MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
26/05/2014
MATÉRIA: BATMAN - 75 ANOS DE UMA MITOLOGIA MODERNA
 
 
Batman e Bruce Wayne, no traço de Brian Bolland
 
 
Detective Comics #27: a estreia do Homem-Morcego
 
 
O Birdman, de Bill Finger
 
 
Detective Comics #38: primeira aparição do Robin
 
 
Os arqui-inimigos do Cruzado Encapuzado
 
 
Dectetive Comics #359: a primeira Batgirl
 
 
O clássico seriado dos anos 1960
 
 
Homem-Morcego vs. Homem de Aço em 2016
 


Todo mundo já ouviu falar do Batman. Tamanha é a projeção do Homem-Morcego mundo afora que sua figura é facilmente reconhecível na maioria das nações do planeta.

Nascido na subestimada mídia das histórias em quadrinhos, o herói foi para o cinema, a televisão, brinquedos, videogames, citado em músicas, na literatura, em teses acadêmicas, enfim, por todos os cantos a sombra do morcego marcou e marca presença de tal forma irresistível que é impossível mesmo para aqueles que não se interessam por aventuras escapistas não saberem quem é o Batman.

De onde vem a força de um mito tão poderoso, cuja existência ficcional é mais reconhecida do que pessoas históricas reais? Por que um milionário que combate o crime anonimamente vestindo uma fantasia estilizada de morcego faz tanto sucesso?

As respostas são muitas. Existem até documentários e estudos acadêmicos (sérios) sobre o assunto. Talvez num mundo onde a criminalidade assole cada país do planeta, a fábula de alguém que após ser vítima de um crime terrível se levanta contra as forças que o oprimiram e decida se opuser a elas encontre eco em cada cidadão indignado ou preocupado com a violência. Ou talvez, a explicação mais simples é que as pessoas gostem de ação e aventura, e Batman oferece tudo isso em suas histórias, mas embaladas num subtexto supostamente sério, onde o trauma da violência traz consequências psicológicas profundas num garoto que vê seus pais serem assassinados na sua frente.

Batman era inicialmente um personagem destinado para crianças, sendo pouco provável que elas estivessem preocupadas (ou interessadas) em analisar os possíveis problemas psiquiátricos de Bruce Wayne. O assassinato de seus pais, que o leva a rota de treinar e estudar até se tornar o combatente do crime perfeito era apenas a explicação necessária para tornar a fantasia verossímil. Mas, por outro lado, foi essa explicação um dos alicerces que tornou o Batman uma das lendas mais perenes da ficção. Provavelmente não existe melhor origem de super-herói, mais completa, funcional e dramática do que essa. Tanto que diversos outros heróis apenas tiveram suas origens derivadas desta.

Batman apareceu pela primeira vez em Detective Comics #27, com data de capa de maio de 1939. Desde que a Detective Comics Inc., uma das editoras que se tornariam a atual DC Comics após sua fusão com outras editoras do mesmo grupo editorial, lançara o Superman, um ano antes, estava na cara que haviam criado um novo gênero de ficção, uma nova febre entre a garotada da época: as aventuras dos super-heróis. Então se um Superman era bom, a DC decidiu que deveria haver mais.

A aposta estava lançada e vários artistas da casa foram convidados a apresentar propostas de personagens do tipo. Foi o jovem desenhista Bob Kane que acertou o alvo, mas justamente por apresentar não um genérico do Superman, mas um super-herói em muitos aspectos totalmente diferente. Como a revista para a qual trabalhava, a Detective Comics, como o próprio nome dizia, era uma revista de “detetives”, de crime e mistérios, é claro que seu personagem seria uma espécie de detetive, como tantos outros da revista. O que o diferenciava era não só a forma espalhafatosa de se vestir, mas suas proezas, que eram fantásticas.

Mas esse novo “super-herói” não tinha superpoderes. Tudo era fruto de muito treinamento, estudo, e claro, da fortuna incomensurável de Bruce Wayne capaz de comprar todo tipo de traquitanas tecnológicas que o vigilante precisasse para combater o crime.

Inicialmente Batman não deveria ser o Batman, mas sim o “Birdman”. Kane se baseara num estudo de Leonardo Da Vinci como ideia inicial para seu herói. Foi aí que a conselho do editor Vin Sullivan ele foi mandado para casa, para “trabalhar nessa ideia”. Ele chamou então o amigo e colaborador Bill Finger, considerado o verdadeiro co-criador não creditado do Batman. Foi Finger que teria dado sugestões de torná-lo um morcego, baseado num filme dos anos 30, “The Bat”, assim como criou sua identidade secreta Bruce Wayne, e a melhor origem de um personagem de quadrinhos de todos os tempos.

Muitas influências entraram no caldeirão que deu origem ao Batman. Ele era um milionário que combatia o crime e amigo do comissário de polícia que o perseguia enquanto vigilante, basicamente a mesma coisa que se via nas histórias de O Aranha, um então popular herói das revistas pulp da época. Também tinha um pouco de Zorro, com seu capuz preto e juramento de combater o crime - tanto que nas décadas posteriores, seria incluído na mitologia do homem-morcego que o Zorro era um herói de infância de Bruce Wayne, e que o teria de fato inspirado a ser o Batman. Inclusive seus pais foram mortos na noite em que a família foi ao cinema assistir um dos inúmeros filmes do herói.

A primeira história, “O caso da quadrilha dos químicos” é quase uma fotocópia de uma história semelhante estrelada pelo Sombra, outro herói dos pulps. Mas a partir dela, o Batman ganha cada vez mais camadas e acessórios que o tornam de fato um personagem genuíno capaz não só de repetir o sucesso do Superman, mas de superá-lo. Como conta Dick Giordano, ex-vice-presidente da DC Comics, e que cresceu lendo as revistas do Homem-Morcego: “A gente gostava do Superman, mas nunca poderia ser o Superman. Agora com o Batman tínhamos a fantasia de que se treinássemos e estudássemos bastante, um dia poderíamos ser o Batman. Claro que isso era improvável, mas a fantasia da possibilidade era o que bastava”.

ROBIN E OS COLORIDOS VILÕES
Inicialmente as histórias do Batman eram sombrias, incrivelmente soturnas para o colorido mundo das recém-criadas revistas em quadrinhos. Quanto mais colorido um gibi mais ele parecia atrair a atenção da garotada, afinal esse era um dos trunfos daquelas revistas na época para superar as populares tiras de quadrinhos de jornal que eram em preto e branco.

Foi então que decidiram criar um “parceiro-mirim” para o Homem-Morcego. Robin foi o primeiro sidekick e daí em diante outros heróis ganhariam os seus. A ideia era que os leitores da época se identificariam se um personagem da sua idade se unisse ao Batman para combater o crime. Dick Grayson era um órfão que também vira a morte dos pais na sua frente, e Bruce Wayne se identifica com o rapaz e resolve adotá-lo. Por já ser um acrobata de circo, o treinamento de Dick foi mais breve, e logo ele já estava combatendo o crime na sua colorida fantasia verde, vermelha e amarela.

Mais do que um parceiro, a presença de Robin suavizou a figura ameaçadora e amarga do justiceiro que atacava criminosos. Batman começou a sorrir. A cor do seu capaz que era quase preto passou a ser um azul mais claro. Essa mudança, que nos anos posteriores pode ter irritado os puristas, no entanto, foi justamente o que ajudou a sedimentar a popularidade do herói durante os anos 1940 até os anos 60. A maioria dos leitores eram crianças que queriam se divertir lendo gibis e o Batman original talvez fosse “carregado” demais.

Não só Robin trazia mais colorido à vida do Batman. Logo a seguir, ele começou a ganhar uma galeria de exóticos vilões. O primeiro e mais mortal deles foi justamente o Coringa. Se ironicamente Batman era uma figura séria e sombria, seu arqui-inimigo parecia um palhaço e gostava de transformar seus crimes em piadas grotescas. Batman era um agente da ordem, enquanto o Coringa um agente do caos. Se a visão do mundo do Batman era guiada pela férrea razão, a do mundo do Coringa era apenas a loucura. Sendo a oposição perfeita para o Homem-Morcego, o personagem logo caiu na graça dos leitores como seu vilão preferido, e assim como o Batman, ganharia novas reformulações e versões ao longo dos anos.

Na mesma edição em que apareceu o Coringa, o Batman também conheceu a Mulher-Gato, chamada de apenas A Gata nesta história. Não apenas sua maior adversária feminina, mas seu maior interesse romântico. Nas primeiras aventuras fica claro que Batman deixa até mesmo a vilã escapar de suas travessuras, cativado por sua sensualidade. No mundo dos gibis do Batman, feito na época para garotos de 8 a 12 anos, a sexualidade era algo misterioso e proibido. Por isso o grande interesse romântico do Batman só podia mesmo ser uma criminosa, com a qual ele vivia o dilema de que seu envolvimento com ela contrariava tudo em que acreditava.

Assim como muitos heróis, Batman também teve um amigo que se tornou um dos seus maiores adversários. Harvey Dent era um promotor comprometido em acabar com o crime em Gotham City. Mas após ter metade do rosto desfigurado por um jorro de ácido atirado por um mafioso rancoroso durante um julgamento, Dent enlouqueceu e se tornou o criminoso esquizofrênico Duas-Caras. Portador de uma moeda falsa com duas caras de cada lado, uma riscada outra limpa, ele a atira para tomar suas decisões, que podem vir para o bem ou para o mal.

Loucura interessante também é a de Edward Nigma, o Charada. O vilão é um gênio criminoso, mas tem compulsão em deixar pistas, quebra-cabeças intelectuais para desafiar as autoridades a decifrá-los para adivinhar seus próximos crimes. Não fosse a compulsão por querer ser famoso e ter sua genialidade reconhecida, o Charada seria um adversário bem mais difícil para a dupla dinâmica.

Já o Pinguim, apesar da aparência grotesca, não tem nada de louco. Cabendo mais na figura do gângster tradicional, com o passar dos anos até mesmo conseguiu dar uma fachada de “legitimidade” para seus negócios, sendo dono de um clube noturno que usa para lavar o dinheiro de suas atividades criminosas.

Em termos de ameaça homicida, o Espantalho só perde para o Coringa. O professor  Jonathan Crane entrou para o crime quando decidiu se vingar da diretoria da universidade que o demitira, mas seus desejos assassinos eram fruto de uma psicose associada a necessidade de dominar, entender e aplicar o medo nas suas vítimas.

Hera Venenosa também acabou no hospício por suas práticas homicidas. Atualmente uma ecoterrorista, a vilã é uma das poucas do rol do Homem-Morcego que tem de fato superpoderes, fruto de uma época em que as aventuras do Batman lidavam mais com conceitos da ficção científica.

A essa galeria mais conhecida, ainda vieram outros de menor projeção como o Cara de Barro, o Crocodilo, Ventríloquo, Maxie Zeus, o Pistoleiro, Arrasa-Quarteirão, Mariposa Assassina, Hugo Strange, Senhor Frio, Homem-Calendário, entre outros esquecíveis.

ERA DE PRATA E A BATMANIA
Com a polêmica da alegada influência dos quadrinhos nas crianças estimulando-as para a marginalidade e comportamentos adversos aos moralmente aceitos pela sociedade, Batman foi uma das maiores vítimas do Comics Code. Seus gibis nos anos 50 passaram cada vez menos a tratar de crime e mais de ficção científica e fantasia.

Para afastar o fantasma de uma maliciosa alegação de homossexualidade entre Batman e Robin, foi criada a Batwoman para o Batman e até uma primeira Batgirl para o Robin. A “bat-família” tinha até mesmo um batcão, Ace, além de ser assombrada por um duende da 5ª dimensão, o Batmirim. O mordomo Alfred chegou a ser transformado num vilão e dado como morto, substituído por uma “tia” de Bruce Wayne.

As vendas das revistas em quadrinhos do Batman começaram a declinar e o herói parecia superado por novos personagens surgido no final dos anos 1950 e nos anos 60, não só da própria DC, mas pela meteórica ascensão da Marvel. Foi quando uma das ridículas revistas em quadrinhos do Batman da época caiu nas mãos do produtor William Dozer e ele enxergou aquilo como realmente era: uma grande piada.

A série de televisão do Batman apostou no colorido, no psicodélico, no kitsch, no ridículo e no espalhafatoso e se tornou rapidamente um grande sucesso. Trazendo o fora de forma Adam West como Batman e o velho demais Burt Ward como Robin, até a escolha dos atores fazia parte da brincadeira. Mas quem roubava mesmo a cena eram os vilões. Interpretados por atores consagrados, não por acaso nos créditos seus nomes apareciam como “o vilão especialmente convidado”. Cesar Romero deu vida ao Coringa, Burgess Meredith ao Pinguim, Frank Gorshin ao Charada e Julie Newmar (entre outras) a sensual Mulher-Gato.

A alta audiência da TV fez surgir a primeira “batmania” nos Estados Unidos. De repente a logo de Batman estava estampada em mochilas, lancheiras, camisetas, e toda sorte de brinquedos e jogos de tabuleiro foram criados inspirados nas aventuras do Homem-Morcego.

O seriado também impulsionou a venda dos gibis, de tal forma que uma reformulação proposta do personagem no começo dos anos 60 para torná-lo mais sério foi abandonada, em prol da temática camp que era vista na TV. Até personagens que eram vistos antes na televisão, como a nova Batgirl, eram inseridos nos gibis. Batman abusava cada vez mais das suas bugigangas tecnológicas presentes no cinto de utilidades, e ficava totalmente indefeso sem elas. Mas se o gibi atraia um público momentâneo, apenas afundava ainda mais o homem-morcego no crédito dos leitores costumazes de gibis.

Passadas três temporadas e 120 episódios a graça da piada acabou e ninguém mais estava rindo. Os telespectadores largaram o programa em troca de mais alguma novidade momentânea. Com a queda drástica das revistas, o cruzado da capa novamente estava em apuros na sua mídia original. A editora Marvel Comics havia feito uma pequena revolução na abordagem dos super-heróis durante os anos 60 e a DC foi literalmente “posta nas cordas”. Não só o homem-morcego, mas muitos dos personagens da editora precisavam urgente de uma revisão. E foi assim que começou a Era de Bronze.

DE VOLTA AO BÁSICO
O editor Julius Schwartz deu ao escritor Dennis O´Neil e ao desenhista Neal Adams a tarefa de restaurar a popularidade do Batman nos gibis. Fã do material da Era de Ouro dos quadrinhos, O´Neil promoveu uma volta ao básico, ao Batman original tal como criado por Bob Kane. O capuz de Batman ficava mais escuro, e o personagem mais violento. Robin foi afastado, crescera e foi para a universidade em Nova Iorque, onde se juntaria a outro bando de moleques, os Novos Titãs. As histórias que se passavam de dia, agora se passavam a noite. Os vilões deixaram de apenas roubar bancos e joalherias, e começaram novamente a matar pessoas. Os gibis do Batman voltavam a ser tão perigosos quanto o mundo real que os inspirara.

O´Neil também promoveu a criação de um novo vilão e um novo interesse romântico na vida do Homem-Morcego, que agora estava sendo chamado de “O Cavaleiro das Trevas”. Ra´s Al Ghul era um tanto baseado em Fu Manchu e outros vilões orientais, mas trazia uma personalidade mais complexa, ao mesmo tempo “o maior criminoso do mundo”, mas também um ecoterrorista convicto. Ele alegava fazer o mal para promover um bem maior – como sempre o fazem os vilões da vida real.

Já sua filha, a sensualíssima Talia, poderia afastar de vez os comentários maliciosos sobre a vida sexual do Batman. Se os flertes com Julie Madison, Vicky Vale e a Mulher-Gato nunca chegavam aos finalmentes, Batman era mostrado em cenas pra lá de calientes e sugestivas nos braços da nova amada. Ra´s Al Ghul inclusive abençoava a união e tentava promovê-la, pois via, ironicamente, no Batman um herdeiro a altura para chefiar seu império.

No entanto, se a reformulação chefiada por O´Neil salvou os gibis do Batman no início dos anos 70, no final da mesma década uma nova ameaça a essa versão mais “pé no chão” veio da mesma mídia que havia transformado Batman numa mitologia pop: a televisão. O desenho animado Superamigos mostrava novamente um Batman pueril ao lado de seu protegido Robin e não demorou para a dupla dinâmica ter até uma nova série animada própria, e até mesmo se encontrar com a turma do Scooby-Doo!

Mais uma vez a televisão começou a afetar as revistas, de forma que apareceu até um novo Robin, já que o Homem-Morcego era visto com ele em brinquedos e outras mídias. Seu nome era Jason Todd, e originalmente até sua origem era praticamente idêntica a de Dick Grayson. Isso seria revisado anos depois, por conta da reformulação pós-Crise nas Infinitas Terras. As bat-revistas estavam novamente mal das pernas. Foi então que apareceu um jovem artista com um ousado projeto que mudaria a vida do Batman para sempre.

O RETORNO DO CAVALEIRO DAS TREVAS
Frank Miller já havia feito fama na Marvel transformando o Demolidor num dos personagens mais populares da editora. Grande fã do Batman, ele foi atraído pela DC pela promessa de royalties e liberdade criativa. Sua proposta para o homem-morcego não poderia ser mais revolucionária para a época: uma minissérie em quatro edições com papel especial, sem propagandas, lombada quadrada e com 52 páginas por edição, inaugurando um formato que seria chamado nos anos 80 de “prestige”.

No entanto, The Dark Knight Returns (Batman: O Cavaleiro das Trevas, no Brasil), revolucionou mesmo pelo conteúdo, com várias novas ferramentas narrativas criadas por Miller para contar uma história em quadrinhos e uma trama poderosa e envolvente. O gibi foi um sucesso estrondoso de crítica e público, vendendo mais de 5 milhões de exemplares e colocando o Batman novamente na mídia, mas agora graças aos seus gibis!

A história mostra um futuro distópico, onde um envelhecido Bruce Wayne acaba voltando a se tornar o Batman apesar da idade avançada, pois somente a figura do morcego dá sentido a sua vida. Era um Batman bruto, gigantesco, que não tinha pena de criminosos, e que embora ainda respeitasse o compromisso de não matar, optava por aleijar os adversários mesmo quando não era a única alternativa. Seu maior poder era sua vontade irrefreável, capaz de dar cabo de inimigos mais jovens e mais fortes, e até do Superman. Começava aqui o mito do Batman invencível que por anos permeou as revistas em quadrinhos e chegou a ser transposto para outras mídias. Que o Homem de Aço se acautelasse, pois ele não era mais o maioral no Universo DC. De fato, Batman inclusive ultrapassara sua popularidade.

Ao Cavaleiro das Trevas se sucederam outros gibis clássicos, não só de Miller, como Batman: Ano Um (uma versão mais realista da origem do herói), mas também A Piada Mortal por Alan Moore e Brian Bolland, e Asilo Arkham por Grant Morrison e Dave McKean. Os anos 80 parecem ser a década das grandes histórias em quadrinhos do Batman. O herói se tornara mais sombrio e perigoso do que jamais fora, e mirando nesse objetivo, o roteirista Jim Starlin foi incumbido de matar o novo Robin, para que o Homem-Morcego voltasse a ser um vigilante solitário, e marcado por essa morte, se tornaria mais violento do que nunca. Death in the family (No Brasil, A Morte de Robin) foi outro clássico instantâneo dos quadrinhos. O assassino, logicamente, só podia ser o Coringa. Que no mesmo ano havia aleijado Barbara Gordon, encerrando sua carreira de Batgirl, em A Piada Mortal.

Com esse clima soturno, sinistro e “moderno” Batman ressurgia novamente no cinema, numa superprodução caprichada dirigida por Tim Burton, e estrelada pelo premiado Jack Nicholson no papel do Coringa. Não por acaso seu nome aparecia primeiro nos créditos. Os vilões continuavam sendo as principais estrelas das bat-aventuras. Apesar do físico mirrado do ator Michael Keaton, uma armadura de borracha conseguia dar a ilusão de um físico à altura, e ele convencia como Bruce Wayne. A linda Kim Bassinger fazia Vicky Vale, interesse romântico do herói. A produção se inspirou bastante numa fase breve, mas marcante dos quadrinhos, comandada por Steve Englehart e Marshall Rogers. O filme não foi só um sucesso, como iniciou a segunda batmania. Novamente a famosa logo, agora numa versão mais gótica, estava estampada em todos os cantos. As pessoas podiam nunca ter lido gibis, mas sabiam quem era o Batman. As músicas da trilha sonora do filme, feitas por Prince, tocavam nas rádios e invadiam a MTV.

Batman entrou nos anos 1990 como o mais lucrativo dos personagens da DC Comics, e quiçá dos quadrinhos. Ganhou novas revistas mensais, minisséries e especiais. Na televisão, a dupla Bruce Timm e Paul Dini criou uma mitológica série animada que foi considerada uma das melhores transposições do personagem para outra mídia, apesar de terem que aliviarem o tom por causa da censura, já que o desenho era destinado para todas as idades. Batman: The Animated Series e seus derivados totalizaram quatro temporadas, dando origem a novos personagens que logo foram inseridos nos quadrinhos, como a policial Renee Montoya e a vilã Arlequina.

No cinema, no entanto, após uma boa sequência com Batman, o Retorno onde os vilões interpretados por Danny De Vitto (Pinguim) e Michelle Pfeifer (Mulher-Gato) novamente roubam a cena, a qualidade começou a cair vertiginosamente sobre o comando do diretor Joel Schumacher. Inicialmente os fãs deram graças aos deuses pela substituição de Keaton por atores como Val Kilmer e George Clooney, mas logo ficaria provado que é preciso mais do que atores com físico a altura pra se fazer um bom filme do homem-morcego.

Schumacher era fã da série de TV dos anos 60 e investiu no kitsch, no bizarro e no psicodélico na sua visão do Batman e de Gotham City. Não só Robin foi introduzido, como até a Batgirl. Os vilões eram caricatos e infantis. Nem as crianças, agora cativas de animes e videogames cada vez mais violentos e sanguinolentos viam graça nesse “Bat-Bobão”. Batman & Robin, o quarto filme da série, lançado em 1997, foi a tampa no caixão. Seu fiasco foi tamanho que por alguns anos o morcego ficou longe dos cinemas.

Com a DC procurando padronizar sua franquia, era impossível ver o Batman rodeado por vários bat-personagens nos desenhos animados e no cinema enquanto continuava solitário nos quadrinhos. Não demorou muito para ganhar um novo Robin, Tim Drake, o terceiro da sequência. Esse personagem, no entanto, acabou se mostrando bastante popular, principalmente ao ser retratado como um verdadeiro adolescente, não um adulto em miniatura, ou apenas um garoto-problema. Tim Drake era um legítimo nerd, como muitos dos leitores das revistas, daí por isso cair nas suas graças. Melhor detetive do que todos os outros meninos-prodígios era melhor hacker do que lutador. Mas isso bastava para os leitores. Tim Drake assim foi o primeiro e único Robin até hoje a ter sua própria revista mensal, que durou cerca de 183 edições. Uma marca e tanto para um parceiro mirim.

Assim como um novo Robin, apareceu também uma nova Batgirl, Cassandra Cain. Barbara Gordon a antiga Batgirl se tornou a hacker da equipe, a Oráculo. Dick Grayson, o antigo Robin que virara o Asa Noturna nos anos 80 ganhou revista própria. E o Batman ainda ganharia agentes e aliados como Azrael, as Aves de Rapina e a própria Mulher-Gato, que fazia as vezes de anti-heroína.

O BATMAN LEVADO A SÉRIO
Embora nos quadrinhos a reputação do Batman estivesse mais do que consolidada, na visão geral das pessoas sem contato com os gibis, ainda predominava a imagem de que o herói não passava de um milionário entediado com gosto duvidoso para roupas e inimigos “engraçadinhos”. O seriado com Adam West ainda estava vivo na memória e os filmes recentes de Joel Schumacher haviam novamente difundido essa versão. Não ajudava o fato de o herói ser mais brando a cada novo desenho animado, culminando no sorridente homem-morcego de Batman: Os Bravos e Destemidos.

Coube ao diretor Christopher Nolan, junto com o roteirista David Goyer que ao contrário de todos os anteriores, era de fato um verdadeiro fã de quadrinhos, trazer respeitabilidade para o mito do Batman também nos cinemas. Nolan se decidiu por uma abordagem realista, após a leitura recomendada pela própria DC Comics de HQs como Batman: Ano Um e O Longo Dia das Bruxas. Condensadas com um punhado de histórias menores, essas foram as bases para os dois primeiros filmes da trilogia de Nolan sobre o morcego.

Os novos bat-filmes se beneficiaram da onda recente de filmes de super-heróis, e já eram sucesso antes mesmos de estrearem. Mas Nolan soube ir além do que todos os outros cineastas estavam fazendo (principalmente com os filmes da Marvel), e ao invés de criar simples blockbusters escapistas com muita ação e efeitos especiais, fez dos seus filmes suspenses policiais dramáticos com um fundo político. Algo inesperado numa película estreada por um sujeito fantasiado de morcego, sem dúvida.

Mas o drama de Gotham City, que não é diferente do drama vivido por centenas de cidades assoladas pelo crime e a corrupção ao redor do planeta encontrou eco em milhões de telespectadores, fazendo desses filmes sucessos não só de crítica, mas também de bilheteria.

De repente, até os críticos de cinema mais “intelectualizados” estavam levando o Batman a sério. Ao optar por contar uma história com começo, meio e fim e não ficar preocupado em simplesmente criar uma franquia para ser explorada ao infinito (como fazem os produtores dos outros filmes de super-heróis), Nolan criou uma obra cinematográfica que deve ser respeitada por muitos anos ainda. Numa era em que o cinema cada vez mais se torna a arte do espetáculo, Nolan foi um dos precursores do “espetáculo com conteúdo”, quebrando as fronteiras entre o que pode ser um filme “sério” e um filme blockbuster.

Nos quadrinhos, Bruce Wayne estava de certa forma fazendo o caminho inverso. Sem precisar mais se preocupar em provar a seriedade do Batman, os editores deram carta branca para o roteirista Grant Morrison fazer uma abordagem mais heróica e leve do personagem, ainda que respeitando sua caracterização séria. O autor era extremamente contra o caráter obsessivo e paranoico dado ao Batman desde a época de Frank Miller, e se dedicou a reconstruir a persona de Bruce Wayne, de volta ao proposto por Dennis O´Neil e Steve Englehart nos anos 70. No seu “reinado” de sete anos, Morrison “matou” o personagem, criou uma nova dupla dinâmica, deu um filho para Bruce Wayne (e por consequência um novo e popularíssimo Robin), introduziu novos vilões, criou uma “corporação” de homens-morcego mundo afora, e na saída devolveu o personagem ao básico, como de costume. A montanha-russa de acontecimentos transformou “cada história um evento em si”, nas palavras do próprio Morrison, que ainda transformou as revistas em sucessos de venda e manteve os bat-gibis em alta. Por ocasião do reboot da DC, em 2011, quando a editora resolveu zerar seu universo de personagem, Batman e Lanterna Verde foram as duas únicas franquias que foram praticamente deixadas intocadas, pois eram as que melhor estavam vendendo.

A popularidade do Batman nos cinemas levou a novas séries de animação novamente, e com isso aumentou a demanda inclusive por novas revistas em quadrinhos. Por ocasião do relançamento da DC Comics com Os Novos 52, Batman chegou a ter cinco revistas mensais. Atualmente duas delas foram canceladas tão porque Batman acaba de ganhar um gibi semanal nos Estados Unidos, algo incomum nos quadrinhos norte-americanos.

Outro segmento de fãs do Batman por outras mídias são os gamers. A série Arkham se tornou um enorme sucesso dos videogames, já indo para sua terceira sequência. Nela, a loucura do Asilo Arkham, local onde os inimigos do Batman em geral são trancafiados, acaba se espalhando pela cidade toda. A série de jogos já gerou não apenas revistas em quadrinhos como já foi anunciado para este ano um longa em animação baseado no primeiro jogo.

Sendo hoje sem dúvida o mais lucrativo e popular super-herói da DC – ultrapassando até o Superman – Batman é uma das marcas mais reconhecidas e populares da própria Warner. Não por acaso ele é visto como a “salvação da lavoura” para a expansão dos filmes de super-heróis pelo estúdio. A sequência de O Homem de Aço será nada menos que Batman vs. Superman, realizando um sonho antigo dos fãs de verem os dois maiores heróis da DC num único filme. A aposta é tão alta, que a Warner parece motivada a introduzir vários personagens na película, que chegará aos cinemas em 2016, se tornando assim a ponta de lança para um Universo DC cinematográfico.

É difícil precisar por que Batman se tornou tão popular. É difícil se identificar com seu alter-ego, já que poucos são os bilionários no mundo, e provavelmente nenhum deles sofreu um trauma psicológico quando criança ao ver seus pais serem assassinados na sua frente. Não é uma história do tipo que vemos na vida real. Tampouco são reais seus inimigos, palhaços homicidas, esquizofrênicos que tomam decisões baseadas numa moeda, homens-crocodilos, mulheres-plantas, criaturas de barro transformistas ou gângsteres deformados. Sua disfuncional família é composta por meninos adotados que se expõem a perigos mortais com a mais tenra idade.

Mas foram todos esses aspectos fantásticos, inusitados, que fizeram da mitologia do Batman uma mitologia única, sem paralelos anteriores no cinema, na TV ou na literatura. As pessoas sabem, ao ler um gibi do Batman, ver um desenho animado, jogar um videogame, ou verem um filme, que estão diante de um produto genuíno. Com essa base formidável, com certeza não vimos ainda nem metade das milhares de histórias que ainda vão ser contadas sobre o Cavaleiro das Trevas de Gotham City e sua incomum Bat-Família.

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