MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
19/05/2009
MATÉRIA: A COMPLICADA NUMERAÇÃO DAS REVISTAS AMERICANAS
 
 
The Amazing Spider-Man #1, de 1963
 
 
The Amazing Spider-Man #1, de 1999
 
 
Fantastic Four #1, de 1961
 
 
Fantastic Four #1, de 1996
 
 
Tales to Astonish #101 - último número antes de se tornar The Incredible Hulk vol.2
 
 
 
 
 
 



Nos Estados Unidos, três revistas de personagens clássicos da Marvel estão prestes a chegar ao número 600: Capitão América, Hulk e Thor. Outro personagem, o Demolidor, chega ao número 500.

“Mas como...”, pode se perguntar o leitor mais novo ou desavisado, “... se Captain America está no número 50, Thor no número 12, Hulk no número 10 e Daredevil no número 118?”

A resposta mais simples seria dizer que a Marvel simplesmente está somando os números de todas as revistas que estes personagens já tiveram. Revistas que foram canceladas e zeradas, recomeçando a numeração, e que agora a numeração original está sendo retomada. E embora isso já seja complicado o suficiente pra quem tente organizar uma coleção (lá nos Estados Unidos), é apenas o primeiro fio de um novelo bastante intrincado.

Não é a primeira vez que a Marvel faz isto: a primeira revista a ter sua numeração retomada foi The Amazing Spider-Man, que havia sido zerada no numero 441. Um novo número 1 foi lançado em 1999, e após a edição 58, a revista voltou à numeração antiga, estampando o número 500.

Fantastic Four, a revista do Quarteto Fantástico teve um caminho mais tortuoso. A revista foi cancelada no volume 416 em 1996, e, no mesmo ano, relançada com uma nova numeração, que durou apenas 13 edições. Foi relançada de novo, até que depois do número 65, voltou ao número 500, fazendo a soma de todas as revistas já lançadas.

O leitor mais desatento pode perguntar: “Por que a Marvel faz isso? Está claro que isso complica pra caramba a vida do colecionador! Afinal, há três edições com os números de 1 a 12, duas edições com os números 13 à 65, mas quem quiser ir atrás dos números 417 à 499 (no caso do Quarteto) vai ter que fazer as contas!”

Realmente, na internet, já começam a aparecer até “tabelas de conversão”, explicando, por exemplo, que o número 510 de The Mighty Thor vol. 1 é o número 8 de The Might Thor vol. 2. Em um universo tão interligado como a Marvel, onde as histórias do passado fazem parte de uma continuidade e devem ser (quase) sempre consideradas, muitos leitores se interessam por edições antigas, a fim de compreender o presente. Mesmo os brasileiros, que estão sujeitos à outra numeração, usam a ordem americana original para “se guiar”. 

Mas existe uma razão para as revistas retomarem as numerações antigas: as revistas de numeração alta voltaram a ficar na moda. A Marvel, com certeza, deve ter ficado com um pouco de dor de cotovelo quando Action Comics e Detective Comics chegaram ao numero 800 e as revistas Superman e Batman passaram do número 600. Deve ter sido quando Joe Quesada se lamentou do fato da febre de relançar revistas nos anos 90 ter zerado várias revistas de grande numeração da casa das idéias. Marketeiro e polêmico, não foi difícil para ele ousar em retomar a numeração “original”.

Hoje em dia, pode parecer mais lógico que lançar um novo número 1 estimula as vendas das primeiras edições de uma revista, e assim chama a atenção para um relançamento. Muitas vezes não basta trocar a equipe criativa e a temática de uma revista que está vendendo mal, como a do Wolverine estava em 2003, por exemplo. A editora prefere relançar a revista, desde o numero 1, pra chamar a atenção da nova fase e assim atrair mais leitores.

Nos anos 90, relançar a revista do número 1 se tornou uma verdadeira onda, alimentada pela indústria especulativa dos gibis. De repente, muita gente começou a achar que colecionar as primeiras edições de qualquer revista era um bom investimento para o futuro, incentivados pelos preços estratosféricos que algumas edições número 1 alcançam, sendo o caso mais famoso a Action Comics #1, na casa dos 300 mil dólares.

Com efeito, as revistas antigas que mais valem em qualquer coleção são os primeiros números. É ali que os centavos podem se transformar em centenas de dólares. Por isso, chegou-se ao cúmulo de ter gente comprando mais de um exemplar do numero 1, para poder revender depois, com o preço mais alto.

As editoras logo perceberam o que estava acontecendo, e resolveram explorar o “nicho”. Não bastava lançar novos “número 1”: as revistas também receberam várias capas alternativas, ou seja, dando argumento para o leitor comprar mais de um exemplar, a fim de ter todas as capas.

Mas o que fez a Marvel cancelar várias revistas de grande numeração nos anos 90 com certeza foi a Image. A nova editora, que rapidamente se tornou a terceira em vendas nos states naquela época, estava lançando novos títulos todos os meses, ou seja, novos “número 1”  e esses eram as que mais vendiam.

O projeto Heróis Renascem foi uma tentativa de “imagelizar” a Marvel. Cinco revistas foram canceladas: Fantastic Four, que estava no número 416; The Mighty Thor, que estava no número 502; Captain America que estava no número 454, Avengers, que estava no número 402; e Invencible Iron Man, que estava no número 332.

A nova linha de revistas acabou se revelando um fracasso, e todas foram canceladas no número 13. E assim as revistas ganharam um terceiro volume, sendo mais uma vez relançadas desde o número 1.

Mas claro que não acabou aí. Demolidor e Homem-Aranha foram igualmente relançados, para destacar novas direções e equipes criativas. E as revistas do Capitão América, Thor e Homem de Ferro foram novamente canceladas e relançadas, tantas vezes que alguns já perderam as contas. Embora a atual série do Capitão América oficialmente seja chamada de Captain America vol. 5 é a sexta revista do personagem nos EUA. O Homem de Ferro também já teve cinco séries de revistas. Thor estava na terceira. 

Com a revista dos Vingadores, chegou-se ao cúmulo de, depois da edição #72, a numeração voltar ao número 500, somente para a revista ser cancelada no numero 503, e ser relançada como New Avengers, com um novo número 1.

Por isso, nada garante, apesar das numerações antigas estarem retomadas, que Demolidor, Capitão América, Thor, Hulk, entre outras, não sejam relançadas algum dia, diante do primeiro sinal de baixas vendas e a necessidade de reformulação das revistas, exigindo assim novos “número 1” para atrair a atenção dos leitores, muitos deles ainda naquela velha visão especulativa de que o número 1 vai se valorizar. Isso pode até ter sido verdade um dia, quando o número 1 era uma peça rara, um item de colecionador mesmo. Hoje, com 5 revistas “número 1” do Capitão América, quem liga para outra primeira edição?

O GOSTO PELA NUMERAÇÃO ALTA NÃO É DE HOJE
Nos últimos vinte anos, as revistas com menor numeração ganharam a preferência dos leitores, por várias razões, a principal sendo a facilidade de conseguir todos os números “antigos” já que eram poucos, e assim ter a coleção completa.

Mas nem sempre foi assim. Até os anos 80, revistas com poucas edições eram sinônimo de desconfiança. Os leitores confiavam na “tradição” de uma revista que já tivesse passado das 100 primeiras edições, e acreditavam que estas eram as mais difíceis de alguma editora cancelar, por isso valeria a pena continuar as colecionando, porque elas não seriam interrompidas.

Esse tipo de concepção vem desde a Era de Ouro dos quadrinhos, quando revistas chegavam a mudar de nome e de gênero, mas mantinham a numeração original. No final dos anos 40, por exemplo, quando as histórias dos super-heróis deixaram de serem populares, revistas como All-American Comics, Marvel Mystery Comics, Captain America Comics, mudaram de nome e passaram a publicar histórias de western, fantasia e terror, mas mantiveram a numeração de suas antecessoras.

Essa prática, inclusive, tornou-se uma das anedotas sobre a dificuldade de colecionar as antigas e famosas revistas de terror da EC Comics, que, por terem sido proibidas nos anos 50, ganharam muito valor no mercado de colecionáveis. Muitos novatos nesta empreitada se desgastaram como loucos atrás do número 1 de The Crypt of Terror, uma revista que não existe. The Crypt of Terror passou a sair a partir da edição #17, continuando a numeração de outro título, Crime Patrol, que os editores resolveram substituir pela nova publicação. Mesmo caso de The Haunt of Fear, que começou a ser publicado a partir do número 15, substituindo outro, Gunfighter.

Da mesma forma quando os super-heróis voltaram a ser populares, surgiram em revistas de fantasia e ficção cientifica e acabaram ficando com a numeração destas.

Thor, por exemplo, surgiu no número 83 da revista Journey into Mystery. O personagem acabou tomando conta de toda a publicação, até o nome "The Mighty Thor" na capa ficar maior do que o próprio título da revista. Finalmente, na edição #126, a revista passou a se chamar The Mighty Thor, e essa é a razão porque não existiam 125 edições anteriores da revista do Poderoso Thor vol. 1. O primeiro número da revista do Thor passou a ser o #126!

Se lembrarmos que as primeiras 82 edições de Journey into Mystery não tinham sequer uma história do personagem, e que elas estão na soma que a Marvel fez para hoje Thor passar a ter o número 600, não deixa de ser uma malandragem a nova jogada de marketing da editora.

Capitão América e Hulk também passaram a ter revistas a partir do número 100. O Capitão América ressurgiu nos anos 60 na revista dos Vingadores, e logo ganhou histórias-solo na revista Tales of Suspense, onde dividia o espaço com o Homem de Ferro, a partir da edição 59. Quando a Marvel decidiu lançar novas revistas em 1968, o Homem de Ferro teve finalmente sua revista-solo lançada desde o número 1, mas o Capitão América continuou em Tales of Suspense, que no número 100 passou a se chamar simplesmente Captain America.

Já o Hulk chegou a ter uma revista própria, mas durou apenas seis edições. O personagem então acabou na revista Tales to Astonish, a partir da edição #60, dividindo espaço com Namor, o Principe Submarino. Em 1968, Namor ganhou sua própria revista, e Tales to Astonish passou a se chamar The Incredible Hulk (vol. 2) a partir da edição #102.

A DC Comics também teve algumas experiências em renomear suas revistas, mas nenhuma tão bem sucedida quanto as da Marvel. A Patrulha do Destino, por exemplo, surgiu no número 80 da revista My Greatest Adventure, que a partir do número 86 passou a se chamar Doom Patrol, simplesmente.

A revista do Superman recentemente retomou sua numeração original, mas sem muito alarde ou polêmica. Em 1986, por ocasião da reformulação do personagem por John Byrne, a DC resolveu relançar a revista do Superman, com um novo número 1. No entanto, como a revista já havia chegado ao número 423, os editores ficaram com pena de cancelá-la, e assim a mantiveram, mas com o nome Adventures of Superman até o número 650, quando voltou a ser chamada Superman, com o cancelamento da revista Superman vol. 2 no número 226.

Falando em renomear revistas, a Marvel retomou a prática atualmente, fazendo testes com algumas publicações. The Incredible Hulk (vol. 3) passou a se chamar The Incredible Hercules a partir do número 113. E Wolverine irá se chamar Dark Wolverine a partir da edição #78, trazendo histórias de outro personagem que não Logan.

Por essas e outras, dá até pra imaginar no futuro leitores mais jovens e incautos atrás dos primeiros números de Incredible Hercules e Dark Wolverine, sem encontrar quaisquer informações sobre estes. Mas pelo menos eles terão a ajuda da internet, ao contrário dos pobres colecionadores dos anos 60 que acreditavam que todas as primeiras edições de The Crypt of Terror haviam sido queimadas por censores perversos.


Nano Souza é jornalista e sempre abre a calculadora na hora de pesquisar sobre gibis americanos, afinal ele é escritor, não matemático!


ENTENDA AS CONTAS DA MARVEL
- THE MIGHTY THOR
502 edições de Journey into Mystery/The Migthy Thor
+ 85 edições The Mighty Thor vol. 2
+ 12 edições de Thor vol. 3
= 599 edições

- THE INCREDIBLE HULK
6 edições de The Incredible Hulk
+ 472 edições de Tales of Supense/The Incredible Hulk vol. 2
+ 111 edições de The Incredible Hulk vol. 3
+ 10 edições de Hulk vol. 4
= 599 edições

- CAPTAIN AMERICA
454 edições de Tales of Suspense/Captain America
+ 13 edições de Captain America "Heroes Reborn"
+ 50 edições de Captain America vol. 3
+ 32 edições de Captain America vol. 4
+ 50 edições de Captain America vol. 5
= 599 edições

- DAREDEVIL
380 edições de Daredevil
+ 119 edições de Daredevil vol. 2
= 499 edições

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