MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
10/10/2008
COLUNA - FALA ANIMAL!: O CAPITÃO AMÉRICA DE ED BRUBAKER
 
 
Captain America #100, 1968: Jack Kirby
 
 
Pelas mãos de Steranko
 
 
A fase de Mark Waid
 
 
Captain America #1: a nova fase de Ed Brubaker
 
 
O Soldado Invernal
 
 
 
 
 
 



Desde que comecei a ler quadrinhos, sempre me deparei com leitores menosprezando alguns personagens. Dependendo da situação, é até normal. Quando criança, amigos e às vezes eu mesmo, pulávamos histórias do Demolidor ou do Justiceiro, que eram por demais sombrias para nossas mentes infantis. HQs em preto e branco eram evitadas a todo custo, o que fez com que muita gente levasse anos para conhecer ótimos materiais como Conan ou Dylan Dog.

Hoje em dia são os personagens que tiveram muito destaque nos anos 90 que são criticados e evitados por muitos, como Cable ou Spawn. Porém, há casos mais curiosos e duradouros, casos de grandes ícones dos quadrinhos americanos que não conseguem atrair a atenção de muita gente.

O caso que mais observei desde a infância foi o do Capitão América. Já foram dezenas de pessoas que conheci que simplesmente não suportavam o personagem. “Ele é muito patriota, pura propaganda dos EUA”, “as histórias são repetitivas”, “ele só funciona quando se revolta contra o governo”, “é um personagem cujo tempo já passou”, “só presta quando está comandando os Vingadores”, estão entre as justificativas que já ouvi.

Embora concorde em parte que as revoltas de Steve Rogers, o Capitão América, contra o governo tenham rendido ótimas tramas, concluo que o restante das afirmações são geradas por um preconceito até mesmo bobo. Sim, é claro que nos primórdios, o herói foi usado como propaganda dos EUA, principalmente durante a 2ª Guerra Mundial, mas muita gente não entendeu que esse tempo já passou e as já ressaltadas revoltas do personagem contra seu governo apontam isso, desenvolvendo o que alguns apontariam como o real patriotismo: defender os preceitos corretos que um país teoricamente deveria seguir, e não apoiar tal país e seu governo cegamente.

Outro ponto que afasta as pessoas é a eterna imagem de bom moço do Capitão, imagem que afeta outro grande ícone, o Superman. A verdade é que praticamente todo herói criado entre o fim dos anos 30 e os anos 60, traz consigo essa aura de bom moço, mas só alguns se firmam tanto nela, caso dos dois citados. Como hoje em dia a moda é apresentar heróis em tons de cinza, leitores preferem rotular os bons moços de personagens chatos.

Claro, não foi sempre que o Capitão América teve boas histórias. Se por um lado teve artistas do calibre de Stan Lee, Jack Kirby, John Byrne, Jim Steranko e tantos outros apresentando tramas memoráveis, por outro lado sofreu muito nos anos 90, até que foi “salvo” por Mark Waid, apenas para sofrer mais um pouco no evento Heróis Renascem. Novamente resgatado por Waid, o bom Capitão teve uma boa e curta fase, caindo novamente nas mãos de roteiristas que simplesmente não sabiam o que fazer com ele, por vezes focando apenas no terrorismo e desvirtuando enormemente o personagem, ou em outros momentos tentando resgatar personagens antigos na esperança de que a nostalgia camuflasse os fracos roteiros.

Mas mesmo as fases ruins têm um fim. Em mais uma das muitas reformulações que faz todo o tempo, a Marvel resolveu sacudir os Vingadores e seus membros. Entre os sofríveis Novos Vingadores, um Homem de Ferro que começou bem e logo decaiu vertiginosamente e um grande intervalo até o empolgante retorno de Thor, quem saiu na vantagem foi justamente o Capitão América.

Sem mudanças drásticas de cara, Ed Brubaker assumiu os roteiros do herói com um novo número 1 e em poucas edições fez o personagem voltar a cair no gosto não só dos leitores, mas também da crítica, de forma mais do que merecida. Sem cair na armadilha de mudar tudo no universo do protagonista, Brubaker simplesmente pegou alguns dos melhores elementos de toda a carreira do herói: Caveira Vermelha, Falcão, Sharon Carter, Dr. Faustus, os Invasores, Arnim Zola, Ossos-Cruzados e tantos outros personagens, e formulou uma enorme trama que se desenvolve até hoje nas histórias publicadas no Brasil.

Embora pouca gente acredite, não é necessário inventar novidades mirabolantes para criar boas histórias, o que é necessário é o simples talento, coisa que Brubaker sempre apresentou, seja com personagens famosos ou desconhecidos. Prova disso é que seu início em Capitão América usou um dos temas mais batidos da carreira do herói, a obsessão do Caveira Vermelha em usar o todo-poderoso Cubo Cósmico. O que poderia ser visto como inovação, na verdade é uma reciclagem de uma idéia tentada várias vezes, ou seja, o retorno do supostamente falecido Bucky, agora transformado no soturno Soldado Invernal.

Um retorno do personagem foi ensaiado várias vezes, seja através de manipulações com o próprio Cubo Cósmico, seja na forma de outros Buckys, o que importa é que nesta tentativa definitiva, o resultado foi ótimo. E nem o fato da idéia ter sido usada recentemente na concorrente DC Comics prejudicou o retorno de Bucky, afinal de contas a volta do segundo Robin não foi nada menos do que tragicamente mal escrita, ao contrário do excepcional trabalho de Brubaker.

Mas o surgimento deste Soldado Invernal inseriu diversos aspectos importantes para o sucesso desta fase do Capitão América. O clima de espionagem, talvez mais marcado nas tramas criadas por Jim Steranko, voltou com tudo graças ao personagem e às artimanhas do Caveira Vermelha. Flashbacks alimentaram a nostalgia do leitor, resgatando o tema de “homem fora de seu tempo” que permeou o Capitão América quando as tramas eram feitas por Stan Lee e Jack Kirby. E, talvez o mais importante, o Soldado Invernal apresenta o tom de cinza que não se encaixa de forma alguma na personalidade do Capitão, tornando-se assim um contraponto perfeito para o Sentinela da Liberdade, eliminando o risco de  uma descaracterização.

Depois de ser usado de maneira esdrúxula (como todos os personagens envolvidos) na minissérie Guerra Civil, o Capitão América faleceu de maneira surpreendente em sua própria revista, pelas mãos de Brubaker. Passado o susto, veio a preocupação: seria mais uma entre tantas reformulações desnecessárias? A editora teria pressionado o escritor a fazer isso?

A verdade é que Brubaker orquestrou tão bem a morte do herói que, mesmo quem gostava dele, tem dificuldade em encontrar defeitos na trama. No Brasil, os efeitos da morte do Capitão ainda estão sendo sentidos e as histórias do herói seguem mesmo sem ele, com o mesmo espírito e competência que permeiam os roteiros desde o início dessa fase.

Ed Brubaker, afinal de contas, conseguiu o que parecia impossível, tornar popular um herói tido como ultrapassado, trazer dos mortos um personagem (Bucky) sem exageros e de maneira eficaz, e, o mais incrível de tudo, criar as melhores histórias do Capitão América em anos, mesmo quando apresenta diversas edições seguidas sem a presença do personagem!

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