, não tem nada demais, só é necessário fazer um bom trabalho. Ainda assim, o público vem torcendo o nariz a cada nova empreitada, desde seu anúncio, mesmo sem saber nada sobre a produção, quase sempre afirmando que “não havia necessidade”, o que, convenhamos, é ridículo, pois não há necessidade de nenhum filme. Assim, alguns remakes e reboots são bons, outros não, mas todos são criticados apenas por existir, por pessoas que às vezes se esquecem de bons remakes que marcaram história, como o King Kong de 1976 e O Enigma de Outro Mundo de 1982.

E eis que temos o novo Robocop. Franquia muito famosa na década de 1980, a saga do policial do futuro atrai mais atenção e críticas justamente por causa disso, afinal a memória afetiva do público é forte neste caso. A demora em iniciar a produção e a mudança no visual do personagem só aumentaram as críticas.

Contudo, o resultado final é um filme que faz jus ao original. Joel Kinnaman (The Killing) interpreta a nova versão de Alex Murphy, o policial que, depois de ser gravemente ferido, é transformado no Robocop. Menos esquisitão do que Peter Weller – metade por simpatia própria, metade pela direção que o roteiro toma – Kinnaman se sai bem em seu papel, principalmente depois da transformação, ainda que não se destaque muito.

A linda Abbie Cornish (Sucker Punch) vive a esposa de Alex, Clara, enquanto John Paul Ruttan (Guerra é Guerra) é David, o filho do casal. Já na relação de Robocop com sua família o novo filme começa a mostrar sua identidade diferenciada. O novo Robocop é muito mais humano, e o drama familiar está sempre presente.

Buscando – com sucesso – uma identidade própria, mas sempre fiel ao espírito do original, este Robocop quase não reutiliza os personagens do original, em muitos casos apresentando personagens em posições similares aos do original, mas com seus nomes modificados, ou mesmo suas funções na trama.  É o caso da parceira Anne Lewis, que se torna Jack Lewis (Michael K. Williams), muito importante na introdução de Murphy.

O maior acerto deste Robocop se mostra a escolha do diretor José Padilha, que sempre explorou corrupção e crime em Tropa de Elite, e que por conta disso se sente em casa em Robocop, mesmo com os elementos de ação e ficção. Padilha e o roteirista Joshua Zetumer criam uma estrutura que explora tudo o que há de errado na sociedade atual. Se no Robocop original Detroit parecia um buraco, agora tudo é mais real: a situação está péssima, mas tudo está bonito, tudo parece bem, exatamente como acontece na maior parte do mundo na atualidade.

A ganância da OCP é representada pelo presidente da empresa, Raymond Sellars, um personagem cínico, dado a discursos bonitos e interpretado muito bem pelo sempre afetado Michael Keaton (Batman). Já o excelente Gary Oldman (trilogia Batman de Chistopher Nolan) acaba se tornando o maior destaque do longa no papel do cientista que cria o Robocop, Dennett Norton. Jackie Earle Haley faz o papel de Rick Mattox, o homem nada amigável que comanda os robôs da OCP. Fecha o elenco principal Samuel L. Jackson como o manipulador apresentador de TV Pat Novak.

Esta nova versão é mil vezes menos violenta do que a original, um dos maiores motivos das críticas.  Embora a violência exagerada seja uma marca registrada do filme de 1987, temos que dar o braço a torcer que isso é inviável nos dias de hoje, onde a classificação etária é mais rígida e raramente um filme com censura 18 anos dá algum lucro.

De qualquer modo, essa nova versão compensa expandindo os temas do original. Na exibição para a imprensa, notei dois colegas jornalistas afirmando que o filme original envelheceu bem. Provavelmente isso se dê pelo fato de seus temas continuarem muito atuais: as grandes empresas continuam explorando o mundo, o crime continua em alta e a corrupção se alastra cada vez mais. Por isso mesmo, tudo isso faz parte do novo filme, e bem mais. A política externa dos Estados Unidos – citada, mas pouco falada no original – aqui está logo na introdução, com unidades ED-209 cuidando de países “pacificados” pelos EUA. A manipulação da mídia é amplamente explorada na figura de Pat Novak. A corrupção na polícia e no governo é um elemento essencial à trama.

No lugar dos telejornais e propagandas da trilogia original, todo o cinismo afirmando que “tudo está bem” é concentrado em Pat Novak, num programa que não por coincidência lembra muito os sensacionalistas programas policiais que abarrotam as tardes da TV aberta brasileira. Nesta parte, sai o humor negro de antigamente, e entra um cinismo beirando a crítica seca.

A única falha neste novo Robocop é ser um filme não tão pensado para o grande público. Falta aquela cena marcante, aquele clímax monumental que garantiria a admiração principalmente do público mais jovem. No lugar disso, temos um filme muito bom, que atualiza bem um personagem ícone de maneira lógica (afinal, um Robocop com movimentação limitada não faz sentido hoje em dia, assim como uma armadura negra é mais sensata do que uma reluzente), mas que tem a difícil tarefa de se provar a um público que não quer saber das qualidades, só dos defeitos. Problema agravado ainda mais pelo fato de um diretor brasileiro comandar uma produção que critica bastante os Estados Unidos, país que não costuma ver com bons olhos críticas externas.

Elenco: Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Samuel L. Jackson, Jackie Earle Haley, Abbie Cornish. Roteiro: Joshua Zetumer. Direção: José Padilha.

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