MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
29/06/2005
MATÉRIA: MITOS SOBRE VELOCISTAS
 
 
Fantastic Four Annual #3, de 1965
 
 
Heróis Renascem
 
 
Green Lantern/Green Arrow
 
 
Crisis on Infinite Earths
 
 
Flash: The Return of Barry Allen
 
 
Flash:Terminal Velocity
 



O leitor da DC Comics é um sujeito estranho (eu sou leitor da DC Comics). Acreditamos que seja interessante ler aventuras de alienígenas que vieram de outro mundo, de milionários órfãos que combatem o crime, de princesas amazonas, de velocistas, de policiais intergalácticos. Tudo é muito verossímil dentro do mundo ficcional da DC Comics.

Os fãs da Marvel acham que a DC Comics é mítica demais, e que a Marvel é mais “pé-no-chão”. Legal, principalmente se lembrarmos que quando foi criada a Marvel era muita fantástica e a DC Comics usava (dentro de seus termos editoriais) padrões (levemente) aceitos pela ciência. Não posso deixar de citar uma aventura do Quarteto Fantástico onde Reed, apenas analisando visualmente os aparelhos do Vigia, conclui qual seria o mais adequado para lidar com uma dezena de vilões que estão infernizando sua vida (The Fantastic Four Annual # 03, Verão de 1965, Marvel Comics; Origens dos Super-Heróis Marvel # 02, Setembro de 1994, Editora Abril, formatinho).

Talvez o leitor desta coluna ache estranho eu citar um exemplo que tem 39 anos de idade, mas até hoje a Marvel tem “soluções mágicas” para suas limitações artísticas. Veja por exemplo “A Queda dos Mutantes”, “Massacre”, “Heróis Renascem”, entre outros. Aqui há uma espécie de “deus ex-machina”. Pausa. “Deus ex-machina” em síntese era um recurso muito usado nas origens do teatro, onde todos os problemas eram resolvidos por um ser onipotente que havia surgido de uma máquina. Play. A solução surge e fascina os leitores.

O período chamado de “A Era de Prata” dos quadrinhos foi curto. De um lado a DC Comics revitalizou seus ícones e criou novas facetas para alguns deles (Hawkman, Flash, Green Lantern), de outro lado a Marvel criou personagens mais humanos e falhos. A década de 1970 já não era mais a idolatrada “Era de Prata”. O foco da Marvel continuava e se aliava com bons resultados, afinal todos ficavam maravilhados com trabalhos como The Amazing Spider-Man, seja com Stan Lee ou Gerry Conway no comando, seja com John Romita Sr. ou Gil Kane na arte.

O foco da DC Comics foi levemente alterado para que o Batman ficasse “detetivesco”, Green Lanter/Green Arrow se tornasse uma revista que apontasse os problemas sociais, Superman tivesse seus poderes diminuídos e muitas vezes questionasse seu papel; além de, não vamos esquecer, Mulher-Maravilha adotasse um visual sem poderes e bastante feminista. Ou seja todo mundo estava produzindo ficção baseada na realidade. Alguns dos poucos títulos que produziam ficção por ficção eram “Os Vingadores” na Marvel e “The Flash” na DC – são apenas exemplos, ok? Eu vejo com bons olhos a “ficção por ficção”, a abstração, afinal a realidade cansa.

Foi nesta época que a receita do bolo desandou um pouquinho e a Marvel estabeleceu-se no primeiro lugar, que mantém até hoje. Veio a década de 1980. Dela os fãs da DC Comics no Brasil só conhecem os produtos pós-Crise (1985-1986). Veio a reformulação dos personagens DC em 1987, que então dava a entender que os personagens haviam surgido no finalzinho da década anterior. Houve críticas, muitas justas, outras injustas. Enquanto a Marvel concentrava-se em explorar o filão mutante que vinha tomando “corpo” desde o final da década de 1970, a DC tentava colocar a casa em ordem.

Dentro da perspectiva de realismo, muitos dos personagens da DC Comics sofreram grandes limitações em especial o “Flash”. Barry Allen, o segundo Flash da DC, havia morrido durante a cataclísmica “Crise nas Infinitas Terras”. O bastão foi passado à frente para o sobrinho de sua esposa Iris, o jovem Wallace West, que tornou sua identidade pública. Diante à perspectiva realista daquele momento da indústria, West, o terceiro Flash, não poderia correr mais rápido do que mach 1 (1.100 quilômetros por hora) e vira um mercantilista, trocando alguns serviços por planos de saúde.

Seu argumentista de então, Mike Baron (Badger) produz histórias que levam a “lenda” do Flash para a lama. Wally é tolo, inseguro, arrogante e para “piorar” milionário. O argumentista seguinte não acrescenta muita coisa, mas amplia o uso devido dos coadjuvantes da série. Flash era um dos piores títulos da DC Comics, mas era capitaneado por uma série de tv (até) legal. Houve evidência do personagem. No Brasil até hoje, quando o não-leitor de quadrinhos vê alguém correndo rápido usa a expressão “dê fléchi”. Mas logo Mark Waid assume o personagem e produz boas histórias que vou citar (somente material publicado no Brasil):

• O Retorno de Barry Allen (The Flash v2 # 73-79; publicado em Os Novos Titãs # 116-121, Editora Abril, a partir de novembro de 1995)  será que Barry Allen finalmente voltou? Esta série foi apontada pela equipe da Wizard Brasil (em matéria traduzida) como o “Essencial da DC”, e realmente é muito boa, quebrando o ritmo de histórias ruins com o personagem e estabelecendo o lugar de Wally no panteão;

• Amigos e Amantes (The Flash v2 # 80-82; Os Novos Titãs # 109-111, Editora Abril)  com a arte de Mike Wieringo;

• Deslocado no Tempo (The Flash v2 # 91-94, 0; publicado em Os Novos Titãs # 122-125, Super-Homem, 2ª série # 01, Editora Abril)  surge Bart Allen (Impulso e hoje o Kid Flash), há a saga Zero Hora;

• Velocidade Terminal (The Flash v2 # 95-100; Super-Homem, 2ª série # 03-8, Editora Abril);

• Distâncias (The Flash v2 # 101; Superboy, 2ª série # 08, Editora Abril, junho de 1997);

• Corações & Almas (The Flash v2 # 125-129; Super-Homem, 2ª série # 30-31; Super-Homem, o Homem de Aço # 03; Editora Abril)  já com a participação do editor Brian Augustyn;

• Futuro Relâmpago (The Flash v2 # 145-150, publicado por aqui em Flash Especial da Editora Abril no formato Premium);

• O Novo Flash (The Flash v2 # 152-159; publicando em Superman Premium # 07, 14-17)  aqui Waid usa os conceitos do Hipertempo e possibilita novamente a existência de uma espécie de multiverso, agora chamado hiperverso.

Isso marca a saída de Waid da série, mas tivemos no mínimo mais uma colaboração dele que foi a criação de John Fox, o (então) quarto Flash da cronologia DC em “Gerações” (Flash Special # 01 – 1990; Superpowers # 22, agosto de 1991, Editora Abril), que depois apareceria em aventuras inéditas da série mensal e em DC 1,000,000.

O Flash, no entanto, não ficou ao léu, foi parar nas mãos de Geoff Johns que consegue superar o trabalho de Waid! Johns tem uma visão legal da “Era de Prata” e consegue resgatar muito dela em seus títulos mensais. Ele produz ou produzia até recentemente “Flash”, “SJA” (com o diretor e roteirista David Goyer), “Os Vingadores”, “Novos Titãs”, “Gavião Negro”, “Lanterna Verde”, além de algumas histórias esquecíveis da série “Superman”.

Quem ler estas edições indicadas por mim (e mais algumas se possível) irá entender que o trabalho de Waid foi resgatar o mito no Universo DC. Ele não procura respostas muito fáceis, preferindo a polêmica de um retorno falso de Barry Allen – a verdade foi o Professor Zoom – e anos depois, durante a saga “Futuro Relâmpago”, deixa bem claro que “seu” Flash, tem experiência e conhecimento maior do que Barry. Wally West nas mãos de Waid (e Johns depois) é um ser humano em constante crescimento e isso é o que realmente me fascina.

Não me importo com o fato de personagens não envelhecerem, mas acho que eles têm que crescer, mudar. A mudança é parte de nossa vida. Se eu fosse o Aranha preferiria o uniforme criado pelo Dan Jurgens, do quê a versão original do Jack Kirby, apenas para mudar um pouco... evoluir!

Uma coisa é respeitar um ciclo de “início-meio-procriação-fim”. Muitos personagens deixam herdeiros que deveriam continuar seus legados. Na antiga Terra-2, Robin continuou o legado do Batman, quando este se aposentou e usou um uniforme ridículo bem parecido com o do Batman (capa de Batman, porém amarela, máscara verde de Robin cobrindo os olhos, restante da fantasia de Batman, porém com um “R” de “Robin” no meio do morcego em seu peito). Quanto ao uniforme mais conhecido do Robin da Terra-2, ele foi designed por Neal Adams para uma aventura da Liga da Justiça e quem o usou foi o Robin da Terra-1 durante algum tempo, sendo que o editor deixou o público decidir qual uniforme era mais belo (ou adequado) para o Robin da Terra-1. Parece que venceu o tradicional e anos depois o Robin da Terra-2 começou a usá-lo quando a SJA teve aventuras em Adventure Comics.

De certo modo todos os sidekicks (os garotos parceiros dos heróis adultos) deveriam ser os substitutos lógicos dos heróis, mas os heróis adultos teimam em viver muito, alguns até mais que seus sidekicks – como no caso Mulher Maravilha & Menina Maravilha (Moça-Maravilha, Tróia).

Aceitar que Wally é, no mínimo, tão importante quanto Barry, é encarar que há mudanças que vem para melhor e que o fim de Barry foi muito digno. Wolfman inclusive disse que deixou uma ponta solta para que alguém o trouxesse de volta, bem... eu acho melhor não, pois toda ressurreição tira o impacto da morte... mas com Green Lantern: Rebirth pipocando por aí, tenho medo que surja algum grupo de leitores que exija a volta de Barry Allen.


Jamerson Albuquerque Tiossi (que acha que uma revista chamada Flash ou Lanterna Verde, com histórias das séries americanas originais casaria muito bem com o mercado atual)
 
jamersontiossi@yahoo.com.br

  facebook


Flash #150: Chain Lightning
Flash #152: o novo Flash
 


 

Seções
HQ Maniacs
Redes Sociais
HQ Maniacs - Todas as marcas e denominações comerciais apresentadas neste site são registradas e/ou de propriedade de seus respectivos titulares e estão sendo usadas somente para divulgação. :: HQ Maniacs - fundado em 19.08.2001 :: Brasil