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01/07/2008
MATÉRIA: HOMEM DE FERRO - PARTE 2
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



A década de 1970 trouxe mais baixos do que altos para o herói. Suas aventuras já não empolgavam como antigamente. George Tuska, principal desenhista desse período, alternou-se entre momentos clássicos e outros nem tanto. Se antes a galeria de vilões do Homem de Ferro era temática, calcada nos comunistas, agora ela perdia esse rumo que, errado ou não, era um rumo.

Surgiam, portanto, vilões esquecíveis com poderes absurdos... e as histórias caminhavam nesse ritmo também. A revista do Homem de Ferro, para não ser cancelada (e passou muito perto disso) tornou-se bimestral por um período. E demorou um tempo para os editores pensarem no que fazer com ele, em um universo de personagens que aumentava mês a mês. Também foi um tempo... uma fase... que durou tempo demais. Mas o personagem resistiu.

No final da década de 70, Tony Stark descobriria que o governo vinha fazendo um uso pouco ortodoxo de suas invenções e do material fornecido pela sua indústria. E tudo isso aos olhos sempre alertas da S.H.I.E.L.D., a organização de contra-espionagem (ou espionagem, dependendo do ponto de vista) liderada pelo até então amigo Nick Fury. Todo esse tempo, esse estresse, suas aventuras e desventuras, levaram Stark ao limite e ele acabou se entregando ao seu pior inimigo: o alcoolismo.

Tudo saía do controle. Um outro magnata, Justin Hammer, aproveitou-se da situação financiando vilões (a maioria da galeria do próprio personagem) para atacá-lo de forma organizada. A própria armadura havia causado um acidente matando um diplomata e aumentando a fase ruim de Stark. Graças ao amigo Rhodey e a namorada Bethany Cabe, Stark conseguiu largar o vício, derrotando o "demônio da garrafa".

O personagem voltava a brilhar dentro dos olhos dos leitores. Essa excelente fase teve como principal responsável o escritor e desenhista Bob Layton que, até hoje, mesmo não o desenhando mais, é um profissional dedicadíssimo ao herói. Deu-nos histórias que se tornariam clássicos do Homem de Ferro. Em certa ocasião, a palavra certa seria épico: uma aventura em que Homem de Ferro e Doutor Destino (inimigo do Quarteto Fantástico, mas que usava, por motivos mais trágicos, uma armadura de ferro) se enfrentavam no meio de uma viagem temporal que os levaria a um tempo e lugar em que armaduras eram sinônimo de bravura: Camelot, do Rei Arthur.

Os aprimoramentos da armadura nunca terminaram, tanto nas armas que carregava quanto em seu visual. Dessa forma, Stark já criou armaduras que viajaram ao espaço, ao fundo do mar, ao subterrâneo da Terra, que eram capaz de enfrentar o Hulk, ou mesmo ser páreo para o deus do trovão, Thor. Que usavam princípios dos aviões Stealth, invisíveis aos radares e feitas de aço-carbono (a conhecida armadura negra).

Após a saída de Layton e equipe, o escritor Denny O´Neil (conhecido por levantar a moral das histórias de Batman, após a década de 60) mostrou a recaída de Stark. Não tanto na qualidade de suas histórias, mas um perigoso retorno ao vício do alcoolismo. Essa recaída mostrou-se muito mais grave do que a primeira vez em que a crise se abateu. Stark teve que abandonar a armadura, pois seu estado era lamentável.

Chegou até mesmo a perder seu patrimônio, as Indústrias Stark, para o ambicioso Obadiah Stane (uma espécie de Lex Luthor do Universo Marvel). Mas o mundo não ficou sem um Homem de Ferro. O fiel amigo James Rhodey, que já acompanhava as aventuras de Stark há algum tempo, além de ter a vantagem de ter treinamento militar, vestiu a armadura durante essa crise. Mas, enquanto Stark se recuperava, a própria armadura começava a afetar os nervos de Rhodey, quase o levando à loucura.

Tony Stark, recuperado, auxilia James Rhodey a se livrar da repentina loucura a que foi acometido. Volta a vestir a armadura, derrota Stane (que, vestido com uma armadura chamada Monge de Ferro, prefere cometer suicídio a aceitar tal derrota) e retoma sua vida. Para essa nova fase, Stark recria a armadura, nos quadrinhos aparecendo nas cores vermelho e branco, e que foi chamada de Centurião Prateado.

Mas o desconforto que sua própria tecnologia causava, como na época em que descobriu o uso pouco ortodoxo que o governo fazia dela, voltaria a atormentar Stark. Descobriu que parte dessa tecnologia estava com vários vilões que usavam armadura, bem como de heróis também. De uma forma ou de outra, começou a caçá-los no que veio a ser chamada de Guerra das Armaduras.

Essa guerra particular deixou-o malvisto dentro do Universo Marvel, uma vez que perseguiu até mesmo agentes governamentais como os que usavam as armaduras conhecidas como Mandróides e os Guardiões (guardas de prisões que abrigam supervilões, usando armaduras desenvolvidas pelo falecido Michael O´Brien dentro das Indústrias Stark). Como em toda guerra, houve vítimas fatais, como o vilão Homem de Titânio, que encontrou seu fim. Essa fase vigilante do personagem causou uma ranhura na amizade entre ele e o Capitão América (que na época era chamado apenas de Capitão).

Stark descobriria que o uso constante de armadura estava lhe causando um mal muito mais crítico do que havia acontecido com Rhodey. Seu sistema nervoso estava se deteriorando. Como se esse problema não fosse o bastante, as conseqüências de sua vida de mulherengo também decidiram aparecer. Dessa forma, era natural que o playboy se envolvesse com uma mulher "chave de cadeia" em algum momento. Chegou ao extremo de se envolver com uma mimada louca, que acabou lhe dando um tiro, o deixando paralítico. Sobrevivendo, era natural que um inventor de sua genialidade fosse capaz de reverter a situação. Havia mobilidade para seu corpo... contanto que fosse pela armadura.

Depois da Guerra das Armaduras, só os amigos mais fiéis ficaram a seu lado nesses momentos difíceis. Porém, outros ainda se ressentiam por discordar de suas atitudes. As rusgas com os seus companheiros dos Vingadores eram evidentes. Fez parte de outra facção da equipe, conhecida como Vingadores da Costa Oeste. Logo, as diferenças de gênios das duas equipes (a da Costa Oeste e a tradicional) iriam fazer com que o Homem de Ferro desvinculasse os que estavam ao seu lado até mesmo do nome Vingadores. Surgia assim o grupo conhecido como Força-Tarefa.

Stark criou uma infinidade de armaduras. Já não era mais um evento especial. Algumas delas foram usadas apenas em histórias específicas, como é o caso da armadura espacial usada na saga Operação Tempestade Galáctica (onde as raças alienígenas Kree e Shiar se digladiaram em uma guerra). A única mudança que teve mais impacto (mas não tanto quanto antigamente) foi a criação da acinzentada armadura conhecida como Máquina de Combate. Era basicamente uma armadura do Homem de Ferro com um aparato bélico mais pesado. Era como se vestir com um tanque de guerra.

A saúde de Stark piorava dia a dia e ele nem mesmo era capaz de usar qualquer armadura que criasse. Máquina de Combate, por exemplo, foi parar nas mãos do já recuperado James Rhodey. Bom... "parar nas mãos de Rhodey" é uma forma de falar educadamente. O melhor amigo descobre que Stark manipulou a tudo e a todos para manter pelo menos sua consciência inteira através da tecnologia. Inclusive, forjou a própria morte. O amigo, se sentindo traído, saiu da vida de Stark e levou Máquina de Combate com ele. Com ressentimentos.

Apesar da traição para com o amigo, as ações de Stark tiveram lá seus fundamentos. Pois traição mesmo era o que viria a seguir. Na saga "The Crossing", é revelado que o Homem de Ferro vinha traindo os Vingadores. Na verdade, ele foi manipulado pelo vilão Kang, o Conquistador, que era capaz de viajar no tempo. Não foi nem apenas dominar a mente do herói para usá-lo momentaneamente. Ele se tornou um assassino psicótico. Para resolver a situação, os Vingadores remanescentes viajam a um passado onde Stark ainda era um brilhante adolescente. E é justamente esse jovem Stark, sem a maldade que Kang iria manipular em seu futuro adulto, que o grupo traz para o "presente" afim de que ele se tornasse o "novo" e bondoso Homem de Ferro. O "jovem" Homem de Ferro derrota o "velho". Confuso? Ainda vai piorar...

Durante a batalha com o vilão Massacre (batalha que envolveu os principais heróis da Marvel), o jovem Homem de Ferro é aparentemente morto junto aos outros Vingadores e todo o Quarteto Fantástico, entre outros. Na verdade, o filho do Senhor Fantástico, Franklin Richards, um poderoso mutante, transportou todos a um universo compacto criado por ele mesmo (sim, o garoto é muito poderoso...). Lá, os heróis recomeçam suas vidas como se agissem pela primeira vez.

Essa estadia no universo compacto de Franklin não duraria para sempre. Quando os heróis de lá retornaram, o Homem de Ferro apareceu já adulto (uma vez que Franklin o recriou dessa forma, por ser a forma pela qual mais o conhecia), mas com as lembranças tanto de suas aventuras como adulto (sem a maldade de seus dias finais) quanto do "jovem" Stark.

A essa altura do campeonato, a revista do Homem de Ferro recomeçou do número um. Um recomeço com histórias menos confusas e mais dedicadas à aventura, graças ao escritor Kurt Busiek e aos desenhos de Sean Chen. Com a ajuda dos advogados Nelson & Murdock (Matt Murdock é a identidade do herói cego Demolidor), Stark recuperou seu patrimônio das mãos da empresa japonesa Fujikawa e cria a empresa Soluções Stark. Faz um inimigo corporativo não só pela vitória. Seu romance com a rebelde Rumiko Fujikawa com certeza não agrada nem um pouco ao pai da garota.

Uma interessante saga desse período foi "A Máscara do Homem de Ferro", onde a armadura ganha vida própria e acaba escravizando Stark. Agora é a armadura quem usa o seu dono. Mas ela não é tão heróica quanto se poderia esperar. É fria e assassina como uma arma bélica deve ser. Stark consegue levá-la até uma ilha deserta, para longe de inocentes. Lá, ele tem um ataque cardíaco. A armadura, desesperada para ajudar seu criador, acaba "se sacrificando" ao usar seus próprios componentes para lhe criar um coração artificial. A saga, escrita por Joe Quesada (hoje editor-chefe da Marvel) é uma volta aos problemas cardíacos constantes nas primeiras aventuras do Homem de Ferro.

Stark tenta aprimorar suas armaduras constantemente, tomando o devido cuidado para que incidentes como esse nunca mais aconteçam. Cria fiascos também, como a armadura "líquida" conhecida como S.K.I.N., mas logo volta à forma tradicional, com seu visual adaptando-se para tempos modernos.

Mas, por mais quinquilharias que adaptasse à sua armadura, o Homem de Ferro mudou mais em seu conceito do que em seu visual. Revelou sua identidade secreta ao mundo em uma história pouco inspirada, onde toma a decisão levianamente. Torna-se Secretário de Defesa dos Estados Unidos a fim de deter as más intenções de algumas células do governo para com suas invenções. Difícil era saber "o que era" o Homem de Ferro entre um mês e outro.

Isso chegaria ao fim quando a Feiticeira Escarlate, companheira de longa data nos Vingadores, enlouquece e manipula o fim do grupo. Ela faz com que Stark apareça embriagado em um Congresso, humilhando um embaixador latveriano (Latvéria é o pequeno país europeu cujo "imperador" é o Doutor Destino). Rumiko é morta pela sua própria armadura. Diante de tamanha crise, Stark vem a público dizer que desiste de ser o Homem de Ferro (é... eu sei que parece palhaçada). O público é convencido que há um novo Homem de Ferro.

A revista do herói reinicia novamente do número um, dessa vez escrita por Warren Ellis e com a arte "pintada" de Adi Granov (grande responsável pelo visual do personagem na adaptação cinematográfica). Após enfrentar o superpoderoso terrorista Mallen e sair todo extropiado (mesmo dentro da armadura, a surra foi federal...), Stark injeta em si mesmo um vírus tecnorgânico através do processo conhecido como Extremis. Isso não só o salva (regenerando seus ferimentos) como, de certa forma, o "funde" com a armadura. Mais que isso. Essa simbiose permite que Stark controle mentalmente até computadores, celulares e satélites. Agora ele é literalmente um Homem de Ferro.

Stark recria o grupo de heróis que financia e os chama de Novos Vingadores. A antiga Mansão dos Vingadores havia sido destruída pela enlouquecida Feiticeira Escarlate, portanto, o industrial inaugura a Torre Stark, um prédio com arte modernosa e nada discreto que serve de base dos heróis. Alguns personagens de sua mitologia são radicalmente reformulados para acompanhar esses novos tempos, a exemplo dos vilões Fantasma, Laser Vivo e Espião Mestre, reformulados na minissérie Homem de Ferro: Inevitável.

Desde os primórdios de suas aventuras, o Homem de Ferro foi um personagem muito peculiar em relação aos seus "colegas de trabalho". Agia mais pelo prazer na aventura do que simplesmente para salvar pessoas. Quando criava armas, estava mais preocupado em resultados em prol de seus experimentos, mesmo em se tratando de máquinas capazes de dizimar uma população inteira. Era capaz de mentir descaradamente para um vilão apenas para ludibriá-lo. E, acima de tudo, Stark sabia como ninguém manipular uma situação para que essa ficasse sempre a seu favor. Um pouquinho de "superpoder" de empresário.

Foi com essas mesmas características que o personagem vinha "cozinhando" as situações desde a reunião com os Illuminati. Essa manipulação chegou ao seu ápice quando o Homem de Ferro tomou controle da situação no momento em que o governo decidiu registrar todo e qualquer herói em atividade, a fim de evitar que "clandestinos" causassem grandes danos. Nem todos apoiaram o Ato de Registro, alguns heróis eram contra essa imposição. O líder dessa resistência era ninguém menos que o Capitão América. Já outros, foram influenciados pelos ideais do Homem de Ferro. Seu braço direito, por exemplo, foi o Homem-Aranha, que ganhou de Stark um novo uniforme com recursos tecnológicos. Essa armadura, na verdade, foi a forma que o inventor arrumou para "emular" os poderes do herói, entendendo como funcionavam, e replicá-los em novas invenções. Manipulação podre, mas eficiente.

A Guerra Civil entre os heróis termina de forma trágica. Após a derrota da resistência, o Capitão América é preso e assassinado quando se encaminhava para o tribunal. Uma incógnita fatal nos planos de Stark, que é declarado novo diretor da agência governamental S.H.I.E.L.D. (desde que Nick Fury sumiu, ela vinha sendo dirigida por Maria Hill). Diante do controle total da situação, dá início ao projeto Iniciativa Vingadores, controlando grupos de heróis espalhados por cada estado dos Estados Unidos (se bem que grupos fora do país, como os canadenses da Tropa Ômega, também têm dedo dele no controle).

Atualmente, o herói trabalha com uma nova equipe de Poderosos Vingadores, cuida de suas empresas, comanda a Iniciativa e a S.H.I.E.L.D., e assimila a perda de seu amigo Happy Hogan, que é em parte responsabilidade sua. Mas ameaças maiores se mostram no horizonte, como a volta do Hulk a Terra, em busca de vingança após ser exilado pelos Illuminati.

Com 45 anos de existência, o personagem Homem de Ferro sempre manteve essa aura de cinismo que traz dúvidas sobre se ele realmente é um herói... ou faz o que faz apenas pela curiosidade científica, política e administrativa. Muitas foram as fases, muitas foram as versões criadas por uma infinidade de escritores e desenhistas nesse percurso.

Talvez sua verdadeira personalidade não seja tão indefinida afinal. Pode ser que ela seja rígida como o ferro. Ou talvez não seja nada disso. Talvez tudo não passe de mais uma manipulação de Stark, que se adapta às situações, como alguém que adapta uma nova peça em sua própria armadura.

Veja também:
Homem de Ferro - Parte 1


Dark Marcos é editor do blog Âmago - www.darkmarcos.blogger.com.br

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