MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
13/05/2008
COLUNA - AS RENEGADAS: AS HQS INÉDITAS NO BRASIL
 
 
Felon
 
 
 
 
Phonogram
 
 
 
 
110 Percent
 
 
 
 
 
 
Truth: Red, White and Black
 



Nesta edição de As Renegadas, falaremos de Felon, uma história escrita por Greg Rucka; Phonogram, sobre o rock e o modo de viver britânico; Truth, sobre um diferente Capitão América; e por fim 110 Percent, um conto sobre boy bands e suas fãs, jovens senhoras em seus 40 anos.

:: Felon
Lançada em 2001, em uma minissérie em quatro edições, Felon conta a história de Ellie Cassaday, que acaba de sair da prisão após cumprir três anos por assalto. Logo que deixa a penitenciária, a ladra vai atrás de seus ex-companheiros de quadrilha, que ainda detém posse do dinheiro do roubo.

Em sua jornada, Cassaday encontra Coop, McManus (que a dedurou para a polícia) e Garvey. Nenhum deles tem o dinheiro, mas Garvey oferece à ladra um novo trabalho que vai compensá-la e ainda lhe dar mais dinheiro. Depois da vingança contra seu delator, Ellie precisa agir em seu último roubo para ser novamente compensada.

Greg Rucka e Matthew Clark, dupla que trabalhou em Adventures of Superman na DC Comics, são os autores da mediana minissérie, lançada pelos selos Top Cow e Minotaur, da Image Comics. Rucka, conhecido por suas histórias policiais, não contou uma história sem reviravoltas ou surpresas, como em trabalhos como Whiteout e a duradoura série de espionagem Queen and Country. Em vez disso, decidiu montar um roteiro extremamente linear e sem surpresas. A mocinha sai da prisão, confronta seus antigos parceiros e consegue o que quer.

Por outro lado, a arte de Clark, que também desenhou a série Outsiders (Renegados), se mostra consistente do começo ao fim. Seus personagens têm traços e expressões definidas, mesmo com um lapís limpo. O artista mostra cuidado em cada cena, e não tem medo de encher a página de grandes painéis, muitas vezes closes ou panorâmicas da ação.

A quarta e última edição funciona como epílogo da minissérie. Não é colorida, e não mostra Ellie Cassaday. Pelo contrário, mostra toda a ação do conto do ponto de vista da policial Liz, que capturou Cassaday três anos antes. Infelizmente, em vez de mostrar uma segunda busca pela ladra, a revista apenas conta pequenos detalhes que deveriam ter sido inseridos ao longo das três outras edições, deixando a narrativa mais profunda e plural.


:: Phonogram
Kieron Gillen
e Jamie McKelvie lançaram no começo de 2007 a minissérie em seis edições Phonogram pela Image Comics. A HQ passou despercebida no Brasil, que no ano passado viu o lançamento de outro excelente título sobre o rock ´n roll: Red Rocket 7. Embora não faça análise tão abrangente do estilo musical, Phonogram prefere analisar a cultura britânica pelo ponto de vista musical.

A história começa na Inglaterra com David Kohl, um “phonogram” - uma pessoa responsável por encontrar novos talentos em um determinado estilo musical em favor de uma determinada deusa do rock – recebendo um chamado para encontrar o corpo de sua antiga senhora, Britannia.

A deusa Britannia regia o Brit Pop, um movimento musical dos anos 90 inspirado no rock britânico dos anos 60 e 70 (bandas como Kinks, The Who), que surge como contraponto da invasão grunge estadunidense. Mas, com a invasão do revival pós-punk no começo dos anos 2000, o jovem espírito bretão morreu.

Kohl parte em uma jornada em busca do corpo e do ladrão, e no caminho encontra outras deusas que representam os estilos musicais que fizeram história na música, como o punk e a rave. O phonogram ainda visita antigos amigos enquanto divaga sobre a condição cultural da Inglaterra após a globalização e a invasão cultural estadunidense no país.

Gillen e McKelvie narram com poesia a jornada ao perdido nacionalismo que caminhou ao lado da Bretanha ao longo de sua própria história e destrincham a cultura regional com personagens que viveram sua juventude nos anos 90 e amadureceram repentinamente com o que os autores consideram o fim do brit-pop: o desaparecimento do guitarrista Richey James Edwards, do grupo Maniac Street Preachers, em 1995.

Coincidentemente, a história já aponta o declínio do gênero musical entre este ano e 1997, quando havia muita exposição na mídia nos artistas do gênero, principalmente por suas brigas e abuso de drogas.

Phonogram é um dos mais belos contos baseados em rock ‘n roll já vistos em uma HQ. Essencial para os fãs de quadrinhos e música.


:: 110 Percent
Ainda não sou pai, mas sei de uma coisa que não gostaria de fazer se um dia tiver uma filha: levá-la a um show de uma boy band. Alguns pais mais experientes com certeza passaram por isso quando shows dos Backstreet Boys e suas fiéis e genéricas cópias passaram por aqui. Os pais mais jovens, por outro lado, vão ter essa oportunidade com o show de Justin Timberlake no país nos próximos meses.

O cartunista Tony Consiglio foi a fundo no universo da cultura de massa e criou sua própria boy band, 110 Percent, título de sua graphic novel, lançada pela Top Shelf em 2006. Mas em vez de mostrar enlouquecidas adolescentes durante as semanas que antecedem um show deste porte, contou a história de três jovens senhoras e sua obssessão incompreensível (pelo menos pelos maridos e filhos) por uma banda adolescente.

Cathy é uma mulher casada, mas infeliz com seu matrimônio. Encontrou no 110 Percent uma fuga para seus problemas, já que um de seus membros é da mesma cidade em que sua mãe ficou hospitalizada após uma cirurgia de remoção de um câncer nasal. A identificação foi tanta que a dona de casa fundou um fã clube da banda.

Sasha, a mais velha, com 50 anos, é outra dona de casa com problemas em seu relacionamento. Sua função na vida se tornou cozinhar para seu acomodado marido, que é fanático por televisão. Ela é uma das integrantes do fã clube Mofo 110 Percent.

Gertrude é mãe de dois filhos, e a mais fanática pela banda. Sua rotina diária é toda pautada pelos cinco jovens do momento. Ela sabe que precisa se levantar, levar as crianças para a escola, comprar uma nova biografia autorizada do grupo, fazer upload de fotos de paparazzi no fórum de discussão do Mofo 110 Percent, ler seu livro.

Com as personagens apresentadas, vale fazer um adendo. O nome do fã clube vem de Mature Older Fans of 110 Percent, ou em bom português, Fãs Maduros do 110 Percent. Cheio de quarentões com problemas existênciais, de relacionamento, com filhos rebeldes, etc., o Mofo não é apenas um clube de adoradores de uma boy band. É mais um grupo de terapia conjunta.

A 33 dias do lançamento de um novo disco do grupo, os ingressos para uma apresentação na cidade destas senhoras começam a ser vendidos. Enquanto Gertrude compra as entradas para as duas amigas, e para si mesma, Cathy está na fila ouvindo uma mãe praguejar sobre a sexualidade implícita nas letras e de como as músicas atuais soam estridentes. Os ingressos estão comprados, mas há um problema. Gertrude só conseguiu dois deles. Alguém não vai ao show.

Ao longo da graphic novel, Consiglio continua a inversão de papéis: de garotas adolescentes e o ciúme de seus namorados para senhoras e seus maridos que não compreendem de onde vem o hábito de se ouvir músicas sem fundamento.

A história evolui enquanto bem-humoradamente o cartunista alfineta a cultura de massa da sociedade, do imediatismo e vacuidade de um produto fabricado apenas com o intuito de se ganhar dinheiro. Tudo está na graphic novel, da intriga e disputa adolescente a problemas de uma vida passiva, e acima de tudo, a vontade de independência que um jovem tem. Tudo representado por três senhoras que deveriam ter superado estes problemas há muito tempo.

Embora seja uma caricatura da vida real, um recorte de uma situação rara, 110 Percent é um alerta a um problema que está cada vez mais presente na sociecade estadunidense: a perseguição incessante a celebridades.


:: Truth: Red, White and Black
Quando Pearl Harbor foi bombardeada por japoneses em 1942, o governo estadunidense não viu outra opção para salvar seu país senão intensificar sua pesquisa para criar um exército de supersoldados negros. Dentre os homens deste batalhão estava Isaiah Bradley, o Capitão América.

Em Truth: Red, White and Black, o roteirista Robert Morales e o desenhista Kyle Baker inverteram a história do maior soldado americano, e mostraram o outro lado de uma guerra que aconteceu em uma época onde a política de segregação racial era apoiada pela população e pelo governo estadunidense. Aqui, não há a beleza de um soldado branco, loiro e de olhos azuis que se candidatou a pesquisas que o transformariam no maior herói da Segunda Guerra Mundial, e sim de uma massa majoritária que foi abusada ao longo dos anos por pesquisas científicas e de “higienização social”.

Membros do pelotão especial que serviria de testes para o Soro do Supersoldado incluiam membros do alto-escalão militar, que tiveram seu posto reduzido por serem negros; socialistas que queriam a emancipação de seu povo após o fim da escravidão, e promissores jovens que queriam salvar seu país.

Transformados em monstros por superexposição ao soro, passaram a agir em um pelotão secreto na Europa, que executaria todo tipo de trabalho sujo, enquanto os soldados brancos saiam em fotos e levavam crédito pelo trabalho dos outros.

Por ser uma história que inicialmente não teria ligação com a cronologia do Capitão América, a minissérie Truth: Red, White and Black é editorialmente mal executada.

Durante todas as quatro primeiras edições, e pelo menos até o final de sua quinta (em um total de sete), não havia relação entre a história de Isaiah Bradley e Steve Rogers, mas a Marvel decidiu incluí-la na cronologia de última hora. Havia uma confusão: Rogers havia surgido um ano antes do bombardeio a Pearl Harbor, então Truth não poderia ser a verdadeira história do Capitão América, como a minissérie era anunciada.

A solução para consertar a confusão é de última hora, mas funciona. Rogers já agia com a estrela branca em seu peito, mas os negros só descobriram mais tarde lendo os quadrinhos do herói, enquanto executavam uma missão em Portugal. Nenhum deles chegou a encontrar com Steve na guerra.

Isaiah assume o manto de Capitão América justamente em uma missão em que deveria se encontrar com o original, mas que este não aparece por estar preso no Pacífico. Bradley então rouba o uniforme de Rogers e parte para uma investida contra os nazistas.

Mesmo com as alterações de última hora, o roteiro de Morales é interessante por criar uma ambientação mais real ao programa do supersoldado, condizente com a época em que ele se passa. Já o traço de Baker, aqui extremamente cartunesco, é um deleite, principalmente quando mostra os já transformados negros em aberrações cabeçudas, fortes e selvagens como o maior dos gorilas que a natureza pode ter produzido.

Pode parecer exagerado comparar as experiências dos estadunidenses àquelas que os nazistas executavam em judeus na vida real, mas o misto de teoria da conspiração com uma vitória que possivelmente encobriu segredos militares dos EUA são o suficiente para que Morales desenvolva sua história e faça com que ela não se pareça estranha aos olhos daqueles que são minimamente entendidos da história do país e do período.


- Na próxima coluna:

Muitas graphic novels dos anos 80 se tornaram clássicos e referências mundiais, como a trilogia da memória de Neil Gaiman (da qual apenas Violent Cases foi publicada no Brasil) e Watchmen, de Alan Moore. Muitas outras foram esquecidas, mas não por sua falta de qualidade.

Na próxima As Renegadas, vamos falar um pouco de materiais que foram lançados durante a revolução britânica dos quadrinhos nos anos 80 que hoje têm poucas chances de ver a luz por aqui. Também vamos falar de um dos mais clássicos dos quadrinhos já escritos, Miracleman, que sofre um impasse jurídico há mais de 10 anos, e que tem todos os seus encardernados originais esgotados. Apenas como curiosidade: é possível encontrar encadernados da série na cidade de São Paulo, e não importando seu estado de conservação, eles chegam a custar mais de R$ 300.

Mas isso é conversa para nossa próxima edição. Vejo vocês lá.

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