MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
24/03/2008
MATÉRIA: UM FENÔMENO CHAMADO NEIL GAIMAN
 
 
Neil Gaiman
 
 
Gaiman e o amigo Alan Moore
 
 
Dias da Meia-Noite
 
 
Miracleman: The Golden Age
 
 
Violent Cases: finalmente no Brasil
 
 
Signal to Noise
 
 
Mr. Punch
 
 
Passeando com o Rei dos Sonhos...
 



Duas décadas atrás, um jovem inglês deu início a uma revolução na arte de contar histórias em quadrinhos quando, junto com o amigo Dave McKean, publicou a graphic novel Violent Cases, o pontapé inicial de uma longa história de sucessos.

Neil Gaiman hoje se destaca na literatura adulta e juvenil, no cinema, na televisão e até mesmo nos desenhos animados, mas sua fama começou nos quadrinhos. Vamos voltar um pouco no tempo e falar dos primeiros anos da carreira desse genial escritor, antes que se tornasse conhecido mundialmente pela série Sandman.

Neil Richard Gaiman nasceu em Portchester, na Inglaterra, no dia 10 de novembro de 1960. Desde muito jovem, descobriu a paixão pela leitura, devorando avidamente praticamente qualquer coisa que lhe caísse nas mãos. Suas leituras o apresentaram a autores de renome como C.S. Lewis, J.R.R. Tolkien, Michael Moorcock, G. K. Chesterton, Samuel R. Delany, Roger Zelazny, Robert A. Heinlein, Harlan Ellison, H. P. Lovecraft, Gene Wolfe, entre muitos outros, que lhe serviriam de inspiração no futuro. Ainda criança, descobriu as revistas em quadrinhos, apaixonou-se e sonhou em seguir carreira escrevendo-as quando se tornasse adulto. O sonho foi inicialmente frustrado e Gaiman voltou-se para a profissão de jornalista.

Trabalhou escrevendo artigos para diversas publicações britânicas como a Time Out, The Observer, The Sunday Times of London Magazine e, inclusive, revistas masculinas como a Penthouse e a Knave. Nessa época, escreveu seus primeiros livros, uma biografia encomendada da banda inglesa Duran Duran e um livro de citações do cinema e literatura de ficção científica, intitulado Ghastly Beyond Belief, em parceria com o jornalista Kim Newman. Um pouco mais tarde, em 1988, escreveu Don´t Panic: The Official Hitchhiker´s Guide to the Galaxy Companion, um guia sobre Douglas Adams e sua série O Guia do Mochileiro das Galáxias.

:: O Primeiro Passo
Foi Alan Moore quem colocou Gaiman de volta na trilha dos quadrinhos. O primeiro passo se deu quando, fascinado pelas histórias do Monstro do Pântano, Gaiman travou amizade com o conterrâneo. Durante uma conversa, Gaiman pediu a Moore que lhe mostrasse como era feito um roteiro para quadrinhos. Assim Moore o fez, e sua influência pode ser vista no trabalho de Gaiman. É notório que Gaiman escreve roteiros longos e minuciosos, cuidadosamente descrevendo o que acontece em cada quadro - só há uma pessoa na indústria que escreve roteiros ainda mais longos.

Um pouco depois, em 1985, Gaiman usou a experiência para escrever o roteiro de Jack in the Green, uma história do Monstro do Pântano passada no século XVI. Anos depois, esse roteiro foi transformado em HQ pela DC Comics, com arte de Steve Bissete e John Totleben, sendo publicada em um encadernado em 1999, junto com outras histórias avulsas de Gaiman. No Brasil, a história encontra-se dentro do álbum Dias da Meia-Noite, publicado pela Pixel Media.

:: Miracleman
Da amizade com Alan Moore surgiu também a passagem de Gaiman pela série Miracleman, no começo dos anos 1990. Quando Moore saiu do título, Gaiman assumiu os roteiros da revista, trabalhando em conjunto com o desenhista Mark Buckingham. Os dois criaram várias edições antes que a editora, a Eclipse Comics, fechasse as portas, deixando a série inacabada.

Mas como substituir e, quem sabe, superar a passagem de Alan Moore pela revista de um dos heróis mais controversos e complexos dos quadrinhos, o Miracleman?

Miracleman (originalmente chamado Marvelman) nasceu em 1954, criação de Mike Anglo e era um super-herói inspirado no Capitão Marvel. Quando Moore assumiu a revista, trouxe um tom mais sombrio às histórias. O repórter Mickey Moran, já adulto e casado, descobre que na verdade é o super-herói Miracleman e que suas memórias foram manipuladas.

Neil Gaiman assumiu Miracleman escrevendo o arco The Golden Age, narrando o que acontece nesse mundo alguns anos após o encerramento da trama de Moore: uma utopia governada por Miracleman e outros super-humanos. The Golden Age mostra as vidas de seres humanos comuns sendo influenciadas ou afetadas pela existência de Miracleman e personagens relacionados. Quando o herói toma o controle do mundo, como ficam as pessoas normais? Para abordar a questão da admiração, ódio e indiferença, Gaiman cita o falecido Kid Miracleman e traz de volta todos os personagens clássicos, mas de formas alternativas, que buscam confundir o leitor. Gaiman filosofa e cria atmosferas para trabalhar cada um dos pontos de vista, e Mark Buckingham magistralmente o acompanha na narrativa.

Pessoas buscam esperança no “salvador”, crianças querem seu ídolo de volta, um homem é seduzido e o vilão supremo encara sua própria realidade ao perceber, assim como o Homem-Animal de Grant Morrison, que é apenas um personagem de quadrinhos, em meio a cópias de um gênio (no caso, Andy Warhol). Fica claro que tudo é apenas uma parte de um plano maior de Gaiman, que traria Kid Miracleman de volta e acabaria com a utopia estabelecida pelo herói principal, que iria da glória à derrota. Infelizmente, questões maiores impediram que ele continuasse sua história. Os direitos sobre Miracleman são atualmente alvos de uma longa disputa judicial, o que torna incerta sua continuação futura.

:: O Segundo Passo
O segundo passo que colocou Gaiman de volta à estrada dos quadrinhos foi o encontro com Dave McKean em 1986. Os dois começaram a criar uma história de cinco páginas para a antologia Escape, editada por Paul Gravett. As cinco páginas iniciais logo se transformaram em uma graphic novel de quarenta e oito páginas.

Assim nascia Violent Cases, o primeiro trabalho em quadrinhos de Gaiman e McKean a ser publicado, pela editora Titan Books em parceria com a Escape, em 1987. Violent Cases demorou mais de 20 anos para chegar por aqui, lançada este ano pela HQM Editora, para alegria dos fãs brasileiros, que estavam ávidos em conhecer o primeiro trabalho da dupla Gaiman/McKean nos quadrinhos.

Além de Violent Cases, Gaiman realizou com McKean mais duas obras em quadrinhos dignas de nota: Signal to Noise, que começou a ser publicada em 1989, em formato de série na revista The Face (foi reunida em um encadernado em 1992 pela Dark Horse nos EUA e pela VG Graphics no Reino Unido) e Mr. Punch, publicada em 1995. As duas histórias permanecem inéditas no Brasil.

:: Violent Cases
Violent Cases é a primeira experiência de Gaiman e McKean na tentativa de criar uma HQ que fugisse do padrão vigente em sua época.

O narrador da história, um homem de trinta e poucos anos notavelmente parecido com Gaiman, relembra um episódio de sua infância. Quando criança, residia na cidade inglesa de Portsmouth. Um dia, por acidente, seu pai lhe desloca o ombro e, em conseqüência, o garoto é levado a um osteopata.

O médico conta histórias fantásticas sobre seu antigo empregador, ninguém menos que o mafioso Al Capone. Nubladas pelas lembranças imperfeitas do menino, realidade e fantasia se misturam, servindo de pano de fundo para um estudo sobre a natureza da memória.

:: Signal to Noise
Em Signal to Noise, um cineasta de 50 anos deseja fazer um filme sobre pessoas que acreditavam que o mundo acabaria ao final do ano de 999. Seu desejo nunca se realizará, pois ele tem câncer e poucos meses de vida. Seu filme, porém, está todo em sua cabeça. É assim que este diretor concebe suas idéias. Desenha todo o filme mentalmente e depois o passa para o papel. Desta vez, a vontade de contar uma história do fim do mundo se confunde com sua própria agonia de não estar vivo para presenciar outra virada do milênio, mil anos depois. Vai morrer antes do século XXI chegar e sabe disso. Durante a trajetória de Signal to Noise, o espectador vê os últimos dias do cineasta, sua luta contra um fim inevitável, seu repúdio em ser eternizado por uma obra póstuma e, mesmo assim, seu incontrolável anseio de escrevê-la. O autor decide não se tratar, como se a morte fosse a única solução, enquanto dá a seus personagens redenção, salvação e esperança. É sua forma de partir em paz.

Signal to Noise (que assim como Violent Cases traz no título um trocadilho) é uma das obras mais emocionantes da dupla Gaiman/McKean. A HQ é como um filme, sua trilha sonora é representada por desenhos de pássaros feitos por McKean. As passagens em um fictício ano 999 trazem representações quase bíblicas, enquanto a história do autor muitas vezes tem fotos e gravuras aliadas às pinturas do desenhista. O diretor de cinema teoriza que as coisas precisam ser representadas por signos – na gramática, signos são representações imagéticas de determinado assunto – no caso do personagem, os signos são seus sonhos e seus filmes. Para a dupla de quadrinistas, os signos são as representações do roteiro em desenhos (a graphic novel tem uma preocupação quase obsessiva de representar emoções em desenhos, sem palavras).

Para o autor, todo resto é “barulho” (noise): as preocupações alheias, seus medos. E é justamente este barulho que está representado em signos pela dupla. A obra pode parecer um conto niilista, mas sua história muda bruscamente de direção após o capítulo intitulado “Confusão”. É após este sentimento particular da aceitação da doença por parte do diretor que sua mente alcança uma espécie de clareza. É também a partir deste momento que seus personagens desenvolvem a esperança. É este o sentimento que conduz a história do último filme, até que o autor conclua que não há um apocalipse senão seu próprio apocalipse, mas seguido de salvação e de pureza.

:: Mr. Punch
Considerado pelo próprio Gaiman como um dos melhores trabalhos da dupla, The Comical Tragedy or Tragical Comedy of Mr. Punch (A Tragédia Cômica ou Comédia Trágica de Mr. Punch) fecha, junto com Violent Cases e Signal to Noise, a chamada “trilogia da memória”.

Mr. Punch mostra uma história onde os personagens clássicos do teatro de fantoches, Punch e Judy, encenam uma outra peça – baseada nas memórias de infância do narrador. Durante uma estadia na casa de praia de seu avô, o jovem narrador vivencia experiências e encontros fantásticos. Seu avô é dono de um parque de diversões decadente e, nesse mundo, um tio anão e corcunda, uma sereia, um titereteiro e o teatro de fantoches servem como pano de fundo para conduzir uma história que fala de segredos e horrores familiares.

Enquanto em Signal to Noise o protagonista lida com a forma como será lembrado após sua morte, tal qual em Violent Cases, Mr. Punch se apóia na realidade para contar uma narrativa fantástica, onde real e imaginário se misturam nas lembranças imperfeitas do narrador. Enquanto Violent Cases é mais inocente, com um ar de exotismo e aventura, Mr. Punch é mais cruel e impiedoso. Morrem mundos, conceitos e ilusões, não só relacionados à família, mas a antigos parques de diversões decadentes, espetáculos ultrapassados, ícones corroídos pelo tempo.

:: O Terceiro Passo
O terceiro passo para o ingresso definitivo de Gaiman no mundo dos quadrinhos ocorreu em setembro de 1986, durante uma convenção de quadrinhos na Inglaterra, na qual o jovem autor travou o primeiro contato com Karen Berger, editora da DC Comics. Alan Moore, Dave Gibbons e Brian Bolland faziam sucesso nos EUA e a DC estava disposta a apostar em mais ingleses.

Passaram-se alguns meses e, em fevereiro de 1987, uma Karen Berger impressionada com o roteiro de Jack in the Green, concordou que Gaiman e McKean produzissem uma história com a Orquídea Negra, uma personagem obscura e pouco usada da editora. Gaiman ainda era um desconhecido nos EUA e a editora decidiu promovê-lo e torná-lo famoso. Assim, pouco tempo depois, Karen ofereceu-lhe uma série regular e Gaiman, mais que rapidamente, pediu para escrever o Vingador Fantasma. A segunda opção do autor era um título com Etrigan. Felizmente para nós, os pedidos foram recusados, e Sandman, outro personagem obscuro da editora, foi acordado. A minissérie Orquídea Negra estreou em 1988 e a série Sandman logo em seguida, em 1989.

:: Andando Sozinho
Com a carreira nos quadrinhos em ascensão e um futuro promissor, Gaiman deu continuidade à sua obra. Em 1991, escreveu a minissérie Os Livros da Magia, história focada no jovem mago Tim Hunter, que mais tarde ganhou série própria pela DC Comics. Ainda pela DC, acompanhado pelo lápis do sempre competente Charles Vess, Gaiman criou Stardust, uma de suas mais aclamadas obras, um conto ilustrado de amor e fantasia. Stardust foi adaptada no ano passado para os cinemas e, apesar de diversas diferenças se comparada à obra original, trouxe um elenco de peso, com atores como Michele Pfeifer, Robert De Niro e Claire Danes

Gaiman também produziu, em parceria com o roqueiro Alice Cooper, a graphic novel A Última Tentação (The Last Temptation), em 1994, com arte de Michael Zulli, um dos ilustradores com quem trabalhou junto na série do Mestre dos Sonhos. A obra foi lançada como uma minissérie em três edições em cores, inicialmente pelo selo Marvel Music, da Marvel Comics, e posteriormente adquirida pela Dark Horse para publicação no mercado norte-americano em única edição em preto e branco. Ainda pela Marvel, Gaiman produziu a série 1602 em 2004 e, mais recentemente, Eternos (Eternals), ambas já publicadas no Brasil pela Panini Comics.

Em seus trabalhos para o cinema e televisão, além de Stardust, Gaiman adaptou os diálogos da animação Princesa Mononoke, de Hayao Miyazaki, e escreveu a série de tevê Neverwhere para a BBC. Ao lado de Dave McKean e da Jim Henson Pictures escreveu o roteiro de Máscara da Ilusão, longa que estreou em 2005 nos cinemas, além de ter co-roteirizado a animação A Lenda de Beowulf. Também chegou a produzir um curta-metragem, A Short Film About John Bolton, produzido por Matthew Vaughn, o diretor e co-roteirista da adaptação de Stardust. O curta mostra um programa fictício de televisão sobre o artista John Bolton, o ilustrador responsável pela arte do primeiro volume da minissérie Os Livros da Magia.

Ao todo, entre diversas outras indicações e premiações por seus trabalhos, Gaiman faturou nada mais nada menos que 13 Prêmios Eisner, o mais renomado e importante prêmio do meio, o equivalente ao Oscar dos quadrinhos. Isso sem falar nos diversos livros, quase todos já publicados aqui, como os romances Belas Maldições (em parceria com Terry Pratchett), Deuses Americanos, Os Filhos de Anansi, o livro infantil Coraline (que também ganhou uma adaptação animada para os cinemas, que estréia em breve), o conto ilustrado Os Lobos Dentro das Paredes, o romance Fragile Things (inédito no Brasil), entre outros.

:: Passeando com o Rei dos Sonhos
Para você que quer saber mais sobre o mestre Gaiman, seus colaboradores, os bastidores de seus trabalhos, Dave McKean, e tudo o mais relacionado ao grande contador de histórias da literatura e dos quadrinhos, não perca um dos próximos lançamentos da HQM Editora: Passeando com o Rei dos Sonhos: Conversas com Neil Gaiman e seus Colaboradores.

Um verdadeiro documentário histórico sobre uma das maiores lendas vivas dos quadrinhos, com depoimentos de artistas como Terry Pratchett, Jill Thompson, Alice CooperTori Amos, Gene Wolfe, Andy Kubert, Yoshitaka Amano, Chris Bachalo, Michael Zulli, Daniel Vozzo, P. Craig Russel, Bryan Talbot, Charles Vess, Kelley Jones, Mike Dringenberg, Sam Kieth, entre outros. Fique ligado no HQ Maniacs para novidades em breve.

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