MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
26/05/2009
MATÉRIA: JUSTICEIRO - 35 ANOS DE VIOLÊNCIA, ARMAS E OBSESSÃO
 
 
Amazing Spider-Man #129 - a primeira aparição, em fevereiro de 1974.
 
 
Punisher #1, por Steven Grant e Mike Zeck, em janeiro de 1986.
 
 
The Punisher - Purgatory, pelo selo Marvel Knights: o anjo vingador.
 
 
The Punisher Marvel Knights: o recomeço, agora nas mãos de Garth Ennis e Steve Dillon.
 
 
Punisher: as duas capas da primeira edição da nova revista.
 
 
 
 
 
 



Enquanto muitos personagens já nascem projetados para a glória – ou pelo menos com essa ambição – outros aparecem apenas como apoio para as histórias, mas acabam superando as expectativas e se tornam grandes estrelas. É o caso de Blade, Wolverine e... o Justiceiro.

Assim como os demais citados, o Justiceiro nasceu como apenas um coadjuvante nas revistas de outro personagem – o Homem-Aranha – e por dez anos não passou de um adversário, não só do cabeça de teia, mas também de outros heróis, como Demolidor e Capitão América.

Quando o Justiceiro apareceu pela primeira vez, ele não era nem sequer um anti-herói, mas um vilão mesmo. Longe da profundidade que ganharia nos anos posteriores, o personagem, cujo nome real não é mencionado, fez sua primeira aparição em Amazing Spider-Man #129, de fevereiro de 1974, aliado a um dos maiores inimigos do Homem-Aranha, o Chacal. Ambos estavam numa cruzada de vingança contra o herói aracnídeo, que na época era acusado do assassinato de Norman Osborn.

Convencido da culpa do Homem-Aranha, o Justiceiro se prepara para matá-lo, mas logo o herói aracnídeo consegue mostrar quem o Chacal realmente é. O Justiceiro então volta atrás em sua opinião e percebe que foi enganado pelo vilão.

A história foi escrita por Gerry Conway. Já o visual do Justiceiro, ao contrário do que se pensa, não foi criado pelo desenhista da história, Ross Andru, mas pelo diretor de arte da Marvel na época, John Romita Sr.

O Justiceiro voltaria a aparecer em outras revistas do Homem-Aranha ao longo dos anos 70, e em recordatórios seriam reveladas suas motivações. O personagem era um ex-fuzileiro naval, que participou do conflito no Vietnã e viveu as neuroses da guerra (o que poderia explicar um pouco a instabilidade mental do personagem), e que voltou para casa acreditando que poderia viver o resto dos seus dias em paz com sua família.

Mas em pleno Central Park, durante um piquenique, eles presenciaram uma ação da máfia, e foram executados por testemunhar o crime. No entanto, o ex-soldado sobreviveu, e sem ter mais sua família, decidiu se vingar de todos os criminosos, fazendo justiça com as próprias mãos.

Apesar de muita gente estipular que o Justiceiro tenha surgido nos quadrinhos como consequência do sucesso de filmes policiais como Dirty Harry (com Clint Eastwood) nos anos 70, o personagem não caiu nas graças dos leitores de imediato. Na verdade, foi somente nos anos 80, com a ascensão dos filmes de ação ultraviolentos como Comando para Matar, Cobra e Máquina Mortífera, que o Justiceiro ganhou o gosto do público.

As coisas começaram a mudar quando Frank Miller colocou o Justiceiro em rota de colisão com o Demolidor, como forma de questionar os valores éticos e morais defendidos pelo advogado cego da Cozinha do Inferno. Miller também desenhou uma edição anual do Homem-Aranha onde o Justiceiro tem uma grande participação.

E mesmo após o personagem ter sido retratado como louco numa série de histórias da revista Peter Parker, The Spectacular Spider-Man, ainda assim a Marvel resolveu lhe dar uma chance.

A ASCENSÃO
O ano era 1985 e o desenhista Mike Zeck e o escritor Steven Grant propuseram uma minissérie para o personagem. O editor-chefe Jim Shooter aceitou o projeto, como forma de reforçar um coadjuvante da Marvel. Nunca se pensou que as vendas seriam tão boas, a ponto de como maior consequência, o personagem acabar ganhando sua própria revista, em 1987.

A minissérie, que foi publicada em 1986, tinha cinco partes (embora as capas de quase todas as edições indicassem uma duração de quatro edições), e acertou em cheio ao mostrar toda a violência que fazia tanto sucesso no cinema. Sem os heróis de colante para impedi-lo, Frank Castle (que ganhou finalmente seu nome real nesta minissérie, aliás), podia fazer justiça com as próprias mãos. Também foram justificadas algumas das ações psicóticas do personagem, como consequência de ele ter sido drogado por criminosos.

Assim, de vilão, o personagem foi transformado em anti-herói, com muitos leitores inclusive apoiando a sua forma de fazer “justiça”. Deve-se lembrar que nos anos 80, Nova Iorque era uma das cidades mais violentas do mundo – a ascensão das grandes firmas de advocacia mostrava as falhas do sistema legal, proporcionando que muitos grandes criminosos não ficassem na cadeia ou pagassem por seus crimes.

Ou seja, Frank Castle era uma espécie de resposta desesperada que os leitores procuravam naquele momento. Sua primeira revista mensal, Punisher, lançada em 1987, vendeu tão bem, que um ano depois, ele já ganhava uma segunda revista mensal, Punisher: War Journal. Um feito extraordinário, se lembrarmos que o Homem-Aranha levou 12 anos para ganhar uma segunda revista mensal.

Mas Frank Castle não parou por aí: em 1989 ganhou uma revista em formato magazine e em preto branco, The Punisher Magazine. Ela foi cancelada após 16 edições, mas o Justiceiro continuou com três revistas, com o lançamento subseqüente de Punisher Armory, que foi cancelada em 1992, somente para dar lugar a uma revista em cores tradicional, Punisher: War Zone.

Tamanho sucesso acabou inevitavelmente num filme em 1989, O Justiceiro, com Dolph Lundgren no papel principal, numa época em que filmes baseados em quadrinhos estavam longe de ser uma moda ou sucesso.

Diferente de muitas das séries da Marvel, as histórias do Justiceiro seguem uma temática rotineira: Frank Castle vai à caça de criminosos, preferencialmente os que escaparam da lei por algum meio, e os extermina. De vez em quando se envolve numa saga maior, mas o resultado é quase sempre o mesmo: o anti-herói dá cabo do criminoso da vez.

A cruzada obsessiva do Justiceiro por “justiça” não se resume à Nova Iorque, e muitas vezes o anti-herói atua em todo o território americano e até fora dele, atrás de traficantes na América Latina ou de mafiosos na Europa.

Castle vive todo o tempo em função de sua vingança, não criando laços nem nada parecido com uma vida própria. As pessoas que se aproximam são apenas inimigos ou aliados ocasionais, para serem esquecidos após cada missão.

A única exceção digna de nota foi Microchip, uma espécie de “Q” (como nos filmes do agente 007) das histórias do Justiceiro. Além de hacker, o personagem também era um fornecedor de armas e o mais próximo que o Justiceiro já teve de um amigo. Mas mesmo ele acabou vítima do ciclo de violência que envolve o matador.

O DECLÍNIO
Quando os anos 90 começaram, Frank Castle estava em alta: filme, três revistas mensais, várias minisséries, graphic novels e encontros com heróis da Marvel como Homem-Aranha, Wolverine e Demolidor. Acontecia a era dos “bad guys” dos quadrinhos, personagens violentos que batiam primeiro, e perguntavam depois, como Wolverine, Motoqueiro Fantasma e Questão. Até o Batman ficou mais perigoso.

Em 1993, o personagem chegou a ganhar, inclusive, uma versão futurística no Universo 2099 da editora, encabeçado pelo Homem-Aranha. Mas em 1995, a fórmula já estava saturada e as vendas começaram a cair vertiginosamente. A Marvel decidiu cancelar todas as revistas, criando uma trama onde o Justiceiro enlouquece (mais do que já era) e mata Nick Fury (mais tarde se descobriria que Fury estava vivo).

Uma nova revista foi relançada, levando o personagem a uma nova direção, transformando-o num mafioso (!). É claro que os leitores rejeitaram esse tipo de coisa, e a revista também foi cancelada. Relegado novamente ao papel de coadjuvante, fez breves aparições na revista do Homem-Aranha, Heróis de Aluguel e em Ka-Zar.

Pouco tempo depois, a Marvel resolveu criar um selo “mais maduro” chamado Marvel Knights e em 1998 lançou a minissérie The Punisher: Purgatory, onde o Justiceiro ressurge como uma espécie de “anjo vingador sobrenatural”, ressuscitado após cometer suicídio. Em vez de criminosos, o Justiceiro também passou a matar demônios e outras criaturas sobrenaturais. A minissérie em quatro edições foi seguida por outra mini, onde este Justiceiro com poderes angelicais age ao lado de Wolverine.

A VOLTA POR CIMA
No ano 2000, Joe Quesada, na época apenas o editor do selo Marvel Knights, contratou a celebrada dupla de Preacher, um grande sucesso da DC/Vertigo, Garth Ennis e Steve Dillon. Os dois  ficaram encarregados de salvar o Justiceiro.

Ennis levou o personagem de volta às origens, baseando-se muito nos filmes policiais dos anos 70, principalmente no tocante ao humor negro. Em vez de justificar ou tentar entender a obsessão de Frank Castle, o escritor adotou uma temática de “viva e deixe viver” com o personagem. Ele faz o que faz porque gosta, e não quer saber se seus métodos realmente acabam com o crime. Ele não liga. Ele quer somente matar criminosos.

Todo o lance sobrenatural foi naturalmente esquecido, com uns poucos recordatórios numa das páginas da primeira edição. Desde então nunca mais se falou no assunto, nem que o Justiceiro morreu algum dia.

Depois da maxissérie em 12 edições do selo Marvel Knights, quando Joe Quesada se tornou o editor-chefe de toda a Marvel, o personagem voltou a ganhar uma revista mensal, que durou 37 edições, e somente foi cancelada para ser relançada no novo selo Marvel MAX, onde toda a violência, sangue e tripas que Garth Ennis sempre quis mostrar é totalmente permitida.

Hoje Punisher, recentemente rebatizada The Punisher: Frank Castle, é a única revista mensal do selo Marvel MAX, diga-se de passagem - o maior carro-chefe desta linha editorial, onde também tem minisséries derivadas e edições especiais.

A volta por cima levou às devidas adaptações cinematográficas, embora novamente sem muito sucesso: O Justiceiro, em 2004, uma versão mais camp do personagem, com Thomas Jane no papel principal; e O Justiceiro: Em Zona de Guerra, em 2008, trazendo Ray Stevenson como o Justiceiro. Embora este último tenha sido mais fiel aos quadrinhos que qualquer filme, passou despercebido pelo público, apesar de ter sido o que recebeu melhores críticas de todos os três.

Tamanha atenção fez o Justiceiro novamente ganhar uma segunda revista mensal: Punisher: War Journal (vol. 2) que ao contrário da série MAX, interage com o restante do Universo Marvel. Apesar do cancelamento desta, já foi prontamente substituída por outra, simplesmente chamada Punisher.

Já que nem a morte foi capaz de parar Frank Castle em sua jornada por vingança, tão cedo as bancas americanas não devem ficar sem o Justiceiro. Para a alegria daqueles que apreciam aventuras cheias de ação, tiros, violência e o terror dos criminosos impunes.


Nano Souza é escritor, jornalista e fã de Frank Castle, no entanto, lamenta pelo melhor filme do anti-herói não ter sido exibido nos cinemas brasileiros.

Leia mais: O JUSTICEIRO - EM ZONA DE GUERRA

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