MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
02/02/2004
ENTREVISTA: MARCELO CASSARO
 
 
Centésima edição da Dragão Brasil
 
 
Holy Avenger Art Book
 
 
Ayla Project
 
 
Victory
 
 
 
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Criador de várias séries de sucesso como Holy Avenger, Lua dos Dragões, Victory, a novíssima Dungeon Crawlers pela Mythos, e muitas outras. Isso mesmo!! Estamos falando do editor, roteirista e desenhista MARCELO CASSARO, que concedeu uma entrevista ao HQM onde fala do início de sua carreira, sobre sua saída da revista de RPG Dragão Brasil, sobre seus novos projetos no RPG e nos quadrinhos, da repercussão de Victory no mercado americano, sobre projetos de animação e muito mais.

HQM: COMO VOCÊ COMEÇOU NO MERCADO EDITORIAL DE QUADRINHOS? MARCELO CASSARO: Gosto de ler e fazer quadrinhos desde criança, mas meu primeiro emprego com desenho não foi exatamente em HQ. Foi com animação, na Maurício de Souza Produções. Só anos mais tarde comecei a trabalhar realmente com quadrinhos, na Abril Jovem, desenhando e escrevendo histórias dos Trapalhões, Jaspion, Changeman, Cybercops e outras. HQM: COMO FOI O CONVITE PARA TRABALHAR NA EDITORA TRAMA, ATUAL TALISMÃ? CASSARO: Na metade dos anos 90 estava difícil viver de quadrinhos, então durante algum tempo escrevi para revistas sobre videogames, como a Gamers da Editora Escala. No final de 1994 levei à editora o projeto de uma revista sobre jogos de RPG, que foi aceito e resultou na Dragão Brasil que conhecemos hoje. HQM: DEPOIS DE 100 EDIÇÕES LANÇADAS DA DRAGÃO BRASIL, UM MARCO INÉDITO NO BRASIL PARA UMA REVISTA ESPECIALIZADA EM RPG, POR QUE VOCÊ ESTÁ DEIXANDO DE SER O EDITOR DELA? CASSARO: Porque cuidar da DB toma tempo demais, e projetos mais interessantes – e importantes – estão aparecendo, como muitas propostas de quadrinhos, a série animada de Holy Avenger, e outros títulos ligados a RPG. HQM: O QUE VOCÊ ACHA DO RPG NO BRASIL? ESTÁ BEM DIFUNDIDO? VOCÊ IMAGINAVA QUE A DRAGÃO BRASIL CHEGASSE AONDE CHEGOU? OUTRAS REVISTAS DA ÁREA, COMO A DRAGON MAGAZINE LANÇADA PELA ABRIL, NÃO PASSARAM DE ALGUNS NÚMEROS, NÃO É MESMO? COMO FOI ISSO? CASSARO: Hoje o RPG é mais conhecido, em grande parte graças à franquia O Senhor dos Anéis, mas ainda não perdeu totalmente o estigma de “jogo estranho”, “jogo complicado” ou “coisa de maluco”. Ainda temos o que fazer para zelar pelo bom nome do hobby. Não pensei que a DB chegaria tão longe, mesmo com todo o nosso esforço. Outras publicações fracassaram porque foram conduzidas por gente com muita experiência em RPG, mas pouca em produção de revistas. Eram revistas limitadas, que tentavam falar apenas ao RPGista veterano, sem a clareza necessária para os novatos e os não-RPGistas – e são eles, os novatos, que formam a maior parte do público. HQM: HOLY AVENGER FOI SEU PRIMEIRO TRABALHO NOS QUADRINHOS? CASSARO: Holy foi minha primeira série longa, e com certeza a mais bem-sucedida, mas não meu primeiro trabalho. Produzi muitas edições especiais e mini-séries pela Talismã, como Lua dos Dragões, Capitão Ninja, U.F.O.Team e outras. HQM: VOCÊ IMAGINAVA QUE HOLY AVENGER IRIA FAZER O SUCESSO QUE FEZ? TEM INTENÇÃO DE PUBLICAR A SÉRIE NOS EUA, COMO FEITO COM VICTORY? CASSARO: Começar a Holy foi meio que um “passo de fé”. Havíamos feito muitas mini-séries, mas nenhuma série regular longa. Uma mini em geral pode ser concluída mesmo que as vendas tenham sido fracas, mas uma série longa não pode ser sustentada por tanto tempo assim. Se Holy fosse um fracasso, teria que ser interrompida pela metade. Felizmente, ela teve uma repercussão muito melhor do que esperávamos. Levar a Holy aos EUA é uma possibilidade, tenho um agente cuidando disso. Mas tenho melhores expectativas quanto a uma chance de publicá-la no Japão. A versão VR em português já pode ser encontrada no arquipélago em alguns pontos de venda para brasileiros, mas talvez consigamos preparar também uma versão em japonês. HQM: FALANDO EM VICTORY, COMO FOI A REPERCUSSÃO DA MINI-SÉRIE LÁ FORA? SATISFATÓRIA? EXISTEM FUTUROS PROJETOS PARECIDOS PARA O MERCADO AMERICANO? CASSARO: As três edições de Vic publicadas até agora conseguiram se manter no Top 300, um feito inédito para uma HQ totalmente feita no Brasil. Estamos agora negociando a segunda mini, e também um crossover com uma revista chamada Legacy. Fora isso, eu e Edu Francisco – o mesmo desenhista de Victory – estamos começando uma nova mini-série com o Capitão Ninja, que será publicada primeiro aqui e mais tarde negociada nos EUA. HQM: CONHECEMOS BEM O SEU TRABALHO DE ROTEIRISTA, MAS VOCÊ TAMBÉM É DESENHISTA, NÃO? VOCÊ TEM ALGUMA PUBLICAÇÃO LANÇADA EM QUE VOCÊ TAMBÉM TENHA FEITO A ARTE? CASSARO: Eu desenhava muito nos tempos de Abril Jovem, vocês vão encontrar muitos desenhos meus em antigos gibis dos Trapalhões e Heróis da TV. De lá para cá fiz apenas histórias curtas, estou cada vez mais afastado dos quadrinhos como desenhista – e isso é algo de que tenho saudades. A última vez que desenhei algumas páginas foi para a Holy Avenger 32, brincando que eu ia substituir a Erica Awano. Agora, no máximo, faço ilustrações avulsas e designs de personagens. Tem muitas delas no livro A Arte de Holy Avenger. HQM: COMO FOI A CRIAÇÃO DO CAPITÃO NINJA? ELE CHEGOU A TER UM GIBI PRÓPRIO, NÃO? CASSARO: O Capitão começou como uma brincadeira. O visual dele é baseado em roupas que eu tinha em casa, peças combinadas de um uniforme camuflado e uma fantasia de ninja, porque eu pretendia fazer cosplay. Depois acabou virando meu personagem multimídia, porque ele servia para praticamente qualquer coisa, desde quadrinhos de aventura até revistas de videogame (ele até parece um lutador de fighting game). Quando apareceu a chance de fazer uma mini-série em quadrinhos, inventei um supergrupo chamado U.F.O.Team e, com ajuda do desenhista Joe Prado, preparamos uma versão anabolizada do Capitão para ser o líder. Depois ele teve uma mini-série própria, com arte de Marcelo Caribé – acho que foi a primeira mini pintada feita no Brasil. E mais tarde virou o Ninja-chan, meu SD dentro da Holy Avenger. HQM: JÁ DÁ PARA AVALIAR A MINI-SÉRIE DUNGEON CRAWLERS PELA MYTHOS? COMO ESTÁ SENDO? CASSARO: O editor Hélcio de Carvalho me perguntou sobre a possibilidade de ter “sua própria Holy Avenger”. Como os personagens e o cenário pertencem a seus autores, não à editora, preparei um título avulso para a Mythos. Seria a DCrawlers. O primeiro arco, desenhado por Daniel HDR, se encerra com o número 4, que acaba de chegar às bancas. Foi uma história envolvendo três aventureiros — um ranger elfo, uma clériga e sua amiga — que entram na Cidade Perdida dos Elfos, atualmente ocupada por um exército de monstros. HQM: COMO FOI ESSA PARCERIA? EXISTIRÃO OUTROS TRABALHOS LANÇADOS DESSA FORMA? CASSARO: Dificilmente, porque tenho pouco tempo para lidar com isso. DCrawlers é algo que faço nas horas de folga, porque não é publicado pela Talismã – e já não tenho mais tantas horas de folga. Mas não é impossível: caso eu seja procurado com boas propostas, algo novo pode surgir. HQM: REPARAMOS QUE, APESAR DE DUNGEON CRAWLERS TER SIDO ANUNCIADA COMO UMA MINI-SÉRIE EM QUATRO EDIÇÕES, NA REVISTA NÃO DIZ SE TRATAR DE UMA MINI-SÉRIE, E, NA EDIÇÃO QUATRO (QUE CHEGOU ÀS BANCAS NESTA SEMANA), DEIXA UM ÓTIMO GANCHO PARA UMA CONTINUAÇÃO. VOCÊ PRETENDE DAR SEQUÊNCIA À AVENTURA? CASSARO: DCrawlers foi planejada para ser uma série regular, mas seria interrompida no número 4 se o público não gostasse. Pelo jeito, o público gostou... A partir do número 5, DCrawlers muda totalmente de rumo. Mesmo em um mundo de heróis como Arton, cada pessoa vive apenas UMA grande aventura em toda a sua vida. Não faz muito sentido alguém salvar o mundo todas as semanas, como vemos nos comics: isso faz parecer que “salvar o mundo” é coisa banal. Aurora e Brigandine já viveram sua grande aventura em Lenórienn. Agora eles vão retornar à cidade-natal de Aurora e retomar suas vidas, rever suas famílias. Fren vai com elas, pois não tem como voltar a Lamnor. Será menos aventura e mais comédia romântica. O desenho de Roberta Pares, que vai substituir HDR, é perfeito para isso — seu trabalho já foi visto em algumas histórias da revista Tsunami. HQM: DO QUE SE TRATA MERCENÁRIO$? SERÁ UMA NOVA REVISTA OU UMA MINI-SÉRIE? CASSARO: Por enquanto, Merc$ será uma mini em três edições. É sobre um grupo de aventureiros menos interessado em salvar o mundo e mais em ganhar dinheiro e festejar em tavernas. O grupo é formado por alguns personagens que fizeram aparições rápidas em Holy Avenger, como o espadachim elfo Domenik e a “lobismina” Puck; e dois carinhas novos, o ladrão Max e o clérigo Shen. Todos são criações de Petra Leão e Fran Elles Briggs, e a arte será de Denise Akemi. Além da mini, haverá uma aventura de RPG sobre os Merc$ na revista Dragão Brasil 103, incluindo uma HQ curta com arte de Erica Awano. HQM: TEMOS TODOS OS QUADRINHOS LANÇADOS PELA TRAMA, COMO STREET FIGHTER, UFO TEAM, GODLESS, LUA DOS DRAGÕES, MORTAL KOMBAT E OUTRAS ÓTIMAS MINI-SÉRIES. MAS UMA DELAS AINDA CONTINUA INCOMPLETA: KILLBITE, MINI-SÉRIE EM DUAS EDIÇÕES LANÇADA EM 1998. O QUE ACONTECEU? CASSARO: Sabe que agora nem lembro bem? Acho que a editora estava passando por uma fase ruim e as vendas da primeira edição não foram boas. A segunda parte ainda está aqui em algum lugar, estou pensando em liberar na Internet um dia destes. HQM: VOCÊ JÁ PENSOU EM LEVAR HOLY AVENGER OU OUTRO DE SEUS TRABALHOS PARA AS TELAS? CASSARO: Eu não, mas outra pessoa pensou. O diretor de animação Sérgio Martinelli me procurou com um projeto para transformar Holy em uma série animada, e também em um longa para cinema. Estamos ainda cuidando das etapas iniciais, mas a coisa está acontecendo. Já temos uma música tema, a seqüência de abertura da primeira temporada está quase concluída, e esta semana temos uma reunião para acertar a adaptação dos roteiros. HQM: O QUE VOCÊ GOSTA MAIS? RPG OU QUADRINHOS? CASSARO: Sem dúvida nenhuma, gosto mais de quadrinhos. Acabei dominando o RPG como forma de inventar personagens e contar histórias, gosto muito desta mídia – mas ainda prefiro quadrinhos. Se pudesse, faria apenas HQ. Mas viver profissionalmente de quadrinhos é complicado, isso é algo que eu faço apenas por paixão. São os livros e revistas de RPG que pagam minhas contas. HQM: O QUE VOCÊ ACHA DA "MANGANIZAÇÃO" DA ARTE? ULTIMAMENTE, TANTO NO BRASIL QUANTO NOS ESTADOS UNIDOS, MUITOS DESENHISTAS VÊM ADOTANDO ESSE ESTILO DE ARTE, COM TRAÇOS BONITOS E RÁPIDOS (MUITAS VEZES SEM ARTE-FINAL), QUE DIVIDEM MUITO OS LEITORES: UNS AMAM... OUTROS ODEIAM. PODEMOS CITAR ALGUNS EXEMPLOS COMO HUMBERTO RAMOS E CARLOS MEGLIA. COMO VOCÊ VÊ ISSO? CASSARO: Só agora o Ocidente está descobrindo como os quadrinhos dos japoneses são bons. Eles estão milhões de anos à nossa frente, são muito mais dedicados, dominam técnicas com as quais nem sonhamos. Quadrinhos fazem parte de sua cultura muito mais que da nossa. No Japão, mangás não são lidos apenas por crianças, adolescentes ou nerds – eles são lidos por TODOS. Nenhum país produz ou consome tanta HQ quanto o Japão. Essa descoberta demorou a acontecer porque sempre fomos muito influenciados pelos norte-americanos – e eles próprios, desde a Segunda Guerra, rejeitaram a cultura japonesa durante décadas. Agora que os EUA estão gostando de mangá, o mesmo acontece com todo o Ocidente. HQM: A PARTIR DO MOMENTO EM QUE VOCÊ DECIDIU CRIAR E TEVE A OPORTUNIDADE DE PUBLICAR A DRAGÃO BRASIL, VÁRIOS ARTISTAS FORAM SENDO DESCOBERTOS, COMO EVANDRO GREGORIO (GREG TOCCHINI), ERICA AWANO, ROD REIS, ANDRÉ VAZZIOS E MUITOS OUTROS. QUER DIZER, SE A DRAGÃO BRASIL NÃO EXISTISSE, TALVEZ ESSES ARTISTAS AINDA SERIAM DESCONHECIDOS. O QUE VOCÊ ACHA DISSO? CASSARO: Não é verdade. Todas essas pessoas são muito talentosas e teriam encontrado seu caminho para o sucesso de qualquer forma, com seu próprio esforço. A Dragão Brasil apenas facilitou o processo, oferecendo uma primeira oportunidade. HQM: QUAIS SÃO OS SEUS FUTUROS PROJETOS NOS QUADRINHOS E NO RPG? CASSARO: Em quadrinhos, estou trabalhando naquela nova HQ do Capitão Ninja. Tem o título provisório de A.Y.L.A.Project (não vai ser esse o nome, logo devo pensar em outro) e vai ser uma mini em seis partes, de ficção científica, no mesmo cenário de U.F.O.Team. Fora isso tem a nova fase de DCrawlers, que estou achando mais divertida que a primeira. Tenho também um projeto de longa data, até agora chamado DragonBride (pois é, nomes em inglês soam bem para mim...), que está meio parado. Já fiz muitos estudos de personagem, tenho uma boa noção da história, mas nada muito concreto. Deverá ser uma série longa como a Holy – mas, com tanta coisa acontecendo, não tenho como começar algo desse porte agora. Então deve demorar ainda para acontecer. Em RPG, eu e os outros dois membros do Trio Tormenta (Rogerio Saladino e J.M.Trevisan) estamos concluindo um jogo chamado Ação!!! que, dane-se a modéstia, vai revolucionar o RPG brasileiro. Estamos também preparando Panteão D20, o próximo grande título Tormenta para RPG; e teremos para breve A Libertação de Valkaria – a maior aventura de Tormenta feita até agora, escrita por Maury “Shi Dark” Abreu. HQM: MARCELO, QUAL O SEU RECADO PARA SEUS FÃS? CASSARO: Qual dos dois? Bom, quem acompanha minhas colunas e sessões de cartas já conhece minhas convicções. RPG e quadrinhos podem ser educativos, podem ser formas de arte, podem ser mídias revolucionárias – mas eles existem e foram criados principalmente para divertir. Esquecer disso é esquecer seu verdadeiro propósito, seu verdadeiro papel no mundo. E não existe NADA de errado com a pura diversão, o puro entretenimento sem compromisso: ele é tão necessário para nós, humanos, quanto respirar. Esse é meu recado.

HQM: MUITO OBRIGADO PELA ENTREVISTA! CASSARO: Eu que agradeço, e sucesso a vocês.
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