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20/03/2009
MATÉRIA: THE SPIRIT - UM MARCO DAS HQS
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


The Spirit, o detetive mascarado criado pela lenda dos quadrinhos Will Eisner, acaba de ganhar uma versão cinematográfica há tempos esperada, pelas mãos de Frank Miller (300, Sin City). Conheça um pouco mais sobre o personagem que revolucionou magistralmente a forma de fazer quadrinhos a partir da década de 1940, influenciando gerações, produzido pelo mestre dos mestres da arte sequencial.

:: Quem é The Spirit?
The Spirit
é um detetive que, após uma luta com o vilão Dr. Cobra, é oficialmente dado como morto. Na verdade, conforme ele revela ao amigo e comissário de polícia Dolan, os experimentos do vilão deixaram o herói em animação suspensa durante certo tempo. Aproveitando-se do anonimato garantido por sua suposta morte, Spirit passa a proteger secretamente os cidadãos de Central City, combatendo os vilões e os fora-da-lei da cidade, sem o uso de armas e nenhum tipo de superpoder, somente com seus próprios punhos, inteligência e sagacidade. Ele vive em um refúgio sob o velho cemitério Wildwood, uma espécie de abrigo antiaéreo e quartel-general equipado com o que há de mais moderno para combater o crime na cidade.

Sua verdadeira identidade é Denny Colt, conhecida somente pelo Comissário Dolan e sua filha Ellen Dolan, que chegou até a ser prefeita de Central City, que o auxiliam na árdua tarefa de livrar a cidade dos bandidos e criminosos que a assolam. Além deles, Spirit também conta com a ajuda de Ébano (Ebony White), seu parceiro-mirim e fiel assistente. Rodeado por mulheres fatais que querem amá-lo ou matá-lo, como Silk Satin, P´gell, Sand Saref, entre muitas outras, além de uma galeria de criminosos insanos, como seu arquiinimigo Octopus, Spirit é um dos personagens mais marcantes e revolucionários de todos os tempos, um dos melhores e mais completos já criados.

:: A concepção
Estreando em 2 de junho de 1940, Spirit é um marco na história dos quadrinhos. Abusando do preto e branco, e utilizando técnicas até então inéditas neste tipo de mídia, explorando ângulos, perspectivas, iluminações, tomadas cinematográficas, roteiros sofisticados, entre outros recursos, Will Eisner revolucionou a forma de fazer quadrinhos, tanto em relação à arte quanto às narrativas criadas para suas histórias. As páginas de apresentação de cada episódio começavam sempre com um logotipo novo e diferente brilhantemente fundido ao cenário, algo inédito e inovador na época.

Criado logo após outros ícones dos quadrinhos, como Superman (1938) e Batman (1939), no auge da febre dos super-heróis, Spirit não foi concebido para ser um deles e muito menos para ter poderes especiais. Embora sua imagem seja atualmente associada à sua máscara, suas primeiras histórias mostravam o herói com o rosto totalmente limpo. Algum tempo depois da criação de Spirit, influenciado por amigos e leitores do personagem, Eisner criou o “disfarce” para o detetive de Central City.

The Spirit estreou nos jornais dominicais, fazendo sucesso rapidamente perante crítica e público devido às suas histórias marcantes e inovadoras. Porém sua carreira não foi muito duradoura. Eisner foi convocado para a 2ª Guerra Mundial em 1942, deixando o insólito herói nas mãos de sua equipe - composta de profissionais competentes, diga-se de passagem. Estes outros artistas, porém, não conseguiam manter o clima da mesma forma que Eisner faria.

Retornando em 1945, Eisner resolveu contar a verdadeira origem do personagem, uma história de grande sucesso com o público. O autor, influenciado pelas HQs educativas e de entretenimento que produzia para o exército norte-americano, passou a se interessar mais em estudar as histórias em quadrinhos, em lugar de criá-las. Aliados a isso, os problemas de distribuição e a concorrência da TV na época, causaram o fim prematuro do Spirit em 1952, com mais de 600 histórias produzidas no total. Eisner chegou a publicar uma história do personagem em 1966, mas preferiu não mais produzir as aventuras em série, aposentando definitivamente o personagem.

No entanto, a partir deste ponto, Eisner criou dezenas de graphic novels, obras mais maduras e de temáticas mais complexas, por vezes autobiográficas. O termo “graphic novel” se popularizou graças a ele, após aparecer na capa de Um Contrato com Deus. Porém, o artista admitiu que não cunhou a expressão – ela foi usada inicialmente por Richard Kyle, primeiro em novembro de 1964, na newsletter Capa-Alpha #2 e posteriormente em sua revista Fantasy Illustrated #5. Eisner continuou sua produção com centenas de HQs educativas, além de livros teóricos obrigatórios para quem quer saber como se faz quadrinhos de qualidade, que são hoje referências no mundo todo.

:: Spirit no Brasil
No Brasil, The Spirit foi publicado inicialmente em títulos como Suplemento Juvenil, Globo Juvenil, Gibi Semanal, Eureka e Grilo. Posteriormente, ganhou edições pela Rio Gráfica e Editora (atual Editora Globo), pela NG Editora, L&PM, Abril, Acme/Devir e, por fim, uma edição pela extinta Metal Pesado, em 1997. Desde então, as histórias clássicas do personagem nunca mais foram publicadas no Brasil.

:: Tributo a Eisner e a The Spirit
The Spirit, desenhado pelo próprio Eisner, apareceu pela última vez na minissérie The Escapist, por enquanto inédita no Brasil. Além disso, criador e criação foram homenageados por grandes nomes dos quadrinhos, como Neil Gaiman, Frank Miller, Alan Moore, Daniel Torres, Moebius, entre outros, na edição especial Spirit Jam e na série The Spirit – The New Adventures, ambas publicadas pela Kitchen Sink Press.

Recentemente, a DC Comics lançou uma nova série do Spirit inicialmente capitaneada por Darwyn Cooke. O título foi lançado ano passado no Brasil pela Panini Comics. As edições #1 a 12 da série original deveriam ter sido publicadas em uma minissérie em seis edições, porém as duas últimas, até o momento, não foram lançadas. Foi inclusive divulgada uma capa de uma edição que compilaria as quatro partes restantes (ou as duas edições brasileiras), porém nada foi anunciado até o momento. Em contrapartida, um novo encadernado foi lançado recentemente, trazendo as histórias publicadas originalmente nas edições #13 a 18, com a participação de Sergio Aragonés, Mark Evanier, do brasileiro Aluir Amancio, Dennis O´Neill, Eduardo Risso, entre outros.

Esta nova série foi lançada com o propósito de atualizar o personagem para a nova geração, pegando carona na chegada da adaptação de Frank Miller aos cinemas, porém sem o charme que caracterizava as histórias produzidas por Will Eisner. No entanto, o material ainda vale muito pela homenagem a este grande ícone dos quadrinhos. Antes disso, Spirit participou de um encontro com Batman, com roteiro de Jeph Loeb e arte de Darwyn Cooke.

A DC Comics também publica nos EUA álbuns em capa dura do personagem, intitulados The Spirit Archives, que compilam em ordem cronológica todas as histórias criadas para o detetive mascarado. Essa coleção é inédita no Brasil.

:: Spirit nas telas
Não é a primeira vez que o detetive é transposto para as telas. Em 1987, o herói ganhou um piloto para uma futura série dirigido por Michael Schultz, e protagonizado por Sam J. Jones, o mesmo ator que interpretou Flash Gordon nos cinemas em 1980. Apesar de não ser totalmente fiel às HQs e não ter a total aprovação de Eisner, o filme é competente por transpor personagem e cenários para as telas, proporcionando uma adaptação mediana, porém eficiente para a época em que foi lançada. No entanto, o filme chegou a ser comparado com a clássica série de TV de Batman produzida nos anos 60 e, por fim, o projeto para a série não foi adiante.

Já a adaptação de Frank Miller é competente, mas não se saiu muito bem perante a crítica, pois Miller não seguiu à risca a obra de Eisner. Realmente não é uma tarefa fácil transpor para a tela grande todos os detalhes e características de uma das obras mais marcantes e inovadoras de Eisner, no entanto o telespectador que já conhece o personagem, poderá ficar satisfeito em ver o herói nas telonas.

A escolha de Frank Miller, o autor de Sin City e Batman - O Cavaleiro das Trevas para dirigir a película não poderia ser mais acertada. Fã confesso de Eisner, Miller estreou nos cinemas adaptando o próprio Sin City. Em 2005, publicou um livro juntamente com o mestre da arte sequencial - intitulado Eisner/Miller, com 350 páginas, a obra traz um bate-papo informal sobre quadrinhos, discussões sobre a produção de HQs, a influência da nova geração de artistas, entre outros assuntos.

:: O criador
Filho de judeus imigrantes, Eisner nasceu em 6 de março de 1917, em Nova Iorque. Seu interesse pela arte surgiu quando ainda era garoto, estudando na DeWitt Clinton High School, localizada no Bronx, onde teve seus primeiros trabalhos publicados no jornal da escola. Seu primeiro trabalho profissional foi publicado em 1936 na WOW What a Magazine!, onde criou dois personagens, Harry Karry e The Flame, porém a publicação não passou do quarto número. Depois, Eisner e seu amigo Jerry Iger se uniram e criaram o Eisner-Iger Studio, produzindo tiras para diversos jornais norte-americanos.

Neste período, o estúdio recrutou jovens artistas promissores que viriam a se tornar famosos nos quadrinhos, entre eles Jack Kirby, criador dos Novos Deuses e co-criador de heróis como Hulk e Capitão América; Bob Kane, criador do Batman; Lou Fine, co-criador de The Flame; entre outros. Nesta época, Eisner criou Hawks of the Seas (Falcões do Mar), um de seus mais importantes trabalhos no período. Em 1939, passou a produzir um suplemento de quadrinhos juntamente com o Quality Comics Group, finalizando assim sua parceria com Jerry Iger.

Nessa época, Eisner viu a oportunidade perfeita para criar The Spirit, seu mais famoso personagem. Seu trabalho na Quality lhe deu a chance de atingir um público maior, aumentando sua audiência nos jornais norte-americanos, tornando-o sucesso absoluto de público e crítica, conquistando de vez seus leitores.

:: Outras obras de Eisner
Entre seus diversos trabalhos, roteiros e personagens produzidos simultaneamente, Eisner criou personagens e séries como John Law, Kewpies, Baseball, entre outros, mas nenhum desses projetos fez tanto sucesso quanto The Spirit. No entanto, alguns desses roteiros e esboços foram aproveitados em histórias do Spirit. Neste período, Eisner fundou a American Visuals Corporation, companhia criada para a produção de quadrinhos e ilustrações, dedicados a fins educacionais e comerciais. Foi nesta época que, devido às diversas ocupações e trabalhos mais rentáveis, Eisner decidiu deixar de lado sua maior criação. Mesmo assim, devido às diversas críticas positivas nos jornais, as tiras e histórias de Spirit passaram a ser reeditadas até os dias de hoje.

Em 1978, Eisner publicou Um Contrato com Deus, um álbum com quatro histórias curtas produzidas ao longo de dois anos. Com isso nascia o que ele passou a chamar de graphic novel – os romances gráficos – o primeiro passo para uma série de álbuns que depois foram publicados pela editora Kitchen Sink Press. Os temas eram, em sua maioria, semi-autobiográficos, baseados em partes de sua própria vida ou fatos presenciados, sempre com altas doses de criatividade, ficção científica, visões humanas e até apocalípticas (como no álbum Um Sinal do Espaço). Eisner passou também a conquistar o público adulto, quebrando o estereótipo de que o mercado era dominado somente pelos quadrinhos de super-heróis, que eram direcionados quase que exclusivamente ao público juvenil. 

Além de Um Contrato com Deus (publicado pela primeira vez no Brasil pela editora Brasiliense e reeditado em edição de luxo pela Devir) e Um Sinal do Espaço (com cores de André LeBlanc, pela Editora Abril), Eisner publicou A Força da Vida (Devir), New York – A Grande Cidade (Martins Fontes), O Sonhador (Devir), O Edifício (Abril), No Coração da Tempestade (Abril), Invisible People (inédito no Brasil), Avenida Dropsie (Devir), A Family Matter (inédito no Brasil), O Último Dia no Vietnã (Devir), Pequenos Milagres (Devir), O Nome do Jogo (Devir), Fagin: O Judeu (Cia das Letras), e O Complô: A História Secreta dos Protocolos dos Sábios do Sião (Cia das Letras), sua última obra, lançada pouco depois de seu falecimento.

Além desses, também adaptou obras como Moby Dick (A Baleia Branca), Dom Quixote (O Último Cavaleiro Andante), A Princesa e o Sapo, e Sundiata: o Leão de Mali (todas as quatro publicadas no Brasil pela Cia das Letras).

A importância de Eisner nos quadrinhos é tão grande que em 1988, através de sua fundação, ele criou o mais importante e cobiçado prêmio dos quadrinhos: o Eisner Award. O troféu é concedido anualmente às mais inovadoras e mais brilhantes histórias em quadrinhos já publicadas e a seus autores.

Will Eisner faleceu em 3 de janeiro de 2005, aos 87 anos. Ele se foi, mas não sem antes deixar suas marcas no mundo, que ficarão gravadas eternamente nos anais das histórias em quadrinhos.

Veja também:
Resenha de Cinema: The Spirit - O Filme
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