MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
30/11/2006
MATÉRIA: AS ARTES MARCIAIS NAS HQS - PARTE 4
 
 
Shi: as aventuras de Ana Ishikawa
 
 
Kabuki: Reflections, de David Mack
 
 
O Monge à Prova de Balas
 
 
Samurai Heaven and Earth: uma história de amor
 
 
Deadly Hands #28: homenagem a Bruce Lee
 
 
Bruce Lee, em série da Malibu
 
 
Spartan X: Jackie Chan nos quadrinhos
 
 
Chuck Norris #1: sempre com cara de mau
 



:: Parte IV - A pancadaria continua

Ufa! Finalmente chegamos a quarta e última parte! Aqueles que tiveram a sacrossanta paciência de ler as três primeiras partes da série de artigos sobre artes marciais nos comics americanos (quem não leu pode conferir a parte 1, parte 2 e parte 3), puderam perceber que a década de 1970 foi o período mais fértil para esse tipo de quadrinho, e que nos anos oitenta ainda tivemos alguns trabalhos significativos no gênero.

Todavia, do final dos anos oitenta para cá nem a Marvel e muito menos a DC demonstraram muito interesse em investir em gibis de pancadaria, e coube às editoras menores lançarem uma ou outra coisa relacionada com as artes marciais. Praticamente todo esse material é inédito no Brasil, e não pretendemos citar todos eles, mas com sorte lembraremos aqui pelo menos aqueles que foram os mais bem sucedidos no selvagem mercado americano de quadrinhos. Ah, e de quebra também nos lembraremos dos grandes astros do cinema que tiveram suas aventuras adaptadas para os quadrinhos. E, para finalizar de vez as coisas, colocaremos nosso olhar sobre a produção brasileira de gibis de artes marciais. Então, vamos lá?

:: De 1990 para cá
Histórias de garotas boas de briga sempre exerceram um certo fascínio sobre os fãs de quadrinhos, e quando se agregam nessas histórias elementos como uma boa e sangrenta vingança a ser cumprida aí é que os gibizeiros são conquistados de vez. Tendo isso em mente o escritor e desenhista William Tucci lançou em 1994, através da sua editora Crusade Comics, uma revista estrelada por Shi, uma mortífera guerreira vestida com trajes mínimos. Mas do que se trata essa HQ e quais são as motivações da personagem? Bem, em tal gibi conhecemos as aventuras de Ana Ishikawa, a filha de uma missionária cristã americana chamada Catherine com o japonês Shiro Ishikawa.

Aos dez anos, Ana testemunhou o brutal assassinato de sua família nas mãos da Yakuza (a máfia japonesa), e após esse incidente ela foi criada por Yoshitora Ishikawa, o seu avô. Ora, o grande detalhe disso tudo é que Yoshirota era descendente direto dos Sohei, uma antiga ordem secreta de monges guerreiros, e tão óbvio quanto um mais um são dois o vovô treinou a sua netinha em artes marciais para que, quando ela crescesse, vingasse a honra da família. E assim que virou mocinha Ana pintou seu rosto todo de branco e assumiu a alcunha de Shi (o caractere da língua japonesa que significa morte) e satisfez o seu desejo de vingança, da forma mais sanguinolenta possível.

Sem dúvida alguma Shi é uma HQ interessante, e um dos aspectos que Tucci sempre ressaltou na história (além da pouca roupa da heroína) foi o conflito interior de Ana entre a formação moral cristã que recebeu da mãe e as tradições marciais herdadas do avô. E podemos falar aqui que essa combinação agradou em cheio os fãs americanos, tanto que a guerreira estrelou diversos crossovers com heróis de outras editoras, como o Wolverine e Demolidor da Marvel, Cyblade da Top Cow e Vampirella da Harris Comics. Entretanto, a falência da Crusade Comics e outros projetos de Tucci fizeram com que a publicação das aventuras da personagem se tornasse irregular, e a última casa por onde elas foram lançadas foi na Dark Horse. Ficamos na expectativa por novos gibis. Mas, aproveitando este momento, em que estamos falando de guerreiras japonesas de rosto branco, perguntamos a nossa audiência: alguém já ouviu falar de Kabuki?

Kabuki é uma criação de David Mack, lançada em 1994 pela Caliber Press, e tal personagem é a uma assassina que veste uma máscara branca inspirada no teatro kabuki japonês, sendo que daí deriva o nome da série. Tal assassina trabalhava para a agência governamental japonesa chamada Noh (nome inspirado em uma modalidade teatral japonesa praticada somente por homens), e em suas aventuras é explorado o conflito entre a executora e a organização, em especial com um dos seus comandantes, um militar conhecido como General, que na verdade é o avô da nossa heroína. Tal conflito foi brilhantemente explorado pelos roteiros de Mack, porém o ponto alto de Kabuki sempre foi a diversidade de técnicas artísticas usadas pelo artista, que variavam desde o uso de desenhos simples em preto-e-branco até a utilização de técnicas como aquarela, crayons e colagens.

Talvez por causa dessa grande riqueza artística Mack optou por não lançar Kabuki em uma série mensal, e sim em mini-séries que de tempos em tempos são publicadas, muitas vezes com a arte de desenhistas convidados como Rick Mays e até mesmo Brian Michael Bendis. Por sinal, boa parte dessas séries fechadas foi publicada pela Image Comics até 2004, quando Mack levou sua criação para o Icon, um selo da Marvel Comics destinado ao lançamento de trabalhos autorais, e que nos dias de hoje está lançando Kabuki: Alchemy. Imploramos ao santo padroeiro dos gibizeiros para que alguém a traga um dia para o Brasil. Outra série interessantíssima, mas que dificilmente saíra por aqui é Way of the Rat. Mas porque são pequenas as chances de vermos tal série e do que se trata ela, afinal de contas? Expliquemos, então.

Quando a editora Crossgen entrou no mercado americano em 2001, ela decidiu explorar novos gêneros além dos habituais super-heróis, e investiu em hqs de piratas, detetives e até de terror. É óbvio que dada a proposta de diversidade de gêneros que a nova editora publicaria pelo menos um gibi que explorasse artes marciais, e isso se concretizou em 2002 com o lançamento de Way of the Rat, com roteiros de Chuck Dixon e arte de Jeff Johnson, gibi esse com uma estética fortemente influenciada pelo novo cinema épico chinês. Para aqueles que não sabem o que é o novo cinema épico chinês, podemos explicar que tal movimento se constitui de super-produções cinematográficas que exploram o passado mítico ou histórico da China, e exemplos desse tipo de cinema são filmes como O Tigre e o Dragão, O Clã das Adagas Voadoras e Herói. Mas, voltando a falar do gibi em si, Way of the Rat conta as aventuras de Boon Sai Hong, um ladrãozinho de quinta categoria que, após roubar dois artefatos místicos, se torna o maior lutador de sua era. E daí uma sucessão de fatos o leva a ficar próximo do mais desejado de todos os objetivos daquela época: o trono imperial chinês!

Os roteiros que Dixon escreveu para Way of the Rat eram bacanas e a arte de Jeff Johnson era excelente, e o gibi conseguiu a proeza de ser traduzido e lançado na China, porém a Crossgen se enroscou em diversas pendências financeiras e abriu falência em 2004, o que fez com que Way of the Rat fosse cancelada após a vigésima-quarta edição. Todos os problemas jurídicos da Crossgen praticamente inviabilizam o lançamento de qualquer material da editora no exterior, mas ficamos com a esperança de um dia lermos essa HQ em português, mesmo porque algumas de suas edições foram desenhadas pelo brasileiro Luke Ross. Mas, já que falamos de Luke Ross, vocês sabiam que hoje ele é responsável pela arte de um dos melhores gibis do mercado americano? E vocês sabiam que esse gibi, por um acaso, também é sobre artes marciais?

Em 2004, Ross se uniu ao roteirista Ron Marz e juntos eles conceberam para a editora Dark Horse a mini-série Samurai: Heaven and Earth, que acima de tudo é uma história de amor: em 1704 a jovem dama da corte Yoshiko é seqüestrada após um violento ataque de forças chinesas a um castelo onde Asukai Shiro servia como samurai. Completamente apaixonado por Yoshiko, o nosso amigo Shiro jura resgatar o seu grande amor aonde quer que ela esteja, e essa promessa o faz rodar o mundo inteiro, chegando até mesmo na corte de Luís XIV, onde ele enfrenta ninguém mais ninguém menos que os Três Mosqueteiros!

A belíssima arte foto-realista de Ross, aliada ao roteiro competente de Marz fizeram com que a série recebesse excelente criticas, e a dupla novamente se reuniu para a continuação de Samurai, onde Shiro continua a sua viagem ao redor do mundo em busca de sua amada. Mas deixemos o amor de fora e falemos agora de fé, porque o próximo personagem que citaremos aqui é um religioso, ou para ser mais exato, um Monge à Prova de Balas (Bulletproof Monk)!

O escritor e desenhista Michael Avon Oeming sempre foi fascinado por mitologia, e se inspirando no budismo tibetano e no cinema de Hong Kong ele — juntamente com o escritor Brett Lewis e o desenhista R.A. Jones — bolou uma mini-série em três partes que foi publicada em parceria pela Flypaper Press e Image Comics em 1999. Ela começa com um jovem imigrante tibetano morando nos EUA chamado Kar, que cresceu ouvindo lendas a respeito de um sacerdote budista imbatível em combate apelidado “Monge à Prova de Balas”, que defendia o povo do Tibete dos nazistas durante a Segunda Guerra. Os problemas para Kar começam quando ele descobre que a lenda tem um fundo de verdade, e que o tal Monge carrega um antigo segredo que é disputado por forças malignas que querem tirar proveito dele.

A nossa sempre esperta e antenada audiência deve ter lembrado que esse gibi já chegou às telas grandes do cinema em 2003, com o astro chinês Chow Yun-Fat no papel-título e Seann William Scott (o Stiffler, de American Pie) no papel de Kar. E se a nossa audiência assistiu a película sabe melhor do que ninguém que ela não trouxe a glória para nenhum dos seus participantes, mas o objetivo aqui não é fazermos critica cinematográfica, e sim falar de gibi. E continuando a falar de gibis, durante o período de exibição do filme nos cinemas Oeming desenvolveu em parceria com outros artistas outras histórias curtas com o personagem, que foram também publicadas pela Image na revista Tales of Bulletproof Monk.

Em 2002, desenvolveu também para a Image uma outra mini-série em três partes interessantíssima chamada Bastard Samurai, dessa vez em conjunto com o escritor Miles Gunter e com o artista Kelsey Shannon. Nessa série fechada é narrada a história de Jiro, um dos melhores alunos de uma escola secreta de samurais mantida pela Yakuza em Nova York. Os alunos de tal escola são órfãos recolhidos ainda na infância e treinados em artes marciais, para quando se tornarem adultos serem usados em serviços sujos da Yakuza ou até mesmo em torneios clandestinos. E é justamente contra tudo isso que Jiro se revolta, contando com a ajuda única e exclusivamente de sua espada.

Como falamos logo no inicio desse artigo não pretendíamos relacionar tudo que foi feito nos Estados Unidos em termos de quadrinhos de kung fu, mas ficamos aqui com a esperança de ter levado ao conhecimento de nossa audiência pelo menos aqueles que são mais relevantes. E agora, convidamos aqueles que ainda têm ânimo o bastante para continuar lendo esse artigo a ver o que aconteceu quando os gibis cruzaram o caminho dos grandes artistas marciais do cinema. Vamos lá?

:: Da tela para o gibi
Lendo essa série de artigos, a nossa audiência deve ter percebido que os astros das artes marciais do cinema influenciaram a criação de vários e vários heróis dos quadrinhos. E a nossa audiência deve estar se perguntando se por acaso esses lutadores do celulóide não deram as caras no mundo dos gibis. É claro que sim! Seja através de simples homenagens dos desenhistas ou roteiristas, seja através de adaptações de suas aventuras para os quadrinhos, vários artistas marciais abrilhantaram as páginas dos quadrinhos americanos.

Quando Shang Chi, o Mestre do Kung Fu foi lançado no final de 1973 o desenhista Jim Starlin desenhou o personagem com um visual próximo ao do ator David Carradine, astro da série televisiva Kung Fu e do filme Kill Bill. A permanência de Starlin no título foi breve, e o seu substituto Paul Gulacy lentamente começou a retratar Shang Chi de maneira semelhante a Bruce Lee, o ator e lutador sino-americano que sem dúvida alguma é o principal responsável pela divulgação das artes marciais chinesas mundo afora. Só que uma das principais diversões de Gulacy quando desenhava era utilizar atores como referência para esboçar os personagens, e em uma aventura de Shang Chi publicada em Master of Kung Fu #19 o nosso herói encontrou um filosófico e pacifico lutador chamado Lu Sung, que por um tremendo “acaso” era a cara de David Carradine, só que com bigode! Mas sobre Carradine vamos falar mais daqui a pouco. Neste momento vamos nos concentrar no Sr. Bruce Lee.

Como falamos acima, a fama de Bruce Lee era enorme, e continua assim até os dias de hoje, e as homenagens a ele não se restringiram apenas ao gibi do Mestre do Kung Fu. Em 1976, no gibi da DC Comics Richard Dragon #14 foi publicada a aventura "The Man Who Studied with Bruce Lee" (O homem que estudou com Bruce Lee), onde, como o próprio nome diz, o personagem-título da revista bateu de frente com um discípulo do astro de filmes de ação. E a celebração da memória de Lee não parou por ai. Lembram da revista Deadly Hands of Kung Fu, da Marvel Comics? Era costumeiro esse gibi ter capas, artes internas e artigos que faziam algum tipo de referência a Bruce Lee, e a edição #28 foi completamente dedicada a ele, trazendo uma HQ escrita por Martin Sands e desenhada por Joe Staton, onde Lee era a estrela principal.

Todavia, levariam quase vinte anos para Bruce estrelar novamente um gibi no Ocidente, e isso aconteceu graças à editora Malibu, que em 1994 obteve permissão da família Lee para lançar uma revista em quadrinhos onde o eterno astro do kung fu dividia seu tempo entre dar aulas em uma academia e trocar safanões com alguns bandidos. Essas histórias foram escritas por Mike Baron (o criador de Badger) e desenhadas por Val Mayerik (que praticava artes marciais nas horas de folga), porém nem os bons antecedentes desses artistas fizeram da revista um grande sucesso, tanto que apenas seis edições foram lançadas. Por sinal, essas edições chegaram no Brasil quase que anonimamente através da Editora Escala em meados dos anos noventa. Mas se a Malibu parou por aí com artes marciais devemos nos lembrar de uma outra editora chamada Topps Comics, mesmo porque em 1997 ela lançou um gibi de ninguém mais ninguém menos que o grande Jackie Chan!

Todos nós sabemos que a maior e melhor característica dos filmes de Jackie Chan sempre foi a mistura bem dosada de humor e pancadaria em alto estilo, e essa combinação chamou a atenção da profissional dos quadrinhos Renee Witterstaetter, que após assistir um dos filmes chineses de Chan vislumbrou naquele ator bom de briga e engraçado, potencial o suficiente para estrelar um gibi. Após algumas negociações, Witterstaetter obteve a permissão de Chan para tocar o projeto, porém ela não encontrou nas grandes editoras nenhum tipo de acolhida para a sua proposta. Quem topou bancar o projeto em 1997 foi a Topps, e então Witterstaetter chamou o escritor Ric Meyers (fã de carteirinha de Chan) e o desenhista Michael Golden para que ambos elaborassem o gibi Spartan X, cuja criação foi inspirada nos filmes A Armadura de Deus (Armour of God) e Operação Condor (Armour of God II: Operation Condor).

Até que eram gibis bacanas, só que a desistência da Topps em atuar no mercado dos quadrinhos fez com que em 1998 as aventuras de Chan fossem levadas para a Image Comics, onde ganhou mais quatro edições. E infelizmente acabaram por aí as aventuras de Chan no mundo encantado dos gibis. E falamos tudo que tínhamos para falar sobre os artistas marciais da vida real que eventualmente abrilhantaram as páginas das histórias em quadrinhos. Mas... Hei, esperem um pouco, estamos nos esquecendo de falar dele... Sim, dele! Estávamos nos esquecendo de falar do mais filho-da-mãe e ferrado de todos os lutadores, o glorioso Chuck Norris!

Norris obteve uma enorme fama quando se tornou campeão de karatê no final dos anos sessenta e quando interpretou uma grande cena luta com Bruce Lee no filme O Vôo do Dragão (Way of the Dragon), porém podemos afirmar aqui que, com certeza, o melhor momento de sua carreira cinematográfica foi em meados dos anos oitenta, quando películas como Braddock e Invasão dos Estados Unidos caíram no gosto do público americano. Com tanto sucesso, Norris resolveu expandir a sua base de fãs entre as crianças, e em 1986 estreou na tevê americana o desenho animado Chuck Norris: Karate Kommandos, onde o astro e mais um grupo de amigos bons de briga enfrentavam terroristas e quaisquer outros perigos que ameaçavam o modo de vida americano.

Não demorou muito e em 1987 a Marvel Comics lançou uma versão em quadrinhos do desenho através da Star Comics, uma linha de quadrinhos dedicada a adaptações de desenhos animados e a gibis infantis. Nem o desenho animado e nem o gibi eram lá grandes coisas, porém sobre a HQ uma observação importante deve ser registrada aqui: Norris teve a honra de ver as quatro únicas edições lançadas de sua revista serem ilustradas por Steve Ditko, que para quem não sabe é o co-criador do Homem-Aranha. E acreditamos que falamos sobre quase tudo. No momento não está rolando nos EUA nenhum projeto que vise adaptar filmes de artes marciais para os quadrinhos, porém como diria o velho ditado o futuro a Deus pertence e quem sabe de repente não poderemos ver nas comic stores algum gibi adaptando Kill Bill ou então um filme de Jet Li? Iremos esperar...

:: Enquanto isso, aqui no Brasil...
Ah, o quadrinho nacional, o tão combatido e combalido quadrinho nacional! Os gibis produzidos por aqui também refletiram a “onda kung fu” e esse foi um dos gêneros mais explorados pelos nossos quadrinhos, e nem poderia ser diferente, mesmo porque o Brasil é a maior colônia japonesa do mundo e o brazilian jiu jitsu e a capoeira são modalidades de luta reconhecidas no mundo inteiro. E foi justamente através das mãos de descendentes nipônicos que pela primeira vez agregaram elementos de artes marciais na produção brazuca.

Em 1966, Salvador Bentivegna, Minami Keizi e Jink Yamamoto se juntaram para fundar a Editora Edrel. A ascendência japonesa de dois dos sócios fez com que essa pequena editora fosse uma das precursoras do estilo mangá no Ocidente, e o lançamento do gibi Ninja, o Samurai Mágico de Cláudio Seto é uma prova cabal disso. Outro artista que nos anos sessenta sempre dava um jeitinho para fazer referências a samurais nas histórias que criava era Julio Shimamoto, e desde os anos sessenta ele fazia isso até mesmo em histórias de terror. Anos mais tarde Shimamoto exploraria o gênero de forma mais explicita em histórias publicadas nos gibis de artes marciais lançados pela Bloch e Grafipar, porém seu grande trabalho sobre artes marciais seria Musashi - inspirado na vida do lendário samurai Myamoto Musahi - e que ganhou recentemente duas belas edições pela Opera Graphica Editora. Mas sigamos em frente e entremos nos anos setenta. E façamos essa entrada através de uma pergunta: vocês se lembram da primeira parte dessa série de artigos, quando falamos do Judomaster (ou Mestre Judoka)?

Judomaster era uma personagem da Charlton Comics que foi lançado com sucesso pela Ebal no final dos anos sessenta com o nome de Judoka. Após a sexta edição a Ebal deixou o herói gringo de lado e passou a apresentar a partir da sétima edição um novo personagem com o mesmo nome, só que totalmente produzido no Brasil! E nessa edição os leitores foram apresentados a Carlos, um fracote que vivia apanhando de valentões, até o momento em que o Destino interviu: após salvar de um atropelamento o professor de artes marciais Minamoto, o jovem ganhou do agradecido mestre aulas particulares de luta e um incrementado uniforme de super-herói. Daí, nosso colega passou a usar suas recém-adquiridas habilidades para combater o Mal e a Injustiça, de início sozinho e depois tendo ao lado sua namoradinha Lúcia, que usava um traje idêntico ao dele. E isso tudo dentro do melhor estilo patriótico, não podemos nos esquecer que naquela época o Brasil passava pelos anos de chumbo da Ditadura Militar.

Pelo visto essas histórias, que eram escritas por Pedro Anísio e desenhadas por feras como Eduardo Baron, Mário José de Lima, Francisco Ferreira Sampaio, Fernando Ikoma e Floriano Hermeto caíram no gosto da galera, e tanto isso é verdade que o Judoka teve o privilégio de em 1973 ter suas aventuras adaptadas para o cinema, em uma produção nacional estrelada por Pedro Aguinaga e Elizângela. Tal filme não foi um sucesso, e de certa forma ele marcou a decadência do personagem, já que em 1974 o seu gibi foi cancelado. Mas essa não foi a última investida nacional da EBAL em pancadaria oriental.

Em 1974, a Ebal botou na praça o gibi Kung Fu (várias vezes citado nessa série de artigos), e inicialmente publicou nele material da Charlton, Marvel e DC. Na sexta edição dessa revista estreou um personagem nacional chamado simplesmente de... Kung Fu! Suas histórias foram criadas por Hélio do Soveral e desenhadas por artistas como José Meneses e Oliveira, e tais histórias eram completamente calcadas no seriado televisivo Kung Fu, mostrando as andanças de um lutador pelo mundo, sempre levando Justiça aonde fosse necessário. E, por uma incrível “coincidência”, o citado lutador era desenhado de maneira idêntica ao David Carradine! O que lamentamos é que é uma pena que a saga desse artista marcial ficou restrita a Kung Fu e que tenha sido interrompida após a vigésima-sétima edição. Mas não pensem que acabamos por aqui que ainda tem mais!

No final dos anos setenta, a Editora Grafipar empunhou com orgulho a bandeira do quadrinho nacional e entre seus vários títulos havia a revista Kiai, voltada para a temática das artes marciais e que mostrava hqs interessantíssimas, entre elas Meia-Lua, O Rei da Capoeira, criação de Julio Shimamoto. O fim da Grafipar obviamente acarretou no cancelamento de Kiai, e depois disso a maioria dos lançamentos nacionais do gênero foram trazidos aos fãs pela Editora Bloch, através de revistas como Clássicos das Artes Marciais e Histórias de Kung Fu, que continham histórias muitas vezes não creditadas aos artistas que as conceberam. E uma dessas revistas se destacava das demais, já que foi inspirada em uma pessoa da vida real, e no caso tal pessoa era o Mestre Kim!

Mestre Kim era a alcunha do imigrante sul-coreano Yong Min Kim, um dos principais (senão o principal) divulgadores do Taekwondo no Brasil. Seus trabalhos junto a Polícia Militar do Rio de Janeiro e a Polícia Federal, aliados a apresentações feitas na TV Manchete durante os anos oitenta o transformaram em uma celebridade, e a Editora Bloch achou que não seria uma má idéia publicar uma revista contando as proezas de Kim. Tais proezas foram relatadas em gibis como Mestre Kim, o Vingador e As aventuras do Mestre Kim, e o curioso é que essas histórias muitas vezes tinham a colaboração do próprio Mestre Kim nos roteiros. Todavia... pouco a pouco a Editora Bloch abandonou o mercado de quadrinhos até falir, e hoje o único lugar onde podemos achar as aventuras do Mestre Kim é nos sebos.

Muito material se produziu no quadrinho nacional relacionado com artes marciais. Personagens como Ninja, Cinthia, Tetsuo, Guerreiro Ninja, Corcel Negro, Capitão Ninja, Sanjuro, Karatemen e muito outros, em um momento ou outro estiveram em nossas bancas de jornal. Quem sabe um dia eles possam voltar, ou então (melhor ainda) o quadrinho nacional se reerga e novos personagens bons de pancadaria surjam através das mãos dos nossos artistas? Essa é a nossa esperança.

:: Para concluir de vez
Apesar de hoje não existirem no mercado americano (pelo menos por parte da Marvel e da DC) tantos títulos com o enfoque específico em artes marciais como havia nos anos setenta seria um erro de nossa parte afirmar que tal gênero está esquecido. Se fizermos uma análise calma e fria perceberemos que elementos de artes marciais se incorporaram, ainda que de maneira sutil, aos gibis de super-heróis. Ora, desde os anos setenta toda vez que a origem do Batman é recontada nós vemos o jovem Bruce Wayne aprendendo os mistérios da luta com algum professor do extremo Oriente, e até mesmo o recente filme Batman Begins explorou esse assunto. E, ampliando ainda mais o nosso olhar perceberemos que qualquer herói ocidental desprovido de poderes sempre tem suas aulinhas de kung fu, karate, muay thai ou alguma outra modalidade marcial. E parece que esses aspectos terão mais e mais relevância daqui para frente.

Senão, vejamos: o gibi dos Novos Vingadores está apresentando como integrante da mais poderosa equipe do Universo Marvel um misterioso lutador chamado Ronin; em um futuro não muito distante dos leitores brasileiros os Renegados voltarão a contar com a samurai Katana, personagem criada em 1983 por Mike W. Barr e Jim Aparo; o jovem guerreiro japonês conhecido como Bushido, que integrou os Titãs por um breve período em 2000 voltará a dar as caras na maxi-série Crise Infinita, e podemos falar aqui que tal aparição apesar de curta será para-lá-de-dramática. E, como nos dias de hoje o quadrinho americano é cada vez mais influenciado pelo mangá (quadrinho japonês), e como artes marciais são temas recorrentes nos gibis “Made in Japan” não precisamos ser gênios para deduzir que pancadaria oriental não faltará nos gibis de super-heróis! E lançamentos como Heroes for Hire, White Tigress e o relançamento da revista do Punho de Ferro não nos deixam mentir!

Bem, finalmente chegou o fim. E com ele chegou o momento de agradecermos àquelas pessoas que de uma forma ou outra contribuíram para a feitura dessa série de artigos. Entre elas o escritor e editor Roberto Guedes, que sempre aparece no momento certo com sugestões e correções certeiras; o fã Antônio Luiz Ribeiro e a rapaziada da comunidade do Orkut Ebal – Editora Brasil-América, que ajudaram a “rastrear” onde vários dos personagens aqui citados foram publicados no Brasil; o também fã Sérgio Moraes, que nos forneceu informações difíceis de achar em qualquer lugar, seja em sebo ou na Internet e os editores do HQ Maniacs, que aceitaram com entusiasmo a idéia de publicar matérias sobre  artes marciais em seu sitio eletrônico.

E por fim, um agradecimento especial a vocês, que acompanharam com interesse esses artigos e que muito honram o HQ Maniacs com a vossa audiência! E como diria Bruce Lee (ou talvez David Carradine, vai saber): Kiai!


Brodie Bruce, também conhecido como Claudio Roberto Basilio.
crbasilio@yahoo.com.br

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