MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
15/08/2008
ESPECIAL: PARA CELEBRAR EUGÊNIO COLONNESE
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



Artista que morreu na sexta-feira, dia 8, abriu o caminho para a profissionalização dos quadrinhos no Brasil

Eugênio Colonnese não era apenas um grande desenhista de quadrinhos por causa do seu traço singular, de beleza arrebatadora, principalmente porque povoava seu universo de lindas mulheres – cujas curvas brasileiras ele adotou assim que chegou ao Brasil. Ao seu modo, amava intensamente as formas femininas que só por aqui encontrava, fruto da mistura de tantas raças: bunda grande e longas coxas roliças. E longas eram as suas partes preferidas, que fazia questão de explorar toda vez que desenhava um quadrinho de Mirza, que criou em 1967.

Ele não exagerava nas formas dessa vampira precursora de Vampirella para causar impacto visual nos leitores do sexo masculino. Ele simplesmente as fazia gostosas porque era o mestre das deusas de papel, o maior que já habitou os solos brasileiros. Se tivesse voltado para a Itália na década de 1960 e levado essa paixão para seus quadrinhos, teria hoje a reputação de um Paolo Eleuteri Serpieri, criador de Drunna – e de quem foi induzido equivocadamente a copiar apenas em seus últimos anos de vida porque precisava de trabalho para sobreviver.

Colonnese era um entre os grandes artistas dos quadrinhos também porque ensinou o Brasil como se deveria fazer histórias em quadrinhos. Pena que muito poucos reconheceram ou lhe deram a devida atenção por isso. Pior, na época em que começou a se destacar no mercado, alguns reagiram como cachorros loucos contra ele. Aconteceu quando, em parceria com o argentino Rodolfo Zalla, criou o Estúdio D-Arte em 1967. Juntos, começaram a tomar para si o mercado de quadrinhos porque eram os únicos que cumpriam os prazos e faziam histórias de qualidade, embasadas em ampla pesquisa histórica e figurinos. Chegou um momento que faziam perto de 300 páginas por mês, graças à equipe azeitada que conseguiram montar – da qual faziam parte Luis Meri, Rubens Cordeiro, Maria Helena Fonseca e outros.

Até então, muitos autores sentavam no próprio rabo e, do alto de sua arrogância, achavam-se auto-suficientes, completos, perfeitos, geniais etc., etc. – e apenas vítimas do imperialismo americano, que supostamente dominava nosso mercado e tirava-lhes espaço no mercado. Havia também os puristas. Produzir em equipe era, para muitos desses, um insulto. Por que ilustrar roteiros de outros se eles mesmos podiam fazer tudo sozinhos? Colonnese e Zalla trouxeram da Argentina um esquema eficiente e necessário para o segmento de quadrinhos da época. Ao invés de copiá-los, alguns artistas preferiram os insultos, principalmente por serem estrangeiros. Colonnese, pelo que sei, jamais se queixou disso. Era um gentleman, que fazia carinhosos autógrafos para pessoas que jamais vira na vida, mas que respeitava como fãs, e os deixava extremamente felizes e se sentindo importantes.

Ainda com Zalla, só que em trincheiras diferentes, deu outra preciosa contribuição: levar as histórias em quadrinhos para a sala de aula. Zalla foi para o IBEP e Colonnese ilustrou uma infinidade de livros para a editora Ática, entre outras. Com essa tacada, deram outra valiosa contribuição para acabar com o preconceito contra os gibis que muitos professores tinham desde a década de 1940, quando começou a ser difundida pelo Brasil a tese de que as revistinhas causavam preguiça mental nos estudantes. A dupla fez os mestres verem que os quadrinhos eram, sim, uma poderosa arma para destacar nos livros didáticos trechos importantes que os alunos deveriam guardar na memória.

A ligação de Colonnese com o Brasil começou em 1955, quando veio a São Paulo conhecer o mercado de quadrinhos e conheceu Miguel Penteado, gráfico, ilustrador, capista e uma espécie de líder dos desenhistas – era filiado ao Partido Comunista Brasileiro. Ele migrara bem jovem para a Argentina, onde publicou sua primeira história na revista El Tony, em 1948, com a adaptação para os quadrinhos de uma novela de Robert Louis Stevenson, "La Resaca". Sua segunda história, uma novela de Emilio Salgari, "La estrella de la Araucania", saiu na revista Fantasia.

Foi um período de grande aprendizado, quando os desenhistas rivalizavam entre si para ver quem desenhava melhor e com o máximo de autenticidade objetos como armas, tanques, aviões, uniformes, etc.
Foi esse perfeccionismo que ele introduziu nas editoras brasileiras, ao lado do amigo Zalla. “Eles colocavam esses objetos principalmente em primeiríssimo plano. Para isso, era necessário conhecer profundamente os detalhes e ter imagens de referências à mão para trabalhar”, recorda Zalla em seu livro de memórias inédito que será lançado ainda este ano. “Embora já soubesse da importância de um arquivo, comecei a comprar revistas de todo tipo nos sebos, além dos Collier´s, Post e Life. Como não dispúnhamos de tempo para folhear as páginas, comprava-as pela data”. Essas observações davam uma idéia do quanto os artistas argentinos tinham uma outra mentalidade de trabalho, mais profissional.

Quando começou a produzir quadrinhos para as editoras de São Paulo, Colonnese se uniu a um time de grandes artistas estrangeiros que tinham migrado para o país, formado por Zalla, Del Bó, Osvaldo Talo e Nico Rosso. Eles se destacaram num momento que faziam sucesso gêneros como guerra e terror – curiosamente, não havia gibis de terror na Argentina. O filão de guerra durou até o começo da década de 1970. Foram as muitas encomendas que ligaram Colonnese e Zalla. “Eu havia conhecido ele na Argentina, quando precisava de uma referência da base de lançamento de uma bomba voadora alemã V-2 para uma história e Del Bó pensou que eu poderia ajudá-lo”, recordou o parceiro. Os dois só se reencontraram em Santos, de onde Colonnese colaborava com a Ediex (Editormex), do Rio, editora de origem mexicana. Assim nasceu o estúdio D-Arte.

Colonnese não gostava de fazer faroeste. Quando a Ediex parou suas atividades no Rio, ele ficou um tempo parado e Zalla levou alguns roteiros de terror que ele mesmo escrevia para o artista desenhar – o material saía em Estórias Negras. Também fez algumas histórias avulsas de faroeste para a Esporas de Ouro. Depois, foi para a Taíka e decolou sua carreira em São Paulo. “Montamos uma equipe um pouco sui generis. Na verdade, nunca foi propriamente uma equipe. Trabalhamos com tal intensidade que o grupo praticamente se formou sozinho. Compramos um espaço no sexto andar de um prédio da rua Beneficência Portuguesa. Ficava no final da rua, a um quarteirão da Cásper Líbero e da Ipiranga”.

O nome D-Arte aparecia apenas numa tarja que a dupla colocava logo abaixo da primeira página de cada história. O estúdio existiu no sentido dos dois terem de dar nota fiscal, estava registrado como empresa. Os editores da época exigiam nota fiscal dos trabalhos encomendados para evitar os descontos previdenciários e de renda na fonte. “Passamos a trabalhar num ritmo intenso, profissional, com letristas e argumentistas nos assistindo: talentos como Maria Aparecida Godoy, Luis Meri, Rubens Francisco Lucchetti, Reinaldo de Oliveira e muita gente que passou pelo estúdio como colaborador one shot”. O D-Arte trabalhou para quase todas as editoras de quadrinhos de São Paulo. Colonnese ainda manteve colaborações com editoras do Rio – Ebal e Bloch.

Zalla diz sobre o querido parceiro de toda a vida em suas reveladoras memórias: “Ele tinha um talento imenso e era um notável desenhista. Estou bem consciente dos adjetivos que emprego porque tive o prazer e o privilégio de trabalhar ao seu lado, mesa a mesa, taco a taco, sem outro papel que o bloco de “Rosenhaim”, sem outra ajuda que a enorme vontade de preencher páginas”. Assim Colonnese ajudou a construir a história dos quadrinhos brasileiros e a povoou de lindas vampiras, mulheres que ele construía com uma perfeição avassaladora e excitante. Com elas, seduziu uma legião de fãs e declarou seu enorme amor ao Brasil  e às suas mulheres.

Dele, lembro da última imagem, há três anos quando conversei com ele pela última vez: depois de um dia inesquecível no estúdio de Franco de Rosa, na cidade de Vinhedo, voltávamos eu, Carlos Mann e Antonio Cedraz numa Kombi a 80 quilômetros por hora. Atrás, colado em nós, vinha Colonnese, agarrado ao volante de seu velho carango, com o rosto muito próximo do vidro. Temia se perder na entrada de São Paulo e não se desgarrava da perua. Ele não parava de olhar para nós e de sorrir. Parecia ter vivido um dia de grande alegria. Afinal, esteve cercado de amigos, cheio de idéias e projetos, falara incansavelmente sobre a maior paixão de sua vida: os quadrinhos. Havia em seus olhos o brilho da pureza, da bondade e do idealismo de quem dedicara a vida inteira a um sonho. E é assim que ponho aqui um ponto final, com seu sorriso triunfante, como um menino que acabara de se cansar depois de uma longa partida de futebol.


Gonçalo Junior é jornalista, advogado e escritor de livros como País da TV, A Guerra dos Gibis, O Homem Abril, Tentação à Italiana, além de quadrinhos como Claustrofobia e O Messias.

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