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03/09/2007
MATÉRIA: HERÓIS ENTRE A VIDA E A MORTE
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



Se há algo com que leitores de quadrinhos de super-heróis estão acostumados, é que a morte com certeza não é algo definitivo. Nenhum fã se surpreende mais quando vê alguém dado como morto dar o ar da sua graça no mundo dos vivos, como se ressuscitar fosse algo normal e corriqueiro. Bem, pelo menos no universo dos super-heróis, isso é verdade.

No entanto, nem sempre foi assim. Até o começo dos anos 80, um cadáver era um cadáver, e os autores tinham muito pudor de trazer um herói de volta da morte, por temerem a reação (negativa) dos leitores.

Exceção eram os vilões: estes sim poderiam retornar a torto e a direito. Desde as histórias do Batman nos anos 40, onde os criminosos desapareciam no mar ou depois de uma explosão, somente para retornar mais tarde, explicando como se salvaram, até mesmo a pulverização do Doutor Octopus por uma bomba atômica nas histórias do Homem-Aranha do inicio dos anos 70. Depois foi explicado que Octopus e o Cabeça de Martelo não morreram, mas passaram a vibrar uma fração de segundo fora da realidade, e coube ao Aranha trazê-los de volta ao plano físico.

Claro que se havia um cadáver a coisa era diferente: Norman Osborn morreu em 1973 e por 25 anos deixaram seu espírito em paz, uma vez que mortes aparentemente tão incontestáveis, como a do Duende Verde original, eram algo sagrado até mesmo para os autores mais ávidos por trazerem velhos personagens mortos de volta.

Mas, a partir dos anos 80, muitos autores decidiram que se os supervilões tinham direito de retornar dos mortos, o mesmo valia para os heróis. Na verdade, isso se deve ao fato de que muitos fãs de quadrinhos nos anos 60 e 70 passaram a se tornar autores nos anos 80 e assim, era normal uma certa saudade por um personagem dado como morto há muito tempo, ou onde ainda era visto um potencial desperdiçado.

Provavelmente o primeiro super-herói a tirar o pijama de madeira foi o Wonder Man (no Brasil, Magnum). Numa das primeiras histórias dos Vingadores, esse vilão se fez passar por herói para se infiltrar no grupo, mas no fim se redimiu, sacrificando sua vida para deter os Mestres do Terror. Por doze anos, Simon Williams descansou em paz, até que o roteirista Jim Shooter resolveu trazê-lo de volta à vida explicando que, com sua morte, seu corpo passou por uma metamorfose e ele se tornou um indivíduo de energia iônica. Nos anos que se passaram, Magnum estava destinado a morrer e ressuscitar outras vezes, assim como inúmeros outros personagens que iriam seguir a sua sina.

Morte de heróis sempre foi um assunto delicado para os fãs, primeiro porque por muito tempo foi considerado que um herói jamais morreria, ainda mais se tivesse sua própria série. Quando a National Comics resolveu encerrar as aventuras da Patrulha do Destino, que não fazia muito sucesso, matou todo o grupo e, com exceção do Homem-Robô, por muito tempo o Chefe, Homem Negativo e Mulher Elástica estiveram realmente mortos.

Então se criou outro tabu: de que se um herói morresse, aquilo era trágico, dramático, incrível, sensacional e irreversível. A Marvel ajudou a solidificar essa crença quando matou Gwen Stacy, que era a namorada do Homem Aranha, o maior sucesso da editora. Para se ter uma idéia, era como se de repente a DC tivesse resolvido matar Lois Lane, tamanha comoção esta história despertou em 73.

Foram muitos os leitores que escreveram cartas para a editora pedindo pelo retorno de Gwen Stacy, até mesmo xingando os autores da história. Mas como trazer de volta alguém cujo cadáver Peter Parker segurou nos braços? O roteirista e assassino (um deles, na verdade) de Gwen Stacy, Gerry Coway, resolveu fazer uma pegadinha com os leitores: trouxe Gwen inexplicavelmente de volta, para bagunçar a vida de um Peter Parker que já começava a sair com Mary Jane Watson. Poucas edições depois foi revelado que esta Gwen era um clone, criado pelo vilão Chacal.

A pegadinha só ajudou a sedimentar a certeza de que a morte de Gwen era definitiva (tanto é que até hoje ainda não ousaram trazê-la de volta). E olhe que nem sempre era preciso um cadáver para comprovar uma “morte incontestável”. Bucky Barnes, o parceiro do Capitão América nos anos 40, por exemplo, teria morrido numa explosão no final da Segunda Guerra, segundo as recordações do herói. Embora em nenhum flashback tenha sido demonstrado que Steve Rogers tenha visto o corpo, os leitores passaram a acreditar nisso com as inúmeras brincadeiras que por quarenta anos, desde 1964 (quando foi anunciado que Bucky estava morto), permearam as histórias do Capitão, cheias de impostores que se declaravam Bucky, somente para serem desmascarados.

Tanto John Byrne quanto Frank Miller também fizeram brincadeiras com o retorno de personagens que eles mesmos mataram (e que os fãs reclamaram das mortes). Em Tropa Alfa, a morte do Guardião foi um dos pontos altos da revista, afinal o personagem era considerado o protagonista do título! Byrne conseguiu ser surpreendente, criativo e trágico ao mesmo tempo. Bolou até um arco, um ano e meio depois, mostrando a “volta” do Guardião, e muita gente acreditou nisso, até ele demonstrar que se tratava de um impostor e o personagem tinha mesmo morrido. Anos depois, já sem Byrne, o título da Tropa Alfa mostraria o verdadeiro retorno do personagem.

Frank Miller criou Elektra somente para matá-la, e os fãs não aceitavam isso. Então bolou uma história onde um Matt Murdock alucinado acredita que ela está viva, somente para comprovar que o amor da sua vida está realmente morto. No seu último arco na revista do Demolidor, Miller reverte as expectativas do leitor de novo, “ressuscitando” misteriosamente a personagem, mas estabelecendo que ela está no limbo. No final dos anos 80, na graphic novel “Elektra Vive”, ele desceu o martelo sobre o destino da sua heroína, quando ela morre salvando Matt Murdock, e este decide queimar seu corpo (a Marvel mais tarde decidiu desconsiderar esse álbum da cronologia).

O sucesso dos Novos X-Men em muitos aspectos também foi construído em cima de uma pilha de corpos: logo na sua segunda aventura, um dos novos integrantes, Pássaro Trovejante, morre em combate com o Conde Nefária. Era uma forma do roteirista Chris Claremont dizer que tudo realmente poderia acontecer, tirando dos leitores a segurança de que os heróis sempre sairiam vivos de suas aventuras.

Isso seria confirmado quatro anos mais tarde, quando Jean Grey, uma das fundadoras dos X-Men, comete suicídio para não se tornar uma entidade maligna e genocida, a Fênix Negra, um dos clássicos das histórias dos mutantes. Uma história que infelizmente perdeu muito da sua força com o retorno da própria Jean Grey, seis anos depois, em 1986.

Mas, antes da moda de ressuscitar heróis pegar, tivemos outras mortes significativas e aparentemente sem volta: Jim Starlin transformou Adam Warlock num personagem dono de uma saga com começo, meio e fim, que terminava justamente com o sacrifício auto-imposto pelo herói para não se tornar um vilão.

Mas Warlock era um herói de terceiro escalão. Jim Starlin, na verdade, se tornaria mais conhecido por matar o Capitão Marvel de câncer numa graphic novel publicada em 1982. Um trabalho tão bem executado que também Mar-Vell, até hoje, ainda não retornou dos mortos, por respeito a esse material.

Em 1988, Starlin sedimentaria sua fama como assassino: foi ele, nada mais nada menos, o autor de “Morte em Família”, onde Jason Todd, o segundo menino-prodígio, foi brutalmente assassinado pelo Coringa. Em muitos aspectos, a morte de Robin foi um pedido dos leitores. Então, se os leitores pediram para matá-lo, não havia perigo de ele ressuscitar, certo?

Vendo que os “assassinatos” na Marvel geravam boas vendas, a DC decidiu que em seu mega-evento para redefinir seu universo de personagens, “Crise nas Infinitas Terras”, também deveria haver uma boa lista de corpos. E que lista! Foi um verdadeiro genocídio. No entanto, as mortes que mais chamaram atenção eram sem dúvida de Barry Allen, até então o Flash, e da Supergirl, a prima do Superman.

O próprio autor da história, Marv Wolfman, confessou que deixou uma lacuna onde poderia ser explicado o retorno de Barry Allen, caso o novo Flash, Wally West, não desse certo. Mas como o pupilo fez até mais sucesso que seu predecessor, Allen jamais voltou dos mortos. Já a Supergirl é uma longa e complicada história...


Quem é morto sempre aparece
Foram então que chegaram os anos 80. É difícil precisar realmente quando foi determinado que o tabu de que “um herói morto é um herói definitivamente morto” poderia cair, mas o fato é que em meados dos anos 80 isso não era mais regra. Poderíamos citar a história do retorno de Magnum como um precursor do “morre-ressuscita”, embora este expediente também fosse usado à exaustão na Legião dos Super-Heróis, grupo futurista da DC.

Talvez a culpa tenha sido de John Byrne. O escritor/desenhista não queria ter participado da morte de Fênix, no final dos anos 70, que em muitos aspectos foi uma imposição editorial, uma vez que o chefão da Marvel na época, Jim Shooter, não via com bons olhos Jean Grey apenas perder seus poderes como castigo por assassinar cinco bilhões de pessoas. Então Byrne trouxe a heroína de volta numa história do Quarteto Fantástico, usando o pretexto de que a Fênix que morreu (e que matou cinco bilhões de pessoas) não era Jean Grey.

Abriram a porteira, poderíamos dizer: com a certeza de que um herói morto poderia voltar, não havia por que não matá-los. Isso culminou em “A Morte do Superman”, o maior evento de marketing dos quadrinhos de todos os tempos, uma história cujo previsível final era, claro, o retorno do herói. E se o primeiro e o maior de todos podia ser morto, então...

Em 1993, enlouqueceram Hal Jordan, o Lanterna Verde, transformaram-no num vilão, até terem coragem de matá-lo, em 1997. Oliver Queen, o Arqueiro Verde, foi morto em 1996. A Mulher-Maravilha em 1997. Aquaman no ano 2000. E todos retornaram.

Morrer e ressuscitar também virou um passatempo especial nas histórias dos X-Men: Ciclope, Colossus e Psylocke, todos personagens populares, foram mortos, mas voltaram, e pasmem, os leitores não reclamaram, pelo contrário, eles realmente os queriam de volta!

Quando se conversa com um grupo de fãs de quadrinhos é normal ouvir: “Esse negócio de morre/ressuscita enche o saco”. Mas a verdade é que a maioria dos retornos realmente acontece simplesmente porque os fãs querem assim.

Eles não podem aceitar outro Lanterna Verde que não seja Hal Jordan, outro Arqueiro Verde que não seja Oliver Queen, ou outra Mulher-Maravilha que não seja Diana. Ou que seus X-Men preferidos não estejam vivos.

O problema é que, com esta “anuência” do leitor, os autores de quadrinhos praticamente não têm limites. Não existem mais tabus.

Os dois mais polêmicos retornos recentes não são de protagonistas, mas de coadjuvantes cujas mortes foram muito importantes para dois astros dos quadrinhos, Capitão América e Batman, respectivamente.

Bucky foi deixado em paz por mais de quarentas anos, mas o roteirista Ed Brubaker resolveu mexer com o cânone. Nas palavras do escritor: “uma vez que jamais foi mostrado o corpo do herói, como diabos o Capitão tinha certeza que ele estava morto? Ele não viu Bucky morrer, então os leitores também não!” Se por um lado, faz sentido, por outro elimina qualquer segurança do leitor de que alguém possa estar morto de verdade.

E o que dizer de Jason Todd, o Robin que os leitores pediram para que morresse? Vimos o corpo, vimos o enterro... Mas, no universo do Homem-Morcego, infelizmente existem os meios para o ex-Robin retornar.

Nem todo retorno causa polêmica. Às vezes, os leitores nem ligam. Principalmente quando é feita uma burrada tão grande quanto matar Nick Fury e o Justiceiro, personagens importantes no elenco da Marvel (tão importantes que ambos já tiveram e vão voltar a ter filmes). Nick Fury morreu assassinado pelo próprio Justiceiro em 1996 e, quando voltou com a explicação óbvia de sempre, “não era eu, era um MVA (Modelo de Vida Artificial)”, os leitores estavam indiferentes.

Da mesma forma, foi Garth Ennis indiferente com o destino do Justiceiro, que havia se suicidado, voltado como anjo vingador, e levado para passar a eternidade no paraíso, com sua família. Ele simplesmente voltou e não se fala mais nisso, e tudo que aconteceu foi apenas desconsiderado.

“O fato é que isso são quadrinhos, e podemos mudar de idéia”, justifica-se Chris Claremont, um dos campeões em trazer falecidos de volta, nem sempre com uma boa explicação (quando ela existe).

Mudar de idéia foi o que a DC Comics fez em relação à Supergirl. Primeiro, a personagem foi considerada infantil, redundante e sem potencial. A DC decidiu que era importante que Superman fosse o último sobrevivente de Krypton e ponto final. No final dos anos 80 se buscou outra versão da Supergirl, esta um ser artificial de protomatéria de uma realidade paralela. Nos anos 90, este ser foi unido a uma adolescente, como forma de humanizar a personagem. Quando a série foi cancelada, uma nova Supergirl foi providenciada, agora a filha do Superman num futuro alternativo.

No entanto, vinte anos após Crise nas Infinitas Terras, Kara Zor-El, a Supergirl original, está de volta, reformulada e viva, uma vez que os acontecimentos de Crise não aconteceram (bom, mais ou menos...).

Seja como for, uma coisa é certa: nos quadrinhos tudo é possível, e nem sempre a morte é o fim. Muitas vezes pode ser apenas o começo. Se para algo melhor ou pior, cabe aos roteiristas (e talvez aos leitores) decidirem.


Adriano "Nano" de Souza é jornalista e escritor.

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