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08/07/2005
MATÉRIA: QUARTETO FANTÁSTICO
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



1961. Dois amigos executivos, da área de publicações infanto-juvenis jogavam amistosamente uma partida de golf. Eram Martin Goodman, da pequena editora Timely, e Jack Liebowitz, da DC Comics (ambas especializadas em revistas em quadrinhos). Liebowitz contava com entusiasmo para Goodman sobre o recente sucesso de vendas de sua editora: a Liga da Justiça. Consistia na reunião de vários super-heróis de suas revistas em quadrinhos em uma única revista (ou único grupo), algo que já havia sido feito antes pela mesma DC Comics (com a Sociedade da Justiça), mas dessa vez realmente as vendas e o sucesso da idéia surpreenderam. De fato, existiam muitos heróis que lutavam contra o crime solitariamente. No máximo, em dupla. Mas grupos de super-heróis era algo que não se via naquela época.

Goodman voltou para casa pensando no sucesso do qual o amigo tanto falava. Apesar de sua Timely ser uma editora mais modesta, não era inveja que o fazia ficar pensando na conversa. É que o entusiasmo de Liebowitz o havia contagiado também. E ele começou a ter idéias...

A Timely não tinha exatamente um personagem fixo e forte o suficiente para ser lembrado pelo público. Goodman chegou a conclusão que não era possível fazer um supergrupo dos super-heróis mais importantes da editora... simplesmente porque não haviam super-heróis importantes em sua editora. O processo de se criar um herói e popularizá-lo parecia um tanto demorado. Afinal, a idéia de "grupo" é que o agradava. A solução seria pular etapas e criar logo o grupo, mesmo com personagens desconhecidos (fazer o que...). A parte criativa deixou a cargo de um jovem talento da casa (ou... como dizem algumas versões... um jovem que trabalhava na editora devido a algum grau de parentesco com Goodman): Stan Lee. Este, por sua vez, uniu-se ao desenhista Jack Kirby.

A premissa de grupo, na verdade, dava a idéia de que os personagens foram reunidos por força de alguma ameaça. É claro que, em se tratando de uma revista em quadrinhos que deveria mostrar bons costumes aos jovens que a liam, esse grupo logo se destacava por um fiel sentimento de amizade. Ainda assim, o fato de terem se reunido para combater algum mal em comum não parecia uma amizade surgida de amenidades. Parecia uma espécie de relação de interesses. Com esse encaminhamento de conceito, Lee e Kirby não criaram apenas um grupo, um amontoado de combatentes contra o crime, uma reunião de heróis... eles criaram uma família! Uma família não muito grande é verdade, pois eram apenas quatro integrantes, um quarteto: o Quarteto Fantástico. A revista não só acendeu a chama para a criação do já citado Universo Marvel, como revolucionou a indústria de quadrinhos norte-americana a partir da década de 60.

A história girava em torno de uma viagem experimental ao espaço capitaneada pelo cientista Reed Richards. No entanto, ele não executou esse feito solitariamente, sendo acompanhado de sua amada Susan Storm, o jovem Jonathan Lowell Spencer Storm (também conhecido como Johnny Storm, irmão de Susan) e o piloto Benjamin Jacob Grimm (também conhecido como Ben Grimm). O vôo sofreu um contratempo inusitado, quando a nave foi bombardeada por raios cósmicos, deixando seus ocupantes totalmente desprotegidos e a mercê de seus efeitos, fazendo com que o grupo perdesse o controle e sofresse uma fatídica queda. O terrível acidente, no entanto, não tirou a vida dos ocupantes. Como se isso já não parecesse... fantástico... ainda descobriram que seus corpos desenvolveram bizarras transformações.

Reed Richards percebeu que seu corpo adquiriu uma incrível elasticidade, com uma consistência e resistência parecida com uma grande borracha, mas que podia ser controlada por sua mente. Susan adquiriu a capacidade de ficar invisível. Johnny, aterrorizado no início com sua transformação, notou que podia inflamar o próprio corpo sem que o fogo gerado pudesse lhe causar algum mal. Já Ben Grimm sofreu a mudança mais radical: tornou-se um monstro alaranjado, mas dotado de incrível força e até certa invulnerabilidade.

Desde o incidente, liderados por Reed, o grupo tem usado suas fantásticas habilidades para proteger não só a humanidade, mas todo o universo. Adotando os nomes de Senhor Fantástico (Reed Richards), Garota Invisível (Susan Storm, que seria chamada de Mulher Invisível posteriormente), Tocha Humana (Johnny Storm) e Coisa (Ben Grimm), ficaram conhecidos como o Quarteto Fantástico. Em várias ocasiões, a curiosidade de Richards os levou a explorar o espaço, a Zona Negativa, o Microverso, dimensões estranhas e civilizações perdidas, sempre transportados por exóticos maquinários criados pelo cientista, que também foi o criador do tecido de seus uniformes, feito de moléculas instáveis, que se adaptam aos seus respectivos poderes.

As histórias do Quarteto Fantástico não traziam apenas o clima de ambiente familiar, mas graus de parentesco verdadeiros, uma vez que Reed se casou com Sue, que era irmã de Johnny, e tiveram um filho mais adiante, chamado Franklin. Futuramente seria adicionada Valéria, uma espécie de filha bastarda extra-dimensional do casal. O Coisa não tinha parentesco com nenhum deles, mas era considerado uma espécie de tiozão que mora de favor na casa, além do que era o mais carismático dos personagens.

De fato, existe uma atenção especial com o monstro laranja por parte dos autores. Reed Richards se sente culpado pela transformação do amigo na aberração e, apesar de seu intelecto ser capaz de criar máquinas que viajam por dimensões, nunca conseguiu reverter o processo com resultados satisfatórios. Já a relação entre Tocha Humana e Coisa está mais para o provocativo, com o Tocha sempre irritando o amigo e fugindo depois. É da boca do Coisa que também sai a frase Tá Na Hora do Pau (It´s Clobberin` Time!, no original), que se tornou uma das mais célebres da história dos quadrinhos. E como se tudo isso não bastasse para ele esquecer o monstro que é, o personagem é uma espécie de alter ego do desenhista Jack Kirby, que tinha um jeitão tão parecido com o do personagem, a ponto de também ser amante de charutos.

Já a Mulher Invisível se tornou mais poderosa, talvez para tirar um pouco da impressão de que estava ali apenas como presença feminina. Ficar invisível parecia um poder inútil em uma batalha com algum inimigo. Por isso, os autores também lhe deram a capacidade de produzir escudos invisíveis que tanto servem para proteger quanto para atacar. Mas foi o desenhista/escritor John Byrne quem melhor aproveitou o potencial da personagem, a ponto de dar a impressão de que realmente era a mais poderosa do grupo.

Reed Richards era uma mente prodigiosa desde a infância. Destacou-se com louvor no Instituto de Tecnologia da Califórnia, na Universidade de Harvard e na Universidade de Columbia. Nesta última, conheceu o jovem e arrogante Victor Von Doom, que o via como um rival a altura de seu intelecto. Devido a esse sentimento de rivalidade, Doom se viu determinado em mostrar-se superior, o que serviu de motivação para conduzir uma experiência que teve resultados catastróficos. O complexo maquinário que criara explodiu, destruindo definitivamente seu rosto. Seu orgulho e prepotência não admitiam seu fracasso, jogando toda a culpa pelo ocorrido em Reed Richards. Futuramente, essa mágoa faria aquele jovem se tornar o mais temido inimigo do Quarteto Fantástico (ou de Reed Richards, como queiram): o Doutor Destino. Richards continuou sendo a mente brilhante de sempre, mas não corria riscos como Doom. Isso mudou até o fatídico dia em que utilizou o protótipo para viajar até o espaço.

O primeiro número da revista Fantastic Four ainda mostrava outra discreta novidade. Apesar de seus personagens terem super poderes e boas intenções de utilizá-los, nenhum deles usava uniformes coloridos e espalhafatosos. Eram pessoas com poderes... e só. Os conhecidos uniformes do grupo apareceram nas edições seguintes. Diferente de outros heróis, os quatro não vêem a necessidade de esconder suas identidades. A base de suas operações, inclusive, é de conhecimento público, sendo alvo também de inúmeros ataques de seus inimigos. A mais lembrada ficava no Edifício Baxter, em Nova Iorque, mas este foi destruído pelas mãos de Kristoff Vernard, espécie de enteado do Doutor Destino. Foi, em seguida, substituída pelo Four Freedoms Plaza, mas este havia foi ocupado pelo grupo de vilões renegados conhecidos como Thunderbolts, na época em que o Quarteto foi dado como desaparecido após a saga Massacre. Também vale citar o Pier 4, que serviu de base temporária quando o grupo retornou a realidade vigente após o término de Heróis Renascem. Como tudo que é bom volta, em pouco tempo o grupo retornou ao Edifício Baxter.

Personagens coadjuvantes importantes surgiram nas páginas do Quarteto. Em 1962, a escultora cega Alícia Masters era introduzida como afilhada de um vilão, o Mestre dos Bonecos, tornando-se o interesse romântico do Coisa, dando uma estranha lição moral sobre o verdadeiro amor não se importar com as aparências.

Apesar do nome do grupo conter a palavra Quarteto, referindo-se à formação original, o grupo contou com outros integrantes que fizeram parte durante períodos diversos, geralmente de crises internas. Em 1963, o Homem-Aranha chegou a esnobar um convite para participar do grupo (mesmo que esse se tornasse um Quinteto), mas acabou se tornando grande amigo do Tocha Humana (apesar de viverem se alfinetando). Na verdade, o Aranha queria fazer parte do grupo, mas quando viu que não teria as vantagens que pensava, desistiu.

Medusa e Cristalys, ambas pertencentes à raça dos Inumanos, também já passaram pelo grupo, sendo que a primeira chegou a fazer parte de um bando de vilões, chamado Quarteto Terrível (terrível foi a explicação de que a moça era "do mau" por ter amnésia na época), e a segunda manteve um breve romance com o Tocha.

Em 1982 foi introduzida uma espécie de Tocha Humana feminina, conhecida posteriormente como Nova. Ela era afilhada do Professor Phineas Horton, uma homenagem do escritor John Byrne ao personagem também conhecido como Tocha Humana, publicado em uma época em que a Marvel ainda não existia e os heróis lutavam ao lado dos soldados americanos na Segunda Guerra. Acontece que o tal Professor era o criador desse primeiro Tocha e também foi responsável pela criação dessa Tocha mulher que (surpresa!), Ela tinha um... tórrido caso com o atual Tocha Humana. Mas o fogo se apagou quando a personagem decidiu deixar o grupo e o planeta Terra para servir de arauto do vilão cósmico conhecido como Galactus.

Em 1984, a Mulher-Hulk, prima mais nova de Bruce Banner, com poderes similares ao Hulk e inteligência normal (apenas uma alteração discreta em sua libido) ficou no lugar do Coisa, quando este se isolou para repensar seu papel no mundo ao final da saga Guerras Secretas.

Outra mulher verde fez parte do grupo: Lyja, da raça inimiga e transmorfa skrull, que se infiltrou entre eles, fingindo ser a cega Alícia Masters. Mas ela acabou se apaixonando e casando com o Tocha (quando todos ainda pensavam que ela era Alícia, causando sérios conflitos internos. Afinal era a namorada do Coisa...), descumprindo sua missão primária que era espionar e destruir o grupo.

Em 1987, uma personagem sem muita importância que se autodenominava Miss Marvel (e a própria editora já tinha uma personagem chamada Miss Marvel que nada tinha a ver com essa, tendo até mesmo revista própria) entrou na equipe. Ele era uma espécie de lutadora de luta livre com super poderes, que acabou se tornando interesse romântico do Coisa. Aliás, não só interesse. Em uma aventura ela foi transformada em uma monstrenga laranja como o Coisa, revertendo o processo futuramente, para a tristeza do nosso amigo alaranjado. Mas tudo bem, tempos depois ela voltou a ser a “Mulher-Coisa”.

Outros personagens como Homem-Formiga e Luke Cage ficaram dormindo na base do Quarteto por um tempo, mas saíram do grupo tão logo puderam. Namor, foi curado de amnésia e levado pelo Tocha Humana ao Quarteto. Apesar do príncipe submarino figurar mais vezes como antagonista do grupo, ficou marcada a mal resolvida paixão platônica dele pela Mulher Invisível (que, bem da verdade, arrastava uma asa invisível para o monarca, sim).

Em 1990, uma brincadeira editorial com esse entra e sai do Quarteto formou um novo Quarteto, formado por Hulk, Homem-Aranha, Wolverine e Motoqueiro Fantasma, os quatro medalhões de vendas dessa época pela Marvel. Essa formação só durou por uma aventura.

No selo MC2 (Marvel Comics 2), cujas aventuras se passam num futuro alternativo, ainda foi mostrado um grupo chamado Quinteto Fantástico, formado por Reed (ou o cérebro dele, literalmente, chamado de Big Brain), Johnny Storm como líder, Franklin Richards (filho de Reed e Sue, agora conhecido como Psi-Lord), Ben Grimm envelhecido mas ainda como o Coisa e Lyja Storm, a Senhora Fantástico.

Há ainda a versão Ultimate dos personagens, que estreou por aqui na revista Marvel Millennium: Homem-Aranha #37, em janeiro de 2005. Nesta versão, os personagens são bem mais jovens e ganham seus poderes não numa viagem espacial, mas sim num experimento envolvendo a Zona Negativa. Junto deles no experimento, ainda estava o Dr. Destino, nesta versão chamado Victor Van Damme. O grupo, com exceção de Ben Grimm, que é somente um amigo de infância de Reed fazendo uma visita, se origina de um complexo científico mantido pelo exército, o Edifício Baxter. Além dos heróis do Quarteto e do Dr. Destino, o Toupeira também fazia parte do complexo, sendo um dos tutores dos jovens gênios que lá trabalham.

O Quarteto Fantástico já figurou em três desenhos animados para a TV. A primeira série foi produzida pela Hanna-Barbera Productions em meados dos anos 60, teve 15 episódios e é relembrada como uma das melhores em se tratando de um desenho animado da Marvel Comics (falando daquela época, claro). A segunda série foi produzida pela DePatie-Freleng Enterprises em meados dos anos 70. Foi aquela que substituiu o personagem Tocha Humana pelo robozinho H.E.R.B.I.E., sob os boatos de que a rede NBC temia que os jovens poderiam atear fogo para imitar o seu herói (na verdade, a intenção era menos nobre: um robozinho era mais vendável como brinquedo...). Mais tarde, a DePatie-Freleng se tornaria Marvel Enterprises, posteriormente chamada de Marvel Studios. A terceira série surgiu nos anos 90, quando fez parte da Marvel Action Hour. Nessa série, a primeira meia hora era dedicada ao desenho do Homem de Ferro. A segunda meia hora apresentava um episódio do Quarteto (com algumas histórias originais dos quadrinhos dos anos 60). O próprio Stan Lee se envolveu com esta produção.

Ainda vale lembrar que, na década de 80, apareceu uma inusitada série animada protagonizada apenas pelo Coisa. O monstro laranja era o mesmo, já suas origens... Aqui ele era um jovem chamado Benjy, que tinha a habilidade de tornar-se o Coisa graças a um par anéis mágicos. O desenho era tão bizarro, que essa versão do Coisa chegou a se encontrar com... os Flintstones!

Não menos bizarra foi a primeira adaptação cinematográfica das aventuras do grupo, completada em 1994 graças ao famoso diretor/produtor de filmes B, Roger Corman. O filme, precário, nunca chegou a ver as telas de cinema e nem mesmo as prateleiras de vídeo locadoras. As poucas cópias que escaparam, aparecem livremente pela internet para quem tiver coragem de assistir. Com pobres efeitos especiais (o Tocha Humana é substituído por um desenho animado mal feito quando se inflama, já o Senhor Fantástico parece feito de pano e o Coisa feito de espuma), o filme foi recolhido não por sua vergonhosa "qualidade", mas pelo vencimento do período em que os direitos dos personagens foram reservados à produção.

Com o novo longa metragem de 2005, os quatro super-heróis parecem ter conseguido o mínimo de respeito por sua história. Respeito por durarem tantos anos nos quadrinhos. Respeito por terem sido os fundadores do Universo Marvel. Respeito porque, apesar de terem super poderes e defender a humanidade, não formam apenas uma simples equipe ou grupo de heróis. Formam uma família.


(Dark Marcos)


Dark Marcos é responsável pelo blog Âmago - www.darkmarcos.blogger.com.br. Agradecimentos especiais a Leonardo Buddy Baker do HQM pelo adendo da versão Ultimate da família mais fantástica de todos os tempos.

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