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15/01/2009
COLUNA - FALA ANIMAL!: INVASÃO SECRETA
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



ATENÇÃO: ESTA COLUNA CONTÉM SPOILERS DE FATOS AINDA NÃO OCORRIDOS NO BRASIL!

A Panini Comics já anuncia nas páginas de suas revistas o grande evento da Marvel para este ano: Invasão Secreta.

Nos Estados Unidos, tal evento chegou ao fim recentemente, mantendo uma infeliz tradição dos últimos anos. Ou seja, vendas muito altas, uma enrolação irritante que prolonga acontecimentos simples, e um rascunho de idéias que é erroneamente chamado de trama.

Como a saga ainda é inédita no Brasil, não entrarei nos mínimos detalhes em um primeiro momento, comentando de maneira geral o que fez dela uma péssima história. Não é novidade para ninguém que Invasão Secreta envolve uma infiltração dos Skrulls na Terra, certo?

Bem, o próprio escritor da minissérie principal, Brian Michael Bendis, inseriu pistas e pontas soltas (ou ao menos é o que ele diz) nas revistas que escreve desde os acontecimentos de outra saga ruim criada por ele, Guerra Secreta. Conforme as coisas vão andando, se cria a paranóia de que a Terra está sendo tomada pelos Skrulls e que algo deve ser feito.

Poderia até ser uma boa idéia, se não fosse executada de maneira tão imbecil. Os heróis da Terra, ao encontrarem UM skrull disfarçado como um personagem famoso, sem maiores pistas ou justificativas chegam à conclusão de que os Skrulls estão prontos para dominar nosso mundo, e que estão por toda parte. Um argumento tão fraco para justificar a linha narrativa inicial da trama chega a ser motivo de risadas.

Com esse primeiro Skrull revelado, veio o segundo passo para a saga. Passo este que se resume a uma maciça divulgação através de imagens provocativas (e que raramente condizem com os fatos apresentados nas revistas), entrevistas e afins, provando mais uma vez que em muitos casos, as HQs mais vendidas correspondem exatamente às HQs mais divulgadas nos EUA. Neste estágio da saga, tanto Bendis quanto Joe Quesada repetiram inúmeras vezes em entrevistas e releases que todos os personagens da Marvel eram suspeitos de serem Skrulls, e que uma atenção especial deveria ser dada aos que voltaram dos mortos em anos recentes.

Foi aí que aquela pontinha de esperança que existe em todo leitor brilhou mais forte. Afinal, quantas dezenas de personagens morreram de maneira idiota, ou voltaram de maneira ainda pior nos últimos anos? Pior ainda, quantos personagens apareceram vivos por aí depois de muitos anos mortos, sem nenhuma explicação, aparentemente apenas porque o roteirista da vez ignorou a morte em questão, ou simplesmente nem tinha conhecimento dela?

E os personagens que foram tão descaracterizados, agindo de maneira aberrante (por vezes surgindo no mesmo mês em várias revistas, em cada uma agindo de um modo diferente), se transformando, sem motivo algum, em algo totalmente distorcido? Com o anúncio de que a invasão vinha sendo preparada há vários anos, muitos sonharam em ver as características de seus heróis favoritos resgatadas.

Mas aí vem outro fator importante a se considerar: será que os leitores gostariam mesmo de descobrir que leu por anos as aventuras de um Skrull no lugar de seu herói predileto? Ou então, se um Skrull ficou no lugar de outra pessoa, agindo de maneira errônea, não deveria ter sido desmascarado facilmente?

Ao que tudo indica, os leitores tiveram muito mais trabalho levantando essas questões do que os envolvidos na saga tiveram ao criá-la. Antes mesmo de o evento principal ter início, os títulos mais envolvidos (Novos Vingadores e Poderosos Vingadores) começaram a apresentar sinais de que serviam apenas para levar à saga, já que cada vez mais as tramas não saiam do lugar. Perto do lançamento da minissérie, houve uma promessa por parte da editora de limitar as interligações. Claro, a promessa foi mais vazia do que conta bancária de mendigo.

As três revistas mensais dos Vingadores (Novos, Poderosos e Iniciativa), Deadpool, Capitão Britânia e o MI13, Thunderbolts, X-Factor, Mulher-Hulk, Nova, Ms. Marvel, Guardiões da Galáxia, todas foram afetadas pela saga. Boa parte dos heróis que não apresentaram interligação em suas séries mensais (alguns simplesmente porque não têm publicação mensal) ganharam minisséries à parte: Homem-Aranha, Fugitivos (ao lado dos Jovens Vingadores), Capitão Marvel, X-Men, Thor, Inumanos, Quarteto Fantástico, fora a tradicional e quase sempre fraca (embora não neste caso) Frente de Batalha. São tantas que corro o risco de ter esquecido de alguma.

Sendo bem sincero, acredito que interligações são até lógicas. Se uma invasão global está acontecendo, me parece óbvio que todos os heróis se envolvam na defesa de seu planeta. O problema mesmo é por que diabos não mostrar isso de maneira melhor, bem escrita, ou sem precisar de praticamente um título para cada um?

De todas as séries derivadas de Invasão Secreta, a única que realmente teve importância foi a dos Inumanos! Entre minis e interligações, a grande maioria tratou apenas de enrolar ainda mais as coisas, com raras exceções, como Capitão Britânia e Guardiões da Galáxia, dois títulos em que os roteiristas souberam usar a saga a seu favor, mixando os acontecimentos dos próprios títulos com a invasão de uma forma fluida.

E agora, a saga propriamente dita. Agora sim, é impossível comentar sem revelar alguns poucos spoilers, então, se preferir guardar a (má) surpresa para quando tais histórias sejam publicadas no Brasil, o melhor é parar a leitura por aqui.

Em sua primeira edição, Invasão Secreta começa surpreendente bem. Boa parte dos Skrulls infiltrados revelados fazem muito sentido do ponto de vista tático, ocupando posições importantes nas organizações do Universo Marvel. Os ataques iniciais conseguem praticamente anular qualquer chance de resistência da Terra. Até mesmo a arte de Leinil Francis Yu está muito boa, caso mais do que raro. Não que a edição não tenha as costumeiras tropeçadas cronológicas de Brian Bendis, que consegue ir contra o que ele mesmo escreveu pouco tempo antes, mostrando o Homem de Ferro revelar a um aliado o primeiro agente Skrull pela primeira vez. O que há de errado nisso? Bom, essa revelação acontece pela “segunda primeira vez”, já que Tony Stark já havia feito isso em outra ocasião, também escrita por Bendis...

A partir da segunda edição tudo muda para muito, mas muito pior. Para começar, a arte de Leinil Yu volta à velha forma, o que significa que tudo parece um rascunho sem arte-final, onde muitos personagens são irreconhecíveis. Durante quase toda a minissérie, ambas as equipes de Vingadores ficam presas numa situação incrivelmente vergonhosa, da qual deveriam ter saído rapidamente, apenas para justificar a facilidade com que os Skrulls tomam o poder.

A coisa chega a um ponto em que as revistas dos Vingadores e a minissérie principal trocam de lugar. E como isso acontece? É simples, em Novos e Poderosos Vingadores são apresentados os detalhes e o planejamento da invasão, as substituições efetuadas e afins, com os Vingadores quase nunca dando as caras. Já em Invasão Secreta, os Vingadores são os astros, numa embaraçosa batalha contra dinossauros que não leva a nada.

Enquanto Bendis faz o que faz melhor, enrolando a todos em seus títulos, os demais mostram bem mais ação e o desenrolar dos fatos, mas nem sempre com bons resultados. Por exemplo, em algumas histórias, é passada a impressão de que tudo acontece no espaço de horas, enquanto outras fazem parecer que já há dias a Terra foi invadida.

Conforme a saga vai avançando, descobrimos que os Skrulls acreditam como parte de sua religião que a Terra é seu território (religião que remete ao Deus terrestre, sem nem sombra de uma explicação para isso). Para perpetrar seus planos, os Skrulls desenvolvem um meio de passarem totalmente despercebidos por todos, ainda conseguindo emular os poderes dos super-humanos terrestres e conseguindo até suas memórias. A contrário do prometido pela editora, nem todas as substituições são explicadas. Mais uma vez, os roteiristas provam que a palavra explicação é mais alienígena do que os Skrulls para eles.

Quando enfim um exército de heróis e vilões se une para a luta final contra os Skrulls, a situação desce a níveis inimagináveis. Em desespero (não se sabe porque, afinal estavam vencendo com grande vantagem), os Skrulls acionam sua arma secreta, que se baseia num presente dado a um personagem tradicional da Marvel. Presente este que foi dado meses antes por um skrull infiltrado. Mais uma vez, Bendis ignora a história passada dos personagens, afinal o presente recebido pelo personagem lhe atribui uma nova habilidade - habilidade esta que o personagem já tinha há meses!

Infelizmente, o personagem em questão falece no decorrer da batalha, de uma maneira tão corrida, mal conduzida e desenhada, que só temos certeza do ocorrido por conta dos diálogos. Enfurecidos, os aliados do recém-falecido personagem partem para o ataque e, de repente, a grande armada Skrull inexplicavelmente parece indefesa e incrivelmente reduzida, sendo derrotada com uma facilidade impossível, do tipo que nos faz pensar: “se era tão fácil, como a história foi tão longa?”.

Em meio ao tumulto, a razão de ser da saga se revela. E ela não tem ligação alguma com Skrulls, a redenção esperada (e não alcançada) de alguns personagens, ou mesmo o retorno de uma versão mais clássica de alguns deles. Invasão Secreta serve quase que exclusivamente como trampolim para a ascensão de um grande vilão da editora, que, ao eliminar o líder da invasão, se torna um herói aos olhos do povo. Com isso, acaba a Invasão Secreta para dar lugar a Dark Reign, onde os vilões parecem mandar no mundo. Bem, pelo menos agora a Marvel tem vilões novamente, não teremos de ver apenas herói contra herói.

Ainda apresentando indícios de que a maratona de sagas presentes na Marvel e DC atualmente está longe de acabar, Invasão Secreta é talvez a maior prova do erro disso. E o problema não é exatamente termos uma saga depois da outra. Pensem bem: em universos onde seres alienígenas quase onipotentes existem, onde organizações reúnem exércitos de seres superpoderosos para conquistar o mundo, ou onde o mais simples personagem pode afetar toda a história conhecida, é de se esperar uma grande aliança entre os heróis para deter esse tipo de ameaça.

Sagas grandiosas deveriam ser apreciadas, momentos de realização do leitor, quando é possível reencontrar personagens sumidos, presenciar heróis contracenando de maneira empolgante contra uma ameaça de proporções catastróficas, tudo com uma trama bem amarrada e cheia de emoção.

Contudo, numa história como Invasão Secreta, tudo toma o rumo contrário. Os heróis são vazios, poderiam ser qualquer um contracenando com qualquer um, pois quase ninguém apresenta suas características marcantes. A ameaça não tem profundidade pela falta de explicações, e o modo fácil como é derrotada faz com que se torne difícil defini-la como uma real ameaça. A trama quase não existe. O que leva 8 edições e inúmeras interligações, poderia ser facilmente resumido em uma única edição, pois somente as vendas importam. As dezenas de edições fazem grande volume no caixa da editora, mas juntas mal resultam num grão de conteúdo e diversão para apreciação dos leitores.

Com todos esses pontos negativos escancarados em qualquer aspecto da “grande” saga, que de grande só tem sua duração, o mais triste é constatar que as vendas foram ótimas, independente de críticas por parte dos leitores. Com uma fidelidade cega destas, é até estranho termos uma saga por ano ao invés de duas ou três. Com certeza escritores podem criar tramas simplistas dessa estirpe aos montes em um único dia...

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