MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
30/10/2006
MATÉRIA: AS ARTES MARCIAIS NAS HQS - PARTE 3
 
 
Daredevil #175: Demolidor ao lado de Elektra
 
 
Elektra - arte de Frank Miller e Lynn Varley
 
 
Kitty Pride e Wolverine: mutantes contra ninjas
 
 
Ronin: samurai em futuro apocalíptico
 
 
TMNT #1: homenagem a Ronin
 
 
As Tartarugas Ninja - arte de Eastman e Laird
 
 
Usagi Yojimbo, de Stan Sakai
 
 
Yojimbo com cara de mau - arte de Stan Sakai
 


:: Parte III - Ninjas e Mutantes

Voltamos novamente! Nas duas primeiras partes dessa série de artigos sobre artes marciais nos quadrinhos (caso não as tenham lido, clique aqui e aqui) nós fizemos um longo “passeio” pelos anos setenta, vendo o que a Marvel e a DC fizeram para tirar proveito da “kung fu mania” vigente na época. Vimos também que no final daquela década tal moda arrefeceu, e uma das conseqüências disso foi o cancelamento da maioria dos gibis do gênero. Mas os anos oitenta estavam chegando, e a pancadaria oriental estava longe de sumir de vez. Se nos anos setenta a principal influência dos artistas era o cinema de ação produzido em Hong Kong, na década de oitenta eles beberiam em outras fontes, advindas basicamente do Japão. Tais fontes no caso seriam os mangás, os desenhos animados e seriados nipônicos e até mesmo a literatura, através de livros como A Espada e o Crisântemo, de Ruth Benedict, Shogun, do britânico James Clavell e Musashi, biografia do lendário samurai do século XVII Miyamoto Musashi escrita por Eiji Youshikawa. Mas, deixemos os “entretantos” de lado e vamos logo ao que interessa, ora, pois!

Com certeza todo gibizeiro que se preze já ouviu falar do herói cego Demolidor, e sabe de cor e salteado que o jovem Matthew Murdock perdeu a visão após salvar um idoso de ser atropelado por um caminhão que transportava material de alta periculosidade, sendo assim atingido nos olhos por um artefato radiativo carregado no veículo, o que lhe conferiu seus superpoderes. E todo fã das antigas com certeza também sabe que no final dos anos setenta o gibi do Homem sem Medo estava prestes a ser cancelado, até que um iniciante na indústria dos quadrinhos chamado Frank Miller assumiu as rédeas do título, transformando-o em um dos maiores best-sellers do inicio dos anos oitenta. Miller conseguiu essa proeza ao misturar nessa revista diversos elementos, que iam desde os romances noir até os quadrinhos de Will Eisner. Mas, como Miller viveu nos anos setenta a base de uma dieta cheia de filmes de kung fu, e como nos tempos da faculdade ele travou o primeiro contato com os quadrinhos japoneses, não demorou muito tempo para uma coisinha ou outra de arte marcial aparecer no gibi do Demolidor. Essa “coisinha ou outra” deu as caras em janeiro de 1981 na revista Daredevil #168, e a nossa audiência já deve ter adivinhado que estamos falando de Elektra!

Miller criou Elektra Natchios através do recurso do retcon (um dos truques mais manjados dos gibis), definindo que ela era uma jovem grega com um excepcional talento para artes marciais, e cujo pai diplomata botou para estudar na mesma universidade de Matthew Murdock. É claro que nessa época ambos iniciaram um relacionamento amoroso, só que a morte violenta do pai durante um seqüestro fez com que Elektra rompesse o namoro com Murdock e caísse no mundo, com o propósito de aumentar ainda mais suas habilidades de luta. Essa busca fez com que Elektra inicialmente encontrasse o mestre cego chamado Stick (que treinou Murdock logo após o mesmo perder a visão) e a sua ordem de guerreiros ninjas conhecida como Os Virtuosos (The Chast). Só que as tendências violentas de Elektra fizeram com que ela fosse rejeitada pelos Virtuosos, mas a jovem grega não ficaria muito tempo ao léu, já que acabou encontrando abrigo na milenar organização mercenária japonesa chamada Tentáculo (The Hand), que lhe impôs um rigoroso treinamento, transformando-a em uma das mais mortíferas assassinas do mundo. Tempos depois Elektra rompeu com o Tentáculo e passou a atuar como uma mercenária independente, e quis o Destino que ela fosse contratada como executora pela organização criminosa do vilão nova-iorquino conhecido como Rei do Crime, e daí não demorou muito para a moçoila entrar em rota de colisão com seu antigo namorado, e também bater de frente com o Tentáculo, que não ficou nem um pouco contente com sua demissão.

Como foi dito acima Miller se inspirou nos filmes de artes marciais e na cultura japonesa para criar Elektra, porém alguns outros elementos não tão óbvios foram usados na concepção da personagem, como podemos constatar nesse depoimento do roteirista ao sitio Comicdom Online: “Compare a Sand Saref de Eisner (vilã recorrente do Spirit) com a primeira aparição de Elektra. Eu copiei essa estrutura. Quando eu escrevi e desenhei o Demolidor, Elektra acabou se transformando por conta própria em uma assustadora fantasia sexual. Eu não me lembro que Eisner tenha criado uma história onde um antigo amor do Spirit o enganou para que ele pisasse em uma armadilha de urso (Daredevil #179)”. Entretanto, armadilhas de urso com certeza não foram o ápice das aventuras concebidas por Miller.

Indiscutivelmente o ponto mais alto de toda a série (e um dos mais altos dos quadrinhos americanos nos anos oitenta) foi quando em Daredevil #181 a assassina foi executada pelo vilão Mercenário, que desejava o “emprego” de Elektra. Os fãs ficaram desesperados com a morte da personagem, todavia Miller ainda deu alguma esperança aos jovens nerds, já que em Daredevil #190 o Tentáculo se valeu de obscuras técnicas místicas para tentar ressuscitar a mercenária e transformá-la em escrava da organização. O Demolidor e os Virtuosos entraram em confronto com o Tentáculo a fim de impedir que eles cumprissem esse intento, porém bem no meio da batalha o amor que o herói cego tinha por Elektra fez com que ele mesmo tentasse revivê-la, passando parte de sua própria energia vital ao cadáver da amada e quase morrendo nesse processo. No final de tudo o Tentáculo foi derrotado e o cadáver de Elektra desapareceu, e nas últimas páginas os leitores puderam ver a anti-heroína escalar uma montanha, e ao chegar no topo envergar roupas brancas, o que seria um sinal de que ela realmente ressuscitou e que foi purificada de seus pecados pela energia vital do Demolidor. Todas essas histórias foram publicadas aqui na “terrinha” pela Editora Abril na fase áurea da revista Superaventuras Marvel, entre 1982 e 1986, e posteriormente ganharam uma bela republicação pela Panini entre 2003 e 2005 nas quatro edições especiais Os Maiores Clássicos do Demolidor.

Depois que Miller acabou seu trabalho no Demolidor a mercenária ressurgiu em mais dois trabalhos do mesmo autor: em 1986, na mini-série Elektra Assassina (no Brasil em 1988, pela Editora Abril e em 2004 pela Panini), que cronologicamente se passa depois do período em que Elektra abandonou o Tentáculo e antes de sua contratação pelo Rei do Crime, e que foi magnificamente ilustrada por Bill Sienkiewicz; e em 1990, na graphic novel Elektra Lives Again (no Brasil em 1991, pela Editora Abril), onde, atuando secretamente a ninja impediu o Tentáculo de usar o Mercenário como assecla. Por fim Miller decidiu que sua anti-heroína estava morta e enterrada de vez, e foi feito um acordo verbal entre ele e a Marvel no qual foi combinado que a personagem somente seria usada com a permissão do autor. Mas vocês sabem como são as coisas...Não demorou muito e a Marvel mandou esse acordo às favas e Elektra voltou novamente a dar as caras no gibi do Demolidor em meados dos anos noventa e em 1996, ganhou um gibi-solo capitaneado pelo escritor Peter Milligan e pelo desenhista Mike Deodato Jr. Gibi que, diga-se de passagem, foi um fracasso de vendas, já que foi cancelado após a décima-nona edição. A Marvel tentaria novamente lançar uma série regular da Elektra em 2001, só que nem o talento dos roteiristas Brian Michael Bendis e Greg Rucka fizeram desse gibi um sucesso, e o resultado final também foi o cancelamento. Depois de tudo isso hoje Elektra vive de participações especiais nas revistas de outros heróis da Marvel. Talvez a melhor explicação para esses sucessivos fracassos fosse a ausência de Frank Miller na hora de escrever ou desenhar as histórias da personagem, mas isso dificilmente acontecerá. Afinal de contas, se algum dia encontrarmos Miller e perguntarmos a ele qual a sua opinião sobre Elektra, mesmo sabendo que a personagem já migrou para a tela grande em 2004 sua resposta curta e grossa possivelmente será: “Elektra está morta”. Pois é, Miller considera Elektra “morta”, mas não pensem que ela foi o único personagem com a qual ele “brincou” de artes marciais!

Em 1982, Miller se juntou ao roteirista Chris Claremont a fim de conceber a primeira mini-série do Wolverine (no Brasil em 1987, pela Ed. Abril e em 2005 pela Panini), onde o baixinho invocado se dirige ao Japão para salvar sua namorada Mariko Yashida (nome inspirado na principal personagem feminina do romance Shogun) das garras do pai dela, o líder yakuza Lorde Shingen. Naturalmente as coisas não foram fáceis para o nosso herói, já que ele teve que encarar dezenas de ninjas, mas como sempre tudo terminou bem. Em 1984, Claremont e o desenhista Al Milgrom estreitariam ainda mais as relações de Wolverine com o Japão na mini-série Kitty Pride and Wolverine (No Brasil, Wolverine e Kitty Pryde, Ed. Abril, em 1989), onde o irascível mutante se viu obrigado a resgatar a caçula dos X-Men das garras de Ogun, um ninja que no passado havia ensinado Wolverine a conter a sua fúria interior. Mas, cá entre nós, essa história não foi lá grande coisa. Legal mesmo foi uma série fechada escrita e desenhada por Frank Miller chamada Ronin!

Para quem nunca ouviu falar dela, podemos explicar que em 1983, Miller recebeu carta branca da DC Comics para tocar um projeto autoral e o resultado foi uma mini-série em seis edições ambientada em um futuro pós-apocalíptico, onde o espírito de um samurai errante do século XVII se aloja no corpo de um telecinético, sendo que tal fato dá início a terríveis acontecimentos. Esse trabalho chegou até nós em 1988, através da Editora Abril e foi republicado em 2004 pela Opera Graphica, e a sensacional combinação de mangás e quadrinhos europeus perpretada por Miller influenciou diversos artistas no mundo inteiro. Entre eles dois amigos chamados Kevin Eastman e Peter Laird. Talvez a nossa audiência não se recorde do nome desses caras, mas indiscutivelmente deve se recordar da maior criação deles, um grupo de estranhos artistas marciais conhecidos como as Tartarugas Ninja (Teenage Mutant Ninja Turtles)!

A criação das Tartarugas Ninja é uma daquelas histórias tão despretensiosas e improváveis que custamos a acreditar que seja verdadeira. Tudo começou em meados de 1983, em um dia em que Eastman estava visitando a casa do seu amigo Laird, e ambos estavam matando o tempo vendo televisão e desenhando. De repente, Eastman desenhou uma tartaruga antropomorfizada empunhando nunchakus e a mostrou ao seu amigo, falando: “Olhe, uma Tartaruga Ninja!”. Laird gostou do que viu, e conversa vai, conversa vem ambos decidiram parodiar os trabalhos de Frank Miller e os X-Men, criando um grupo com quatro tartarugas ninjas e mutantes armadas até os dentes com apetrechos de artes marciais japonesas. Todavia, quando foram batizá-las individualmente eles decidiram evitar nomes orientais, como explicou Eastman em artigo publicado no sitio oficial das Tartarugas Ninja: “Não queríamos usar nomes japoneses porque achamos que eles soariam estranhos aos leitores americanos. Então decidimos ir para a direção oposta e usamos nomes europeus. Como nós dois tínhamos estudado História da Arte, nós as batizamos de Raphael, Donatello, Leonardo e Michelangelo (pintores renascentistas italianos)”.

Pois é, a dupla gostou dos personagens que criaram, mas eles não tinham nenhuma editora interessada em publicar os simpáticos quelônios. A solução que ambos encontraram para esse problema foi partir para a publicação independente criando a própria editora através de empréstimos feitos junto aos parentes mais próximos, e que foi batizada com o nome de Mirage Studios. Então, nossos amigos imprimiram 3.000 edições em preto e branco do primeiro gibi das Tartarugas (que tinha uma capa semelhante à da primeira edição de Ronin) e o anunciaram no Comic Buyer’s Guide, uma das mais conceituadas publicações sobre quadrinhos do mercado americano. Para o espanto de Laird e Eastman o boca-a-boca fez das Tartarugas um fenômeno instantâneo e eles foram obrigados a imprimir novas cópias da primeira edição para atender a demanda. E convenhamos, a história mostrada nessa edição era tão bizarra e divertida que justificava esse sucesso: tudo começou com um rapaz chamado Hamato Yoshi, que tinha um ratinho de estimação chamado Splinter...

Yoshi era o melhor ninja do Clã do Pé (uma gozação com o Tentáculo de Frank Miller) e ele acabou se tornando rival do colega de clã Oroku Nagi pelo amor da bela Tang Shen. A moça preferiu ficar com Yoshi, e Nagi não ficou muito contente com isso, e demonstrou esse descontentamento espancando impiedosamente Tang Shen. Yoshi testemunhou a cena e tomado pela fúria assassinou Nagi, e depois disso ele e Shen foram obrigados a fugir para os Estados Unidos, a fim de evitar a vingança dos outros membros do Clã do Pé. O jovem irmão de Nagi chamado Oroku Saki cresceu com um ódio mortal por Yoshi e treinou o máximo possível para um dia vingar a morte do seu irmão, e assim que atingiu a maioridade ele assumiu a alcunha de Destruidor (Shredder). E a vingança se concretizou, da maneira mais violenta possível, é claro. Com a morte do seu dono o ratinho Splinter ficou abandonado nas ruas e testemunhou um acidente de trânsito onde um jovem impediu um idoso de ser atropelado por um caminhão carregado de produtos radiativos (isso não se parece com a origem de um certo Homem sem Medo?), e testemunhou também um artefato vindo do caminhão atingir um aquário com quatro filhotes de tartarugas. Os pequenos quelônios acabaram caindo no esgoto junto com o artefato e Splinter os seguiu até lá, e viu que as tartaruguinhas estavam banhadas na substância que havia dentro do recipiente. Splinter também entrou em contato com a substância, e percebeu que a sua inteligência e tamanho começaram a aumentar, e o mesmo aconteceu com as tartarugas. Em poucas semanas eles estavam completamente antropomorfizados, e a partir desse momento Splinter iniciou seus planos de vingança pela morte de seu antigo dono, ensinando as tartarugas tudo aquilo que aprendeu assistindo os treinamentos de Hamato Yoshi. E assim que os pupilos de Splinter chegaram à idade de quinze anos eles foram à desforra contra o Destruidor...

As Tartarugas fizeram um baita sucesso, e a maior “sacada” dos seus criadores foi explorar o licenciamento da marca “Tartarugas Ninja”. É claro que nesse processo muito da violência e do humor negro que havia nos quadrinhos originais foram “suavizados”, mas daí para frente, a imagem das Tartarugas estampou lancheiras, cadernos e brinquedos e logo elas chegaram à televisão na forma de desenhos animados que botaram na boca de crianças e adolescentes do mundo inteiro o grito de guerra do bando – Cowabunga! Isso sem falar em três filmes para o cinema que foram extremamente bem-sucedidos e uma série de tv com atores, com direito a um crossover com os Power Rangers. O licenciamento também permitiu que os quadrinhos das Tartarugas fossem publicados por outras editoras, como a Archie Comics (que lançava histórias baseadas no desenho animado), a Image e a Dreamwave Productions, porém nos dias de hoje apenas o Mirage Studios publica histórias dos simpáticos quelônios. O que lamentamos é que infelizmente os únicos quadrinhos das Tartarugas que chegaram ao Brasil foram as três primeiras histórias do grupo, que foram publicadas em uma edição especial da extinta editora Nova Sampa em 1990, um crossover com o herói Savage Dragon, lançado pela Editora Abril em meados dos anos noventa e algumas das histórias da Archie através da Editora Xangri-la no final dos anos oitenta. Com o lançamento de um novo longa-metragem das Tartarugas Ninja totalmente feito em computação gráfica prometido para 2007, quem sabe essa situação não muda? Bom, o que importa é que as Tartarugas fizeram de Laird e Eastman homens ricos, e foi um dos fatores que detonaram um “boom” de uma série de trabalhos independentes como Adolescent Radioactive Black Belt Hamsters, Cold-Blooded Chameleon Commandos e Pre-Teen Dirty-Gene Kung Fu Kangaroos. Como podemos perceber, alguns eram cópias descaradas das Tartarugas, porém em meio a esse festival de bobagens uma pequena “pérola” se destacou, e ela atende pelo nome de Usagi Yojimbo!

Antes de falar sobre Usagi Yojimbo devemos falar um pouco sobre o seu criador, o artista nipo-americano Stan Sakai. No início dos anos oitenta ele ganhava um “troco” fazendo o letreiramento do gibi Groo, o Errante, do seu amigo e ídolo Sergio Aragonés, porém ele sempre desejou criar uma série própria. Misturando diversas influências, que iam dos filmes de Akira Kurosawa a vida do lendário samurai Miyamoto Musashi, e se inspirando também em quadrinhos como Lobo Solitário e o próprio Groo, Sakai bolou um personagem que inicialmente batizou com o óbvio nome de Miyamoto. Todavia, as suas idéias foram evoluindo e por fim Sakai decidiu transformar o seu samurai em um coelho antropomorfizado, e rebatizou-o com o nome de Usagi Yojimbo, cuja tradução literal para o português seria Coelho Guarda-Costas. Concebido o personagem, faltava publicá-lo, e Sakai teve a oportunidade para lançar as primeiras aventuras da sua criação na revista independente Albedo Anthropomorphics em 1984. E essas histórias, ambientadas no século XVII, contavam a vida de Miyamoto Usagi, um coelho samurai que após a morte do seu mestre Lorde Mifune (batizado com esse nome em homenagem ao grande ator japonês Toshiro Mifune) cai na estrada, vendendo a quem puder pagar os seus serviços como guarda-costas e guerreiro de aluguel.

A belíssima arte em preto-e-branco de Sakai, aliada a um imenso trabalho de pesquisa sobre o Japão feudal, fizeram de Usagi Yojimbo um dos melhores trabalhos independentes do quadrinho americano nos anos oitenta, e logo o artista teve a chance de levar seu personagem para uma editora maior, no caso a Fantagraphics Books, em 1985. Após trinta e seis edições Usagi se “mudou” para o Mirage Studios, porém a “casa” definitiva do personagem de 1996 até os dias de hoje acabou sendo a editora Dark Horse. E o mais interessante de tudo isso é que desde a década de noventa Usagi Yojimbo ganhou dezenas de prêmios mundo afora, inclusive o Eisner Awards (maior premiação da indústria americana de quadrinhos) em 1996 e 1999. Isso sem falar nas duas “participações especiais” que o Coelho Guarda-Costas fez no desenho animado das Tartarugas Ninja em meados dos anos noventa e no inicio do século XXI. Pena que até nós chegaram apenas três edições especiais do coelho guarda-costas, lançadas entre 1999 e 2001, pela Via Lettera Editora. Mas, vamos deixar as lamentações para outra ocasião, porque o personagem de quem falaremos agora com certeza é um dos mais engraçados dos anos oitenta, e ele se chama Badger, o Texugo!

O Texugo? Por acaso essa é mais um gibi de animais antropomorfizados? Não, meus caros, essa criação do roteirista Mike Baron com certeza é bem menos convencional que isso. Baron sempre foi um apaixonado por filmes de kung fu, em especial aqueles estrelados pelo lutador-humorista Jackie Chan, e em parte esse foi o espírito que o escritor colocou no personagem. Para aqueles que não estão entendendo, podemos resumir as coisas assim: essa é a história de um super-herói louco! Tudo começa com Norbert Sykes, um rapaz que durante a infância sofreu vários abusos na mão de seu padrasto Larry, e que durante a Guerra do Vietnã sofreu uns outros tantos nas mãos de guerrilheiros vietcongues. Só que durante as suas “férias” no Vietnã o nosso amigo Norbert aprendeu dezenas de técnicas de luta obscuras e esotéricas, e na sua volta aos EUA ele fez uma coisa que qualquer um de nós faria se tivesse aprendido o mesmo: virou um super-herói, é claro! Da mesma forma, é claro, ganhou uma passagem para o hospício. Lá, ele conheceu o feiticeiro druida conhecido pelo nome de Ham, e após ambos saírem do sanatório o mago decidiu contratar o nosso herói como capanga, mas nem ele imaginava que a desordem psíquica de Norbert fosse tão grave... Afinal de contas, o rapaz sofria de um distúrbio mental que lhe conferia nada mais nada menos que sete personalidades diferentes, que iam desde uma menina de nove anos chamada Emily até um homicida francês chamado Pierre! Daí em diante, a nossa audiência pode imaginar em quantas confusões uma dupla tão estranha quanto essa se meteu.

Baron criou Badger em 1982 e o publicou pela primeira vez na Capital Comics, mas a falência dessa editora o fez levar seu personagem para a First Comics em 1985. O Texugo ficou um bom tempo por lá, porém, em 1991 a First também fechou as portas, e depois disso o artista marcial pirado só apareceu esporadicamente em algumas edições lançadas pela Image Comics nos anos noventa. Como os direitos sobre o personagem pertencem a Baron, ficamos com a expectativa de que algum dia o Texugo volte. O que podemos deduzir é que dificilmente veremos no Brasil a maior parte das aventuras do personagem, e teremos que nos contentar apenas com as quatro primeiras histórias do Badger publicadas pela Editora Cedibra em 1987 e com a mini-série Badger Alucinado!, lançada pela Editora Abril em 1991.

Bem, chegamos ao fim de mais uma parte de nossa série de artigos sobre artes marciais nos quadrinhos, e gostaríamos de poder dizer que acabamos por aqui, mas ainda tem mais! Na quarta e última parte falaremos sobre os gibis de pancadaria nos anos noventa, sobre as homenagens que os quadrinhos fizeram aos artistas marciais do cinema e um pouquinho sobre o que o quadrinho nacional fez sob a inspiração do kung fu. Até lá!


Brodie Bruce, também conhecido como Claudio Roberto Basilio.

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Badger, de Mike Baron
Badger pronto para lutar - arte de Bill Reinhold
 


 

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