MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
29/08/2007
ENTREVISTA: FERNANDA CHIELLA
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



Fernanda Chiella nasceu em Porto Alegre, mas reside em Florianópolis. A quadrinista de 22 anos começou a carreira no Brasil modestamente, participando de alguns concursos e publicando alguns trabalhos independentes.

A sorte de Chiella mudou quando seu trabalho foi descoberto no ComicSpace, comunidade virtual onde autores e fãs de quadrinhos se reúnem. O resultado é que neste mês Chiella lança sua primeira HQ nos EUA. Intitulada In Her Darkest Hour, a revista sai com o selo Shadowline, de Jim Valentino, pela Image Comics (leia mais aqui).

A artista concedeu uma entrevista por e-mail ao HQ Maniacs, onde fala sobre o começo de sua carreira, suas influências, projetos futuros e mais.

HQM: De onde surgiu o interesse por quadrinhos? Quais seus primeiros contatos com HQs?
Fernanda Chiella: Eu costumava ler Disney quando criança. Colecionei um pouco de Marvel e DC na adolescência, depois veio a febre dos mangás. Nos eventos de anime daqui de Florianópolis, vi a oportunidade para interagir com pessoas que também desenhavam, participar de concursos etc. Mas acabei enjoando do estilo. Acho que o que me fez realmente gostar de quadrinhos foram as graphic novels, Sandman, Estranhos no Paraíso, e quando eu descobri a existência de vida inteligente dentro do universo dos super-heróis, como Alan Moore, Grant Morrison, Mark Millar, entre outros.

HQM: Qual o empurrão inicial que a fez decidir seguir carreira nos quadrinhos? Como se profissionalizou? Quais os melhores momentos de sua carreira até agora?
Chiella: Fiz algumas tentativas de fanzines que não deram muito certo, tentei trabalhar como freelancer e não deu muito certo, tentei malabarismo no sinal e não deu certo, andava bem desanimada... Até que um colega me apontou uma matéria sobre DEMO (não "O" Demo, mas a série do Brian Wood desenhada pela Becky Cloonan). Cara, descobrir a Becky foi a minha panacéia contra o derrotismo, você lê as entrevistas e o blog dela e te dá vontade de correr pra prancheta e desenhar..."Minha carreira até agora" é meio engraçado, creio que ela acabou de começar! (ah sim... a parte do malabarismo era brincadeira).

HQM: Quem são os artistas que mais te inspiram?
Chiella: Além da supracitada, os gêmeos, Fábio Moon e Gabriel Bá. Pelo fato de eles serem brasileiros e terem criado em 10 Pãezinhos uma identidade muito forte em cima disso, sem nenhuma palhaçada de super-herói verde-amarelo ou coisa do gênero. O Warren Ellis, por acertar chutes teleguiados nas cabeças dos leitores periodicamente... Eu também gosto muito do traço do Joshua Middleton, do Frank Quietly e do John Cassaday. 

HQM: Quais são seus títulos de quadrinhos favoritos?
Chiella: V de Vingança, Jennie One, Lazarus Churchyard, Sandman, Preacher, Watchmen, Estranhos no Paraíso, Authority, Os Invisíveis... e mais recentemente, The Pirates of Coney Island, Fell, DMZ, Local, várias tirinhas/webcomics como Calvin & Haroldo, Malvados, Girls with Slingshots. Enfim, eu podia passar o dia nisso e não ia lembrar de tudo...

HQM: A situação do ilustrador no Brasil e no mundo não é das mais justas. O que você tem a dizer e qual você acha que é o papel do ilustrador na sociedade?
Chiella: Talvez um bom começo seria desmistificar o termo "artista", e encarar desenho como uma profissão normal. Enquanto você é "artista", algumas pessoas julgam que você nasceu sabendo e nada do que faz requer esforço, que você “tem o dom” e que “fazer um desenhinho, pra você é fácil”. Ou então, que você “nunca vai ser ninguém na vida”, que está condenado a ser o “artista pobre da família”, desenha como hobby porque é “divertido” e durante o dia tem um “trabalho de verdade”. É deveras frustrante não ser levado a sério. Acho que o papel do ilustrador na sociedade é o papel que qualquer outro agente de meio cultural tem: comunicar idéias, contar histórias, sejam elas educativas, informativas, conscientizadoras, ou ainda que com apenas o intuito de divertir. Talvez o Brasil tenha necessidades sócio-econômicas bem mais urgentes do que um mercado de histórias em quadrinhos, mas sem cultura, a vida ia ficar um bocado mais chata, não?

HQM: O que acha que pode ser feito para tentar reverter a situação? Em sua opinião, a internet auxilia ou atrapalha? Por um lado, há a divulgação gratuita, por outro, a pirataria?
Chiella: Eu não tenho nenhuma solução mágica, só tento fazer a minha parte aprimorando e amadurecendo cada vez mais o meu trabalho e não parando de produzir. Pra mim, a internet facilitou e muito. Não fosse o falecido Fórum Rabiscando, o Deviantart, o Ilustrasite, o Comicspace... eu não teria acesso a tanta informação, nem teria conhecido tanta gente que gostasse das mesmas coisas que eu. Tem seus contras, pois tudo que é facilitado acaba banalizado, e até já fui vítima de pequenos plágios, mas por enquanto não ouvi falar de ninguém ficando rico à custa de alguma arte minha (quando ouvir, eu vou querer saber como se faz). 

HQM: Nos últimos anos, a presença de mulheres vem aumentando na indústria de quadrinhos, tanto leitoras quanto desenhistas, roteiristas e até mesmo editoras. Enquanto nos anos 90 havia pouquíssimas opções para mulheres, há pouco tempo a DC criou um selo dedicado exclusivamente a produzir HQs para elas. O que você acha dessa tendência? E sobre a segmentação do mercado, a criação de revistas declaradamente voltadas para mulheres, você acha isso bom ou ruim?
Chiella: Olha, a idéia em si é boa, porque existem temas femininos que não são abordados em quadrinhos com tanta freqüência. Acho que a segmentação é positiva enquanto gera mais opções e facilita a busca por assuntos específicos.  Isso já acontece no Japão faz tempo, só que muitos mangás dedicados ao público feminino têm personagens ainda mais estereotipadas que em outros gêneros de publicação. Ou seja, não quer dizer que eu necessariamente vá gostar de todos esses títulos.  Provavelmente vou adorar alguns e detestar outros. Seria legal ver as tirinhas da Danielle Corsetto embarcarem nesse trem e serem lançadas aqui...

HQM: Ainda sobre mulheres e quadrinhos, o que você acha da forma como o gênero é retratado, principalmente nas HQs mainstream?
Chiella: É engraçado que nunca perguntam pro macharedo se eles se sentem intimidados pelo porte físico ou pela quantidade alienígena de músculos dos super-heróis. Vou me abster de fazer qualquer discurso porque tudo que eu disser a partir daqui vai soar feminista e pode ser usado contra mim, he he he.

HQM: O que pretende fazer agora que "In Her Darkest Hour" está saindo pela Shadowline? Houve alguma conversa sobre fazer mais coisas?
Chiella: Só vou prometer que o meu próximo projeto de HQ vai tratar de qualquer coisa possível, exceto o clima depressivo da IHDH. Meu amigo Fernando Melleu, vocalista da Blakk Market e sociopata também nas horas vagas, está a escrever um roteiro tarantinesco e, assim que estiver definido o plot, vamos ver no que dá. Enquanto isso, eu também vou trabalhar em histórias curtas, tenho alguns roteiros de poucas páginas aqui me esperando para dar uma afiada na narrativa...

HQM: Falando em internet, nos conte como a sua história foi descoberta e como foram as negociações com a Image Comics. Você está satisfeita?
Chiella: Foi através do Comicspace. O Jimmie Robinson, de Bomb Queen, viu minha página lá e cagüetou pro pessoal da Shadowline. Daí então foi tudo ladeira abaixo, ou ladeira acima no caso... Por enquanto, a única coisa que eu lamento é não ter dinheiro para ir à San Diego Comic Con conhecer o resto do pessoal da editora. O único que conheci pessoalmente foi o Igor Noronha, ele esteve aqui em Floripa durante o N Design, e é responsável pelas cores do Hiding In Time, que se eu não me engano, foi lançado essa semana.

HQM: Você acha que as portas das grandes editoras estadunidenses estão se abrindo para artistas com um traço mais estilizado, como é o caso do seu tipo de desenho?
Chiella: Hãã... espero que sim! Para ser sincera, eu não acompanho tantos títulos da Marvel e DC pra saber direito, vejo isso no trabalho do Frank Quietly e do Joshua Middleton (por exemplo), mas não sei dizer exatamente até onde eles são uma exceção ou uma tendência.

HQM: Você é uma mulher jovem ainda. Deseja seguir a carreira de quadrinista por toda a vida? Se não fosse desenhista, o que você seria?
Chiella: É meio cedo para dizer muita coisa. Ser quadrinista é uma coisa, se sustentar como quadrinista são outros 500. Eu não planejo parar de fazer HQs, mas se um dia precisar largar o desenho e carimbar documentos o dia inteiro pra pagar o aluguel e a comida, vou ter que largar, mas vou fazer o possível pra que isso não aconteça.

HQM: Deseja trabalhar um dia com outro formato de narrativa gráfica, como as tiras, por exemplo?
Chiella: Já fiz trabalhos de storyboard para a faculdade, mas nada profissional. Eu faço tirinhas às vezes, a maioria de piadas internas com meus amigos, mas não teria a manha de fazer tiras semanais, por exemplo. 

HQM: Você sonha em desenhar algum grande personagem dos quadrinhos um dia?
Chiella: Eu queria ter desenhado o V de Vingança ou a Jennie One, ehehe. Mas acho que a minha fangirlzice é mais direcionada aos autores do que aos personagens. Pra mim, seria muito mais insano desenhar um roteiro escrito pelo Warren Ellis do que desenhar o Lobo ou o Wolverine. Só o fato de conhecer esses artistas que admiro e trocar uma idéia com eles, já valeria a pena.

HQM: Já pensou em expor seu trabalho para editoras fora dos EUA, como as editoras européias e latino-americanas?
Chiella: Bom, pensar eu já pensei, mas tudo aconteceu meio de supetão, mal tive tempo de me organizar ultimamente... Antes de pensar em qualquer coisa agora, preciso voltar para a prancheta e produzir mais!

HQM: Qual é seu contato com outros artistas brasileiros?
Chiella: Acho que a maior parte veio através dos fóruns de internet. Alguns eu conheci pessoalmente, mas é tanta gente, que perdi o contato com a maioria. Do Rabiscando eu sempre lembro do Rodrigo Martins, vulgo Soldado (http://www.calango.org/) e da Camila (http://camila-croft.deviantart.com/). Não posso deixar de citar o Daniel, que sempre me xinga (http://daniel-shagrath.deviantart.com/). Tem também o Ig Barros (http://igbarros.deviantart.com/), de Belo Horizonte, e o Gleydson, de Brasília, (http://gureiduson.deviantart.com/), que são fenomenais. Daqui de Floripa tem o Lucas de Abreu, que é meu colega de trabalho, (http://deabreu.deviantart.com/), e um monte de gente que trabalha com editorial/publicitário...

HQM: As pessoas da região sul do Brasil são conhecidas pela grande ligação que têm com a cultura em geral. Você acha que a cultura do Sul do país aceita melhor as revistas em quadrinhos se comparado a outras regiões do Brasil?
Chiella: Pergunta pegadinha? Eehehehe... Eu nasci em Porto Alegre, mas me criei aqui em Florianópolis. Talvez essa ligação tenha a ver com o frio e o ócio criativo, costumo dizer que o inverno deixa as pessoas mais produtivas. Pelo menos pra mim, funciona.

HQM: Quais seus projetos futuros, tanto lá fora como aqui no Brasil?
Fazer mais HQs, aprender mais alguma língua, adotar 20 gatos, virar monge shaolin e rockstar. Eu também planejo implantar mais uns quatro braços, daí talvez eu tenha tempo para fazer tudo isso.


Para conhecer mais sobre o trabalho de Fernanda Chiella, visite o Estúdio Seqüencial, clicando aqui.

  facebook


 
Tags : Fernanda Chiella, In Her Darkest Hour, Shadowline, Image Comics, HQM: De onde surgiu o interesse por quadrinhos? Quais seus primeiros contatos com HQs?, HQM: Quem são os artistas que mais te inspiram?, HQM: Quais são seus títulos de quadrinhos favoritos?, HQM: Ainda sobre mulheres e quadrinhos, o que você acha da forma como o gênero é retratado, principalmente nas HQs mainstream?, HQM: O que pretende fazer agora que "In Her Darkest Hour" está saindo pela Shadowline? Houve alguma conversa sobre fazer mais coisas?, HQM: Você é uma mulher jovem ainda. Deseja seguir a carreira de quadrinista por toda a vida? Se não fosse desenhista, o que você seria?, HQM: Deseja trabalhar um dia com outro formato de narrativa gráfica, como as tiras, por exemplo?, HQM: Você sonha em desenhar algum grande personagem dos quadrinhos um dia?




 

Seções
HQ Maniacs
Redes Sociais
HQ Maniacs - Todas as marcas e denominações comerciais apresentadas neste site são registradas e/ou de propriedade de seus respectivos titulares e estão sendo usadas somente para divulgação. :: HQ Maniacs - fundado em 19.08.2001 :: Brasil