MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
09/05/2005
MATÉRIA: OS NEGROS NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS - PARTE 4
 
 
Shadowhawk e Spawn, da Image
 
 
Icon #1: carro chefe da Milestone
 
 
Truth: Red, White and Black
 
 
Supreme Power #4: Águia Noturna
 
 
Hardware #1
 
 
Static #1
 
 
Superman - The Man of Steel #24: com o herói Aço
 
 
Blade, The Vampire Slayer #1
 


:: A Era Moderna (1987 – 2004)
Questionamentos

Nos anos trinta, eram raras as participações de personagens negras nos quadrinhos, e restritas basicamente a caracterizações estereotipadas. A partir dos anos sessenta, os primeiros coadjuvantes mais realistas e os primeiros super-heróis surgiram, o que culminou nos anos setenta com uma grande “explosão negra”, caracterizada pela aparição de inúmeros heróis negros nas páginas dos gibis.

E como estão as coisas dos anos oitenta para os dias de hoje? Será que há personagens negros o suficiente? Será que eles são retratados de maneira digna ou ainda estão presos aos estereótipos do passado? Esses questionamentos e outros serão levantados na última parte dessa série de artigos sobre a participação dos negros nas histórias em quadrinhos.

Em 1992, a indústria americana dos comics foi sacudida com o surgimento da editora Image Comics, que foi fundada pelos artistas que naquela época eram os campeões de vendas de gibis na Marvel. Entre os títulos de estréia da nova editora dois se diferenciavam por serem protagonizados por heróis negros: “Shadowhawk” e “Spawn”.

Shadowhawk era a história de um sujeito que, ao descobrir que foi contaminado com o vírus da aids resolve viver seus últimos dias combatendo o crime usando uma armadura e armas especiais. O interessante é que, com o transcorrer de suas aventuras o personagem realmente morreu em decorrência da doença. Recentemente, foi lançada uma nova revista do Shadowhawk nos EUA, mas agora é Eddie Collins quem veste o capacete que o transforma no herói criado por Jim Valentino.

Quanto ao Spawn, praticamente todo fã sabe que o personagem é um mercenário que, depois de morto fez um pacto com uma entidade diabólica para ressuscitar e, em troca aceita servi-la como seu agente no mundo dos vivos. A despeito das críticas que se possam fazer a qualidade dos roteiros ou ao seu criador, Todd McFarlane, Spawn foi um campeão de vendas e até hoje é publicado com boas vendas nos EUA e no Brasil. Com certeza é o personagem negro mais bem-sucedido do ponto de vista comercial nos quadrinhos.

Se em 1992 a Image foi um sucesso estrondoso, um outro empreendimento na área dos comics era concebido no mesmo ano. Tal empreendimento era bem mais modesto que a Image, porém extremamente audacioso em termos de proposta. Fundada pelo roteirista Dwayne McDuffie e por vários artistas, a “Milestone Media” se propunha basicamente à criação de personagens negros e latinos por artistas negros e latinos, ou como diria McDuffie “expressar uma sensibilidade afro-americana em um negócio que sempre foi comandado por brancos”. A despeito dessa última colocação, não devemos pensar que a Milestone era uma empresa sectária e “contra os brancos”, tanto é que até os “branquelíssimos” Kurt Busiek, que teve alguns de seus primeiros trabalhos publicados pela companhia, e John Byrne, contribuíram com seus talentos nos títulos da companhia. 

Esses títulos chegaram ao mercado no verão de 1993, através de um acordo comercial com a “major” DC Comics, que publicava e distribuía os gibis, enquanto que a Milestone cuidava da parte editorial e criativa. E nos gibis de estréia nós vemos que as aventuras dos personagens se passam em uma cidade fictícia chamada Dakota, onde durante uma guerra de gangues chamada “Big Bang”, um acidente com um gás experimental acaba sendo responsável pela origem dos poderes da maioria dos heróis e vilões que a partir daquele momento povoavam a metrópole. A primeira “fornada” de heróis da Milestone era composta por:

– Icon (Ícone): considerado o principal e melhor título da Milestone, criado por Dwayne McDuffie e M.D. Bright, Icon era um alienígena que caiu na Terra no ano de 1839 e, por ter sido resgatado por escravos, acabou assumindo a forma de um homem negro e adotou o nome de Augustus Freeman IV. Vivendo disfarçado entre os terrestres, Augustus é descoberto por uma adolescente grávida com super-poderes, que o questiona sobre o fato de ele nunca ter usado suas habilidades especias em prol da humanidade. Naturalmente, Augustus atende aos apelos da garota, assume uma persona heróica semelhante a do Super-Homem e a menina vira sua parceira, adotando o codinome de Rocket.

– Blood Syndicate (Sindicato de Sangue): Concebido por Ivan Vélez Jr. e Chris Cross, o Sindicato de Sangue era uma gangue que, após “Big Bang”, resolve usar seus dons para combater o crime. Nas edições do Sindicato de Sangue, o escritor Ivan Vélez Jr. procurou dar uma abordagem realista e bem distante daquilo que as pessoas enxergam como uma “gangue”, tanto que entre os membros da equipe havia desde um viciado em crack até um homossexual.

– Hardware: o cientista Curtis Metcalf cria uma poderosa armadura e a veste para combater o crime e principalmente o seu pai, um poderoso líder criminoso de Dakota. O personagem, que na prática é uma mistura de Batman com o Homem de Ferro, foi elaborado por Dwayne McDuffie e desenhado por Denis Cowan (Questão).

– Static: descrito como uma leitura semelhante ao “Homem-Aranha de Steve Ditko”, e desenvolvido pelos roteiristas Dwayne McDuffie e Robert Washington III e pelo desenhista John Paul Leon, Static é a identidade secreta de um adolescente chamado Virgil Hawkins que, após ser vitimado pelo gás liberado no “Big Bang” acaba ganhando poderes elétricos. Obviamente, o moleque decide usar seus poderes para ajudar as pessoas e combater os vilões super-poderosos que surgiram também devido ao “Big Bang”.

A Milestone lançou outros títulos como “Kobalt”, “Shadow Cabinet” (Gabinete das Sombras) e “Xombi” (um herói coreano), e inclusive chegou a receber indicações ao Eisner Awards, só que a boa vontade dos seus criadores não foi o suficiente para garantir boas vendas, tanto que quatro anos após a sua fundação todos os títulos foram cancelados. Mas não se pode dizer que a Milestone foi um fracasso completo, mesmo porque em 2000 um de seus principais personagens, o Static, acabou ganhando um belo desenho animado pela Warner Bros. e que aqui na terrinha recebeu o nome de “Super Shock”, desenho esse que tinha vários roteiros do seu criador Dwayne McDuffie e que em seus 52 episódios contou com as participações especiais da Liga da Justiça e do Batman.

No Brasil, a Milestone teve algumas aventuras publicadas na única edição impressa do gibi “Black Force” da falecida Editora Magnum e nas edições #9 a #14 de “Superboy – 1ª série”, em 1995. Aliás, essas histórias que pudemos ver em Superboy faziam parte do crossover “Quando os Mundos Colidem”, onde os super-heróis de Dakota batem de frente com o Super-Homem e seus aliados. Entre os aliados do herói kryptoniano, havia um herói negro que surgiu durante os golpes publicitários, ops, queremos dizer durante os eventos “Morte do Super-Homem” e “Retorno do Super-Homem”.

Tal personagem foi batizado com o nome de “Aço” (Steel) e na sua origem, que foi apresentada no gibi “Superman – The Man of Steel #22” em 1993, descobrimos que o personagem, que se chama John Henry Irons, era um cientista que projetou diversas armas no passado. Arrependido desse fato, ele abandonou sua carreira científica e se tornou um mero operário em Metrópolis. Ao descobrir que alguns dos armamentos que ele projetou estavam sendo usado por gangues locais, John Henry, inspirado pela morte do Super-Homem, desenvolveu uma armadura super-tecnológica e adota o codinome de Aço. O personagem até ganhou titulo próprio, só que sua publicação se restringiu a apenas 52 edições.
 
Enquanto isso, a Marvel resolveu reaproveitar um velho coadjuvante que dava as caras nos títulos místicos da editora. Lançada em abril de 1994, o gibi “Blade, The Vampire Slayer” mostrava finalmente, dezenove anos após a sua estréia em “Tomb of Dracula”, as aventuras-solo do caçador de vampiros. Não se pode dizer que tal lançamento foi um sucesso, tendo em vista que o gibi durou apenas dez edições, mas com certeza alguém em Hollywood gostou do que viu. Tanto que, em 1999, o personagem chegou despretensiosamente às telas do cinema na pele do astro Wesley Snipes, e surpreendendo muita gente, acabou se tornando um tremendo sucesso de bilheteria. Tal sucesso despertou os produtores hollywoodianos para o potencial de bilheteria que adaptações de gibis para a tela grande tinham e o nosso simpático herói, de reles coadjuvante, acabou se transformando na “ponta-lança” da chamada “Invasão Marvel” nos cinemas. Isso fez com que ele ganhasse duas continuações cinematográficas (em 2002 e 2004 respectivamene) e uma nova série em quadrinhos em 2002, que assim como a anterior, não durou muito, sendo finalizada após a sexta edição.

No finalzinho dos anos noventa a DC entendeu que devia dar mais uma chance aos seus antigos heróis da Era de Ouro, e, portanto decidiu recauchutar dois deles, dando-lhes novas identidades secretas. Em “Spectre #54” de 1997 foi apresentado o novo “Senhor Incrível” (Mr. Terrific), que em sua nova identidade civil é o cientista e ex-atleta Michael Holt que, após escutar da entidade mística Espectro a história de vida do primeiro Senhor Incrível, decide abandonar a frustração pela morte da esposa e resolve abraçar os ideais do antigo herói. Para tanto, ele se vale tanto de suas habilidades atléticas quanto de um vasto arsenal eletrônico.

O outro personagem da Era de Ouro recauchutado surgiu nas páginas de “Flash #134”. Nesse caso, ele era um adolescente que por acaso acaba se tornando o mestre de um gênio chamado Relâmpago, gênio esse que havia pertencido a um antigo herói chamado “Johnny Trovoada”. Adotando o nome de “Jakeem Trovoada” (J. J. Thunder), tanto o moleque quanto o Senhor Incrível não tiveram título próprio, mas acabaram sendo aproveitados no gibi do super-grupo “Sociedade da Justiça da América”, onde acabaram se tornando personagens de destaque. As “ações afirmativas” (ações públicas ou particulares que visam beneficiar minorias historicamente discriminadas) sempre causaram polêmica, seja nos EUA ou aqui no Brasil.

Quando assumiu o título dos Vingadores em 1998, o roteirista Kurt Busiek resolveu levantar essa questão através de um novo personagem chamado “Triatlo” (Triathlon), que estreou em “Avengers #8” – 3ª Série. Triatlo era o ex-triatleta olímpico Delroy Garret Jr. que, após ver suas medalhas olímpicas cassadas pelo uso de doping, acaba encontrando abrigo e apoio na instituição religiosa Compreensão Triúnica. A Compreensão acaba realizando diversos experimentos em Delroy, que acaba ganhando força e agilidade equivalente a de três homens e se torna uma espécie de herói particular da instituição. Os seus feitos chamaram a atenção do governo americano, que obrigou os Vingadores a aceitá-lo como membro, afim de aumentar a representatividade afro-americana em um grupo de super-heróis que atuava sobre licença governamental. Naturalmente, vários dos heróis não gostaram muito do novo colega, que teve sua entrada na equipe contestada tanto pelo fato de ele ser um “cotista” quanto pela desconfiança sobre suas relações com a Compreensão Triúnica (que na verdade era uma inimiga dos Vingadores).

O que Kurt Busiek fez com Triatlo foi de certa forma reproduzir uma situação que já havia acontecido no gibi do grupo nos anos setenta, quando na edição de “Avengers #181” – 1ª Série, o governo forçou a entrada do Falcão na super-equipe também através de critérios raciais. Resumindo: até nos gibis a discussão sobre cotas raciais pega fogo... Mas polêmica mesmo a Marvel acabou buscando em outra história e com um de seus mais clássicos personagens.

Em 2002 chegou às comic shops americanas a mini-série “Truth – Red, White and Black”, que recontava a origem do Capitão América através de uma perspectiva estarrecedora: antes de escolher o frágil e caucasiano Steve Rogers para o papel de Sentinela da Liberdade, o governo americano fez diversas experiências clandestinas com soldados negros, injetando nos mesmos versões experimentais do soro do super-soldado. Todos os soldados negros morreram, exceto um, que tem seu destino contado nas seis edições da série. O mais interessante é que o argumentista Robert Morales e o desenhista Kyle Baker se inspiraram em fatos reais que aconteceram nos EUA para conceber a história: nos anos trinta e quarenta, o governo patrocinava pesquisa sobre a sífilis em comunidades negras pobres. Ao invés de tratar os doentes, os médicos-pesquisadores davam para eles placebo (remédio inócuo e sem efeito) apenas para poderem estudar os efeitos da sífilis no organismo humano. A mini-série recebeu elogios rasgados da crítica especializada americana, mas até agora nenhuma editora brasileira se prontificou a publicá-la. Quem sabe um dia...

O que não demorou a chegar por aqui foi a reformulação da super-equipe “Esquadrão Supremo”, cujos membros ganharam novas caracterizações na revista “Supreme Power” (Poder Supremo). O personagem “Tufão” se transformou em jovem homem negro que usa seus dons de super-velocidade para se dar bem na vida. Porém, a reformulação mais interessante aconteceu com o herói “Falcão Noturno” (Nighthawk) que, na sua nova origem é um negro milionário e radical que, quando combate o crime prefere salvar pessoas negras a brancas, devido ao fato de seus pais terem sido mortos por racistas.

Bom, no começo desse texto foram feitos questionamentos sobre a representativade negra nos quadrinhos e é interessante no final dessa série de artigos nós pensarmos um pouco sobre isso. É óbvio que dos anos trinta para cá muitas coisas melhoraram, mas ainda existem queixas sobre o assunto, como por exemplo, o fato de que boa parte dos heróis negros deriva de heróis brancos preexistentes, como no caso do Falcão, Máquina de Combate, Aço e Nick Fury Ultimate, que são vinculados respectivamente ao Capitão América, Homem de Ferro, Super-Homem e ao Nick Fury clássico.

Outra coisa que os leitores mais atentos da nossa matéria devem ter percebido é que os títulos com protagonistas negros, além de serem poucos, tiveram duração que variava entre a curta e curtíssima, tanto que a Marvel fez das tripas coração para evitar o cancelamento do título do Pantera Negra nos anos noventa que, apesar das críticas elogiosas de diversos especialistas acabou sendo degolado. Organizações como a ANIA (sigla para Associação de Editores de Quadrinhos Negros), batem ideologicamente de frente contra as grandes editoras do mercado e se mobilizam para tentar mudar esse fatos, procurando sempre divulgar gibis independentes com temática negra, como “Omega Man” e “WitchDoctor”.

O autor dessas mal-traçadas linhas acredita que, quanto mais artistas negros estiverem no negócio dos quadrinhos, melhor será representatividade dos heróis negros e que esses personagens, quando bem trabalhados e livres de estereótipos idiotas, tem potencial para atrair audiência de qualquer raça, como ficou provado no aproveitamento de John Stewart no desenho animado da Liga da Justiça e como a Marvel quer provar relançando em 2005 o gibi do Pantera Negra.

Por essas e outras, fica aqui registrada a esperança de que os quadrinhos, que antigamente refletiam todo o preconceito de uma sociedade, comecem a refletir toda a sua diversidade étnica.


:: Apêndice: Negros nos quadrinhos brasileiros

A produção tupiniquim de quadrinhos sempre foi modesta, mas isso não impediu que “negões” surgissem nos nossos gibis. O primeiro a se destacar foi “Azeitona”, do trio humorístico Reco-Reco, Bolão e Azeitona, criados pelo cartunista Luis Sá no inicio dos anos trinta.

Nos anos sessenta os leitores foram apresentados ao “Pererê”, criação de Ziraldo inspirada no folclore brasileiro e que vendia maravilhosamente bem naquela época. Nesse mesmo período, nas aventuras do Zé Carioca, surgiu um personagem que nos anos setenta acabaria se transformando no melhor cozinheiro de feijoada da Vila Xurupita e um dos principais alvos dos golpes do papagaio malandro, o “Pedrão”.

Maurício de Sousa, que indiscutivelmente é o mais bem-sucedido dos quadrinistas brasileiros, introduziu na Turma da Mônica o menino “Jeremias” e no final dos anos setenta lançou nas bancas o gibi “Pelezinho” que, inspirado em histórias de infância do Rei do Futebol, contava a as aventuras de um garoto apaixonado por futebol.

Porém se existe um fato curioso sobre negros nos quadrinhos brasileiros é o fato de que, no início do século XX a expressão “gibi” era usada para designar crianças negras. Tal expressão foi usada como título de uma revista em quadrinhos lançada por Roberto Marinho nos anos trinta e, como ela foi um sucesso estrondoso a palavra “gibi” passou a ser usada no Brasil para designar toda e qualquer revista em quadrinhos. E com isso chegamos ao fim.

Escrever esse texto não seria possível sem o auxilio luxuoso de gente como: Roberto Guedes, o autor do fantástico livro “Quando Surgem os Super-Heróis”, que contribuiu com informações preciosas e até com correções gramaticais; Prof. Roberto Elísio dos Santos, um dos maiores especialistas em Disney do mundo e que agregou informações importantes a essa matéria; a Omar Bilal, mantenedor do site www.blacksuperhero, de onde foram retiradas pelo menos 70% das informações que compõem esse artigo, e aos mantenedores do HQ Maniacs, que prontamente aceitaram essa sugestão de matéria e cujo incentivo foi fundamental para o seu término.



Brodie Bruce, também conhecido como Claudio Roberto Basilio
crbasilio@yahoo.com.br
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