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05/05/2009
MATÉRIA: JORNADA NAS ESTRELAS - INDO AONDE NENHUMA OUTRA SÉRIE JAMAIS ESTEVE!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



Há muitas pessoas que podem torcer o nariz para o visual retrô da tripulação de uma nave espacial que tem como missão pesquisar o universo. Tem gente que acha que tem “papo demais”, citações científicas demais, personagens demais, ou ação de menos, e – no caso da série clássica – efeitos muito pobres. Há quem prefira outras franquias, como Star Wars, ou mesmo Matrix.

Mas o fato é que Star Trek: Jornada nas Estrelas provavelmente é a franquia de maior sucesso já surgida na TV norte-americana em todos os tempos.

O começo, é claro, foi modesto. Gene Roddenberry sonhava em ser escritor, e após vender alguns roteiros baseados em sua experiência como policial, encontrou sua vocação na televisão. Sua primeira série, The Lieutnant, durou apenas uma temporada, mas Roddenberry tinha uma ideia melhor: ele amava Ficção Científica.

Nos anos 1950, a Ficção Científica tinha sido uma verdadeira febre nos EUA: revistas, livros, quadrinhos e filmes marcaram toda uma geração. No entanto, a FC (a sigla pela qual é mais conhecida) ainda não tinha tido sua grande chance na televisão. Com efeito, Twilight Zone (no Brasil, Além da Imaginação) trazia alguns episódios que eram ficção científica, mas por ser uma antologia (ou seja, contos fechados) também havia episódios sobre Fantasia, e se tem uma coisa que Ficção Científica não tem a ver é com magia.

Aqui cabe um parágrafo para deixar bem claro uma coisa: a diferença entre Ficção Científica e Fantasia Épica. Star Wars e Duna, por exemplo, são peças de um gênero que podemos chamar de Fantasia Épica, mas não Ficção Científica. A Ficção Científica propriamente dita não é simplesmente um gênero de aventura e ação, mas sim um gênero da literatura (onde ela começou) que explora a conseqüência de ideias científicas (não necessariamente as histórias se passando no futuro). E se o homem pudesse viajar mais rápido do que a luz? E se encontrasse outras raças alienígenas? Qual seria o impacto disso na sociedade humana? Na sua organização social, cultural e política? Esses são os principais temas de Star Trek.

Roddenberry queria uma série de Ficção Científica, e as viagens de uma nave com objetivo de descobrir novos mundos pareceu o motor perfeito para criar histórias do gênero. A cada semana, a tripulação visitaria um planeta diferente ou lidaria com um mistério no espaço. O tema pode parecer simples nos dias de hoje, mas na época era inovador – até demais. A maioria das redes de TV recusava a sinopse da história apresentada pelo produtor. Até que numa reunião com a NBC, que mais uma vez caminhava para uma recusa, Roddenberry explodiu: “É como Caravana, mas para as estrelas!”.

Caravana era uma série de faroeste dos anos 60, de muito sucesso, que mostrava a colonização norte-americana do velho oeste. Isso os executivos da NBC conseguiram entender. E assim aprovaram o financiamento do episódio piloto.

“É INTELIGENTE DEMAIS PARA A TV”
Inicialmente a nave se chamava Iorktown e o seu capitão era Robert April. Já havia um Spock, mas ele era marciano e de pele vermelha. O primeiro oficial era uma mulher, chamada simplesmente de Número Um.

April se transformou em Christopher Pike, e para interpretá-lo foi chamado o ator Jeffrey Hunter, conhecido como o mais famoso Jesus Cristo da história do cinema, no filme Rei dos Reis. Majel Barret, então namorada de Roddenberry, ficou com o segundo papel, como a primeira oficial, a Número Um. O médico Phillip Boyce era um senhor de idade, que fazia às vezes de figura paterna e conselheiro do Capitão. Spock agora era um vulcano, mas tinha um papel menor, como oficial de ciências da nave. Havia um triângulo amoroso entre Pike, a oficial Número Um e a ordenança do capitão, Janice Colt. E o navegador era um sul-americano, José Ortegas

Em abril de 1964 os executivos da NBC assistiram ao piloto da nova série proposta: "The Cage" (a Jaula). A nave, agora chamada de Enterprise, recebe um pedido de socorro do planeta Talos IV. Localizando a fonte do sinal, a tripulação descobre sobreviventes de um acidente de uma nave de pesquisa, a SS Columbia. Uma linda mulher chama a atenção do Capitão Pike, que cai numa armadilha e é aprisionado por uma decadente raça extraterrestre que coleciona espécimes alienígenas, um de cada gênero, macho e fêmea.

Até hoje a história é uma das preferidas dos fãs de Star Trek e está dentro dos padrões clássicos da Ficção Científica. A aventura traz boas doses de ação, suspense, drama e até filosofia, quando refletimos o que acontece com uma raça que já evoluiu tudo que tinha para evoluir. Mas justamente por isso, talvez, os executivos da NBC não gostaram do que viram: “É inteligente demais para a TV”, disse um deles.

Roddenberry mais uma vez ia ver suas esperanças ruírem caso não acontecesse algo sem precedentes: apesar de acharem que aquele tipo de história não era viável, eles gostaram do conceito das viagens espaciais e das doses de aventura. É importante lembrar que até hoje, quando o piloto de uma série de TV é recusado, a série é abortada. Star Trek é a exceção que comprova a regra. Roddenberry ganhou mais uma chance.

Os executivos pediram que Roddenberry limasse a personagem Número Um porque naquela época achavam que o público telespectador não iria gostar de ver uma mulher no comando (ela assumia a nave na ausência do Capitão Pike). O engenheiro alemão, Schneider, também dançou, assim como o navegador José Ortegas.

Jeffrey Hunter foi aprovado no papel, mas recusou continuar. Então Roddenberry foi atrás de um substituto, e assim apareceu William Shatner, que se tornou o Capitão James T. Kirk. O engenheiro-chefe da nave agora seria um escocês, Montgomery Scott, interpretado pelo ator James Dohan. E a nave ganhou um oficial asiático, Hikaru Sulu, interpretado por George Takei.

Um ano depois, em 1965, estava pronto o novo episódio piloto: "Onde Nenhum Homem Jamais Esteve", que acabaria virando a frase tema da série. Esse episódio não mostrava o encontro com alienígenas, mas o que acontece quando um ser humano evolui instantaneamente, adquirindo os poderes de um deus, após um fenômeno espacial eletromagnético. Esse episódio também deixava claro um dos grandes trunfos de Star Trek, que era discutir seriamente temas contemporâneos, no caso, sobre a questão do poder, e como ele pode corromper a melhor das pessoas. Kirk tem que matar o melhor amigo para salvar a raça humana, já dando uma conotação de tragédia e sacrifício que não havia em qualquer programa de televisão da época.

Os executivos desta vez aprovaram e Roddenberry se entregou à produção dos novos episódios. A série fez sua estréia oficial na TV norte-americana em 8 de setembro de 1966, com o episódio “The Man Trap” (no Brasil, o Sal da Terra). Este era na verdade o sexto episódio produzido, mas foi escolhido por apresentar de forma mais abrangente os personagens e o conceito da série: uma nave futurista que viaja pelo espaço visitando colônias humanas e descobrindo novos mundos, tais como os navegadores do século XV e XVI.

O BRAVO, O RACIONAL E O HUMANO
De 1965 para 1966, a tripulação da Enterprise ganhou as mudanças que a fariam um sucesso: Spock passou de oficial de ciências para primeiro oficial, o segundo em comando; o velho doutor Boyce foi substituído por um médico mais novo, Leonard McCoy, que seria o melhor amigo do Capitão Kirk. Na verdade, foi a contratação do carismático ator veterano DeForrest Kelley que determinaria o futuro da franquia. O personagem, de mero coadjuvante, foi ganhando mais espaço com suas tiradas cínicas e sarcásticas, tornando-se o contraponto apropriado para o Spock de Leonard Nimoy.

Assim se constituiu o “trio” de Star Trek, onde o bravo e audacioso Capitão Kirk tinha como conselheiros o racional Spock e o passional McCoy. O equilíbrio e o conflito entre os três é a espinha dorsal dos melhores episódios, principalmente quando eles se deparam com um dilema ético e moral pela frente – coisa muito comum em Star Trek.

Outra inovação da série era o elenco multi-étnico, coisa que nenhum programa de TV tinha ousado até então. Além do japonês Hikaru Sulu, e do escocês Montgomery Scott, logo se juntaram a eles a oficial de comunicações Uhura, e na segunda temporada o navegador russo (em plena Guerra Fria!) Pavel Checov. Roddenberry queria com isso mostrar que no futuro as diferenças étnicas e culturais da humanidade seriam superadas, e todos faríamos parte de uma mesma nação.

Os dois últimos foram propostas audaciosas de Roddenberry: Uhura não era simplesmente uma mulher na ponte de comando. Ela era o principal personagem feminino! Em plenos anos 60, o símbolo sexual da nave era uma mulher negra. A atriz Nichele Nichols e William Shatner inclusive protagonizaram o primeiro beijo inter-racial na TV norte-americana, coisa que chocou muitos sulistas preconceituosos que prometeram boicotar Star Trek dali em diante.

Outra coisa que afrontava a imprensa e o público conservador era que não havia nenhum pastor, padre ou conselheiro espiritual na nave. Pelo contrário, toda vez que um religioso aparecia era como um vilão aproveitador. Os episódios também criticavam a guerra, especialmente a do Vietnã que se desenrolava, a mecanização da vida humana, o racismo, a burocracia e a Guerra Fria, através dos conflitos entre a Federação e os Klingons.

No final das contas, apesar do cenário futurista, Star Trek era uma das séries mais atuais dos anos 60, porque burlando a autocensura dos canais de TV através da metáfora, eles podiam abordar assuntos contemporâneos. Os efeitos especiais, nos dias de hoje, podem parecer pobres e primitivos, mas Star Trek nunca foi sobre cenários, raios e luzes. A força das histórias era superior às maquetes baratas e fantasias de borracha.

Mas talvez por tanta ousadia, a série estava realmente à frente do seu tempo. O programa atravessou bem sua primeira temporada, com 29 episódios, sendo renovado sem problemas para o segundo ano. Mas no final deste, a rede NBC já tinha decretado seu cancelamento. No entanto, uma grande campanha de cartas fez mais uma vez de Star Trek pioneira: pela primeira vez, um canal de TV voltava atrás na decisão de cancelar uma série de TV por causa do apelo dos fãs, que ameaçavam boicotar a emissora, caso cancelassem sua série preferida!

No entanto, os executivos mudaram o dia do programa, passando-o para as sextas-feiras, noite em que a maioria do público de Star Trek – jovens e adolescentes – saía de casa. Assim, a terceira temporada de Star Trek, exibida até meados de 1969, foi sua última.

DO FRACASSO AO CULT
Star Trek parecia então condenada ao esquecimento, como todas as séries de TV canceladas até ali. Mas eis que aconteceu um fenômeno curioso – e o leitor já deve ter percebido que Star Trek era e é pródiga em fenômenos curiosos: quando os canais locais de TV norte-americanos passaram a exibir as reprises de Star Trek, a série encontrou um novo público.

Agora, não passando mais à noite, e não competindo com campeões de audiência, muitas crianças, pré-adolescentes e donas de casa entraram em contato com o universo de Star Trek. Os canais locais logo perceberam a popularidade do programa, que de semanal, passou para diário em muitas redes de TV.

Outra coisa vital para entender o fenômeno Star Trek foi a realização das convenções no começo dos anos 70. Clubes de fãs começaram a se formar porque Star Trek tinha um grande mérito: valia a pena discutir os episódios. Em muitos deles existiam tantas implicações políticas, sociais e filosóficas que formar um clube para discutir Star Trek era tentador. Assim como era tentador imaginar novas histórias com a tripulação da nave, e assim começaram a aparecer as primeiras fanfictions e logo os primeiros romances autorizados por Roddenberry. Afinal, vários escritores de renome haviam escrito episódios para a TV e se viram encantados em poderem escrever livros mais tarde.

Os clubes decidiram se encontrar, e assim nasceram as primeiras convenções, com o objetivo principal de trazer os atores principais e ouvir palestras do próprio Gene Roddenberry e seu séquito de principais roteiristas e produtores.

De repente, a NBC notou que tinha sido precipitada em cancelar a série. Afinal, tal movimento cultural jamais havia acontecido antes com uma série de TV. A primeira sobrevida veio de forma inusitada em 1973, quando foi produzida uma série animada de Star Trek, com 22 episódios, que teve como principal mérito trazer como dubladores justamente os atores da serie original. O desenho também se beneficiou da greve de roteiristas, que para pagar as contas, escreveram os episódios dos desenhos, muito acima do padrão das séries animadas da época – um dos episódios até discute a moralidade da eutanásia!

Star Trek já tinha virado uma série cult no ano de 1977, quando começaram a se mover as engrenagens para uma nova série de TV: Star Trek - Fase 2. William Shatner estava disponível, mas somente para alguns episódios, já que estava em uma outra série policial da época. Já Leonard Nimoy não queria mais saber de Spock. Assim, Gene Roddenberry começou a pensar em novos protagonistas, como o Capitão Derek, a Tenente Ilia, e o novo vulcano da nave, Xorn. Kirk não seria mais o Capitão: teria sido promovido, agora como Almirante apareceria apenas em alguns episódios.

No entanto, no vai e vem das produções hollywoodianas, e a rejeição de muitos fãs a uma série de Star Trek sem Kirk e sem Spock colocando medo nos produtores, a nova série de TV foi encerrada pela burocracia. Foram escritos doze episódios para o programa, que nunca foram ao ar, a não ser em adaptações para outras séries anos mais tarde.

Mas o verdadeiro motivo da nova série não ter saído do papel se deu no mesmo ano de 1977: Guerra nas Estrelas, ou Star Wars, mais conhecida no Brasil nos dias de hoje pelo seu nome original. O sucesso cinematográfico de uma nova aventura espacial abriu os olhos dos executivos da Paramount, que detinham os direitos de Star Trek com a compra dos estúdios Desilu. Em vez de uma série de TV, por que não fazer um filme baseado na franquia?

Para fazer um único filme, tanto William Shatner quanto Leonard Nimoy estavam disponíveis, o que animou muito os executivos. Praticamente toda a tripulação da série original foi reunida, acrescida de Stephen Collins, que iria viver Willard Decker na série de TV, bem como Persis Khambatha, que faria a Tenente Ilia.

Para dirigir o filme, foi contratado o mitológico diretor Robert Wise, do clássico O Dia em que a Terra Parou. Já o roteiro ficou a cargo do escritor de Ficção Científica Harold Livingston, o que na verdade se tornou um problema no primeiro filme. Livingston havia escrito um episódio para Star Trek: Fase 2, chamado "The God Thing", um excelente roteiro, considerado o melhor de todo o pacote da futura série. Tanto que Roddenberry resolveu que ele deveria ser a base do filme, e para isso precisavam ampliar a história. Isso acabou fazendo do filme um épico lento e até um pouco burocrático. Roddenberry também teve problemas com a censura, já que a história original explorava o conceito que Deus era uma máquina que estava voltando à Terra para reivindicá-la. A Paramount censurou quando descobriu e a história foi bastante alterada. Os leitores de quadrinhos podem notar uma similaridade aí com o enredo do terceiro arco da série The Authority que tem justamente esse conceito, aliás.

Apesar das críticas, o filme foi um sucesso, porque os trekkies não só lotaram os cinemas, como arrastaram muitos “civis” junto. O que o filme não teve de roteiro, teve pelo menos em um espetáculo de encher os olhos nas imagens grandiloquentes de Wise, auxiliado pela soberba e imortal trilha sonora de Jerry Goldsmith, que criou o tema musical pelo qual Star Trek é mais conhecida até os dias de hoje.

Assim, novos filmes iriam aparecer na década de 80: A Ira de Khan (1982), À Procura de Spock (1984), A Volta para Casa (1986), A Última Fronteira (1989), A Terra Desconhecida (1991), Generations (1994), Primeiro Contato (1996), Insurreição (1998) e Nêmesis (2002).

O sucesso do cinema impulsionou a volta das séries de TV e a expansão da franquia, com novos personagens. Em 1987 começou a ser exibida na Rede CBS Star Trek: The Next Generation (Jornada nas Estrelas: A Nova Geração), cujas aventuras se passam 80 anos após a primeira missão da tripulação do Capitão Kirk. A série durou sete temporadas e só parou porque os produtores decidiram levá-la para o cinema, a partir de 1994.

Pouco antes, em 1993, um sucessor já estava encaminhado, Star Trek: Deep Space Nine, que acontece na mesma faixa de tempo que Next Generation, mas é sobre uma estação orbital no espaço. Em 1995 estreou Star Trek: Voyager, mostrando as aventuras de uma nave estelar perdida num setor desconhecido do espaço. Ambas as séries tiveram também sete temporadas.

Muita gente acredita que a franquia começou a naufragar por causa dos filmes Nêmesis (2002) e a série Enterprise (2001), que era um prequel da série clássica, dos anos 60. Cem anos antes do Capitão Kirk, a série mostrava as viagens da primeira nave interestelar terráquea, o início da aventura humana no espaço profundo e seus primeiros contatos com várias raças alienígenas. A série não empolgou o grande público e teve o vexame de ser cancelada na quarta temporada, coisa que não acontecia em muito tempo com algo da franquia Star Trek.

No entanto, o fim de Enterprise e as várias ideias recusadas para um próximo filme de Star Trek, não desanimaram os executivos da Paramount, que chamaram o novo Midas da TV norte-americana, J.J. Abrams para ressuscitar a franquia.

A solução de Abrams foi óbvia: trazer a tripulação original de volta. Mais uma vez o mito de Jornada nas Estrelas irá contar com o carisma de Kirk, Spock e McCoy para fazer história. E ir aonde nenhuma criação da ficção jamais esteve.


Nano Souza é jornalista e fã de Star Trek desde os 8 anos de idade.

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Acima: as séries Clássica, Nova Geração, Deep Space Nine, Voyager e Enterprise. Abaixo: os eternos Capitão Kirk e Spock na série clássica e no novo filme.
 


 

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