MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
28/11/2005
COLUNA - EDITORIAL DE J.J.JAMERSON: AS PRISÕES CRONOLÓGICAS
 
 
Noturno
 
 
A Era de Ouro
 
 
Caçadora da Terra 2
 
 
Robin da Terra 2
 
 
Sociedade da Justiça
 
 
Starman
 
 
All-Star Squadron - Comando Invencível
 
 
 



Muita gente fala mal do peso da cronologia. É uma tolice, já que quase nenhum escritor a segue ao fio da regra, ou se limita por ela. Por causa disto, falam que alguns personagens estão ao sabor dos tempos, indo e vindo, trafegando entre histórias dos mais diversos tipos, sem se firmarem como “personagens”, mas sim como o reflexo daquilo que seus autores gostariam que fossem. Será que deveria ser diferente? O personagem, na época, é um ego do artista, que tenta mostrar suas opiniões e experiências (Maus  é um exemplo) ou ilusões de aventuras (quadrinhos de heróis, ficção científica, espada & magia, são parte destes exemplos).

Um dos personagens que mais mudou durante sua vida editorial foi “Noturno” dos “X-Men”, que já foi acrobata, pirata, amante de bruxas e padre. Em setembro de 2004, no Brasil, descobriu-se que seu passado recente de padre era, na verdade, um plano para desacreditar a Igreja Católica e exterminar os mutantes. Resolvida mais esta trama em sua vida, Noturno passa algum tempo longe dos holofotes, e ganha uma série mensal para sintetizar suas fases... espero que o autor tenha talento para tanto, mas no fundo sei que não haverá muita qualidade.

Isto nos faz valorizar os autores que querem contar uma história. O termo ficou grafado por que contar uma história é contar algo que vale a pena ser dito, e que leve um personagem ou série a algum lugar. Um bom exemplo é Grant Morrison nos X-Men. Veio, disse o quê tinha que dizer e foi embora. Cabe a Marvel, ao próximo roteirista ou ao leitor respeitar à risca o quê ele escreveu. Pessoalmente acho que não é questão de simplesmente “jogar tudo no lixo”, mas sim, entender que aquela é a visão de Grant Morrison, e outros autores que têm outras visões que necessitam de personagem mortos ou de explorar situações chavões que façam isso! O desafio será fazer isso em um mercado concorrido como este, e que consiga manter as vendas e a qualidade.

Erros de análise, ao meu entender, devem ser ratificados sem importar-se com a cronologia, como por exemplo retirar o adamantium do esqueleto de Wolverine, matar Colossus, isso sem contar as infinitas mortes e ressurreições de Magneto, matar Superman, quebrar a coluna de Batman, etc e tal. Estas coisas nunca deveriam ter ocorrido, por isso não devemos bolar uma história muito original para corrigi-las, mas sim, apenas bolar uma história. Dentro de 10 anos ninguém vai lembrar mais que Wolvie ficou seis anos sem adamantium.

Nisto, gostaria de lembrar aquela velha premissa de que o leitor quer um clássico a cada mês, e nem sempre o autor por mais talentoso que seja pode colaborar. Um clássico normalmente é algo novo, grandioso, por isso mesmo a abolição e negação da cronologia. Poucos autores têm o talento para fazer clássicos respeitando a cronologia e inserindo-os dentro daquilo que já foi estabelecido.

Bons exemplos de clássicos em Batman são “O Cavaleiro das Trevas”, que cria uma cronologia própria onde sugere o fim de Jason Todd, e brigas entre Wayne e Grayson; e “O Filho do Demônio”, onde começa a trilogia de Ra’s Al Ghul, dando ao homem-morcego um filho. De outro lado, na atualidade, por mais interessante que seja “Batman – Cidade Castigada” (Batman – Broken City), notamos que é uma cópia pouco sutil de Sin City de Frank Miller, ainda que os autores talvez nunca tenham lido a série da concorrente. Quando eu olho a série, só fico pensando que o único motivo é empurrar uma encadernação meses depois.

As graphic novels nos EUA são caras, e certamente você atinge um público maior dividindo-a em uma série mensal. Uma graphic novel em capa dura atingiria no máximo 5 mil leitores, mais 5 mil no ano seguinte quando fosse lançada a versão em capa mole. Uma série mensal atinge 40-60 mil pessoas em média, e uma série que havia acabado de passar pelo furacão Jim Lee ainda mantém muitos leitores depois da saída, mantendo mais de 90 mil conforme foi divulgado na época. Assim a DC Comics consegue vender mais fácil uma visão do personagem Batman. Em certos momentos da trama em lembrei das primeiras histórias de Batman, cheias de diálogos de duplo sentido, mas sem a originalidade e o carisma.

Porém parte deste público esquece que na cronologia também se cria boas histórias. Para tanto vou contar uma história um pouco longa. A DC Comics, em sua origem chamava-se National Periodicals e tinha dois selos DC Comics e All American, o primeiro dedicado à histórias de detetives e também super-heróis, mas concentrado em histórias de detetives, histórias de animais engraçados, etc. e tal. Os personagens secundários da editora como Green Lantern, Flash, Wonder Woman, Sandman, Atom, Hourman, Hawkman, formaram uma associação de heróis então inédita, chamada de Justice Society of America (JSA, Sociedade da Justiça da América em português, sendo que naquele início não havia muito ênfase em “of América”). A equipe durou originalmente até All-Star Comics # 57 (fev-mar 1951). E foram esquecidos. Foram esquecidos não somente pela qualidade de suas histórias, mas por que todo o mercado estava procurando uma outra maneira de contar suas histórias, deixando os quadrinhos de heróis pelos de western.

Flash só voltaria em uma continuação de sua própria série, mas com um novo personagem, anos depois em Flash #123 (setembro de 1961) – surgiu a história que cria os conceitos de Terra 1 e Terra 2, além de estabelecer que por algum motivo as aventuras do Flash da Terra 2 eram publicadas em quadrinhos na Terra 1 e por isso Barry Allen, influenciado por um herói de sua infância, adotou o nome Flash -, mas a equipe Sociedade da Justiça só retornaria mesmo em Justice League of America #21-22 (ago-set de 1963), quando se iniciou a tradição de encontros anuais entre Liga e Sociedade da Justiça.

Devemos lembrar, é claro, que agora a Sociedade da Justiça era apenas coadjuvante da série da Liga, algo como os “irmãos da Terra-2”. Ainda assim nestes encontros há sempre informações para o desenvolvimento de alguns personagens, como por exemplo o triste destino de Sand, a primeira versão para o destino dos personagens da Quality – muitos personagens da Quality foram dados como mortos no enfrentamento das forças nazistas na Terra X, mas depois tiveram um destino mais digno.

A SJA só retornaria às histórias solo próprias em All-Star Comics # 58 (jan-fev 1976), de curta duração, já que durou até o # 74. Anos depois em 1979, durante um curto período a Sociedade da Justiça em sua versão da década de 1970, com o Robin adulto, Caçadora, Poderosa entre outros, teria uma série de seis aventuras em Adventure Comics, onde inclusive foi mostrado a morte do Batman da Terra-2 – esta história já foi publicado no Brasil pela Ebal, assim como uma série de Origens Secretas entre as quais a origem da Caçadora original que era filha de Batman e Mulher-Gato da Terra 2.

Mas o retorno da equipe só ficaria definitivo em setembro de 1981, mais de trinta anos depois do cancelamento original. A nova série All-Star Squadron, chamada no Brasil de Comando Invencível, não trazia apenas história da SJA, mas de todos personagens da 2ª Grande Guerra Mundial da DC Comics da Terra-2 escritos com excelência por Roy Thomas – durante a Segunda Guerra a SJA também foi conhecida como Batalhão da Justiça (The Justice Batallion), e chegou a fazer uma ponta com este nome em uma saga do Superman pós-Crise, a “Superman – Perdido no Tempo”.

Então por ser tão abrangente, a série All-Star Squadron não tinha tanto espaço somente para a SJA, até por que o Comando Invencível era a equipe principal. Mesmo assim a SJA tinha espaço em vários edições e chegou a ganhar uma versão de uma história clássica dividida em capítulos. Com o sucesso a equipe ganhou uma série limitada (America versus JSA) e um especial (The Last Days of JSA), além de um verdadeiro spin-off que é Infinity, Inc. (Corporação Infinito) que conta as aventuras dos herdeiros tanto da SJA quanto do All-Star Squadron nos anos 1980.

Vale, no entanto, lembrar que a série All-Star Squadron passa durante o período da guerra (mais especificamente entre dezembro de 1941 e abril de 1942), e Thomas tem o cuidado de costurar as cronologias fazendo referências cruzada com séries de décadas antes. Aqui no Brasil nenhum número de All-Star Squadron foi publicado até 2005, e o grupo só ficou conhecido por que Flamejante, um dos membros da equipe, teve uma participação bastante ativa em Crise nas Infinitas Terras.

Após a Crise, que para o All-Star Squadron acontece em abril de 1942 (para o restante do Universo DC a Crise acontece em junho de 1985), a série é encerrada e substituída por uma versão “júnior” de si. No ano seguinte o All-Star Squadron se desmembra, não ficando evidente exatamente em qual mês, mas sabe-se que foi no final de 1943, sendo assim um dos grupos de menor duração dos quadrinhos, já que surgiu “oficialmente” em 07/12/1941, seguido de perto pelo fim da SJA para que os heróis se alistem nas forças armadas (a data oficial do fim da SJA é 09/12/1941, tornado público em 22/12/1941).

O fim da série All-Star Squadron, sua substituição pela série Young All-Stars e o fim desta, está intimamente ligado à Crise nas Infinitas Terras. Durante a série All-Star Squadron, assim como já havia feito na Marvel na série The Invaders, Thomas cria e se apropria de várias mitologias dos quadrinhos, mas, em nenhum momento, estava pronto para deixar de ter alguns personagens de apoio importantes. Assim, quando Flamejante retorna do futuro onde aconteceu a Crise, encontra a Terra da mesma maneira que havia deixado! Este momento é chamado por muitos de “lava em caldeirão em ebulição na DC Comics”, onde ainda não havia se definido o quê seria válido. Lentamente os personagens “conflitantes” deixam de aparecer e de serem citados, e a ênfase é dada naqueles que, acima de qualquer dúvida existiam realmente em 1942-43.

Gostaria até de estender uma pouco mais e mencionar uma carta da seção de correspondência de All-Star Squadron #60, agosto/1986, posterior então à Crise: “(...) 1 – Como pode a SJA dos anos 80 não se lembrar dos Céus Vermelhos da Crise, se eles presenciaram o fato nos anos 40? (2) Se todas as Terras do Multiverso se fundiram em uma única Terra, com um só passado e um só futuro, onde foram parar Tio Sam e os Combatentes da Liberdade? Nós nunca mais veremos o Comando Invencível novamente?? (...)”
Resposta de Roy Thomas: “Rápido e rasteiro: (1) O final desta edição deve esclarecer isso. (2) Idem.”

Vejam que mesmo esta confusa situação (a)cronológica não impediu que Thomas continuasse na série por vários meses e a transformasse em uma extensão não-oficial de Secret Origins, dando espaço para contar várias origens de membros do All-Star Squadron. Esta mesma confusão não impediu que Thomas criasse excelentes histórias para leitores que gostavam e admiravam a Era de Ouro dos Quadrinhos, mas que entendiam que a equipe All-Star Squadron da forma que eles amavam não poderia existir mais e que todas aquelas histórias eram contos de lugar algum. Para citar dois bons exemplos desta política meio confusa da DC Comics o nº 1 de Secret Origins revisita a origem do Superman da Terra 2, e Kurt Busiek (Marvels) teve uma série limitada para contar a trajetória da Mulher-Maravilha da Terra 2.

Em 1992 a SJA voltaria às bancas na visão de Mike Parobeck em uma mini-série e depois em uma série curta que passava nos dias atuais,  onde a diferença entre a equipe de outrora e as atuais era o fato de nem sempre necessitarem de força bruta para resolverem o problema. Infelizmente a série mensal não vingou e a equipe foi dizimada durante os eventos de “Zero Hora”.

Para um novo retorno da SJA muito se deve a James Robinson. Primeiro ele criou uma série excepcional chamada “A Era de Ouro”, junto com o artista Paul Smith, que tratou de forma interessante e sábia os personagens da Sociedade da Justiça e Comando Invencível, respeitando a cronologia mas inserindo a sua visão de alguns eventos. Infelizmente, alguns desses eventos não foram bem aceitos pela DC Comics, que preferiu banir a série para o selo Elseworlds. Em seguida, Robinson criou a também excelente série “Starman” onde cria uma linda trama que valoriza a família, a aventura, a ficção, e principalmente a mitologia do Universo DC. Ponto para ele, que soube usar membros chaves da SJA em aventuras do Starman (em especial Flash, Lanterna Verde e Starman originais).


Antes de acabar seu percurso na DC Comics, Robinson ajudou a relançar a SJA, que tinha a participação do seu Starman. Meses depois a série iria definitivamente para as mãos da dupla David Goyer e Geoff Johns, autores que vieram do cinema e tinham respeito pela cronologia sem ficarem presos à ela. Até hoje a série tem boas vendas e é presença constante no TOP 50 das mais vendidas. Johns inclusive sabe usar a cronologia a seu favor, e a usa e abusa em suas séries The Flash e Hawkman. Veja o quê ele disse sobre a cronologia: “Gosto da história dos quadrinhos e usar o passado me ajuda a construir os personagens. Muitas pessoas têm medo da cronologia, que foi usada como bode expiatório para explicar por que as vendas andavam baixas. Mas ela é a razão para esses heróis e vilões estarem por aí há décadas. Um bom roteirista precisa lidar com a trama, torná-la sua e deixar sua marca nela.”

Esta citação foi tirada de uma Wizard Brasil que também se dá ao trabalho de citar a cronologia de Wolverine, relembrar a trajetória de Robin e discutir o “Essencial da Marvel”, ou seja a revista compactua com o peso da prisão da cronologia, já que lembra que é nela que surgem as boas e ruins histórias.



Jamerson Albuquerque Tiossi
(que ama a cronologia e também os erros cronológicos)

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