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10/09/2010
REVIEW - LIVRO: O LIVRO DO CEMITÉRIO
 
 
O Livro do Cemitério
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Neil Gaiman
normalmente é mais reconhecido por seu trabalho nos quadrinhos, com destaque para o seu trabalho em Sandman, que com o passar dos anos acumulou inúmeros elogios e prêmios. Porém, Gaiman é na verdade uma máquina de escrever ambulante, o tipo de pessoa que produz ideias em quantidade e velocidade absurdas.

Tais ideias são transformadas em todo o tipo de material: quadrinhos, livros, poesias, músicas, artigos de jornal, roteiros para o cinema, peças de teatro, enfim, Gaiman sempre encontra uma maneira de apresentar suas ideias ao público, não importando o formato adotado.

Alguns podem até dizer que há temas recorrentes em toda sua obra. E é verdade até certo ponto. Deuses ou entidades poderosas costumam se perder no mundo dos homens com grande frequência em seus trabalhos, como constatamos lendo o próprio Sandman, Eternos ou Deuses Americanos. Mas Gaiman também cria histórias bem diferentes.

Uma delas, que chegou recentemente ao Brasil pela Rocco é O Livro do Cemitério. Inspirado pelo clássico O Livro da Selva, Gaiman criou seu próprio livro, onde, em vez de um menino ser criado pelos lobos, é criado pelos mortos.

A obra segue a história de Ninguém Owens, um bebê que sobrevive ao misterioso massacre de sua família, e acaba sendo acolhido pelos fantasmas de um cemitério próximo. Conforme cresce, Nin, como é chamado pelos mais chegados, aprende os truques dos fantasmas, como assombrar, ficar praticamente invisível e enxergar no escuro, tudo isso porque as vantagens dos habitantes do cemitério são estendidas a ele, o único vivo a ter essas habilidades.

Ao mesmo tempo em que fica curioso com a vida fora do cemitério, Nin deve tomar cuidado, pois a pessoa que matou sua família ainda procura por ele mesmo depois de muitos anos. E é neste ponto que entra um dos personagens mais interessantes do livro: Silas, um homem que não é nem vivo, nem morto, e que se compromete a ser o guardião de Nin. Conforme a leitura avança, fica cada vez mais óbvio que Silas é um vampiro, mas Gaiman espertamente apresenta suas características, sem nunca dizer isso com todas as letras.

A saga de Nin começa de maneira lenta, quase desanimando o leitor, mas logo pega um ótimo ritmo, apresentando diversos personagens interessantes e situações diversas, que pouco a pouco crescem em quantidade, conquistando cada vez mais nossa atenção.

O cenário do cemitério permite o uso de personagens bem distintos, indo da própria Morte até ghouls, mas são as histórias pessoais dos fantasmas, mesmo apresentadas de forma breve, que se mostram mais interessantes. A sacada de Gaiman foi aproveitar um elemento até óbvio, mas que muitos poderiam passar sem utilizar de maneira apropriada: cada um dos mortos tem modos de ser, falar e agir bastante peculiares, pois cada um viveu numa época diferente.

Apresentado como o típico personagem ingênuo, ainda que curioso, Nin consegue ser carismático. Gaiman o retrata como o protagonista incontestável, pois somente sua história é aprofundada. Ainda assim, diversos outros personagens, especialmente Silas e seus aliados, têm passagens que instigam o leitor de tal maneira que ficamos torcendo para que um dia eles ganhem seus próprios livros, explorando mais a fundo suas vidas (ou pós-vidas).

Outro grande acerto de Gaiman é o modo como trata a relação entre vida e morte. Seria de se esperar que um garoto que vive cercado de mortos, sabendo que existe a vida após a morte, não desse valor à sua própria vida, talvez não enxergando qual é a verdadeira diferença entre vida e morte. Mas Gaiman explora o assunto de uma forma bem interessante e direta, destacando as limitações dos mortos, mostrando que não adianta existir para sempre se não é possível conquistar todas as realizações da vida.

O único revés do livro é o seu desfecho, um tanto corrido demais, acontecendo num momento em que quase nos esquecemos da linha narrativa principal, que ressurge pela primeira vez de maneira expansiva, sendo resolvida sem muitas delongas.

O Livro do Cemitério tem tradução de Ryta Vinagre, 336 páginas no formato 13,7 x 20,7 cm, com o preço sugerido de R$ 39,50. A obra conta ainda com belas ilustrações de Dave McKean, o colaborador mais frequente de Gaiman, no início de capa capítulo.

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