MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
16/02/2006
COLUNA - FALA ANIMAL!: DESENVOLVIMENTO E ENROLAÇÃO
 
 
King Kong, de Peter Jackson
 
 
Geoff Johns
 
 
Galeria de Vilões
 
 
Homem-Hora
 
 
 
 
 
 
 



Nos últimos meses venho notando muitas pessoas reclamando de enrolação nos quadrinhos e nos filmes. Reclamam que King Kong é longo demais, que Geoff Johns faz muitas histórias sem ação, que Brian Bendis usa muitos diálogos. Em alguns casos eu concordo, em outros não.

No geral, as reclamações apontam para trechos onde existem muitos diálogos. Aparentemente, as pessoas querem muita ação.

Vejamos por exemplo, a mais nova versão de King Kong, dirigida por Peter Jackson. Todos esperam ver o enorme gorila atacando as pessoas e destruindo tudo. E o anseio por ação e violência só cresce quando os demais habitantes da Ilha da Caveira aparecem. Só que a tal ação só começa depois de muito tempo no filme, pois acompanhamos todo o desenvolvimento dos personagens humanos antes, a atriz quase sem esperanças, o ator covarde, o diretor ganancioso. Tal caracterização dos personagens é o que realmente dá alma ao filme, ou a uma história em quadrinhos.

É engraçado lembrar de críticas a filmes como Independence Day, que diziam que os personagens eram todos parecidos, sem características próprias, sem nada que lhes desse personalidade. Enfim, diziam que era um filme de ação e efeitos especiais, sem nenhuma profundidade ou história. Agora, que o contrário é feito em King Kong, o que se ouve é que há muita enrolação, que é cansativo.

Um mestre na caracterização dos personagens nos quadrinhos é Geoff Johns. E não só quando se trata dos personagens principais dos títulos que escreve. Ele consegue dar mais vida aos coadjuvantes, aos vilões e até mesmo aos convidados especiais que aparecem somente em uma edição. Quando escreve o Flash, ele desenvolve os inimigos do herói, na forma da equipe Galeria de Vilões, de tal forma, que muitas vezes gostamos mais deles do que de Wally West.

O mesmo acontece com coadjuvantes como Hunter Zolomon (antes de se tornar o novo Zoom), o Detetive Morillo e o Policial Chyre. Até mesmo o Diretor Wolfe, da prisão Iron Heights, inicialmente apresentado como alguém insuportável, mais tarde teria sua personalidade explorada de modo que entendamos seu modo de agir e suas motivações.

No caso dos vilões, Johns consegue fazer o que muitos roteiristas e diretores de cinema tentam sem sucesso. Ele apresenta suas motivações, tornando-os humanos, mas sem usá-las como desculpas para as maldades cometidas por eles. Não importa se eles foram ignorados pelos pais, abandonados ou maltratados. Isso explica muito sobre tais vilões, mas não justifica suas ações. E isso é justamente o contrário do que vemos no cinema muitas vezes, onde traumas de infância praticamente absolvem vilões de qualquer mal cometido na vida adulta.

Já nas histórias da Sociedade da Justiça, Johns utiliza a convivência da equipe para explorar as personalidades dos membros do grupo. Histórias como a do Dia dos Pais, onde Rick e Rex Tyler têm uma conversa incrivelmente real entre pai e filho, ficarão na memória dos leitores por muitos anos. E é justamente esse tipo de conversa que eleva a história e os personagens a outro patamar, fazendo com que se distanciem dos demais, que se tornem únicos.

Brian Bendis, por outro lado, não costuma se aprofundar muito nos vilões e coadjuvantes, mas desenvolve bem heróis e seus coadjuvantes. Bendis conseguiu desenvolver a personagem Jessica Jones de um modo que, em pouco tempo, a personagem caiu nas graças dos fãs, sendo adorada como se existisse há anos nos quadrinhos, sendo que é uma recém-chegada.

Mas o título onde Bendis mais brilhou foi em Demolidor. Através de diálogos ácidos e inteligentes, o escritor conseguiu se aprofundar em Matt Murdock de um modo que somente Frank Miller foi capaz anos antes. O conflito entre o advogado e super-herói foi iniciado com a revelação da identidade do personagem ao público e teve seu maior momento no arco O Julgamento do Século, que culmina na morte de outro super-herói, o Tigre Branco. É neste arco que vemos Matt Murdock enfrentar as implicações de sua vida dupla de um modo totalmente novo, confrontando seus ideais, suas necessidades e tudo isso com o mínimo de ação, em histórias que enfocavam quase que exclusivamente diálogos.

É claro que nem sempre diálogos e histórias mais longas são usadas para este fim. O próprio Bendis enrola muito em outros títulos, como em Vingadores e Dinastia M, mas muito disso é culpa das editoras, que já encomendam arcos mais longos, para mais tarde terem como reunir as histórias em encadernados.

O importante aqui é a habilidade do escritor em preencher esse número de páginas, por vezes maior do que ele próprio planejava inicialmente, com diálogos e acontecimentos relevantes, ao invés de contar a mesma história pela centésima vez, como tanto vemos Chris Claremont fazer atualmente.

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Demolidor, de Brian Bendis
X-Men, de Chris Claremont
 


 

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