MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
25/07/2014
REVIEW - CINEMA: TRANSCENDENCE
 
 
Transcendence
 
 
 
 
 
 
 
 


A inteligência artificial (IA) é um tema recorrente na ficção científica, e vem sendo trabalhado a mais tempo do que a atualidade do assunto nos faz supor.

O clássico do horror gótico Frankenstein, escrito entre 1816 e 1817 pela britânica Mary Shelley, é um dos exemplos mais antigos e conhecidos, provavelmente inspirado no mito judaico do golem, um ser que é trazido à vida por meio de um processo mágico a partir de materiais inanimados, como madeira, pedra, argila, etc.

Em 1883, foi publicado outro clássico, desta vez no âmbito da literatura infantil, As Aventuras de Pinóquio, do italiano Carlo Collodi, com a conhecida história de um carpinteiro que dá vida a um boneco de madeira. Nessas obras, a inteligência artificial em si não era a questão principal – mesmo porque, o monstro do Dr. Frankenstein nem era lá muito inteligente, e o Pinóquio a adquire por meios mágicos. A grande questão era a vida gerada artificialmente pelo homem ou por qualquer outro meio que não o natural. O tema só começou a ser tratado com mais seriedade no cinema, em 1926, com o clássico do cinema expressionista alemão Metrópolis, de Fritz Lang.

Em 1968, foram publicados dois importantes romances de ficção científica que continham forte presença da IA: a primeira parte da tetralogia 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke, no qual o computador Hal 9000 é um “tripulante” da nave espacial Discovery e é responsável por todo seu funcionamento; e Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick, em que o caçador de recompensas Rick Deckard persegue androides na tentativa de aposentá-los. Ambos os livros foram adaptados para o cinema, com 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick, que foi escrito conjuntamente com o livro; e Blade Runner: O Caçador de Androides (1982), de Ridley Scott, com Harrison Ford penando para dar cabo nos perigosos replicantes.

A ficção científica também produziu o conto Superbrinquedos Duram o Verão Todo, escrito pelo britânico Brian Aldiss em 1969, texto que deu origem ao filme A.I. - Inteligência Artificial (2001), de Steven Spielberg; e a noveleta O Homem Bicentenário, de 1976, obra do cultuado e prolífico escritor Isaac Asimov, que também deu origem ao filme de mesmo nome lançado em 1999, com direção de Chris Columbus e com o chato mor de Hollywood, Robin Williams, no papel principal.

A inteligência artificial também foi bastante presente nos filmes da série Star Wars (os queridos RD-D2 e C-3PO são um ótimo exemplo), na série O Exterminador do Futuro (1984, James Cameron), na ótima animação Wall-E (2008, Andrew Stanton) e na excelente produção britânica Lunar (2009, Duncan Jones). Portanto, é um tema bastante explorado e que requer alguma inovação, principalmente quando se trata do foco de uma história, para que não fique no mais do mesmo.

Em Transcendence: A Revolução (Transcendence), a IA foi utilizada em conjunto com outro tipo de tecnologia avançada na tentativa de fugir do lugar-comum. Assim, a nanotecnologia toma o lugar da IA, que surge como protagonista e depois vai perdendo lugar até virar pano de fundo. E é justamente nessa mistura que a coisa se perde. O que poderia ser uma ideia interessante torna-se um balaio de referências que se confundem e perdem a força ao invés de agirem em conjunto em benefício da narrativa.

O mesmo ocorre com o resto do filme. Johnny Depp parece entediado, a sempre insossa Rebecca Hall não convence durante praticamente todo o filme (as reações dela diante do sofrimento do marido moribundo são incompatíveis) e Morgan Freeman aparenta estar perdido entre tantos perdidos.

O Dr. Will Caster (Johnny Depp) é casado com a também cientista Evelyn Caster (Rebecca Hall) e é o maior gênio sobre inteligência artificial, que está trabalhando em uma máquina consciente que utiliza a internet como parte de seu banco de dados. E Caster é um dos maiores alvos de um grupo de extremistas que é contra o avanço desmedido da tecnologia. Após ser vítima de um atendado e descobrir que está próximo da morte, Caster convence sua mulher e seu melhor amigo, Max Waters (Paul Bettany), a testar o seu invento nele mesmo.

Os conflitos dos personagens oscilam sem muito critério, assim como a participação dos antagonistas, da ênfase na tecnologia, nas questões filosóficas e até mesmo na relação entre os três personagens principais. Uma ideia interessante é jogada no lixo pela total falta de cuidado na composição do roteiro (do estreante Jack Paglen) somada à péssima direção (estreia de Wally Pfister como diretor, que até então era diretor de fotografia), com fotografia quase amadora (e olha que é a área do diretor do filme!) e enredo desnorteado que só contribui para que não se tenha qualquer apreço pelo filme, que soa mais como um enorme equívoco cinematográfico do que uma tentativa de revitalizar o conceito da inteligência artificial.

E não há como dizer que essa não era a proposta do filme, pois a nanotecnologia, os ambientalistas radicais e a internet foram usados na fracassada tentativa de trazer algo de novo ao tema. Pena que ninguém pensou nisso na hora de recorrer à obviedade quando se trata dos perigos envolvendo a IA, e as mesmas questões de décadas atrás voltam novamente com a mesma lenga-lenga.

Não é necessária nenhuma inteligência superior, seja ela natural ou artificial, para encontrar os diversos pontos fracos de Transcendence. O próprio filme se encarrega de evidenciar isso.

Elenco: Johnny Depp, Rebecca Hall, Paul Bettany, Kate Mara, Cillian Murphy, Morgan Freeman, Cole Hauser, Clifton Collins Jr., Cory Hardrict, Josh Stewart. Roteiro: Jack Paglen. Direção: Wally Pfister.

Veja também:
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