MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
12/03/2007
ENTREVISTA: LUKE ROSS
 
 
Luke Ross
 
 
Turma do Arrepio
 
 
Blood is the Harvest
 
 
American Century, de Howard Chaykin
 
 
Sojourn #21, com arte de Luke Ross
 
 
Star Wars Republic: capa e arte interna de Ross
 
 
Samurai: O Céu e a Terra
 
 
Jonah Hex para a DC
 



O artista paulista Luciano Queiroz, mais conhecido pelo seu nome artístico Luke Ross, há anos vem despontando no mercado dos comics, iniciando sua carreira com a divertidíssima Turma do Arrepio e indo parar no disputadíssimo mercado norte-americano devido ao seu crescente talento.

Passando por diversos títulos de personagens como Homem-Aranha, Liga da Justiça, X-Men, Gen13, Lanterna Verde, Jonah Hex, entre outros, um de seus maiores sucessos sem dúvida foi Samurai: O Céu e a Terra, em parceria com o escritor americano Ron Marz, que aportou recentemente em terras tupiniquins. Conheça um pouco mais sobre o início, a carreira e as obras de Luke Ross.


Como você se iniciou nos quadrinhos tanto como leitor quanto como profissional? Como foi o início de sua carreira no Brasil e nos Estados Unidos? Você trabalhou em fanzines antes de se tornar um profissional?
Luke Ross: Quando eu tinha uns cinco ou seis anos, meu pai, que era pedreiro, trabalhou por uns meses em Mongaguá, no litoral sul de São Paulo, fazendo uma reforma em uma casa, e lembro que passei alguns finais de semana lá com ele. O proprietário da casa, um alemão que vivia no Brasil já há algumas décadas, mantinha uma grande coleção de quadrinhos na casa. Foi lá que eu conheci os gibis do Mickey Mouse, Pato Donald, Recruta Zero, Mandrake, Mortadelo e Salaminho, dentre outros. Eu ainda não sabia ler, mas ainda lembro do encantamento que aquelas revistinhas, que para mim mais pareciam álbuns de figurinhas já completados, causaram em mim.

Poucos anos mais tarde, quando finalmente aprendi a ler, meus pais não aprovavam muito a leitura de quadrinhos, mas quando eu tinha uma oportunidade como fazer uma visita ao médico, costumava fazer uso de algumas manhas com minha mãe para conseguir as minhas primeiras edições. Na época, a banca que comprávamos estava repleta de quadrinhos da RGE e da Editora Abril. Minha mãe pediu pra escolher só uma e, não sei por qual motivo, escolhi o Homem-Aranha da RGE, talvez pelas cores legais do uniforme ou pelo fantástico desenho do Ross Andru nas capas. O fato é que depois disso me apaixonei pelo personagem e aí começou de verdade a minha história com os quadrinhos.

Profissionalmente, comecei trabalhando com a Turma do Arrepio do César Sandoval, que era publicada pela Editora Globo e fiz um estágio de alguns meses na Sketch Filmes, o estúdio de animação do Sandoval onde as historias eram produzidas. Neste período desenhei umas histórias curtas e colaborei com algumas revistas de passatempos com os personagens.

Para o mercado americano, comecei desenhando a mini-série Blood is the Harvest para a Eclipse Comics, com a orientação e supervisão do Hélcio de Carvalho, da Art & Comics, que durante vários anos foi o meu agente e me ajudou a conseguir vários trabalhos na DC, Marvel, Image e em outras editoras americanas.

Minha experiência com fanzines foi muito curta, mas muito prazerosa. Foi assim que tive a minha primeira vez (opa!) em termos de publicação. Foi mágico ver um desenho meu publicado como contracapa de um fanzine, se não me engano o nome era Estranha Lucidez. Depois disso, fiz um fanzine chamado “Fronteira” que não passou do n° 0, e o “Pboom”, um informativo que teve um ou dois números apenas. Estes dois zines, se é que posso chamá-los assim, dado o pouco tempo que me dediquei a eles, me colocaram em contato com muita gente talentosa do país inteiro.

Foi através destes zines que conheci os trabalhos do Moacir Torres, Gilmar Barbosa, Marcio Baraldi, Emir Ribeiro, Flavio Calazans, Edgard Guimarães, Laudo Ferreira, Joacy Jamys, Henry Jaepelt e muitos outros artistas que ainda admiro muito. Sem dúvida foi esta experiência com os fanzines e o contato com os fanzineiros de HQs que me fez decidir batalhar para ser um desenhista de histórias em quadrinhos.


Sua arte sofreu grandes mudanças nos últimos anos, ganhando um estilo muito mais realista, principalmente quando utiliza como modelo rostos de atores. Como foi essa mudança?
Ross:
Por uma forte influência dos filmes e seriados da TV, sempre gostei de associar personagens dos quadrinhos com “atores” conhecidos. Quando garoto gostava de pensar no Bruce Lee como o Shang Shi, o Mestre do Kung Fu e em Chuck Norris como o Punho de Ferro. Mais tarde em Lorenzo Lamas como o Gambit (hoje em dia seria o Sawyer, de Lost) e a Mulher-Maravilha não poderia ter outro rosto se não o de Lynda Carter, do contrário não seria a Mulher-Maravilha perfeita.

Mas comecei pra valer a experiência com o uso de atores como modelo em American Century, para a Vertigo. O roteirista David Tischman, que escrevia a revista em parceria com Howard Chaykin, fazia menções a astros de Hollywood para cem por cento dos personagens. E eu gostei deste trabalho de associar o personagem e parte de sua personalidade a um rosto conhecido, que em algum momento já atuou diante de nossos olhos e talvez esteja ainda em nossas memórias. Acredito que isso facilita no trabalho de tornar aquele personagem verossímil e consistente nas várias poses e ângulos que devemos desenhá-lo no decorrer das páginas, mas algumas pessoas discordam e acham que este recurso gera distrações que afastam o leitor da história.

Em 2003 fui trabalhar no estúdio da editora CrossGen, na Flórida. Lá conheci grandes artistas como Greg Land, Jimmy Cheung, Bart Sears, Jeff Johnson e vários outros, e tive a oportunidade de vê-los trabalhando de perto. Estes artistas faziam uso freqüente de muita referência fotográfica, inclusive com o uso de máquinas digitais, e a qualidade dos desenhos deles deu um salto enorme. Então decidi que queria ver este resultado no meu trabalho também.

Quando tive a oportunidade de trabalhar em Green Lantern com Ron Marz, comecei a por em prática um estilo baseado em um uso maior de fotos. Comecei então a trabalhar nos layouts de toda a história, definindo a narrativa, ângulos de câmera, iluminação etc. Depois comecei a tirar as fotos, usando a mim mesmo para fazer “os manos” e a minha esposa para fazer “as minas”, e usei fotos de diversos sites da internet sobre Nova Iorque como base para criar os cenários da história. Então, no momento de desenhar os personagens, as poses começaram a ficar mais naturais, mais realistas. No entanto, algumas delas, principalmente as de mais ação, ficavam meio “duras”, sem movimento. Então percebi que tinha que desenhá-las exagerando as poses e “mentindo” a realidade para conseguir o efeito e o movimento desejados. Já em trabalhos como Samurai e Jonah Hex, fui mesclando os meus desenhos sem referência com os baseados em fotos, sejam elas da minha máquina digital, da internet ou de capturas de filmes, visando um resultado mais realista.


Em qual editora gostou mais de trabalhar? E com que autor gostou mais?
Ross:
As editoras onde eu me sinto mais confortável em trabalhar são a DC e a Dark Horse. Todas as pessoas da DC com quem tenho contato são muito atenciosas e estão sempre à disposição, compreendem quando existe a necessidade de uma renegociação do prazo de entrega das páginas e fazem o possível para ajudar. Na Dark Horse me sinto livre para trabalhar. Eles não costumam fazer restrições a não ser no caso de Star Wars, onde tudo tem que ser muito fiel ao universo de George Lucas, mas entendo isto como sendo um cuidado da Lucas Arts com sua propriedade.

Sem dúvida Ron Marz é o autor com quem mais gosto de trabalhar. Ele me faz sentir a vontade para usar as minhas idéias e contar a história ao meu modo. Ele também faz questão de ter a minha opinião a respeito do que ele escreve e a todo o tempo me permite colaborar com idéias e sugestões para a história. O segundo volume de Samurai é um bom exemplo. Antes de terminamos a primeira mini-série, Ron me perguntou o que eu gostaria de desenhar em seguida. Como adoro o trabalho de um artista do século 19 chamado David Roberts e adoraria desenhar algo que refletisse a grandiosidade dos lugares que ele retratou no Egito, eu disse que seria muito bom desenhar uma aventura com Shiro no deserto, nos moldes de “Lawrence da Arábia” e com influência dos trabalhos de David Roberts.

Descobri então que o Ron também admirava o trabalho deste artista. Assim, ele adiou o que já havia sido planejado para a segunda mini-série e decidiu então que Yoshiko seria levada para o Egito, e estamos trabalhando nesta parte da história agora. Jimmy Palmiotti e Justin Gray são caras muito legais, e a experiência que tive com eles no Jonah Hex é algo de que gostei muito e vou sentir saudades. Justin adora filmes de faroeste e volta e meia me sugeria alguns personagens dos “western spaghetti” para serem usados nas histórias, por exemplo, o personagem Chako, que foi inspirado no ator Tomas Milian no filme “Run, Man, Run”. Eles também me deram muita liberdade para contar as histórias ao meu modo, inclusive usando o recurso de seis quadros horizontais por página, que imita uma tela widescreen, para as seqüências com uma narrativa mais cinematográfica.


Há ainda alguma editora ou profissional que você ainda não teve a chance de trabalhar, mas gostaria?

Ross: Gostaria muito de publicar algo na WildStorm. Hoje fico feliz em saber que eles também gostariam de trabalhar comigo e com o Ron em algum projeto. Como tive uma experiência muito breve na Top Cow, fazendo uma ponta em uma edição especial de Witchblade, gostaria de trabalhar com eles por mais tempo também. Fui muito bem recebido na editora e tenho convite para voltar e fazer mais trabalhos para eles. Autores que eu gostaria de trabalhar são Kurt Busiek, Brian K. Vaughan, Brian Michael Bendis, entre outros. Gosto de sonhar em um dia poder trabalhar com Alan Moore, afinal foi sonhando que me tornei desenhista. Mas quero continuar trabalhando com o Ron por muitos anos. Temos muitas histórias para contar juntos.


Qual você considera seu melhor trabalho?
Ross: Samurai: o Céu e a Terra, sem dúvida. Mas também gosto muito do que fiz em Jonah Hex.


Você acompanha o efeito que seus trabalhos têm com o público brasileiro?
Ross: Tenho encontrado comentários positivos a respeito do meu trabalho para Samurai nos sites especializados e em alguns blogs e fóruns. Também recebi muitos elogios em um fotolog que criei sem muitas pretensões no ano passado, mas que começou a ter uma boa visitação e me permitiu o contato com vários fãs e muitos artistas de grande talento. Só sinto pela falta de tempo, pois estou bastante atarefado e não consigo atualizá-lo como deveria e gostaria. Aproveito o espaço para me desculpar com todos os que visitam a página e a encontram na mesma situação sempre. Em breve, assim que os prazos voltarem ao estado “normal” vou continuar postando as novidades. 


Você acompanha alguma revista hoje em dia? Qual a sua preferida?
Ross: Além de Witchblade, Ion, CyberForce, Conan, não tenho acompanhado muita coisa. Tenho dado preferência aos encadernados e álbuns. Os últimos que li foram Usagi Yojimbo, Perhapanauts (Todd Dezago), Jack Hightower (Will Vinton e Fábio Laguna), DeTales (irmãos Bá e Moon), Blacksad, The Goon, Pride, Persépolis, Mundo Pet (Lourenço Mutarelli), Top 10, Tom Strong e O Sétimo Suspiro do Samurai


HQs de época, como Jonah Hex e Samurai requerem muita pesquisa fotográfica para retratar melhor cenários, vestuários etc. Como você trabalha esse processo?
Ross: O Ron me mandou vários livros sobre samurais e também sobre os lugares que Shiro iria percorrer para encontrar Yoshiko: Versailles, Egito e outros. Os livros me ajudaram na pesquisa mais minuciosa que fiz na internet em busca de melhores fotos sobre estes lugares. Como a maioria das fotos que encontrei eram bem recentes e a história se passa há 300 anos, evitei usar monumentos ou lugares que eu desconfiava serem mais modernos. Fiz muita pesquisa na internet em sites que tratam da moda no decorrer dos séculos e em sites que possuem galerias das obras dos principais pintores de cada século, e que retratam muito bem os costumes da época. Tudo para tentar reproduzir corretamente os lugares e os vestuários daquele período e convencer os leitores de que os personagens estão mesmo no século 18.

Também recorri a vários quadrinhos como Lobo Solitário, Vagabond, Blade, além de filmes do cineasta Akira Kurosawa, como Os Sete Samurais, Ran, Kagemusha, dentre outros. E também filmes mais recentes como O Último Samurai, Azumi e Zatoichi. Para o Jonah Hex, pesquisei em vários sites na internet e em vários filmes de faroeste americanos e italianos com John Wayne, Clint Eastwood, Lee Van Cleef e também em antigos seriados americanos como Bat Masterson, Wagon Train e Bonanza.


Por que escolheu Clint Eastwood como modelo para seu Jonah Hex?
Ross: Enxergo Jonah Hex como Clint Eastwood, talvez seja influência das histórias antigas do Jonah Hex onde o personagem se parece muito com Clint Eastwood, ou de filmes western como “O Estranho Sem Nome” ou “Joe Kidd”, onde Clint se parece muito com Jonah Hex.


O que você achou do comunicado divulgado pela Marvel no ano passado proibindo desenhistas de basearem seus personagens em imagens e fotos de personalidades?
Ross: Acho que os artistas de quadrinhos sempre vão se inspirar em alguma personalidade da época em que vivem para criarem os seus personagens. Flash Gordon e Dale Ardem, de Alex Raymond, se parecem muito com as personalidades de sua época, o tipo de rosto feminino e masculino que eram o estereótipo de beleza nos anos 30 são claramente visíveis nos traços que definiram os personagens desta e de outras histórias em quadrinhos com estilo realista. Se tomarmos como exemplo o Homem de Aço, podemos perceber como os artistas seguem usando atores como referência para os seus trabalhos no decorrer das décadas. O Superman das HQs dos anos 50 e 60 se parece muito com George Reeves, acredito que alguns artistas tenham se inspirado na fisionomia do ator para desenhar o personagem. O mesmo aconteceu com Christopher Reeve e os quadrinhos feitos depois do primeiro filme do Superman com o ator. E isto se repete hoje em dia com os atores Tom Welling e Brandon Routh “emprestando” seus traços para os rostos de alguns Supers por aí.

Acho muito legal como os quadrinhos podem ser e são registros fiéis de sua época, retratando a moda, arquitetura, tecnologia, costumes e suas personalidades. Eu acho que os artistas devem continuar se deixando influenciar pelos padrões de beleza de seu tempo e basearem seus personagens em personalidades reais, mas ao mesmo tempo é bom ter cuidado para evitar um processo por uso indevido de imagem. Não creio que proibir os desenhistas seja o mais correto, na minha opinião seria melhor orientar os artistas como trabalhar com referência fotográfica, evitando os problemas com direitos de imagem.


Por que trocar a DC pela Dark Horse?
Ross: Sempre quis ter a oportunidade de trabalhar em um projeto próprio que me permitisse criar, sem o controle ou as restrições presentes quando os personagens são propriedade de uma editora ou de um outro artista. Ron Marz e a Dark Horse me deram esta oportunidade, e decidi então abraçá-la e fazer o meu melhor trabalho. Como fruto deste trabalho, a revista teve uma ótima aceitação por parte da crítica e teve uma vendagem muito boa, com o primeiro número esgotando rapidamente e sendo impresso novamente. Com isso, a Dark Horse aprovou a continuação da mini-série e me ofereceu um contrato de exclusividade. Neste mesmo período outras editoras começaram a me procurar oferecendo projetos, dentre elas a DC e a Marvel.

Uma vez aprovado o segundo volume da série, o meu contrato deveria começar imediatamente após o término de uma edição de Star Wars e uma mini-série de Conan que me foi oferecida, mas acabei não aceitando. Mas, enquanto eu trabalhava nas últimas edições da primeira mini-série do Samurai, a DC me contatou novamente oferecendo Jonah Hex. Apesar de adorar o projeto sabia que não podia fazê-lo, depois de dizer não à DC por duas vezes, o editor Stephen Wacker me ligou me perguntando então se eu aceitaria desenhar apenas seis edições de Jonah Hex, depois disso eu poderia continuar os meus projetos na Dark Horse ou se mudasse de idéia continuar no título. Pensei muito na proposta e decidi aceitar e adiar o contrato e a produção do Samurai vol. 2, comuniquei a minha decisão ao Ron e ao Dave Land, que é o meu editor na Dark Horse, e eles acataram.

Depois disso ainda aceitei participar de um arco de cinco edições da revista JSA, que teve roteiros de Paul Levitz, pela primeira vez após 16 anos sem escrever quadrinhos, onde desenhei os flashbacks sobre a origem do vilão Fantasma Fidalgo (The Gentleman Ghost). Portanto, eu não diria que troquei a DC pela Dark Horse, apenas aceitei dar continuidade ao Samurai, que é um projeto também de minha propriedade e que a Dark Horse acredita e quer continuar investindo. As portas na DC continuam abertas para quando eu quiser voltar, e isso me deixa bem tranqüilo.


Como você conheceu Ron Marz e se tornou seu atual parceiro de trabalho?
Ross: Desenhei uma edição de Sojourn em 2002 com roteiro do Ron para a CrossGen Comics. Depois desta edição recebi um convite para morar na Flórida e trabalhar no estúdio que a editora mantinha em Tampa. Em 2003 finalmente conheci pessoalmente o Ron. Trabalhamos juntos por três meses e nos tornamos amigos. Quando retornei ao Brasil, continuamos o contato e dividíamos a mesma vontade de trabalharmos juntos novamente. Durante o período que a editora entrou em falência, passei por um momento difícil e de incertezas, e o Ron se mostrou um grande amigo, me orientando, aconselhando e até conseguindo trabalhos pra mim, para que eu pudesse retornar à vida normal o mais breve possível. Foi aí então que ele me convidou para ser o seu parceiro em um arco de seis edições do Green Lantern para a DC em 2004.

Depois desta feliz experiência, onde percebemos que a nossa forma de contar as histórias era muito parecida, Ron me perguntou se eu tinha interesse em tentar publicar um projeto próprio, como a minha resposta foi positiva, ele então me mandou duas idéias que ele tinha na gaveta, uma era sobre um Samurai que cruzava o mundo atrás da amada que fora raptada e outra sobre uma cidade totalmente construída e controlada por robôs, que hoje se chama Pantheon City e terá os desenhos do talentoso Clement Sauve. A minha escolha é evidente, e o resultado desta parceria me faz querer continuar trabalhando com o Ron por muito tempo.


Como você enxerga as diferenças do trabalho de Ron Marz para a Dark Horse, Top Cow e DC?

Ross: Não tenho acompanhado as revistas da DC, mas acho que o momento na editora, com os seus grandes eventos se enraizando em boa parte de suas publicações, não seja favorável a um roteirista como Ron Marz, que precisa de uma certa liberdade de criação para fazer o seu melhor trabalho. Deve ser um saco você ter de seguir um plot pré-estabelecido e ter então que adequar as suas idéias a uma idéia principal, que não é sua. Mas acho que ninguém melhor que ele, criador de Kyle Rayner, para (tentar) traçar o futuro do personagem no universo ou “universos” da DC.

Na Top Cow, principalmente com Witchblade, o Ron tem a chance de se afastar um pouco do universo dos super-heróis e das histórias de fantasia que ele já vinha escrevendo tem alguns anos, e pode então explorar algo mais sobrenatural, mas que também é contemporâneo, sobre pessoas comuns, sobre o dia a dia de uma policial em Nova Iorque e seus problemas, usando diálogos mais reais.

Acredito que é na Dark Horse que Ron encontra a liberdade de poder criar seus próprios projetos, ter total controle sobre os personagens e dar rumo às histórias ao seu modo. Estes são de longe os elementos que mais atraem Ron no processo de criar boas histórias, como ele acredita que deve ser feito e sem amarras editoriais. Ele costuma dizer que o Samurai é como uma sobremesa depois da refeição comum, ele pode saborear bastante.


O que podemos esperar das continuações de Samurai?
Ross: Estamos trabalhando agora nas últimas edições da segunda mini-série, que mostra Shiro na companhia de Safwah Ibn Badr al Din partindo em busca de Yoshiko, que foi levada por Dom Miguel à Espanha e que por um infortúnio foi parar num mercado de escravos em Tripoli. Temos em vista mais uma mini-série onde o Samurai enfrentará os perigos dos sete mares, esta será a nossa aventura de piratas. Como o Ron e eu adoramos o tema, planejamos mostrar a nossa visão deste universo recheado de lendas, fantasias e famosos e perigosos sujeitos com seus navios maravilhosos. Existem planos para uma quarta mini-série, mas como ainda não temos uma aprovação da Dark Horse, prefiro não contar com isso ainda.


A seguir, estão algumas perguntas enviadas por nossos leitores:
Igor Noronha, de Goiânia, pergunta:
Você andou estudando animação e colorização. Em animação, quais são os artistas/estúdios em que você mais se inspira? E na área de cores, quais os atuais profissionais que mais se destacam para você?
Ross:
Em animação, adoro os filmes do Hayao Miyasaki, do Shinichiro Watanabe de Samurai Champloo e Cowboy Bebop, e os filmes da Pixar Animation. Para mim, os melhores coloristas hoje são Dave Stewart, Rob Schwager, Jason Keith, Laura Martin, Justin Ponsor e Michael Atiyeh. 


Como você vê o mercado nacional de quadrinhos? Algum aluno da Impacto, ao começar o curso, pensa em ter seu trabalho publicado no Brasil? Ou todos têm em mente o mercado internacional?
Ross: Acredito muito no mercado nacional pelo talento e altíssimo nível de qualidade dos seus artistas e pela determinação de vários editores que lutam por um mercado estável de quadrinhos. Mas creio que a terrível distribuição e o total despreparo daqueles que vendem este material, no caso as bancas de jornal e revistarias, são os fatores que mais têm prejudicado o quadrinho nacional. Enquanto os quadrinhos não forem encarados de verdade como um produto comercial de enorme potencial, um mercado de quadrinhos consolidado nunca deixará de ser uma utopia.

Quando fui sócio e professor da Impacto Quadrinhos, os alunos visavam desenvolver as suas aptidões como desenhistas ou roteiristas, adquirindo uma melhor compreensão do processo de criação de uma HQ para ser aplicado em seus trabalhos, seja para o mercado nacional ou internacional. Já a intenção da escola era ajudar no desenvolvimento e formação dos alunos como contadores de histórias visando um fomento na produção de quadrinhos no Brasil.


Qual o artista nacional que você mais gostou de fazer parceria em páginas gringas?
Ross: Sem dúvidas o Fábio Laguna, que foi o meu arte-finalista em vários trabalhos como, por exemplo, Armageddom para a Chaos! Comics, American Century e outros. Gostaria de poder trabalhar com ele novamente, temos vontade de trabalhar juntos em algum projeto próprio, quem sabe no futuro a gente consiga.


Tarcílio Dias Ferreira, de Campinas, pergunta:
Qual conselho você daria para as pessoas que estão almejando trabalhar para as editoras norte-americanas?
Ross:
Sejam profissionais, sejam honestos e sejam humildes, neste mercado pequeno e concorrido não basta ser talentoso.


Gustavo Levin, de Porto Alegre, pergunta:
Você desenhou o final do título do Lanterna Verde, quando era estrelado por Kyle Rayner. O que achou dessa experiência? Se pudesse, desenharia a atual série do personagem (agora estrelada pelo Hal Jordan)?
Como disse antes, foi uma experiência fabulosa trabalhar com o Ron no Lanterna Verde. Kyle Rayner é um personagem interessante, bem humano, com os seus problemas, desafios, desilusões, ele me lembra muito o Peter Parker, e talvez por isso tenha gostado tanto de desenhá-lo. Claro que gostaria de trabalhar na série nova, mas acho que tem estado em muito boas mãos.


Que personagem você gostaria de desenhar?
São alguns na verdade: Tom Strong, Hellboy , Indiana Jones, Conan, Batman, Arqueiro Verde, Demolidor, Punho de Ferro, o Mestre do Kung Fu e outros mais.


O que acha dos talentos brasileiros (você, Ivan Reis, Renato Guedes, Mike Deodato e outros) da forma que estão sendo "usados" no mercado norte-americano de HQs? Qual você considera o melhor deles?
Ross:
Estes caras têm acima de tudo muito talento, acreditam e gostam do que fazem, fazem com dedicação e profissionalismo, caso contrário não alcançariam a projeção que conseguiram e nunca teriam o destaque que têm hoje. O mercado norte-americano de quadrinhos não é tão grande assim, mas a quantidade de artistas do mundo inteiro querendo trabalhar nos títulos que alguns brasileiros estão trabalhando é imensa. Estes caras são vitoriosos e me orgulho muito disso. Difícil escolher o melhor deles, cada um tem o seu estilo e o seu “forte” como artista, gosto muito dos trabalhos do Ed Benes, Fábio Laguna, Adriana Melo, Joe Bennett, Deodato, Greg Tocchini, Eddy Barrows, Renato Guedes, Gabriel Bá e Fábio Moon, Adriano Batista, Will Conrado. Mas o Ivan Reis é um fenômeno!


Sandro Gomes, de Santa Catarina, pergunta:
Embora existam muitos desenhistas brasileiros no mercado norte-americano, o mesmo não pode ser dito de escritores. Você acredita que exista algum motivo em especial para isso? Você não tem intenção de algum dia escrever algo?
Ross: Não saberia dizer se existe um motivo em especial, gosto de pensar que não aconteceu ainda como no caso dos desenhistas, acho que mais oportunidades começarão a pipocar aos escritores brasileiros quando eles surgirem com algo que fique acima da média do que se lê nos Estados Unidos. Além disso, um escritor de quadrinhos que quiser escrever para o público americano sobre os americanos tem por obrigação conhecer muito bem a história deles e sua cultura, e estar sempre bem informado sobre tudo que acontece nos EUA.

Mas acredito que se estes escritores forem autênticos e se escreverem sobre o que sabem e conhecem, usando suas próprias experiências de vida, a chance de conquistar um espaço respeitável seja maior. Já temos um começo que foi conquistado com o Marcelo Cassaro e com os irmãos Bá e Moon, eles acreditaram em seus projetos, fizeram um bom trabalho e conseguiram o seu espaço sendo autênticos. 


Como foi desenhar os Novos Deuses?
Ross: Foi legal, mas também uma responsabilidade enorme desenhar uma criação de Jack Kirby. Os Novos Deuses ainda não tinham sido muito explorados por outros desenhistas quando trabalhei na revista, portanto a comparação com os desenhos do Kirby foi inevitável. Mas acho que fiz um bom trabalho embora tenha ficado na série por muito pouco tempo.


Finalizamos com as tradicionais duas últimas perguntas:
Há algum novo projeto que você possa nos adiantar algo?
Ross: Parece papo de ex-BBB ou ator global na geladeira, mas no momento estou estudando alguns projetos. Na verdade eu e o Ron estamos trabalhando em um projeto para uma editora francesa e aguardamos a aprovação de um outro para a Dark Horse com um personagem muito conhecido do cinema, mas não podemos adiantar nada ainda.


Obrigado pela entrevista. Algum recado para seus fãs?
Ross:
Obrigado pelo apoio e por acreditarem no meu trabalho. Fiquem com Deus.

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Arte de capa para Samurai - Volume 2
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