MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
06/01/2009
MATÉRIA: O HALLOWEEN DOS SUPER-HERÓIS
 
 
Tom Fagan
 
 
The Avengers #83: os Vingadores conhecem Tom Fagan e o casal Thomas
 
 
The Avengers #83: os Vingadores participam do Desfile de Rutland
 
 
Batman #237: Denny O´Neill conversa com `Thor`
 
 
JLA #103: Fagan se encontra com o Batman e a Liga da Justiça
 
 
JLA #103: Len Wein, Steve Englehart e Gerry Conway
 
 
JLA #103: Liga da Justiça participa do Desfile de Rutland
 
 
JLA #103: Liga da Justiça encara o ´Homem-Aranha´
 



Ah, o Halloween (ou Dia das Bruxas, em uma tradução não-literal)... Segundo os historiadores, essa divertida e interessante celebração, sempre realizada no final de outubro, nasceu nas Ilhas Britânicas por volta do século VI a.C., quando os antigos povos celtas passaram a celebrar a memória dos seus mortos. De lá para cá, muitas mudanças aconteceram nesse festejo, e como parte importante da indústria cultural as editoras americanas de quadrinhos sempre lançaram gibis que traziam algum tipo de referência ao Halloween.

Esse é justa e obviamente o tema desse simpático e adorável artigo que está agora na tela do computador de nossa audiência, mas não pensem que iremos arrolar aqui todas as histórias lançadas pela Marvel ou DC Comics cujo tema principal é o Dia das Bruxas, posto que essa seria uma tarefa praticamente impossível... O que iremos fazer aqui é lembrar um dos acontecimentos mais curiosos que já rolaram nos comics americanos... Acontecimento que fez com que no início dos anos setenta a cada Halloween uma pequena cidade americana de cerca de dezoito mil habitantes chamada Rutland – localizada no estado da Vermont – se tornasse o palco para algumas das mais estranhas batalhas heroísticas tanto da Marvel quanto da DC Comics.

Batalhas essas que muitas vezes tiveram a participação efetiva dos roteiristas, editores e desenhistas das duas editoras! Estão interessados no assunto? Então continuem conosco lendo este artigo! Bem, a nossa saga começa lá no final dos anos cinquenta...

:: O Começo de tudo
Em 1959, a prefeitura de Rutland decidiu organizar um desfile pelas ruas da cidade durante o Dia das Bruxas. Era um cortejo simples e pequeno, composto apenas por uma banda marcial, por alunos das duas escolas locais devidamente fantasiados e por um carro que trazia o prefeito e o xerife da cidade. Pelo visto não era exatamente um desfile digno da Marquês de Sapucaí, mas tal festejo chamou a atenção de Mitch Thomson Fagan – mais conhecido como Tom Fagan –, um morador de Rutland que dividia seu tempo entre o trabalho como jornalista e duas enlouquecidas paixões: o ator James Dean e o Batman.

No dia seguinte ao desfile, o amor pelo Homem-Morcego motivou Fagan a procurar o “Comissário de Polícia” da cidade (Fagan era tão obcecado pela mitologia do Cavaleiro das Trevas que de brincadeira somente se dirigia ao xerife de Rutland usando a expressão “Comissário”, que obviamente não se aplica a oficiais de localidades pequenas), sugerindo algumas “modificações” que certamente melhorariam o desfile de Halloween... Como fazer com que o Batman fosse o principal tema do festejo! Afinal de contas, o Cruzado Encapuzado não era uma “criatura da noite”? O objetivo do Halloween não era justamente celebrar de maneira lúdica as “criaturas da noite”? E, finalmente, o Batman não era um herói conhecido e amado por toda a molecada?

O xerife ouviu atentamente as ponderações de Fagan e perguntou ao jornalista se ele não estava interessado em organizar o desfile do ano seguinte. Nossas vovós tinham um ditado que se adequava perfeitamente à situação em que Fagan se encontrava diante da proposta do xerife: ajoelhou, tem que rezar! Assim, a partir de 1960 o jornalista bat-maníaco virou o principal organizador do desfile anual de Dia das Bruxas de Rutland e não demorou muito para os moradores da cidade apelidarem Fagan de Senhor Halloween (Mr. Halloween), devido à dedicação e amor que ele empenhava na preparação da festa.

Fazendo jus ao seu “espírito nerd”, Fagan fez com que o Defensor de Gotham City em particular e os super-heróis de uma forma geral se tornassem os principais “homenageados” no desfile de Rutland. Não contente com isso, o jornalista também enviou algumas cartas aos editores da DC Comics e para diversos fanzines dedicados aos quadrinhos falando que estava virando uma tradição local homenagear o Batman a cada Halloween. Inicialmente ninguém deu muita bola para essas missivas, entretanto em 1965 rolou uma convenção de quadrinhos em Nova Iorque e o destino da festa de Rutland mudou para sempre.

Na condição de apaixonado por gibis, fanzineiro e eventual colaborador da Charlton Comics (para saber mais sobre essa editora, clique aqui) Fagan participou da convenção, e por lá ele conheceu o jovem Roy Thomas, outro fanzineiro que naquele ano iniciava sua carreira na indústria dos quadrinhos estadunidenses. Não tentaremos nesse artigo demonstrar na íntegra a importância que Thomas teve para os comics americanos (seriam necessários vários e vários textos para fazê-lo e fã que é fã conhece o Thomas!), todavia podemos relatar as consequências do encontro entre esses dois nerds juramentados: Fagan convidou Thomas e Dave Kaler (um dos organizadores da convenção) para visitar Rutland no dia do Halloween. E não é que eles foram?

Vestindo respectivamente fantasias de Doutor Estranho e Homem-Borracha, os simpáticos Kaler e Thomas se esbaldaram em Rutland, e as cartas continuamente enviadas por Fagan para a DC Comics e para os fanzines, o aumento do número de convenções de quadrinhos e principalmente o boca-a-boca, fizeram com que mais e mais fãs e profissionais da Nona Arte perguntassem a Fagan do que se tratava o desfile de Halloween de Rutland. Como satisfação pouca é bobagem, para completar de vez a alegria do Senhor Halloween, em 1968 a Clement House foi agregada à festa que ele organizava. Também conhecida pelo povo de Rutland como “A Velha Mansão”, a Clement House era um gigantesco casarão em estilo vitoriano que chegou a ser usado como residência oficial do governador de Vermont, e como o próprio nome indica, essa residência pertencia à família Clement, que durante muito tempo teve enorme influência na política de Vermont.

Uma série de contratempos fez com que a família Clement deixasse a sua propriedade abandonada, e após uma troca de idéias com John Clement (seu chefe no jornal Rutland Herald e um dos herdeiros da família) Fagan ofereceu-se para tomar conta do lugar, com o propósito de evitar atos de vandalismo contra o imóvel. Seu chefe aceitou a proposta, e assim que Fagan mudou-se com a mulher, a filha e os dois cachorros para a Clement House, ele fez aquilo que qualquer nerd esperto e festeiro faria caso morasse em uma mansão: ele passou a organizar festas de Dia das Bruxas de arromba, a fim de agradecer a todos aqueles que o ajudavam na organização do desfile de Halloween!

Tentem imaginar o seguinte cenário: uma mansão do século XIX cheia de marmanjas e marmanjos fantasiados com roupas de super-herói... Uma comemoração que quase sempre durava mais de dois dias... Um esquife que era usado como recipiente para guardar cervejas geladas... Ora, essa não é a festa dos sonhos de muita gente? Com certeza! Roy Thomas tornou-se uma figurinha fácil em Rutland na época do Halloween, e após tantas e tantas festas memoráveis ele decidiu que o seu anfitrião merecia uma homenagem...

:: Rutland vai para os Quadrinhos
Em dezembro de 1970, chegou nas bancas americanas o gibi The Avengers #83, que trazia a aventura Come on in, The Revolution´s Fine (Venha para a Grande Revolução, em uma tradução livre), inédita no Brasil. Escrita por Roy Thomas e desenhada por John Buscema e Tom Palmer, nessa história os Vingadores dirigem-se para Rutland com o propósito de proteger um famoso cientista que naquele ano participaria do desfile de Halloween local, e entre um quebra-pau com os Mestres do Terror (famoso grupo de supervilões da Marvel) e um eventual confronto com a Valquíria (Valkyrie) e as Lady Liberators (as Libertadoras, em uma tradução livre, equipe provisória formada por varias heroínas da Marvel), os Maiores Heróis da Terra foram convidados a participar do desfile de Halloween organizado por um cara chamado Tom Fagan, e ainda por cima foram apresentados a um tal de Roy Thomas e para sua esposa na época, Jeannie Thomas! Sensacional, não acham? No final da história foi descoberto que Valquíria na verdade era a feiticeira asgardiana Encantor, que se valendo desse disfarce, propositadamente jogou a “ala feminina” dos Vingadores contra a “ala masculina”, a fim de obter algumas vantagens escusas. Todavia, não pensem que a saga das “Libertadoras” se encerrou por aí... Em um futuro não muito distante elas terão suma importância nas histórias do Incrível Hulk. Aguardem e vejam...

Além da participação do casal Thomas, outro dado curioso por trás dessa história é que Tom Fagan participa dela fantasiado de Falcão Noturno (Nighthawk), um adversário dos Vingadores criado por Thomas, tendo por base o Homem-Morcego da DC Comics. Ora, Thomas até poderia homenagear um amigo e se auto-homenagear, só que colocar um dos principais personagens da editora concorrente em um gibi da Marvel era forçar demais a barra! Obviamente Fagan adorou ver-se em um gibi e, nos anos seguintes, eventualmente passou a fantasiar-se de Falcão Noturno no Halloween, e na modesta opinião do autor desse artigo foi isso que provavelmente motivou o roteirista Len Wein a redimir o vilão e transformá-lo em super-herói no gibi Defenders #13, publicado em maio de 1974. Mas vamos esquecer um pouco Falcão Noturno, já que a participação de Tom Fagan em gibis de super-heróis estava longe de acabar e com certeza não ficou restrita apenas a fantasias de supervilões redimidos.

Uma vez Roy Thomas escutou de Fagan diversas histórias sobre estranhas luzes que de tempos em tempos apareciam na Bald Mountain, uma montanha localizada nos arredores de Rutland. Além dessas luzes, não era incomum pessoas desaparecerem na Bald Mountain, e esses bizarros fatos inspiraram o roteirista a escrever Nightmare on Bald Mountain (Pesadelo em Bald Mountain), uma aventura da superequipe Defensores (Defenders) onde Rutland vira palco para uma batalha do Doutor Estranho, Namor e o Incrível Hulk contra Dormammu, o eterno arquiinimigo do Mago Supremo. Publicada no final de 1971 na revista Marvel Feature #2 (no Brasil em 1984 na revista Capitão América #53 – Editora Abril) essa história novamente contou com a participação de Tom Fagan e do casal Thomas. Mas será que apenas o Universo Marvel “visitou” Rutland? Pois é, não demorou muito para os heróis e artistas da DC Comics também darem as caras por lá!

Como falamos acima, as festas de Dia das Bruxas de Rutland estavam chamando a atenção dos gibizeiros e profissionais dos quadrinhos, que rumavam em peso para Vermont com o propósito de desfrutar da hospitalidade de Tom Fagan. Uma das pessoas que deram o ar da graça em Rutland foi o roteirista Denny O´Neill, que ficou encantado com a alegria da cidade durante o Halloween e principalmente com o clima quase gótico da Clement House e dos arredores. Inspirado por esse clima e por algumas idéias sugeridas pelo romancista Harlan Ellison e pelo artista Berni Wrightson, o roteirista concebeu a aventura Night of the Reaper (A Noite do Ceifador, publicada no Brasil pela EBAL no Almanaque de Batman 1973,  em 1984 em Batman #4 – Editora Abril, e em 2003 na edição especial Batman – A Noite do Ceifador e outras histórias – Opera Graphica), que foi publicada originalmente no final de 1971 na revista Batman #237. Nessa história, magnificamente desenhada por Neal Adams, a perseguição a um criminoso nazista levou o Cavaleiro das Trevas para Rutland, e por lá ele se encontrou com o já citado Berni Wrightson e com Alan Weiss e Gerry Conway, todos quadrinistas profissionais e habitués das festas de Fagan!

Também estava por lá Denny O´Neill – sendo retratado como um esnobe escritor de quadrinhos – e para fechar com chave de ouro as “participações especiais” em Night of the Reaper, Fagan finalmente teve a chance de pela primeira vez ficar frente-a-frente com o Cruzado Encapuzado, o seu eterno ídolo. Além dessas “participações especiais”, algumas curiosidades cercam a elaboração de Night of the Reaper: a fim de tornar a história mais realista, Adams a desenhou usando como referência fotografias da Clement House tiradas pelo filho de Sol Harrison (gerente de produção da DC Comics na época), e por pura “molecagem”, o genial artista desenhou alguns dos convidados da festa de Fagan, vestindo fantasias de personagens da Marvel Comics, como o Destrutor (herói visualmente criado por Adams durante a sua passagem pelo gibi dos X-Men), Homem-Aranha, Capitão América e Thor. Na época, muito provavelmente Adams não sabia, mas de certa forma a sua “molecagem” plantou as sementes para aquele que seria o primeiro – ainda que informal – crossover entre a Marvel e a DC Comics!

:: O Primeiro Crossover Marvel/DC
No final de 1972 e início de 1973, Rutland e o seu desfile de Dia das Bruxas foram o principal cenário de três HQ´s, só que ao contrário das aparições anteriores da pequena cidade de Vermont, essas três histórias eram sutilmente interligadas. E, além de serem ligadas entre si, duas dessas aventuras foram publicadas pela Marvel e a outra pela DC Comics. Resumindo: na prática elas compuseram o primeiro crossover Marvel/DC! Mas como isso foi possível em pleno início dos anos setenta? Bem, todos os roteiristas que conceberam essas histórias participavam habitualmente das festas de Fagan e, em conjunto, eles decidiram que cada uma delas complementaria as outras, apesar de ser possível lê-las de maneira separada. Naturalmente isso foi feito sem o consentimento prévio dos donos da Marvel e da DC Comics, e como quase sempre, os artistas envolvidos nas histórias que homenageavam Tom Fagan também “participaram” dessas aventuras. Mas, afinal de contas, que histórias são essas?

A primeira delas é And the Juggernaut Will Get You If You Don´t Watch Out (E o Fanático vai te pegar se você não tomar cuidado, em uma tradução livre), publicada em janeiro de 1973 no gibi Amazing Adventures #16 e ainda inédita no Brasil. Escrita por Steve Englehart, desenhada por Bob Brown e Frank McLaughlin e estrelada pelo mutante Fera (Beast), nessa história as barreiras dimensionais entre os diversos universos estão enfraquecidas devido ao confronto que ocorreu entre os Defensores e Dormammu, e isso permitiu que o Fanático (Juggernaut) – que na época estava exilado em um mundo extradimensional – voltasse para a Terra, justamente em Rutland. A parte engraçada dessa história é a maneira como o Fera chegou em Rutland: ele simplesmente pegou uma carona em um carro que levava para a dita cidade os artistas Steve Englehart, Len Wein, Glynis Wein (colorista da Marvel que na época era esposa de Len Wein) e Gerry Conway! Assim que chegou na cidade, o Fera compareceu à festa de Tom Fagan e por lá ele encarou o Fanático, devolvendo-o para o seu exílio extradimensional.

A quebra de barreiras dimensionais também foi o mote para a segunda história, batizada com o titulo A Stranger Walks among Us (Um estranho caminha entre nós), publicada em dezembro de 1972 na revista Justice League of America #103 e roteirizada por Len Wein e desenhada por Dick Dillin e Dick Giordano. Nessa aventura inédita para o público brasileiro, através do mago conhecido como Vingador Fantasma (Phantom Stranger), a Liga da Justiça descobre que o feiticeiro Felix Fausto está em Rutland, tirando proveito do enfraquecimento das barreiras dimensionais para invocar espíritos de outros mundos. Ao chegar em Rutland, os justiceiros encontraram-se (só para variar!) com Tom Fagan, que pediu aos heróis que eles participassem do tradicional Desfile de Halloween da cidade. Não se fazendo de rogada, a superequipe atendeu ao pedido do jornalista, só que, convenhamos... Se a aventura ficasse somente restrita a isso ela seria muito chata!

No desenrolar dos acontecimentos a Liga da Justiça enfrentou os espíritos invocados por Fausto, que possuíram os corpos de diversos participantes do Desfile de Rutland, e justamente esse é o fato curioso por trás dessa aventura, já que “coincidentemente” quase todos os participantes possuídos vestiam fantasias de heróis da Marvel Comics! Os espíritos convocados por Fausto não puderam fazer frente à Liga da Justiça e foram derrotados, e assim como em Amazing Adventures #16, o quarteto formado por Steve Englehart, Gerry Conway, Len e Glynis Wein deu o ar da graça, mas essa não foi a última aparição dos “intrépidos” artistas em uma história em quadrinhos, já que eles também foram coadjuvantes na próxima história ambientada em Rutland que descreveremos a seguir.

Em janeiro de 1973, a revista The Mighty Thor #207 trouxe a história Firesword (Espada de Fogo, em uma tradução livre), publicada no Brasil pela Editora Abril em janeiro de 1985 no gibi Heróis da TV #67. Nessa aventura concebida por Gerry Conway e desenhada por John Buscema e Vince Colleta, a busca pelo Homem Absorvente (Absorving Man, um vilão clássico da Marvel Comics) obrigou o Deus do Trovão a dirigir-se para Rutland. Chegando lá, o Filho de Odin encontrou e derrotou o vilão, todavia ele não estava preparado para a súbita aparição do seu maligno meio-irmão Loki, que tirou proveito das barreiras dimensionais enfraquecidas (de novo as tais barreiras!) para ressurgir na Terra. Para complicar as coisas para o herói o Deus da Mentira dominou mentalmente Tom Fagan e seus convidados e atiçou Satan e Diablo (os dois cachorros de Fagan, que na vida real tinham esses nomes!) contra o seu odiado irmão e adversário. Thor derrotou os dois cães de Fagan, e no conflito que se seguiu, como sempre, Loki foi derrotado.

Em relação à participação dos artistas em The Mighty Thor #207, alguns especialistas em História das Histórias em Quadrinhos acreditam que eles não foram desenhados por John Buscema, e sim pela artista Marie Severin, tendo em vista que em suas aparições nessa história o estilo artístico é bem diferente do usualmente apresentado por Buscema, e nos créditos da revista Marie recebe congratulações pelo “bom trabalho” feito, apesar de até hoje não ter havido uma explicação sobre qual trabalho foi esse.

Outro fato importante relacionado a Firesword é que juntamente com Nightmare on Bald Mountain (a história dos Defensores ambientada em Rutland que citamos lá em cima, lembram?) ela serviu de insumo para a saga Vingadores versus Defensores (Avengers/Defenders War, recentemente republicada no Brasil em 2007 na edição especial Os Maiores Clássicos dos Vingadores vol. 4, pela Panini), saga essa que em 1974 se estendeu pelos gibis The Avengers e The Defenders, na qual as duas superequipes mais poderosas da Marvel se enfrentaram e posteriormente juntaram forças contra Dormammu e Loki. De certa forma, Vingadores versus Defensores provavelmente foi uma das primeiras histórias longas publicadas no mercado americano em mais de uma revista, inaugurando de vez o conceito dos grandes crossovers, só que, sejamos francos... Crossovers bacanas e que realmente atiçam os fãs são aqueles que reúnem os heróis da Marvel e da DC Comics, não é mesmo?

Como falamos acima, a “Trilogia de Rutland” foi feita à revelia das principais lideranças da Marvel e da DC, só que não demorou muito para descobrirem a “traquinagem” dos seus artistas. Pelo menos o lendário editor Julius Schwartz logo a percebeu, e em uma reunião nos escritórios da DC, ele questionou duramente Len Wein: “Por que vocês não me contaram nada? Eu jamais deixaria vocês fazerem isso!”. Dando os ombros, Wein simplesmente respondeu: “É justamente por isso que não te contamos nada!”. Não se sabe qual foi a reação de Schwartz à resposta “malcriada” do seu subordinado, mas é sabido que apesar da aparente “rabugice”, o editor era um boa-praça muito querido pelos artistas da DC Comics. E convenhamos: feita a “travessura”, Schwartz não tinha como desfazê-la, e com certeza não tinha como impedir os futuros encontros entre a as duas editoras. 

A primeira vez em que a Marvel e a DC Comics oficialmente uniram forças para lançarem juntas um gibi foi em 1975, quando chegou nas bancas americanas uma versão quadrinizada do filme O Mágico de Oz (Wizard of Oz) e, somente em 1976, heróis das duas editoras finalmente se encararam no clássico gibi Superman versus Homem-Aranha (Superman vs. the Amazing Spider-Man), escrito por Gerry Conway e desenhado por Ross Andru e Dick Giordano. Superman versus Homem-Aranha foi de fato o primeiro grande encontro entre as duas majors do mercado americano, só que hoje é consenso entre os pesquisadores dos quadrinhos estadunidenses que tal primazia cabe à “Trilogia de Rutland” que acabamos de descrever, mesmo que ela tenha surgido como uma grande brincadeira entre os profissionais das duas editoras. Tanto esse consenso está estabelecido que a edição especial do crossover LJA e Vingadores traz um texto que faz referência à grande confraternização que rolava em Rutland e explica como tal confraternização inspirou a elaboração de aventuras que “entrelaçaram” o universos da Marvel e da DC. Concluindo: hoje as duas editoras reconhecem que a “primeira vez” em que elas se “encontraram” foram nas histórias inspiradas em Rutland!

Com certeza Tom Fagan não imaginava que a festança que ele organizava todo ano redundaria no primeiro encontro editorial entre as duas grandes editoras. E com certeza caberia a ele mais algumas “participações especiais” em outros gibis.

:: A Saga de Rutland continua
Em meados de 1973, Tom Fagan devolveu a Clement House para os seus legítimos proprietários. Tal fato não determinou o fim das festanças organizadas pelo jornalista, tendo em vista que elas continuaram a ser organizadas em outros locais como em uma igreja abandonada e no velho clube social da cidade, mas pelo visto a ausência da charmosa “Velha Mansão”, aliada a outros interesses na vida, fizeram com que a quantidade de visitas de profissionais dos quadrinhos a Rutland diminuísse sensivelmente. Todavia, isso não significou o fim das aparições de Rutland nos comics americanos. Tom Fagan e seu desfile de Halloween reapareceram em The Night of the Collector (A Noite do Colecionador), aventura inédita no Brasil publicada em janeiro de 1974 em The Avengers #119, que foi escrita por Steve Englehart e desenhada por Bob Brown e Don Heck.

Após pressentir grande perigo em Rutland, a vingadora dotada de alguma percepção extrassensorial conhecida como Mantis, pediu para os Vingadores rumarem para a cidade. Chegando lá, os heróis encontraram Tom Fagan, que como sempre estava organizando o desfile de Dia das Bruxas e tudo parecia estar dentro da normalidade, até o momento em que o jornalista emboscou parte da superequipe e relevou ser na verdade o Colecionador (Collector), um alienígena obcecado em coletar os mais variados objetos e formas de vida. Os membros remanescentes da equipe descobriram o paradeiro do verdadeiro Fagan, e se, nas aventuras anteriores, o simpático anfitrião de Rutland era um mero espectador, dessa vez ele ajudou pessoalmente os Vingadores a derrotarem o vilão extraterrestre.

Entre 1973 e 1977, a editora Gold Key publicava a revista de terror The Occult Files Of Dr Spektor, que trazia as aventuras do Dr. Adam Spektor, um personagem que deu as caras no Brasil nos anos 1970 em revista própria pela Vecchi, e que era uma espécie de mistura setentista de John Constantine (o fanfarrão mago inglês do selo Vertigo, da DC Comics) com Dylan Dog (investigador de fenômenos paranormais originário dos quadrinhos italianos). Todas as aventuras do Dr. Spektor foram escritas por Don Glut (o principal roteirista da Gold Key) e desenhadas pelo artista filipino Jesse Santos, e na história Masque Macabre (Festa Macabra, publicada em dezembro de 1975 no gibi The Occult Files Of Dr Spektor #18) o bom doutor foi convidado a visitar Rutland durante o feriado de Dia das Bruxas por um tal de Tom Sikes, e aí não é difícil imaginarmos o que aconteceu: o Dr. Spektor se deparou com toda a sorte de presenças demoníacas e possessões espirituais, e com os seus profundos conhecimentos místicos, livrou a cidade de Rutland do mal que a assolava.

Ora, na vida real Don Glut nunca visitou Rutland ou conheceu pessoalmente Tom Fagan, mas de tanto ouvir histórias sobre as festanças na pequena cidade de Vermont e de tanto ver gibis da Marvel e da DC serem ambientados por lá, o roteirista decidiu “entrar na festa”, mesmo que para isso ele modificasse o nome de Tom Fagan para Tom Sikes. Antes que pensem que tal mudança no nome do principal anfitrião de Rutland foi motivada por algum tipo de “maldade” da parte de Glut, é bom explicarmos que na verdade o roteirista simplesmente aproveitou a “deixa” para também prestar homenagem ao escritor inglês Charles Dickens, uma vez que Sikes é uns dos vilões do clássico livro Oliver Twist.

Outro roteirista que também nunca apareceu pelas bandas de Rutland foi Bob Rozakis, que ao contrário de Glut teve a oportunidade de conhecer Fagan durante uma visita de cortesia que o jornalista fez ao escritório da DC Comics em meados dos anos setenta. Inspirado nessa visita e nos relatos sobre Rutland, Rozakis fez com que os Combatentes da Liberdade (Freedom Fighters) enfrentassem uma série de ameaças místicas na terra natal de Tom Fagan na sexta e décima-terceira edições de Freedom Fighters, lançadas respectivamente no início de 1977 e 1978, desenhadas por Ramona Fradon e Dick Ayers.

Steve Englehart nunca perdia a oportunidade de citar Rutland e seu amigo Fagan em seus roteiros, e novamente ele o fez na revista Justice League of America #145, que trazia a história Carnival of Souls (Parque de Diversões das Almas, inédita no Brasil). Lançada em agosto de 1977 e desenhada por Dick Dillin e Frank McLaughlin, nessa aventura só “para variar”, a Liga da Justiça vai para Rutland e lá enfrenta um mago que, após fazer um pacto com uma entidade demoniaca, ganhou o poder de conjurar almas penadas para os seus propósitos sinistros. Como sempre, os justiceiros se encontraram com Fagan e venceram o mago, mas pelo menos essa história tem um pequeno diferencial em relação a todas as outras que descrevemos aqui até o momento: ela foi a primeira que não aconteceu no período de Halloween. Todavia, sabemos que o Dia das Bruxas e Rutland têm tudo a ver um com o outro, não é mesmo?

Isso foi razão mais do que suficiente para que a DC Comics fizesse uma citação visual da cidade no 1978 DC Super-Heroes Calendar, um calendário repleto de ilustrações inspiradas nos heróis da DC e cujo mês de outubro (o mês do Halloween, lembram?) trazia um belo quadro desenhado por Al Milgrom que retratava o Gavião Negro (Hawkman), Mulher-Gavião (Hawkgirl) e Eléktron (Atom) enfrentando alguns dos mais perigosos bruxos e entidades místicas do universo ficcional da editora durante uma dos desfiles de Dia das Bruxas de Rutland.

Gerry Conway também sabia que era impossível dissociar a pequena cidade de Vermont do Halloween, e em parceria com o escritor Martin Pasko, ele bolou uma aventura em três partes publicada integralmente no começo de 1978 na revista especial DC Super-Stars #18 (no Brasil no gibi Edição Extra de A Maior, setembro de 1978, Ebal), onde o incrédulo pesquisador de eventos paranormais Doutor Treze (Doctor Thirteen), o desencarnado Desafiador (Deadman) e o Vingador Fantasma, uniram forças contra criaturas demoniacas que estavam tirando proveito dos festejos de Dia das Bruxas para realizar sacrifícios humanos, a fim de invocar a poderosa entidade sobrenatural conhecida como Qabal e contra a feiticeira Tala.

Desenhada por Romeo Tanghal, Bob Layton e Dick Giordano, nessa história Tom Fagan novamente exercitou toda a sua simpatia pessoal na companhia do casal Gerry e Carla Conway, de Martin Pasko, Paul Levitz (atual presidente da DC Comics) e Romeo Tanghal, e de certa forma, essa aventura foi o início do fim da Saga de Rutland nos quadrinhos.

:: O Fim da Saga de Rutland
No final dos anos setenta e inicio dos anos oitenta, as aparições regulares de Rutland e Tom Fagan nos comics americanos começaram a rarear até chegar o momento em que se acabaram de vez. As explicações para isso são simples: nessa época lentamente Fagan deixou de ser o único organizador da parada e, talvez em razão disso, os seus colegas quadrinistas também pararam definitivamente de visitar a cidade. Mesmo assim, Rutland ainda foi lembrada algumas vezes.

No final de 1980 o gibi Ghosts #95 trouxe a história All the Stage is a Haunt (Todo palco é mal-assombrado, em uma tradução livre), aventura essa onde o escritor Paul Kupperberg e os artistas Michael Adams e Tex Blaisdell fizeram com que o Doutor Treze visitasse novamente Rutland, dessa vez com o propósito de desvendar o mistério por trás de um assassinato ocorrido na cidade que supostamente foi cometido por um fantasma. Com a sua habitual perícia, o Doutor Treze conseguiu provar que não havia nenhum fenômeno sobrenatural envolvido ao crime, e encaminhou o responsável por ele à Justiça.

Se All the Stage is a Haunt é desprovida de elementos fantásticos, o mesmo não pode ser dito da aparição seguinte de Rutland, que ocorreu na aventura Hell on Earth (Inferno na Terra), publicada em outubro de 1981 na revista comemorativa The Defenders #100. Concebida por J.M. DeMatteis e desenhada por Don Perlin, nessa aventura os Defensores encararam o arquidemônio Mefisto (Mephisto), que através de diversas ilusões místicas, fez com que parte da equipe fosse parar em Rutland, revivendo os fatos ocorridos em Nightmare on Bald Mountain e em outros desafios pregressos da superequipe.

Nas duas aventuras que acabamos de descrever (ambas inéditas no Brasil), nem o Desfile de Dia das Bruxas da cidade e nem Tom Fagan foram mencionados, e tudo indicava que os comics americanos tinham esquecidos ambos, só que uma última e definitiva homenagem à pequena cidade de Vermont foi feita, dessa vez não por artistas vinculados a Marvel ou a DC Comics, e sim por um fã de quadrinhos que, assim que se profissionalizou decidiu que Rutland seria o local de nascimento ideal para uma de suas criações...

No final dos anos sessenta e comecinho dos anos setenta, Martin L. Greim era um fanático por quadrinhos que mantinha um fanzine, hoje histórico, chamado Comic Crusader. Assim que as primeiras histórias envolvendo Rutland começaram a ser lançadas, ele ficou fascinado com a cidade e as comemorações envolvendo quadrinistas que rolavam por lá, e, de correspondência em correspondência, tornou-se amigo de Fagan. Justamente em razão dessa amizade, assim que se profissionalizou, Greim decidiu que a origem de um super-herói criado por ele seria ambientada na pequena cidade de Vermont, e tal super-herói é ninguém mais ninguém menos que o espetacular Thunderbunny! Já ouviram falar dele? Muito provavelmente não, uma vez que esse personagem realmente é obscuro, entretanto vale a pena falarmos um pouquinho sobre ele e sua origem.

O Thunderbunny estreou de maneira semiprofissional no gibi Comic Crusader Storybook, em uma história roteirizada por Greim e desenhada pelos ainda amadores Gene Day e Jerry Ordway, e a premissa desse conto quadrinístico não poderia ser mais simples: durante uma viagem de férias a Rutland, o garoto Bobby Caswell descobriu um misterioso artefato alienígena nos arredores da cidade e, ao tocá-lo, seu corpo foi possuido e mudado para a forma de um poderoso herói extraterrestre com cara de coelho! Bizarro, não acham? Na verdade, ao criar o Thunderbunny, Greim buscou inspiração nas aventuras da Família Marvel (aquela que gritava “Shazam”, lembram?), em especial no Joca Marvel (Hoppy the Marvel Bunny), um coelho superpoderoso que deu o ar da sua graça nos quadrinhos americanos durante as décadas de quarenta e cinquenta.

Em março de 1982, Greim conseguiu lançar profissionalmente o seu personagem na revista Charlton Bullseye #6, sendo que nessa ocasião ele recontou a origem do herói, dessa vez valendo-se da arte de Mike Machlan e Viktor Laszlo. Após uma breve estadia na então falida Charlton, o Thunderbunny passou por várias editoras até encontrar moradia e um gibi somente seu na Warp Graphics, e justamente na quinta edição dessa revista – lançada em fevereiro de 1986 nos EUA – Tom Fagan voltou a dar as caras em uma história em quadrinhos, na aventura Moonlight Miss (algo como Senhorita do Luar, em uma tradução para lá de livre), história que, assim como o heroico coelho alienígena, é absolutamente inédita por aqui.

Nessa revista, Bobby Caswell e seu tio decidiram viajar para Rutland durante o dia em que ocorre mais um dos desfiles de Dia das Bruxas da cidade, e ao chegarem lá eles se encontraram com o sempre receptivo Tom Fagan, que como sempre estava organizando o desfile daquele ano. Tudo transcorria na santa paz de Deus, até o instante em que a vilã Moon Miss deu o ar da sua graça, atrás de um misterioso tesouro escondido em uma das praças de Rutland. Aí, não restou a Bobby outra opção a não ser transformar-se em Thunderbunny e, como todo e tipico super-herói, salvar o dia e o desfile de Halloween.

Apesar de geralmente ser conhecida apenas pelos fãs mais xiitas e apaixonados por quadrinhos independentes, essa pequena pérola da Nona Arte que acabamos de descrever tem a sua importância. Martin L. Greim e o desenhista Brian Buniak pesquisaram Rutland e seu desfile de Dia das Bruxas de maneira extensiva e detalhada, o que faz com que Moonlight Miss seja considerada a HQ mais fiel à realidade entre todas aquelas que trouxeram à pequena cidade de Vermont. Em retribuição a essa fidelidade, Fagan fez com que naquele ano o desfile trouxesse um carro alegórico homenageando o Thunderbunny, mas esses estão longe de serem os detalhes que realmente tornam Moonlight Miss importante. O que realmente dá significância para essa história é o fato de que ela marca a última aparição de Tom Fagan nos quadrinhos americanos.

Nos anos que se seguiram, Rutland ainda foi citada ou retratada de forma ligeira nos gibis Animal Man #50, Superboy and the Ravers #16 (ambos da DC Comics) e Generation X #22 (da Marvel), todas lançadas nos anos noventa, inéditas aqui no Brasil e bem longe de trazerem toda a glória que a pequena cidade de Vermont merecia. Mas, após tantas e tantas aparições em tantos e tantos gibis, o que aconteceu com Tom Fagan e o seu Desfile de Dia das Bruxas? Eis aqui o final da longa Saga de Rutland...

Fagan sempre foi um fumante inveterado e tal hábito certamente não foi benéfico para a sua saúde. Esse desapego à própria saúde somado ao avanço da idade fez com que nos anos noventa o jornalista deixasse integralmente em outras mãos a tarefa de organizar o desfile de Dia das Bruxas de Rutland. Daí em diante, Fagan passou a viver a típica vida de um aposentado morando no interior, cultivando algumas pequenas e antigas “extravagâncias”, como vestir-se quase sempre com roupas pretas, pentear-se como o seu ídolo James Dean e manter em casa uma extensa memorabilia com diversos itens relacionados a quadrinhos, filmes de terror e ficção cientifica. Tais “extravagâncias” e o seu afastamento da organização do desfile de Dia das Bruxas não o tolheram definitivamente dos festejos praticamente criados por ele: em sua honra todo desfile sempre trazia alguma alegoria relacionada ao Batman e, ocasionalmente, o fã número um do Homem-Morcego no estado de Vermont, era convidado para ser jurado no concurso que escolhia os melhores e mais belos carros alegóricos que participavam do desfile.

Para completar tudo isso, em retribuição aos anos de serviços prestados à prefeitura de Rutland, recebeu o título honorífico de Grand Marshal do Desfile de Dia das Bruxas, titulo esse que poderia ser traduzido como “Grande Comandante e Líder” das comemorações de Halloween em Rutland. Aliás, se no começo dos anos sessenta o Desfile era constituído por meia dúzia de gatos pingados, nos dias de hoje, entre espectadores locais, foliões e turistas, mais de dez mil pessoas participam dele e, por causa da importância que essa comemoração tomou, em 2007, o jornal Rutland Herald entrevistou o seu antigo empregado com o propósito de relembrar as origens da festa. De conversa em conversa durante a entrevista, meio que de brincadeira, Fagan tascou a seguinte frase: “Acho que se eu morrer na época do Halloween, o meu caixão será levado em cortejo fúnebre durante o Desfile de Dia das Bruxas”. Sua irônica profecia quase se cumpriu...

Em 21 de outubro de 2008 os cigarros cobraram seu preço e Mitch Thomson Fagan, também conhecido como Senhor Halloween, ou simplesmente Tom Fagan, aos setenta e seis anos de idade abandonou para sempre o nosso convívio. Ele foi enterrado no dia 23 de outubro, apenas dois dias antes da realização da quadragésima-nona edição do Desfile de Dia das Bruxas de Rutland.

:: Considerações e agradecimentos
Provavelmente os corajosos e pacientes membros da nossa audiência que estão lendo esse artigo e chegaram até aqui estão se perguntando: “Por que o HQM decidiu publicar uma matéria sobre um gibizeiro interiorano que organizava festinhas e que por acaso apareceu em uma ou outra revistinha?” A nossa melhor resposta para essa pergunta está justamente no início desse artigo. Lembram quando descrevemos o primeiro encontro de Tom Fagan com Roy Thomas? Pois é, também falamos lá em cima que Thomas profissionalizou-se em 1965, e acreditem se quiser ou não, esse é um marco na História dos gibis estadunidenses, uma vez que junto com Thomas veio toda uma leva de novos autores, editores e desenhistas.

Ora, a geração anterior a de Thomas foi responsável pela criação daquilo que hoje chamamos de “Indústria dos Quadrinhos Americanos”, só que obviamente, na condição de fundadores dessa indústria, esses profissionais não tiveram os gibis como leitura preferencial na infância. Por outro lado, a nova geração capitaneada por Thomas teve a imaginação fortemente povoada por revistas de super-heróis durante a juventude, e isso os motivou a buscarem e buscarem emprego no meio quadrinístico assim que se tornaram adultos. Justamente aí reside a importância de Fagan e de suas festas, já que de certa forma, através das HQ´s inspiradas em Rutland publicadas no comecinho dos anos setenta, a nova geração de quadrinistas firmou e reafirmou a sua posição na Indústria dos Quadrinhos perante os fãs e o mercado.

Também é perfeitamente possível entender as primeiras histórias envolvendo a pequena cidade de Vermont como um dos marcos da transição entre as Era de Prata e a Era de Bronze dos quadrinhos americanos, quando os gibis deixaram a ingenuidade de lado e novas temáticas mais maduras passaram a ser retratadas em suas páginas coloridas. Tudo isso são razões mais do que suficientes para justificar um artigo tão longo quanto esse sobre Tom Fagan e a sua cidade, porém existe outro motivo que impulsionou a feitura dessa matéria.

No dia 18 de outubro de 2008, o autor deste artigo encontrou-se com um dos integrantes do HQM, Leonardo Vicente Di Sessa, e com o escritor e pesquisador de quadrinhos Roberto Guedes, e durante o encontro, discutiu-se pautas que seriam interessantes para o site, e uma das possibilidades colocadas na mesa foi justamente Tom Fagan e as festas quadrinísticas patrocinadas por ele.

Tendo tal possibilidade em mente, o simpático autor que vos fala, no dia 26 de outubro, começou as pesquisas iniciais para um possível artigo sobre Fagan, e aí o nosso amigo Destino nos pregou uma grande peça, já que através do próprio HQM, no dia 27 de outubro, este escriba soube que o jornalista bat-maníaco havia falecido (clique aqui para ler essa notícia). Tal fato transformou o que antes era apenas uma possibilidade, uma necessidade de mostrar as “aventuras” de Tom Fagan, um sujeito que no final das contas não era nem um pouco diferente de todos nós que compramos e nos deliciamos com gibis de super-heróis.

Bem, agora que chegamos ao final desta longa narrativa, precisamos agradecer aqueles que a tornaram possível. Como sempre, o nosso primeiro agradecimento vai para os editores do HQM, pelo apoio constante na elaboração deste artigo. Em seguida, devemos mandar um “salve” para o grande Roberto Guedes, que incentivou a elaboração deste texto e colocou-se a disposição para ajudar o autor desta matéria com o que fosse necessário.

Por fim, se há alguém que realmente merece um agradecimento especial esse alguém é Ian Berger. Nascido em Rutland e amigo pessoal de Tom Fagan, Berger nos deu informações preciosas que enriqueceram sobremaneira esse texto que vocês acabaram de ler. E, por fim, é nossa obrigação agradecer a você, que sempre acessa o HQM e que prestigia o nosso trabalho. Obrigado! E continuem acessando diariamente o HQM!


Cláudio Roberto Basílio, ou Brodie Bruce, como também é conhecido, é pesquisador de histórias em quadrinhos e colaborador do HQM. Acesse o seu blog no endereço http://gibicomics.blogspot.com/.

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DC Super-Stars #18: Desafiador assiste o Desfile de Rutland
ThunderBunny #5: última aparição de Fagan nos quadrinhos
 


 

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