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04/03/2009
REVIEW - CINEMA: WATCHMEN - O FILME
 
 
Watchmen - O Filme
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



A melhor HQ de super-heróis de todos os tempos. Por mais de 20 anos, Watchmen ostenta esse título, com pouquíssima gente dizendo o contrário. E, praticamente pelo mesmo período de tempo, uma adaptação para as telonas é prometida.

Neste dia 6 de março, finalmente, o filme Watchmen chegará aos cinemas, depois de inúmeros percalços, incluindo trocas de estúdio, várias versões do roteiro, processos e a costumaz e cada vez mais cansativa crítica de Alan Moore, roteirista da obra original.

E não foi só isso. Os próprios leitores sempre ficaram ressabiados com tal adaptação. Muitos disseram que era impossível de se fazer. Outros levantavam a bandeira de uma adaptação para a TV, na forma de uma minissérie, levando em conta o tamanho da obra impressa. Mesmo agora, com o filme pronto, ainda há muitos com medo do resultado final.

A desconfiança é algo mais do que natural neste caso. Watchmen, ao lado de Batman: O Cavaleiro das Trevas (não o filme, mas sim a HQ de Frank Miller), foi um divisor de águas nos anos 80. Com o lançamento dessas duas minisséries, foi marcado o fim de uma era dos quadrinhos. Depois disso, os super-heróis mudaram radicalmente, tornando-se mais violentos, crus, menos fantasiosos em alguns casos e, em muitas ocasiões, menos criativos, menos divertidos.

Alan Moore (roteiro) e Dave Gibbons (arte) criaram um mundo completamente diferente de tudo que existia nos quadrinhos americanos até então. Embora inicialmente a idéia fosse usar os personagens da editora Charlton, que na época haviam sido adquiridos há pouco tempo pela DC Comics, o produto final se tornou bem diferente. Os heróis da Charlton estavam reservados a outro projeto, uma revista semanal, que infelizmente acabou nunca sendo lançada. Com isso, Besouro Azul, Capitão Átomo, Questão e outros perderam sua chance de serem um marco dos quadrinhos.

Em substituição, Moore criou um mundo novo, habitado por heróis mais realistas, mesmo que baseados nos aspectos mais marcantes dos personagens da Charlton. No mundo de Watchmen, depois de décadas de existência, os vigilantes uniformizados estão quase todos aposentados, principalmente depois que uma lei proibiu sua ação. Apenas um deles tem superpoderes, e bastou a existência deste único superser para mudar os rumos da História da humanidade. Graças a intervenção desse ser quase todo-poderoso, os EUA ganharam a Guerra do Vietnã, a ameaça nuclear se tornou mais iminente do que nunca e Richard Nixon ainda é o Presidente dos EUA em 1985.

Um mundo tão único, tão real ao mesmo tempo que diferente, é sem dúvida um desafio para qualquer diretor. A escolha de Zack Snyder foi um tiro certeiro no alvo exatamente por isso. Snyder, fã confesso de quadrinhos, já tem uma experiência muito bem sucedida com outra adaptação, 300, de Frank Miller. Com essa obra, Snyder se tornou um nome com muita força em Hollywood, ainda mais se levarmos em conta que conseguiu alta bilheteria com um filme extremamente violento, que tem ainda sexo e nudez, elementos que garantiram uma classificação etária alta.

Em Watchmen, do mesmo modo que fez em 300, Snyder conseguiu criar um visual único, impressionantemente fiel às HQs, com diversos cenários literalmente transplantados de uma mídia para outra. Mesmo que não houvesse personagens em sua Nova York de 1985, perceberíamos facilmente que aquele é o mundo de Watchmen, devido ao tamanho cuidado com o mais mínimo detalhe no filme. Até mesmo a trilha sonora é muito bem cuidada, passando todo o clima de cada década apresentada.

Dificilmente alguém que acompanhe o HQM não conhece a trama por trás de Watchmen, mas nem por isso devemos passar por cima de um resumo. Tudo tem início com o assassinato do Comediante (Jeffrey Dean Morgan, do seriado Supernatural), vigilante da velha guarda, um dos poucos ainda na ativa, trabalhando para o governo americano. Sua misteriosa morte logo chama a atenção de Rorschach (Jackie Earle Haley), outro vigilante, o único a operar como um renegado fora-da-lei depois do decreto que proibiu a atuação dos heróis que não trabalham para o governo. A teoria de Rorschach é que alguém iniciou uma operação para eliminar os vigilantes uniformizados. Sua investigação logo o leva a antigos companheiros, pessoas que vivem vidas amargas, e que, na visão de Rorschach, podem ser tanto o culpado quanto potenciais alvos futuros.

O segundo Coruja (Patrick Wilson) está aposentado, fora de forma, e descontente com sua vida acomodada. Sua única distração são suas visitas ao Coruja original (Stephen McHattie, também presente em 300), já um senhor de idade. Ozymandias (Matthew Goode) parece ser o único ex-vigilante bem sucedido. Sendo o homem mais inteligente da Terra, aposentou-se dois anos antes da lei que proibiu os heróis, revelando sua identidade ao público e usando sua inteligência e boa imagem para construir um império dos negócios, o qual usa para ajudar o mundo de uma maneira mais eficiente do que trajando uma fantasia nas ruas.

Laurie Jupiter, a segunda Espectral (o fenômeno da beleza Malin Akerman), vive descontente ao lado de seu namorado, o Dr. Manhattan (Billy Crudup, de Missão: Impossível III), sempre brigando com sua mãe, Sally, a Espectral original (Carla Gugino, de Sin City: A Cidade do Pecado). Manhattan, por sua vez, sendo o único ser vivo com poderes que o tornam quase um deus, aos poucos foi perdendo o interesse pelas pessoas, tornando-se distante, ainda que o governo o considere seu trunfo na iminente guerra nuclear com a União Soviética.

Neste palco cheio de incertezas, de pessoas que precisam encarar uma vida cheia de insatisfações e sonhos não realizados, com um mundo vivendo a paranóia de um conflito nuclear considerado inevitável, Snyder conseguiu conduzir uma incrível adaptação, sendo bastante fiel, a despeito do que muitos pensavam.

Alguns uniformes, como os do Coruja e Ozymandias, sofreram modificações, que de modo algum interferiram com suas personalidades ou com a trama em geral. A narrativa seguiu praticamente o mesmo ritmo dos quadrinhos, com um pequeno acréscimo de ação em cenas de luta já existentes na obra original, que mesmo assim podem, infelizmente, não ser o bastante para agradar o grande público que desconhece Watchmen.

Como dito antes, a enormidade (não só pelo número de páginas, mas também pela quantidade de detalhes) da HQ sempre foi um grande obstáculo para que sua adaptação fosse realizada. A versão para os cinemas ficou com duração em torno de 2 horas e 40 minutos, mas nenhum elemento importante ficou de fora, pelo contrário, a estrutura do filme foi pensada para apresentar o máximo de detalhes possíveis, usando e abusando de flashbacks (tal como a HQ) e com direito a uma apresentação que mostra um resumo da história do vigilantismo na América de Watchmen, que chega a mostrar em imagens elementos que nos quadrinhos foram apenas citados.

Claro, mesmo assim, algumas coisas acabaram ficando de fora, ainda que nada indispensável. Mas isso não é motivo de preocupação, já que Snyder prometeu que uma versão estendida com muitas novas cenas será lançada em DVD e Blu-ray futuramente.

No final deste mês, será lançado nos EUA, diretamente em DVD e Blu-ray, um “anexo” muito esperado. O lançamento englobará duas facetas que são marcas registradas de Watchmen. A primeira, que ganhou mais destaque na mídia, é a animação Contos do Cargueiro Negro, que adapta a “HQ dentro da HQ” de Watchmen, que surge na obra original na forma de uma HQ que um personagem menor lê durante a trama, apresentando uma história soturna de piratas. A outra atração do lançamento é Sob o Capuz. Nos quadrinhos, este é o nome de um livro escrito pelo Coruja original, que nos apresenta muitos detalhes da trajetória dos primeiros vigilantes. Neste lançamento, Sob o Capuz será apresentado como um documentário baseado no livro. Para aqueles que têm mais paciência (o que é bastante recomendável para não perder dinheiro com várias versões), também está prometido o lançamento de uma versão do filme com as cenas adicionais, bem como Contos do Cargueiro Negro e Sob o Capuz, porém, essa versão mais completa demorará bem mais para ser lançada.

Deixando os detalhes de lado, voltemos a falar do elenco. Composto em sua maioria por rostos pouco conhecidos mundialmente, não decepcionou em nenhuma das escolhas. Alguns se sobressaem por sua semelhança física com os personagens, outros por suas interpretações, mas os dois personagens que se destacam são Rorschach e Coruja, que juntam as duas características para se tornarem os heróis com quem o público facilmente simpatizará.

Rorschach, diga-se de passagem, desde as HQs é um fenômeno, afinal é quase um louco psicopata, ultra-violento, que mesmo assim conquista a empatia do leitor/espectador. A violência, aliás, já com presença forte na obra original, é bastante ampliada em sua versão cinematográfica, que contém também cenas de sexo bem mais explícitas do que comumente se espera de um filme de super-heróis.

Fãs com certeza ficarão maravilhados com o filme, até que, no clímax da trama, lembrarão o que foi alardeado há vários meses. Tal clímax é um tanto diferente do apresentado nos quadrinhos, o que, tão logo foi revelado, gerou manifestações negativas muito enérgicas. A verdade é que a mudança se prova interessante nas telas. Sem entrar em detalhes para não estragar a surpresa, digamos que por um lado tal mudança é incrivelmente lógica e eficaz, enquanto por outro com certeza fará com que fãs a debatam por meses.

Curiosamente, do mesmo modo que revolucionou os quadrinhos ao lado de Batman: O Cavaleiro das Trevas, como dito antes, Watchmen chega agora aos cinemas para mostrar, ao lado de outro Cavaleiro das Trevas (ainda que o filme só tenha o nome igual à HQ, ao menos no Brasil), que super-heróis não necessariamente são sinônimo de fantasia, ingenuidade e integridade, e que funcionam muito bem, quando pessoas realmente talentosas estão envolvidas, para contar uma história mais crua, violenta e que não precisa sempre apelar para cenas de ação gigantescas.

Elenco: Jackie Earle Haley, Jeffrey Dean Morgan, Patrick Wilson, Malin Akerman, Billy Crudup, Matthew Goode, Matt Frewer, Carla Gugino, Stephen McHattie. Roteiro: Alex Tse. Direção: Zack Snyder.

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