MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
26/09/2006
COLUNA - EDITORIAL DE J.J.JAMERSON: OS MORTOS E OS VIVOS
 
 
Day of the Dead - Dia dos Mortos
 
 
A Volta dos Mortos-Vivos
 
 
Os Mortos-Vivos: os zumbis de Kirkman
 
 
Marvel Zombies: ainda inédita no Brasil
 
 
 
 
 
 
 



No início da década de 1990, eu fiquei próximo de um dono de vídeo-locadora. O sujeito acreditava que eu tinha gosto refinado e por isso aconselhei vários filmes pra ele. Mas existem dois em que ele não teve lucro.

O primeiro é “Cliente Morto Não Paga” com Steve Martin, que é em preto e branco e os clientes não gostaram. O segundo é “Dia dos Mortos” de George Romero.

“Dia dos Mortos” não é um filme de terror. Nem mesmo de “terrir”, termo muito usado no início da década de 1990. Terrir eram “A Volta dos Mortos-Vivos” e sua continuação. “Dia dos Mortos” era um filme de crítica social ambientado em uma terra dizimada e repleta de mortos-vivos. Um último grupo de vivos tentava reeducar os mortos para que eles agissem como vivos e dentro dos padrões. Não é necessário dizer, mas vou escrever. Os clientes também não gostaram do filme.

Anos depois ouvi falar do remake deA Noite dos Mortos-Vivos”, que só assisti quase uma década depois. Com exceção deste filme nunca mais ouvi falar em mortos-vivos.  Mas o filme baseado no vídeo game Resident Evil fez reacender uma chama... nos mortos... Logo tivemos “Extermínio”, “Madrugada dos Mortos” (remake de “Amanhecer dos Mortos”) e mais um filme do próprio George Romero, “Terra dos Mortos”.

Os quadrinhos são um gênero de literatura facilmente influenciável. Ainda assim, todos os produtos “mortos” recentes vieram de Robert Kirkman. Para a Image, ele fez seu produto autoral Os Mortos-Vivos, e para a Marvel Comics ele fez Marvel Zombies (mini-série ainda inédita no Brasil).

Com isso Kirkman além de se tornar o mais conhecido autor da nova geração da Image, tornou-se seu produto mais significativo. A editora que tem fama maior que a sua venda, está sem uma identificação com o público há muito tempo.

Certamente ainda há Spawn, The Savage Dragon e os produtos da Top Cow, mas nenhum deles tem mais a força de 10 anos atrás. Dona de uma pequena fatia do mercado de quadrinhos, a Image está na lanterna, como se todos soubessem que a receita desandou, que a empresa dificilmente irá produzir algo inovador. Há sucessos isolados como as séries de Michael Oeming e do próprio Kirkman, mas sabe-se que são talentos que contam histórias que necessitam serem contadas (talentos individuais) e não um produto pensado, revisto, analisado, editado e por fim apresentado ao público.

Os Mortos-Vivos não deve ser entendido como uma extensão dos filmes. Não o é. Os filmes são produtos de George Romero (a tetralogia) e de alguns outros criadores. Os quadrinhos de Kirkman apenas ambientam sua história em uma “dimensão” semelhante. Para tanto, dão vazão para tramas que no cinema não podem ter espaço devido ao tempo de duração de um filme comercial.

Kirkman não está reinventando a roda. Ele está ajudando a rodá-la. E com maestria. Seus personagens são os pequenos burgueses que temos ao lado de nossa casa, na nossa sala, em nossa alma. Sem futebol os machos disputam o poder para serem o macho alfa e terem direito a todas as fêmeas. Sem novelas as fêmeas fuxicam e acham o comportamento alheio inadequado. Sem condições de enfrentarem o pesadelo, algumas fêmeas se põem como prêmio para aqueles que a protegerem. Isto é a sociedade? Certamente não é a sociedade “civilizada”, mas num mundo desolado, sem esperança talvez agíssemos assim.

Alguns se apegam à idéia de que o governo, em algum momento, irá conseguir salvá-los e exterminar a legião de famintos mortos-vivos. É um bom raciocínio, que só erra no fato de que o governo é fraco, lento e corrupto. Além disso, o governo não está em um local cheio de humanos, mas separado em pequenos grupos que tem contato com mortos-vivos. Assim, lentamente o governo vai rendendo-se para o outro lado.

Isto abre espaço para os pequenos líderes locais. As pequenas tribos. Os machos alfa, que exaltados, acabam eliminando membros de seu próprio grupo em disputas de poder. Logo, a fome e a ausência dos confortos básicos irá se fazer presente. Também há o grupo dos crentes fervorosos que vão achar que tudo é a justiça divina e que a humanidade está apenas encontrando seu fim merecido...

A trajetória de Rick Grimes, seu filho Carl e Lori eu já conheço. Sinceramente você também... Rick irá ver os dois morrerem em algum momento. Irá sofrer. Irá ter que destruir o corpo deles ou de amigos/parentes transformados... Mas este é o destino final da trajetória. Até lá teremos que acompanhar seu sofrimento, porque já estamos presos...

O mestre Alan Moore disse uma vez: “Todas as histórias já foram contadas. O talento está em contá-las novamente para as novas gerações e de novas maneiras.” Kirkman está fazendo a sua parte. E eu vou acompanhar de perto, mas não muito por que se eles me morderem eu também vou me tornar um deles...

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