MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
11/08/2008
REVIEW - CINEMA: ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



Quando José Mojica Marins criou o personagem Zé do Caixão, sua idéia era fazer uma série de sete filmes. Desses, apenas dois ele conseguiu completar: À Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver. Ainda que ele tenha feito inúmeros filmes depois desses, a cinessérie do personagem que o tornou famoso nunca havia sido retomada. Até agora.

Depois de quarenta anos, finalmente a saga de Zé do Caixão pôde ter uma seqüência, com a Encarnação do Demônio, um filme que dá um encerramento digno à saga do maior personagem do terror tupiniquim.

Quando o filme começa, Josefel Zanatas (nome verdadeiro do personagem) está na cadeia, e acaba de ser libertado por uma falha clássica no sistema carcerário brasileiro: passou o tempo máximo de 30 anos preso. Agora em uma favela em São Paulo, e não mais numa cidadezinha anônima no interior do Brasil, Zé do Caixão pode retomar sua missão de encontrar a mulher superior e dar origem ao filho perfeito que dará continuidade à sua linhagem. Para isso, conta com a ajuda de seu fiel serviçal, Bruno, interpretado por Rui Rezende, e de um culto de seguidores formado por Bruno durante o cárcere de seu mestre.

No seu rastro, um policial que perdeu um olho quando o prendeu (último e impressionante papel de Jece Valadão), seu irmão (Adriano Stuart), também policial, e um monge capuchinho, filho de uma das vítimas do primeiro filme (Milhem Cortaz). Outros personagens importantes na trama incluem duas feiticeiras cegas e sua sobrinha, que protagonizam uma das cenas mais impressionantes do filme inteiro, além da legião de belas mulheres que acompanham o personagem, como já é clássico nos filmes do diretor.

Não há nenhuma performance fora do lugar, nenhum ator com desempenho ruim em todo o filme, mas as melhores atuações (descontando, obviamente, a do próprio Zé do Caixão), pertencem ao grande Jece Valadão, coroando maravilhosamente bem sua longa carreira, e a pequena, porém impressionante participação de Luis Melo como o policial encarregado de liberar o protagonista de sua cela. A morte de Jece ainda durante as filmagens felizmente não comprometeu a conclusão do filme, mas infelizmente privou os expectadores de acompanharem um pouco mais do desempenho de um dos maiores, porém mais subestimados atores do nosso país.

Para um filme que é seqüência de duas obras lançadas há mais de 40 anos, seria fundamental que Encarnação do Demônio funcionasse bem sozinho, e isso ocorre magistralmente. Diálogos e flashbacks conseguem explicar os fatos anteriores aos expectadores, que conseguem entender o filme perfeitamente, mesmo que nunca tenham visto nenhum filme de Mojica antes.

Um desses flashbacks, em particular, corrige o final de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, que o diretor foi obrigado pela censura brasileira a alterar. Essa cena, aliás, foi refeita por um norte-americano, fã e colecionador da obra do Zé do Caixão, que tem uma incrível semelhança com José Mojica quando jovem. Ele aceitou vir para o Brasil, pagando a própria passagem (a produção só pôde pagar por alimentação e hospedagem), apenas pelo prazer de colaborar com o novo filme de seu ídolo.

O roteiro do filme foi feito pelo próprio Mojica e por Dennison Ramalho. Uma das novas faces do cinema de Terror nacional, Dennison construiu uma reputação sobre seus curtas de terror, como Amor Só de Mãe e Nocturnu, ambos presentes e celebrados em mostras de cinema fantástico ao redor do mundo. No Brasil, ele organiza todos os anos a mostra Dark Side de curtas de terror exibida na Mostra Internacional de Curtas. Foi Dennison, junto com o produtor Paulo Sacramento, quem insistiu com Mojica que ele mesmo deveria continuar interpretando o personagem, e incluir a passagem do tempo no filme, com um Zé do Caixão mais velho, mas ainda terrível.

A direção de arte e os efeitos não ficam nada a dever a muitos filmes americanos. Com uma quantia de recursos que nunca antes havia conseguido em sua carreira (R$ 2 milhões) o diretor pôde contratar os melhores iluminadores, câmeras e técnicos do país para o filme. Poucos efeitos computadorizados foram usados no filme, dando preferência à maquiagem e objetos em cena, com os quais o elenco poderia interagir diretamente, dando mais realismo. Ainda assim, alguns efeitos foram utilizados, todos eles irrepreensíveis. Com certeza vai ter gente comentando que “nem parece que o filme foi feito no Brasil”.

Com esse filme, esperamos que o cinema nacional ganhe um novo fôlego, mostrando aos realizadores e ao público que nem só de violência social e realidade se faz uma arte. Um final digno para um dos personagens mais clássicos do nosso cinema, que vale a pena ser assistido por todos.

Elenco: José Mojica Marins, Jece Valadão, Milhem Cortaz, Adriano Stuart, Rui Rezende, Cristina Ache, Helena Ignez, Débora Muniz, Thais Simi, Cléo De Paris, Nara Sakarê, Raymond Castile, Zé Celso. Roteiro: José Mojica Marins, Dennison Ramalho. Direção: José Mojica Marins.

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