MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
13/12/2005
MATÉRIA: A FORÇA DOS SUPER-HERÓIS
 
 
Action Comics #1
 
 
Captain America #1
 
 
Shazam! #1
 
 
Fantastic Four #1
 
 
Incredible Hulk #1
 
 
Swamp Thing #3
 
 
Secret Wars #1
 
 
Watchmen
 



Toda vez que um novo filme baseado num super-herói das HQs estoura nas telas de cinema, a mídia, de uma forma geral, dá amplo destaque ao fato, e seus profissionais saem em busca de mais informações que expliquem melhor o fascínio que tais seres fantasiados exercem sobre sua audiência. Daí, inúmeras teses de ordem social e psicológica pipocam por todos os lados.
 


A Era de Ouro dos super-heróis americanos começou em junho de 1938, com o lançamento de Action Comics nº 1, pela National Periodical (futura DC Comics). A revista trazia a primeira aventura de Super-Homem, criado pelos adolescentes Jerry Siegel e Joe Shuster. Além de ser o primeiro comic book a trazer histórias completas inéditas – já que, até então, essas revistas só traziam reprises das páginas de jornais – o Super-Homem, com seus inúmeros poderes e fantasia colante, inspirou o surgimento de outros super-heróis.

Era uma época conturbada. A economia mundial estava em frangalhos e o surgimento de um semideus oriundo do espaço evocava um escapismo fantasioso barato e divertido ao jovem desesperançado dos anos 1930. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial em 1939, quando a Alemanha de Adolf Hitler invadiu o quintal da Polônia, uma nova onda de heróis patriotas invadiu as prateleiras de revistas da América. Entre os mais emblemáticos, podemos destacar o Capitão América e a Mulher-Maravilha. Esta última, criada por um psicólogo chamado William Moulton Marston, trazia a negação da mulher como “sexo frágil”, tornando-a, no mínimo, em “sexo igual”.

A Timely (que passou a se chamar Marvel décadas depois), também apostou em anti-heróis como Namor o Príncipe Submarino, que rapidamente caiu no agrado dos adolescentes. A identificação foi tremenda! Já o Batman, de Bob Kane e Bill Finger, por trás de seu capuz de chifres e capa negra, escondia um trauma perturbador. Mas quem roubou a cena, foi o (quase) bonachão Capitão Marvel. Ao gritar o nome do mago Shazam, o jovem Billy Batson transformava-se num grandalhão com os poderes de várias divindades lendárias. Deixou o Super-Homem no chinelo e a National tão furiosa, que decidiram processar a editora do Capitão Marvel, a Fawcett, por plágio.

Com o fim da guerra, em 1945, boa parte desses heróis foi “pro limbo”, pois perderam a razão de ser. Isso que dá querer vincular um produto a uma “onda passageira” (alguém pensou mesmo que o reinado do Reich ia durar mil anos?). Os Estados Unidos estavam em ascensão e com o crescimento da economia, uma febre de consumo tomou o cidadão americano. A televisão foi o símbolo desse período, devido a influência direta que teve sobre o comportamento e o modo de ver o mundo das pessoas. Para muitos, inclusive, ela iria acabar de vez com os quadrinhos. Mas os editores souberam tirar proveito disso e, do dia para a noite, diversos tipos de quadrinhos, como romance, faroeste e terror surgiram, caindo no gosto popular.

Seriados como Além da Imaginação (de Rod Serling) despertavam o interesse pela ficção científica e refletiam as principais paranóias do americano dos anos 1950: invasão alienígena e a deflagração de armas nucleares devido a “Guerra Fria” (apelido dado por Winston Churchill à rivalidade política e bélica entre EUA e União Soviética). Em 1956, o editor Julie Schwartz, ex-agente literário de livros sci-fi decide apostar num revival de velhos heróis do passado, inserindo nos mesmos, atributos baseados na ciência, diferindo do aspecto místico da década passada. Surgem então, um novo Flash, um novo Lanterna Verde, um novo Atom (Eléktron, no Brasil) e um novo Hawkman (Gavião Negro, por aqui). Foi o estopim da Era de Prata dos super-heróis. O surgimento da Liga da Justiça da América – um agrupamento de heróis da editora, inspirou o surgimento do Quarteto Fantástico pela concorrente Marvel Comics.

Idealizados por Stan Lee e Jack Kirby, os heróis Marvel espelhavam com mais fidelidade os anseios dos leitores, pois eles eram seres falhos, cheios de problemas emocionais, econômicos e de saúde. Na esteira viriam o incrível Hulk, o Poderoso Thor e o sensacional Homem-Aranha – que por ser adolescente (assim como o leitor), tornou-se o preferido da moçada e o paradigma desse novo modo de se produzir quadrinhos. O “Estilo Marvel” inspirou outras editoras a publicarem seus heróis. A Charlton veio com sua estranha, porém bacana “Linha dos Heróis de Ação”, destacando o Besouro Azul, Judomaster (Mestre Judoka no Brasil), Pacificador, Capitão Átomo e Questão. A Tower, comandada por Wally Wood, trouxe os ótimos T.H.U.N.D.E.R. Agents e a Gold Key investiu em tipos sofisticados como Magnus e Dr. Solar.

A farra durou até 1970, quando Jack Kirby debandou para a DC e lançou uma série de títulos que ficou conhecida como “O Quarto Mundo de Kirby”. A Marvel contra-atacou, dando início a Era de Bronze dos super-heróis. Roy Thomas adaptou Conan – um personagem de pulps de Robert E. Howard – para um gibi de linha e Stan Lee transformou o melhor amigo do Aranha num drogado, desafiando a censura do Código de Ética. Mas a Era de Bronze se caracterizaria, principalmente, pelo grande número de jovens autores que infestaria o mercado. Oriundos do fandom (movimento fanzineiro), gente como Marv Wolfman, Dave Cockrum e Jim Starlin estavam aptas a mudar a cara das HQs. O roteirista Gerry Conway mataria Gwen Stacy (a namorada do Homem-Aranha) e introduziria o Justiceiro – um personagem uma década à frente de seu tempo. Seu amigo Len Wein, viria com Wolverine, Monstro do Pântano e os Novos X-Men – sucesso estrondoso que perdura até hoje, graças ao trabalho da dupla Chris Claremont e John Byrne. 

Os anos 1970 veriam o nascimento do “Mercado Direto”, que propiciaria o surgimento das famosas comic shops – estabelecimentos comerciais voltados às revistas em quadrinhos e seus derivados. As grandes editoras também souberam aproveitar esse filão e começaram a lançar produtos voltados para esse segmento. Lee e Kirby voltariam a se unir em 1978, quando do lançamento da primeira graphic novel de super-heróis da história: Silver Surfer (até hoje, inédita no Brasil. Um pecado!). No ano seguinte, seria a vez da DC editar The World of Krypton – primeira minissérie americana. No começo dos anos 1980, Frank Miller começou a “estourar a boca do balão” nas páginas de Daredevil (Demolidor). O jovem quadrinhista tirou o título do “Homem sem Medo” do cancelamento e, até o meio da década, estaria revitalizando Batman na minissérie Cavaleiro das Trevas.

Após a boa aceitação da mini-série Torneio de Campeões, o editor-chefe da Marvel Jim Shooter, lançaria em 1984, a maxissérie Guerras Secretas. Uma trama simples que tinha a única finalidade de vender brinquedos. Uma jogada de marketing que deu certo, com cada um dos doze números vendendo mais de 750 mil cópias. Um ano depois, foi a vez da DC lançar Crise Nas Infinitas Terras, produção de Marv Wolfman e George Pérez – que tinha o intuito de reorganizar o gigantesco multiverso da editora.

Os jovens talentos que iniciaram suas carreiras 15 anos antes eram agora, profissionais experientes. Muitos deles passaram a exercer cargos burocráticos dentro das grandes editoras e outros debandaram para a televisão e cinema. A nova ordem era trazer escritores ingleses que, com sua visão mais cínica e ácida, imprimiram “tons” de cinza aos coloridos super-heróis. A partir de 1986, com o lançamento de Watchmen, dos britânicos Alan Moore e Dave Gibbons, os super-heróis jamais seriam vistos com os mesmos olhos novamente. Estávamos então, vivendo a Era Moderna dos super-heróis. Tempos depois, seria a vez de Neil Gaiman criar a série Sandman – que inspiraria o selo Vertigo, voltado a quadrinhos maduros. 

Após o sucesso alcançado nos títulos dos heróis mutantes e nos do Homem-Aranha, os artistas Erik Larsen, Jim Lee, Todd McFarlane e outros mais, fundariam a Image – editora que ditaria a regra do visual dos gibis, aliando seu traço dinâmico com elementos de mangá, o quadrinho japonês. Artistas brasileiros como Mike Deodato, Luke Ross, Marcelo Campos e Roger Cruz brilhariam nas páginas de vários títulos norte-americanos. Numa época em que o papel especial e cores feitas em computador eram a regra do jogo, edições com várias capas diferentes e truques holográficos tomaram de assalto as publicações. Era a época da especulação desmedida. Garotos compravam várias cópias da mesma revista, a fim de revendê-las a preços estratosféricos tempos depois. Deram com os burros n’ água, pois além da maior parte daquelas revistas serem porcaria pura e simples, a procura mostrou-se infinitamente menor que a oferta.

Em 1993, o ilustrador Alex Ross se consagraria com Marvels – uma ode aos personagens da maior editora de super-heróis do mundo. Ross não iria parar mais, realizando um sem-número de projetos de qualidade para várias editoras norte-americanas – resgatando, até certo nível, aquele super-herói de outrora, nobre e altruísta. Isso vem ganhando força desde então. Com o começo do novo milênio, as linhas Ultimate (conhecida no Brasil como Millennium) da Marvel e ABC (America’s Best Comics) de Alan Moore apresentam o que há de melhor nos quadrinhos contemporâneos de super-heróis.



*Roberto Guedes é editor de quadrinhos da Opera Graphica, quadrinhista – criador de diversos personagens (entre eles, Meteoro, Os Protetores e Guepardo) e autor dos livros QUANDO SURGEM OS SUPER-HERÓIS e A SAGA DOS SUPER-HERÓIS BRASILEIROS.


Esta matéria foi publicada originalmente na revista 100 Balas nº 31, em julho de 2004 e reproduzida aqui com permissão.

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