MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
03/05/2005
MATÉRIA: ANOS 80 - 25 ANOS
 
 
O Cavaleiro das Trevas
 
 
Demolidor
 
 
Legião Alien
 
 
Dreadstar
 
 
Love and Rockets
 
 
Maus
 
 
Monstro do Pântano
 
 
Watchmen
 
Se perguntarmos a estudiosos e fãs quais foram as melhores e mais influentes séries de quadrinhos dos últimos vinte e cinco anos, com certeza teremos listas muito parecidas. As listas, muito provavelmente, terão o indefectível “Watchmen”, o primeiro (e melhor) “Cavaleiro das Trevas”, “Love & Rockets”, a primeira fase de Frank Miller em “Daredevil”, “Maus” de Art Spiegelman, e as histórias de Alan Moore para “Swamp Thing” (O Monstro do Pântano).

O que todas essas séries têm em comum, além de serem muito boas? O fato delas terem sido publicadas nos anos oitenta. Os oitenta foram os anos que definiram o que são histórias em quadrinhos para toda uma geração (no caso, a minha). Uma criatividade que poucas vezes tinha sido vista no meio permeou esses anos. É claro, muita coisa boa foi feita antes. Infelizmente, pouca vem sendo feita depois.

Um quarto de século depois, ainda sentimos os efeitos do que foi realizado. E por que isso aconteceu? Bem, muita gente pode dizer que era porque tinha que acontecer, que é algo cíclico e que estava na hora. Mas certos fatores influenciaram de forma indiscutível tudo isso. O quadrinho “mainstream” ganhou as páginas das revistas que até então se consideravam sérias demais para publicar menções a essa forma de (como considerada por elas) “sub-arte”.

Mas da noite para o dia, tínhamos artigos sobre histórias em quadrinhos em publicações como o “New Yorker”, “Rolling Stone” ou a sisuda “Time”. Porque o “infant terrible” Frank Miller, após criar as melhores histórias com um personagem de segundo escalão da Marvel, o Demolidor (Daredevil, 1980) estava experimentando com influências européias em 1983 em “Ronin”, uma série que em certos momentos parece que foi decalcada de Moebius.

Mas Miller estava apenas esquentando as turbinas para o que seria a melhor história de Batman já criada, “O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight Returns, 1986). “O Cavaleiro das Trevas” é um reflexo dos conturbados anos oitenta, com o medo de uma catástrofe nuclear, a desobediência civil que estava começando a aparecer em certas partes do globo e a política de Grande Xerife de Ronald Reagan. Miller soube sintetizar tudo isso em uma história que é um libelo a repressão, seja ela vinda do governo ou das convenções.

Enquanto isso, fora das grandes editoras, os irmãos Hernandez estavam criando poesia pura em uma série bissexta de uma pequena editora chamada Fantagraphics. “Love & Rockets” (1982) talvez seja a melhor série independente já criada. E uma série que não tinha nenhum dos atributos para se tornar o que veio a ser. Não era colorida, não tinha nenhum personagem conhecido... meu Deus, a série era sobre minorias! Mas isso tudo provou ser secundário.

“Love & Rockets” mostrou que uma boa história não precisa de nenhum “hype”. Aliás, ela usou tudo isso a seu favor. De repente, todos estavam falando “daquela série esquisita sobre chicanos”. E com razão. Coisas como as “Crônicas de Palomar” acontecem apenas de vez em quando. Ainda fora do “mainstream”, tivemos “Maus”, de Art Spiegelman, (serializada durante toda a década de oitenta na revista RAW) que resolveu contar o Holocausto usando ratos para representar os judeus e gatos para mostrar os nazistas. Apesar de muita gente acusá-lo de panfletário, Spiegelman, assim como os Hernandez simplesmente fugiu das convenções, e no processo contou uma ótima história.

Mas o que mais influenciou a indústria de quadrinhos de super-heróis foi sem dúvida o que se convencionou a chamar de “British Invasion”, a Invasão Britânica. A primeira leva dessa invasão teve seu maior representante em Alan Moore, um então desconhecido autor que publicava em revistas inglesas que raramente chegavam aos Estados Unidos, como a “Warrior” e a “2000 AD”. Ele começou a escrever o Monstro do Pântano, um personagem que, apesar de ter sido criado uma década antes por dois grandes autores (Len Wein e Berni Wrightson), nunca tinha chegado a ser o que podemos chamar de um personagem extremamente popular.

Moore, já em sua segunda história (“Lição de Anatomia”, 1984), simplesmente virou o personagem de cabeça para baixo. De repente, o Monstro do Pântano não era um homem que virou uma planta, mas uma planta que pensava que tinha sido um homem. Isso não parou por aí, já que mês a mês Moore começou a atirar em algumas vacas sagradas dos quadrinhos. Com o sucesso da série, Moore ganhou a chance de criar o que muitos consideram a sua obra prima: “Watchmen” (1986). Inicialmente, a série era para ser apenas a reintrodução dos personagens da Charlton, recém adquirida pela DC.

Mas o que Moore pretendia fazer não condizia com os planos da companhia, o que é plenamente justificável, já que os personagens comprados seriam mostrados como estupradores, maníacos homicidas e loucos que achavam que os fins justificam os meios. A DC então pediu para que ele simplesmente não usasse os personagens. Moore contou a sua história com outros, apesar de que é impossível não enxergar as influências da Charlton. “Watchmen” é considerado o divisor de águas dos quadrinhos de super-heróis para muitas pessoas.

Depois de “Watchmen”, tudo ficou ou previsível demais, ou calcado demais nas influências da série. Mas vocês podem dizer, “você citou apenas grandes clássicos, histórias consagradas”. Bem, é verdade, e isso já seria o suficiente para mostrar o que os anos oitenta nos deram. Também posso escutar, “se você tirar essas histórias, ainda vai ficar muita porcaria, coisas como o Cavaleiro da Lua e coisas assim”. É verdade. Existiu muita porcaria nos oitenta. Mas ainda existem muitas coisas que mesmo que não fiquem nem a sombra de “Watchmen” ou “Love & Rockets” são, apesar disso, muito boas.

Alguns exemplos:

1. “Camelot 3000” (1982), uma história muito bem estruturada de Mike W. Barr com os lindos desenhos de Brian Bolland, que inaugurou o conceito das maxi-séries e foi a primeira série da DC vendida apenas no mercado direto, ou seja, as comic shops.

2. A criação da First Comics, com personagens e conceitos fantásticos, como “American Flagg!” (1983), de Howard Chaykin e “Grimjack” (1984), de John Ostrander e Tim Truman;

3. A passagem de Walt Simonson por “Thor” (1983), considerada por muitos a melhor desde Stan Lee e Jack Kirby;

4. Os quadrinhos da Epic, “Dreadstar” (1982), de Jim Starlin e “Alien Legion” (1984), de Greg Potter, Alan Zelenetz e Frank Cirocco no primeiro selo “creator owned” (quadrinho de autor) de uma grande editora (por incrível que pareça a Marvel, uma década antes da DC criar a Vertigo);

5. E as melhores histórias dos “X-Men” já feitas, por Claremont e Byrne. E podíamos continuar por um bom tempo. Mas como disse lá em cima, essas histórias não são “Watchmen” ou o “Cavaleiro das Trevas”. E nem poderiam ser, já que muitas aconteceram ou antes ou ao mesmo tempo. E olhem só, essas são as “não tão boas”.

De novo, concordo que apareceram coisas execráveis, como o Novo Universo, mas os acertos foram maiores que os erros. Tudo isso acabou nos anos noventa, com o aparecimento de idéias que os quadrinhos eram “investimento” e a criação de truques como as capas holográficas, múltiplas capas, capas em papel alumínio (estão vendo uma tendência aí?). Já que ninguém abria as revistas mesmo, qual era a importância de existir uma boa história “entre” as capas?

Para não dizer que sou o grande pessimista ou o eterno saudosista, posso dizer que hoje as coisas estão mudando, ainda que devagar. Com as reduções extremas nas tiragens (ei, não teremos três milhões de cópias de X-Men #1 novamente!), parece que de novo boas histórias são o que vendem. É o caso do “Demolidor” de Bendis, “Os Supremos” ou “Identity Crisis”. Isso, sinceramente, é um alívio. Abraços e sleep in the light.
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