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25/10/2007
MATÉRIA: BRAT PACK - A OBRA MÁXIMA DE RICK VEITCH NO BRASIL
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



Rick Veitch é um cara bizarro, e talvez por isso Brat Pack seja um de seus melhores trabalhos. Apesar de alguns trabalhos independentes de renome, Veitch é mais conhecido como o sucessor de Alan Moore no título do Monstro do Pântano no final dos anos oitenta, de onde o próprio se demitiu após boicote a uma de suas histórias pela editora DC Comics. Nela, o elemental encontrava Jesus Cristo no Jardim das Oliveiras, onde os dois conversavam.

Apesar de mostrar Cristo de maneira respeitosa, a editora considerou a história potencialmente ofensiva e impediu sua publicação. Ultimamente, Veitch foi responsável pela arte do personagem Greyshirt na revista de Alan Moore, Tomorrow Stories, no selo ABC Comics - um braço editorial da própria DC - onde também lançou a minissérie Greyshirt: Indigo Sunset, onde Veitch escreve os roteiros e desenha este personagem aos moldes das antigas HQs do Spirit de Will Eisner.

No ramo dos super-heróis, o chamado mainstream, sua última empreitada num título famoso foi na série do Aquaman, mostrando definitivamente que não é um escritor de heróis coloridos. Ao longo das horrendas onze edições, Veitch isolou o herói em uma ilha onde ele encontra uma certa "dama do lago” - o nome dele é Arthur, então...- que lhe confere uma mão de água no lugar da mão perdida, o transforma num peixinho para resolver uma aventura, num monstro aquático dominado por sua mão, e cria uma estranha amizade com o Arraia Negra- o responsável pela morte de seu filho - criando momentos de puro homossexualismo implícito entre os dois, acabando por desconstruir tudo que o competente nerd Peter David havia criado para o personagem. E talvez por ridicularizar tanto o mundo dos super-heróis, Rick Veitch seja o cara perfeito para uma série ácida como Brat Pack.

Brat Pack, algo como "grupo de pirralhos", aborda de maneira sórdida e trágica um dos principais temas das HQs de heróis, surgido em 1940 e sugado à exaustão desde então: os tais parceiros adolescentes dos heróis. Afinal, qual grande herói nunca teve  seu "sidekick"? Flash tem seu Kid Flash, a Mulher-Maravilha tem sua Moça-Maravilha, o Capitão América tem seu Bucky, e o "sidekick original", Robin, já em sua enésima encarnação, nunca abandona o soturno Batman.

Retrocedendo no tempo, quando as HQs nos anos 40 eram padronizadas, estáticas, previsíveis e com pouquíssimas inovações literárias e artísticas - e em alguns casos isso pouco mudou nos dias de hoje - os sidekicks foram criados como um recurso nas histórias para atrair o público infantil, onde as crianças se identificariam com o herói mirim, e o personagem principal teria alguém para explicar a trama.

Com a evolução dos roteiros e da narrativa visual, a presença deles num contexto prático se anulava, passando a ser mais um elemento da complicada cronologia dos quadrinhos de heróis que tanto atormenta o mercado, gerando ao longo dos anos, grupos e mais grupos de heróis adolescentes “cansados de serem tratados como crianças", com histórias que giram sempre em temas pertinentes aos jovens, num nicho mercadológico que continua até hoje com sucesso.

Brat Pack começa de forma curiosa. Na fictícia cidade de Slumburg, escondida em algum lugar doentio da mente de Veitch, vemos os fundos de uma igreja usada como ponto de encontro secreto pelos pequenos heróis, ao mesmo tempo em que ouvimos na transmissão de rádio um debate sobre a importância destes heróis, visivelmente desprezados e ridicularizados pelo povo da cidade, que prefere que todos explodam e sumam de vez, deixando a cargo do radialista abrir uma pesquisa sobre que fim deve-se levar os heróis.

Ao final dessa seqüência, percebemos que o grande arquiteto do debate é o mesmo vilão que, ao descobrir o resultado da opinião pública, decide explodir os heróis no fundo da igreja. Coincidência ou não, pouco antes de Veitch iniciar seu trabalho em Brat Pack no final dos anos 80, a DC Comics anunciou uma pesquisa telefônica definindo o futuro do parceiro do Batman na história Morte em Família, cujo resultado todos sabemos.

A seqüência inteira em que nos apresenta os personagens não poupa esforços para mostrar cada canto podre deste universo. Chippy, cópia descarada de Robin, com sunguinha apertada e sapatilhas, aparece no quarto do padre da igreja para reclamar de sua situação insuportável com seu mentor Midnight Mink; o cabeludo Wild Boy aparece numa prancha alada com o uniforme todo rasgado e bêbado carregando várias latas de cerveja; o fortão Kid Vicious gritando de dor ao urinar na parede; e a bela Luna, que come como uma porca e vomita tudo logo em seguida e que não permite que a olhem muito de perto por causa de suas espinhas. Junto a isso o vilão, Dr. Blasphemy, com roupas de couro, máscara de sadomasoquista, corda no pescoço e uma bizarra boca no formato de uma vagina de onde sai uma língua de cobra de dar inveja ao Gene Simmons. E é só a seqüência inicial. É mole?

O montante da trama mostrará os heróis principais: Midnight Mink, vigilante bissexual assumido; King Rad, playboy milionário; Moon Mistress, uma amazona decrépita; e Judge Jury, psicopata nazista de carteirinha, na seleção de substitutos, cada um usando métodos peculiares de preparação para garantir a continuidade de seus contratos publicitários com a imagem dos garotos.

Cada painel foi criado para nos apresentar uma visão grotesca do mundo dos heróis e seus parceiros, com crianças forçadas a treinamentos psicóticos, noções dúbias de justiça, roupas ridículas e constante perigo. Como na cena em que Moon Mistress apresenta sua nova parceira a uma multidão de marmanjos que as atacam desesperadamente, ou a iniciação do parceiro de King Rad no álcool, e o desespero do padre perdendo sua sanidade a cada página. E como toda grande história de super-heróis, obviamente temos a menção de True Man, o maior e mais poderoso herói que abandonou a Terra, deixando uma lição de exemplo - e amor para Midnight Mink e Moon Mistress - para os que ficam. True Man traça paralelos com The Maximortal, outra série de Veitch sobre o herói perfeito.

Brat Pack foi por vezes comparada a Watchmen e a O Cavaleiro das Trevas pelo seu tom negro e revisionista das HQs de heróis mirins, representando bem o espírito soturno dos anos 80. Mas enquanto sentimos em Watchmen certo apreço à magnificação pela figura dos heróis, onde por mais humanos que lhe pareçam - o próprio cenário se assemelha ao mundo real - os heróis de Watchmen são deuses míticos, heróis trágicos. Em Brat Pack os heróis da história são figuras desprezíveis, patéticas, egoístas, mesquinhas, verdadeiros reflexos de tudo de podre na alma humana.

Por pouco não torcemos pelo vilão, que dentro de sua pouca sanidade parece ser a única figura sensata de toda a história, para que ele acabe logo com esses malditos heróis. Veitch parece passar um pano em décadas de HQs tirando o falso colorido das páginas e mostrando como esse mundo de parceiros infantis é bizarro e se parece mais com uma ação judicial sobre pedofilia. A própria capa da edição traz o personagem Chippy, descarada alusão ao Robin, depilando a perna enquanto segura sua fina máscara na boca. Com direito a sapatilha com asinha e tudo mais. Certamente olharemos para títulos como Gen 13, Novos Titãs ou Novos Mutantes com outros olhos após lermos Brat Pack.

Afinal, não parece estranho que o único e melhor amigo de um adulto, além de sua constante e próxima companhia, seja um garoto de 13 anos?

Brat Pack chegou a ser anunciado no Brasil pela Brainstore há alguns anos, mas não chegou a ser lançado. Desta vez, a edição definitiva da obra, revista pelo próprio autor (com novos diálogos e um novo final, diferente da minissérie lançada originalmente), chega nas livrarias, comic shops e melhores bancas pela HQM Editora na primeira quinzena de novembro. Uma obra imperdível para todo fã e colecionador.

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