MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
11/10/2006
MATÉRIA: AS ARTES MARCIAIS NAS HQS - PARTE 2
 
 
Deadly Hands #6:Os Filhos do Tigre
 
 
Os Filhos do Tigre - arte de Sal Buscema
 
 
Deadly Hands #22: o Tigre Branco em ação
 
 
O Tigre Branco - arte de George Pérez
 
 
MTU #64: As Filhas do Dragão ao lado do Aranha
 
 
As Filhas do Dragão - arte de Marshall Rogers
 
 
Richard Dragon #1: a estréia de Richard Dragon
 
 
Richard Dragon x Shiva - arte de Dick Giordano
 


:: Parte II - As Mortíferas Mãos do Kung Fu

Aqui estamos de novo! Na primeira parte dessa série de artigos (caso não a tenham lido, cliquem aqui) falamos sobre a “febre de kung fu” que tomou conta do mundo nos anos setenta, e sobre como os quadrinhos americanos “embarcaram” nessa onda. Nessa segunda parte vamos continuar explorando os anos setenta, vendo se a Marvel e a DC aprontaram mais “alguma” no que se refere às artes marciais.

A Marvel Comics se deu muito bem lançando o Mestre do Kung Fu em 1973, e podemos imaginar que os editores da Marvel na época devem ter se feito várias perguntas. Perguntas do tipo: e se botarmos na praça mais uma revista de artes marciais? E se essa revista, além de quadrinhos, trouxer também reportagens com artistas marciais da vida real e reviews de filmes de kung fu? E se essa revista for lançada no formato magazine e for impressa em preto-e-branco? E se nessa revista vier aventuras não de um, mas de vários heróis? E se as aventuras publicadas nessa revista forem mais “maduras” que os costumeiros gibis de super-heróis? E se essa revista pudesse, além de chamar a atenção dos habituais moleques compradores de gibis, atrair também os adultos e os amantes de artes marciais? Bem, a resposta para todos esses questionamentos chegou às bancas, na forma da revista bimestral The Deadly Hands of Kung Fu (As Mortíferas Mãos do Kung Fu)!

Deadly Hands foi lançada em março de 1974 através da Curtis Magazines, uma divisão da Marvel criada justamente com o propósito de explorar material mais maduro, e foi publicada até 1977, quando foi cancelada após a edição #33. A primeira aposta dos editores da Marvel para esse gibi foi obviamente colocar histórias do Mestre do Kung Fu (que já tinha série regular própria) em seu mix, porém eles chegaram à conclusão de que, até para dar identidade própria para a nova revista, era preciso criar novos personagens especialmente para ela. E logo na edição #1 de Deadly Hands o roteirista Gerry Conway e o artista Dick Giordano nos trouxeram os Filhos do Tigre (Sons of the Tiger)! Os Filhos, no caso, eram um trio formado pelo ator almofadinha Robert “Bob” Diamond, pelo negro malandrão de rua Abraham “Abe” Brown e pelo cordato chinês Lin Sun, que era filho adotivo do Mestre Kee, o sábio idoso que ensinou aos três tudo e um pouco mais sobre artes marciais.

Mas deixemos as apresentações de lado e falemos da origem da equipe: Lin Sun estava retornando para casa após participar de um torneio de artes marciais quando foi atacado por um grupo de ninjas. Após derrotar os bandidos, Lin Sun se dirigiu até o dojo de Mestre Kee e encontrou o ancião a beira da morte. Quase sem forças, Mestre Kee lhe disse que existiam inúmeras forças malignas no mundo, lhe mostrou uma caixa e finalmente faleceu. Ao abrir a caixa, Lin Sun encontrou três amuletos de jade: dois em forma de patas de tigre e o terceiro semelhante ao rosto do mesmo felino. Ah, ele também percebeu que na caixa havia uma inscrição, que o autor desse artigo traduzirá aqui de uma forma bem livre: “Quando os três são chamados, e permanecem como um; como um eles lutarão, e assim será feito; para cada um deles nascem novamente... os Filhos do Tigre!”.

Posteriormente, Lin Sun encontrou seus antigos colegas Bob e Abe e eles lhe disseram que também sofreram ataques semelhantes, e juntos os três decidiram investigar a morte do seu mentor e dividir entre si os talismãs, que depois de um tempo foram batizados de Amuletos do Poder. Eles souberam mais tarde que os ataques foram ordenados por uma misteriosa organização secreta chamada “The Silent Ones” (Os Silenciosos), que na verdade era uma raça mais antiga que a Humanidade com planos de dominação mundial, e na batalha final contra os ninjas os três discípulos de Kee descobriram que, em posse dos amuletos, juntando as mãos e recitando o texto que estava inscrito na caixa a habilidade marcial de cada um deles triplicava, e o entrosamento em combate aumentava tanto que, tal qual dizia o texto, os três lutavam praticamente como se fossem um.

Gerry Conway e Dick Giordano fizeram a primeira história e criaram a origem dos Filhos do Tigre, porém as aventuras subseqüentes dos três artistas marciais ficaram a cargo de outros escritores como Doug Moench e Bill Mantlo, e de outros artistas, entre eles um tal de George Pérez, que na época estava dando início a sua brilhante carreira. Só que, por mais divertido e interessante que fosse o trio de lutadores, se fazia necessário incrementar a revista Deadly Hands, e para isso ela começou a apresentar a partir da edição #10 aventuras do Punho de Ferro, outro herói marcial da Marvel que já tinha revista própria. Ah, já que acabamos de falar do Punho de Ferro vale a pena citar que posteriormente foi descoberto que os Amuletos do Poder eram originários de Kun Lun, a cidade interdimensional onde Daniel Rand cresceu e treinou, o que explica o fato de os talismãs potencializarem tanto os talentos marciais dos seus usuários.

Entretanto, o tempo foi passando e os Filhos do Tigre foram começando a perder fôlego. Em Deadly Hands #10 a bela Lotus Shinchuko se tornou participante não-oficial da equipe, o que acabou criando um pouco de tensão entre os discípulos de Kee, já que todos eles tinham uma “quedinha” por ela. Tal tensão acabou explodindo em Deadly Hands #19, onde Bill Mantlo e George Pérez conceberam uma história chamada “An Ending” (Um Final), onde os Filhos do Tigre se separaram e Lin Sun se desfez dos amuletos jogando-os em uma lata de lixo em um beco escuro. Mas não pensem que esse foi realmente “um final”. Os Filhos ainda continuaram a dar as caras em Deadly Hands até o cancelamento da revista, só que depois disso os três artistas marciais praticamente sumiram do Universo Marvel. Bob Diamond apareceu algumas vezes no gibi Power Man and Iron Fist e lá iniciou um namoro com Colleen Wing, e recentemente foi visto em Fantastic Four #37 e #40 (no Brasil Quarteto Fantástico & Capitão Marvel #3 e 6, respectivamente em outubro de 2002 e janeiro de 2003, Panini), dando aulas de defesa pessoal para o Tocha Humana.

Após passar um tempo no Oriente Médio e assumir temporariamente a identidade do lendário herói mulçumano Black Tiger o nosso amigo Abe Brown retornou à Nova York e descobriu que o ex-vilão Gatuno (Prowler) era o seu irmão. Lin Sun, ao lado de Brown fundou uma escola de artes marciais, e assim como os seus colegas largou a vida de aventureiro. A última aparição dos Filhos do Tigre foi uma participação-relâmpago na mini-série Dinastia M (House of M), e por enquanto a Marvel aparentemente não tem planos de usá-los tão cedo. Quanto ao Brasil, as primeiras aventuras dos Filhos do Tigre foram publicadas pela EBAL até a edição #5 da revista Kung Fu, em 1974. Mas, voltando a falar da aventura “An Ending”, Mantlo e Pérez puseram nessa história o gancho para o surgimento de um novo herói, já que em suas últimas páginas um jovem porto-riquenho chamado Hector Ayala encontrou os Amuletos do Poder no beco, e usando-os se transformou no Tigre Branco (White Tiger), um dos primeiros super-heróis descendentes de imigrantes hispânicos a surgirem nos quadrinhos americanos.

Ayala nem precisava falar os versinhos que os Filhos do Tigre sempre eram obrigados a recitar para acessar o poder dos amuletos: bastava colocá-los em volta do seu pescoço para automaticamente adquirir uma habilidade marcial fora do comum, habilidade essa que ele começou a usar para combater o crime no bairro de South Bronx, em Nova York. Só que as coisas não foram nada fáceis para o nosso pretendente a herói: assim que ele retirava os amuletos todas as memórias de suas atividades como Tigre Branco eram esquecidas. Demorou um bom tempo até Ayala aprender a controlar suas transformações, porém como dureza pouca é bobagem o rapaz começou a desenvolver uma dependência física em relação aos amuletos, e era só ele ficar algum tempo afastado deles para começar a sentir mal-estar e dores. Nada que o impedisse de combater o mal e de dar muitos golpes de kung fu, é claro.

Sobre a criação do Tigre Branco e a parceria com George Pérez o roteirista Bill Mantlo deu o seguinte depoimento ao fanzine BEM, em 1979: “George, é claro, é hispânico, porto-riquenho para ser mais exato, e tinha um conhecimento intimo do que era o South Bronx. Então eu disse: ‘George, vamos criar um personagem que mostre essa dura realidade!’. Eu descrevi o uniforme como sendo semelhante ao do Homem-Aranha sem os detalhes (lembrem-se, não existem cores em gibis em preto-e-branco) e George foi lá e o desenhou. A concepção do uniforme foi minha, porém ninguém traz um personagem à vida como George Pérez, então nós compartilhamos o crédito por ter criado Hector Ayala/Tigre Branco”.

Não é difícil perceber pelas declarações acima que Mantlo tinha muito carinho pela sua criação. Tanto isso é verdade que assim que as aventuras do Tigre Branco chegaram ao fim em Deadly Hands o escritor deu um jeitinho para no final dos anos setenta fazê-lo um personagem recorrente no gibi Peter Parker: The Spetacular Spider-Man. Em uma dessas participações, o vilão Mestre da Luz (Lightmaster) confundiu o Tigre com o Aranha, e após capturá-lo desmascarou-o em uma transmissão televisa em Peter Parker #20, o que acabou com qualquer chance de Ayala manter sua identidade secreta. Depois de tal revelação o rapaz resolveu dar um tempo na vida de super-herói, só que o mercenário Gideon Mace não deixou o jovem cumprir seus planos. Mace pretendia armar um ataque maciço contra todos os super-heróis de Nova York e seu primeiro alvo foi o Tigre Branco, já que sua identidade era de conhecimento público, e o resultado dessa escolha é que toda família de Ayala foi assassinada e o herói foi fuzilado, ficando entre a vida e a morte.

O Homem-Aranha conseguiu derrotar Mace, porém as perdas para Ayala foram tantas que ele desistiu de vez da carreira de herói, e após conseguir se livrar da dependência física dos Amuletos do Poder o jovem porto-riquenho pediu a um policial que era seu amigo pessoal chamado Blackbyrd que os devolvesse aos Filhos do Tigre, como pode ser visto em Peter Parker #52, de 1981 (no Brasil Homem-Aranha #25, 1985, Ed. Abril). E então ele foi embora de Nova York, rumo ao Limbo dos Quadrinhos, e por lá ele permaneceu por muito, muito tempo...

Durante a digamos assim “ausência” de Hector Ayala duas outras pessoas vestiram o manto do Tigre Branco: a primeira foi uma tigresa de bengala evoluída à uma forma humanóide pelo Alto Evolucionário que participou da revista Heroes for Hire (Heróis de Aluguel) nos anos noventa, e que na última edição desse gibi reverteu a sua forma original. No Brasil ele foi chamada de Tigresa Branca. Já a segunda pessoa foi o policial nova-iorquino Kevin "Kasper" Cole, que durante um tempo substituiu o Rei Tchalla no papel de Pantera Negra na série regular do personagem no inicio do século XXI. Essa substituição deixou Tchalla tão impressionado que após retomar o manto do Pantera Negra o Rei de Wakanda acabou fornecendo a Kasper um uniforme branco e equipamentos semelhantes aos seus, e assim o policial acabou adotando a alcunha de Tigre Branco e virou um entre os tantos combatentes do crime que atuavam em Nova York. Porém ele logo se foi para o Limbo dos Quadrinhos... E adivinhem quem voltou de lá em 2003?

Bem, quem voltou foi Hector Ayala, e dessa vez na revista do herói cego Demolidor, porém em uma situação bem pouco confortável: na revista Daredevil #38 (no Brasil Demolidor #1, fevereiro de 2004, Panini), a história escrita por Brian Michael Bendis e desenhada por Manuel Gutierrez e Terry Dodson trazia Hector novamente atuando como o Tigre Branco (Bendis não explicou como ele retomou os Amuletos do Poder), só que durante a tentativa de impedir um assalto o herói foi acusado de assassinato. Levado a julgamento, Ayala foi condenado, e desesperado, tentou fugir, mas dessa vez as coisas não acabaram nada bem para o porto-riquenho, já que uma rajada de tiros da polícia pôs fim a sua vida, como pode ser constatado na leitura da revista Daredevil #40 (no Brasil Demolidor #3, 2004, Panini). Todavia... esse não era o fim do legado do Tigre Branco.

Os Amuletos do Poder foram herdados pela agente do FBI e sobrinha de Ayala chamada Angela Del Toro, e após se aconselhar com o Demolidor nos gibis Daredevil #68-70 (no Brasil Demolidor #26-28, 2005, Panini) ela decidiu que deveria continuar aquilo que seu tio começou, e assim a moça assumiu a identidade heróica de Tigresa Branca. As aventuras da nova heroína serão retratadas em uma mini-série em seis partes que será publicada em 2006, e tal mini-série será roteirizada pelos escritores best-seller Tamora Pierce e Timothy Liebe e os desenhos ficarão a cargo do artista francês Phil Briones, e sinceramente esperamos que eles sejam bem-sucedidos nessa tarefa, já que o legado do Tigre Branco tem potencial para gerar boas histórias, e novas personagens femininas fortes são sempre bem-vindas. E, aproveitando que estamos falando de personagens femininas, aqueles que leram a primeira parte dessa série de artigos se lembram de Colleen Wing e Misty Knight?

Colleen e Misty sempre foram coadjuvantes de peso dentro da série regular do Punho de Ferro, e em 1977 os editores da Marvel decidiram que as duas moçoilas mereciam a chance de ter algumas histórias-solo. Dito isso, no começo daquele ano Deadly Hands #32-33 trouxeram respectivamente duas aventuras protagonizada pelas detetives particulares escritas por Chris Claremont e desenhadas por Marshall Rogers, sendo que em ambas elas encararam chefões criminosos. Só que seria meio cafona intitular tais histórias de “As Aventuras de Colleen e Misty”, não acham? A equipe editorial da Marvel também deve ter achado, e por isso deram para as duas um novo nome, no caso Filhas do Dragão (Daughters of the Dragon)! Elas ainda apareceram com destaque em Marvel Team-Up #64 (no Brasil em Heróis da TV #75 e 76, 1985, Ed. Abril), onde ajudaram o Homem-Aranha e o Punho de Ferro a enfrentarem o vilão Serpente de Aço (Steel Serpent), e em 1981 elas novamente atuaram por conta própria em mais uma aventura concebida por Claremont e Rogers, publicada na revista em preto-e-branco Bizarre Adventures #25.

No inicio dos anos noventa, elas tiveram algumas histórias curtas publicadas em Marvel Comics Presents, e por fim como coadjuvantes as duas detetives fizeram parte do gibi Heroes for Hire, no final dos anos noventa. De lá pra cá, sobraram apenas participações esporádicas em outros gibis da Marvel. Até 2006, que fique bem claro, já que a Marvel encomendou à dupla Justin Gray e Jimmy Palmiotti uma mini-série em seis partes desenhada pelo artista-revelação Khari Evans, onde Colleen e Misty têm o merecido destaque, dessa vez atuando como caça-recompensas especializadas na captura de super-vilões. Mas as coisas não pararam por ai, já que essa mini-série na verdade foi apenas um aquecimento para o lançamento de uma nova série regular batizada de Heroes for Hire (o mesmo nome de uma outra série tantas vezes citada nessa série de artigos), onde ao lado de Shang Chi e de outros heróis as Filhas do Dragão finalmente voltam a aparecer de forma constante no Universo Marvel.

Com certeza a nossa audiência já deve estar se perguntando se a DC Comics também não tentou tirar uma “casquinha” da “febre de kung fu” dos anos setenta. Ora, é claro que sim! E tal qual a Marvel fez com Shang Chi, a DC Comics foi buscar inspiração na literatura, no caso no romance Dragon’s Fist, escrito por Jim Dennis (pseudônimo da dupla James R. Berry e Denny O’Neill). Negociando com os autores, a DC Comics comprou os direitos sobre o livro e em abril de 1975 lançou com pompa e circunstância o gibi Richard Dragon, Kung Fu Fighter! As quatro primeiras edições da nova revista foram escritas e editadas pelo próprio Denny O’Neill tendo como base o livro, e nelas conhecemos as origens e motivações do novo herói: Richard Drakunovski era um jovem ladrãozinho ordinário que rumou ao Japão a fim de aplicar alguns golpes, e lá ele tentou furtar uma estátua de Buda esculpida em jade de uma escola de artes marciais próxima a Kioto. Durante o assalto ele foi descoberto e facilmente capturado por Benjamin “Ben” Turner, o melhor estudante da escola. Turner levou o cativo até o seu mestre, o sábio O-Sensei, que assim que botou os olhos em Richard vislumbrou nele um imenso potencial oculto.

Bom, daí para frente as coisas se seguiram de acordo com os velhos clichês do gênero: O-Sensei propôs a Richard que ele ficasse na escola e se tornasse seu aluno, Richard aceitou e após sete anos de duros treinamentos o ex-ladrão se tornou um exímio artista marcial e passou a adotar a alcunha de Dragon (Dragão). Tempos depois o agente federal Barney Ling recrutou Dragon e Turner para a organização americana de contra-espionagem conhecida como G.O.O.D., e a primeira missão para qual os dois foram designados foi o resgate da afilhada de O-Sensei, a jovem Carolyn Woosan, que havia sido seqüestrada por criminosos ligados ao empresário Guano Cravat. Eles até que foram bem-sucedidos na missão, porém na edição #4 a moça foi assassinada pelo bandido chamado Swiss (Suíço), e essa foi a “deixa” para que Cravat convencesse a irmã de Carolyn — a artista marcial Sandra Woosan — de que Dragon foi o culpado pela morte de sua parente.

Aí, na edição #5 Dragon lutou contra Sandra, e é óbvio que o mal-entendido foi desfeito e a lutadora se transformou na sua parceira e amante. Só que, além disso, Sandra abandonou seu nome de batismo e passou a se autodenominar Shiva (nome da deusa hindu da destruição), a fim de demonstrar a sua busca por elevação espiritual. E, ao lado de Dragon e de Ben Turner ela rodou o mundo a serviço da G.O.O.D, sempre resolvendo os mais complicados casos.

O gibi de Richard Dragon até que era bacana, e diversos artistas desenharam os roteiros de Denny O’Neill, inclusive Jack Kirby, que foi responsável pela arte da edição #3. Algumas dessas histórias foram publicadas em terras brasileiras em meados dos anos setenta pela EBAL nos gibis Kung Fu e Dragão do Kung Fu. Mas lá nos States após a edição #18 o gibi foi cancelado, e os personagens nele publicados tomaram diferentes rumos no Universo DC. Cansado da violência do mundo Dragon se retirou para uma choupana no interior dos EUA e dedicou sua vida a contemplação e ao ensino das artes marciais. Ben Turner foi capturado por uma organização mercenária conhecida como Liga dos Assassinos e após uma intensa lavagem cerebral virou o principal assassino da mesma, e passou a ser conhecido como Tigre de Bronze (Bronze Tiger).

Tempos depois, Turner superou a lavagem cerebral e se integrou a equipe governamental americana conhecida como Esquadrão Suicida, chegando até mesma a liderá-la. Shiva abandonou os ideais da época em que estava ao lado de Dragon e passou a seguir um código de honra pessoal, transformando-se na mais mortífera assassina do mundo, vendendo seus serviços a quem pagasse mais. Em um desses serviços, Shiva se encontrou com o super-herói Questão, e percebendo que ele tinha muita garra, mas nenhum treinamento, acabou lhe indicando um professor de defesa pessoal. Bom, usando nossos vastos recursos mentais podemos chegar a conclusão que tal professor era Richard Dragon, e mesmo paralítico e sentado em uma cadeira de rodas o ex-agente da G.O.O.D. ensinou o herói sem face a lutar, como pode ser visto em Question #3, de 1986 (no Brasil, Batman #3, 1988, Ed. Abril).

Anos mais tarde, Dragon fez outras aparições novamente no papel de professor, dessa vez ensinando a paralítica Bárbara Gordon e a Caçadora alguns dos seus truques, só que dessa vez ele estava andando normalmente. Para justificar esse erro de continuidade os editores da DC Comics “explicaram” que quando Richard treinou o Questão ele se fingiu de deficiente físico para estimular o seu pupilo. Mas... será que o papel de professor seria o suficiente para um personagem tão interessante quanto Richard Dragon?

O escritor Chuck Dixon e o artista Scott McDaniel achavam que não, e ambos capitanearam o relançamento do gibi de Richard Dragon em julho de 2004. Só que nesse relançamento a origem do personagem foi completamente reformulada: Dragon na juventude era um molequinho que, depois de muito apanhar dos amiguinhos na escola foi ter aulas de kung fu com Ben Turner. Ele logo se transformou em um grande lutador, e maior de idade foi disputar um torneio no Japão, onde deu de cara com Shiva. E aí... eles viraram amantes (é óbvio!), e Dixon e McDaniel deixaram subentendido que Dragon e Shiva realizaram juntos diversos serviços criminosos durante um determinado período. Depois de largar (ou ser largado por) Shiva, Dragon abriu uma academia, e prestou seus serviços de professor a um jovem chamado Bruce Wayne — mais tarde conhecido pelo nome de Batman — e a outros heróis desprovidos de super-poderes em início de carreira. Depois dessa fase Dragon caiu no mundo, arrumando briga e confusão por diversos lugares, até que o seu mestre e amigo Ben Turner o chamou de volta, para auxiliá-lo na tentativa de capturar Shiva.

Pois é, o novo gibi do Richard Dragon era legal, coisa e tal... Só que os fãs não gostaram muito dele, e tanto isso é verdade que após a edição #12 a revista foi cancelada, e na última história Dragon foi morto pela sua ex-amante em um combate mortal. Mas, será mesmo que ele morreu? Na última página Dragon foi aparentemente ressuscitado pelo demônio Neron — com quem tinha um pacto — e o seu destino final é desconhecido. Quem sabe de repente ele não volta? E quanto a Shiva... Bem, sua origem também foi modificada, sendo que ela e sua irmã passaram a ser duas mocinhas originárias de Detroit que desde cedo demonstraram muito talento para artes marciais.

Tais talentos chamaram a atenção de um mercenário chamado David Cain, e iremos encerrar por aqui qualquer especulação sobre Shiva, porque esperamos que a nova origem da mercenária seja publicada no Brasil, e que alguns segredos que a ligam a nova Batgirl sejam finalmente revelados aos leitores brasileiros. Assim como esperamos também que chegue até nós a futura participação de Shiva em uma certa equipe de super-heroínas. Mas falemos do futuro agora, mais especificamente do século XXX. Mas, esperem um pouco, o que o século XXX tem a ver com artes marciais? Tem tudo a ver, já que o próximo herói de quem falaremos vem de lá, e o seu nome é Karate Kid!

Karate Kid deu as caras pela primeira vez no mundo dos comics no gibi Adventure Comics #346 em 1966, através das mãos de do escritor Jim Shooter e do desenhista Curt Swan. O seu verdadeiro nome era Val Armorr, e ele era filho de um lorde criminoso japonês chamado Black Dragon com Valentina Armorr, uma espiã infiltrada na organização de Dragon, que assim que foi descoberta acabou sendo morta pelo marido. Tal fato não fez com que o pequeno Val crescesse desamparado, já que o menino foi adotado pelo Sensei Toshiaki White Crane, que o treinou em diversas modalidades marciais.

Anos mais tarde, Val viajou por toda a galáxia e durante esse “tour” assimilou as mais variadas técnicas de combate alienígenas, entre elas a capacidade de perceber o “ponto fraco” de qualquer estrutura ou adversário e, ao retornar a Terra ele soube que a Legião de Super-Heróis estava à procura de novos membros. Mesmo desprovido de super-poderes Val conseguiu arrumar uma vaga na Legião, já que seus talentos marciais eram tantos que ele era capaz de dominar até mesmo o Superboy, o mais poderoso integrante da super-equipe! Após conseguir o emprego de legionário só faltava ao nosso herói arrumar uma namorada, e isso não demorou muito a acontecer, já que ele acabou envolvendo-se com a colega de equipe conhecida como Princesa Projecta.

O único problema que nosso amiguinho tinha era um certo complexo de inferioridade em relação aos seus companheiros legionários, já que ele praticamente era o único membro da Legião sem super-habilidades. Dito isso, o nosso herói se impôs um desafio: ele pegaria uma das bolhas do tempo da Legião e iria para uma época onde os homens eram homens de verdade, e onde suas habilidades poderiam ser verdadeiramente testadas: o século XX! E esse foi o mote para o lançamento da revista-solo mensal do Karate Kid, que chegou às bancas em abril de 1976, com roteiros de Paul Levitz na primeira edição (e nas subseqüentes de Barry Jameson) e arte de Ric Estrada.

Bom, as aventuras do Karate Kid em nossa época eram um tanto quanto... diferentes, digamos assim. Muitas delas chegaram até nós através da gloriosa EBAL nos anos setenta e foram publicadas no gibi homônimo e na revista Superamigos. Porém, em 1978, após o lançamento da edição #18 o gibi foi cancelado nos EUA, e nessa última edição o simpático lutador retornou ao século XXX e aos braços de sua amada. Depois desse retorno Val se integrou novamente a Legião, e quando a Editora Abril adquiriu os direitos de publicação da DC Comics nos anos oitenta o lutador foi rebatizado com o nome de Marcial. Todavia, os fãs sabem melhor do que ninguém que não existe no mundo dos quadrinhos equipe de super-heróis que tenha sido reformulada mais vezes que a dos super-adolescentes do futuro.

Em algumas dessas versões, o Karate Kid foi solenemente ignorado, e no último relançamento do grupo nos EUA Mark Waid e Barry Kitson bolaram uma nova versão do herói. Porém, não é sabido se existem planos especiais para ele. O que se sabe é que existe uma famosa série cinematográfica dos anos oitenta chamada Karate Kid. Coincidência? Muito pelo contrário! Quando a Columbia Pictures quis lançar um filme que contasse as aventuras do jovem Daniel Larusso (interpretado por Ralph Macchio) aprendendo karate com o velho Senhor Myagi (Pat Morita) ela decidiu batizá-lo com o nome de Karate Kid, porém como essa era uma marca registrada da DC Comics os produtores tiveram que obter a permissão da editora para usá-lo. A Columbia conseguiu a permissão para usar a marca, e daí inspirados nessa película um montão de moleques na época foi correndo atrás de academias de karate, para ver se aprendiam um ou outro golpe!

Bom, nossa audiência com certeza já está exaurida após a leitura desse texto tão longo, porém antes de acabarmos devemos concluir algumas coisas que são um tanto quanto óbvias: praticamente todos os títulos de artes marciais nos anos setenta tiveram duração curta. Talvez as “Mortíferas Mãos do Kung Fu” não fossem tão mortíferas assim...

Mas não pensem que as coisas terminam por aqui. Afinal de contas, as artes marciais ainda tiveram “gás” o bastante para nos anos oitenta influenciarem diversos gibis, e esse será o tema da terceira parte da nossa série de artigos sobre pancadaria oriental nos quadrinhos americanos. Até lá!


Brodie Bruce, também conhecido como Claudio Roberto Basilio.


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Karate Kid #1: o legionário em sua revista-solo
Karate Kid fazendo pose - arte de Mike Grell
 


 

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