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14/09/2010
MATÉRIA: A LIGA EXTRAORDINÁRIA - SÉCULO: 1910 - GUIA DE LEITURA
 
 
Alan Moore e Kevin O´Neill: criadores da Liga Extraordinária
 
 
Mina Murray
 
 
Alan Quatermain Jr.
 
 
Thomas Carnacki
 
 
A. J. Raffles
 
 
Orlando
 
 
Norton, o Prisioneiro de Londres
 
 
Oliver Haddo
 


Os fãs de quadrinhos já devem saber que a Devir Livraria recentemente lançou o último trabalho da dupla Alan Moore e Kevin O´Neill, o primeiro capítulo do terceiro volume da saga da Liga Extraordinária, intitulado A Liga Extraordinária – Século: 1910 (The League of Extraordinary Gentlemen – Century: 1910). Certamente esses fãs já garantiram o seu exemplar, e aqueles que iniciaram a leitura das oitenta páginas da obra provavelmente tiveram dificuldades para entender todos os aspectos dessa aventura, uma vez que nela Moore exercitou uma de suas maiores e melhores características como escritor: o uso massivo de referências à Literatura e à Cultura Pop.

Tal dificuldade tem explicação: se nos dois primeiros volumes da Liga Extraordinária Moore usou personagens relativamente conhecidos do grande público, em Século: 1910 o Bardo de Northampton foi fundo na cultura do início do século XX, “desenterrando” e aplicando na história dezenas de referências literárias que muitas vezes passam despercebidas até mesmo para os especialistas em Literatura. Mas não se desesperem meus caros: atendendo aos pedidos dos apaixonados pela dupla Moore / O´Neill, despretensiosamente o HQM relaciona aqui as origens dos principais personagens de Século: 1910. Infelizmente não conseguiremos aqui dar conta de todas as referências existentes na obra, porém acreditamos que após uma boa passada de olhos por esse artigo, os aficionados pela Liga Extraordinária terão maior facilidade em compreender diversos aspectos desse capitulo, e de antemão já avisamos: evitaremos ao máximo divulgar qualquer spoiler da aventura. E aí, estão interessados? Ladies and gentlemen, venham conosco, por favor!

O novo grupo de Mina Murray
Século: 1910 se inicia – obviamente – em 1910, e se nos dois primeiros volumes da Liga Extraordinária, em pleno final do século XIX, a durona Wilhelmina "Mina" Murray (a heroína do romance Drácula) liderava um grupo composto por Allan Quartermain, Capitão Nemo, Dr. Jekyll / Sr. Hyde e o Homem Invisível (oriundos respectivamente dos romances As Minas do Rei Salomão, Vinte Mil Léguas Submarinas, O Médico e o Monstro e O Homem Invisível), dessa vez ela comanda um nova equipe, constituída por Allan Quatermain Jr. (o suposto “filho” do Quatermain original), Thomas Carnacki, Arthur James “A. J.” Raffles e Orlando. Sobre Quatermain Jr. não iremos falar nada (lembrem-se, não queremos soltar nenhum spoiler), entretanto, cabe a nós apresentar os últimos três integrantes da nova Liga para a nossa audiência.

Thomas Carnacki era um simpático detetive que atendia pela alcunha de The Ghost-Finder (O Caçador de Fantasmas, em uma tradução livre), e foi criado pelo escritor britânico William Hope Hodgson (1877-1918). Sua estreia ocorreu em 1910, no conto The Gateway of the Monster (O Portal do Monstro), publicado na revista The Idler, e todas as suas aventuras seguiam sempre a mesma estrutura: Carnacki convidava seus amigos para jantar em sua residência, e após o término do banquete ele relatava para os convivas o seu último caso, que era detalhadamente registrado pelo seu amigo Hodgson, um óbvio alterego literário do autor. Mas, como eram as aventuras do detetive? Basicamente ele trabalhava apenas em investigações que envolviam almas penadas e monstros vindos do Além! Para derrotar tais entidades, Carnacki utilizava uma série de traquitanas tecnológicas – como o “pentagrama elétrico” – e quando tais bugigangas não davam conta do recado, o detetive não se fazia de rogado e, se valendo de seus próprios dons extrassensoriais, ele mesmo invocava poderosas mandingas que devolviam as assombrações para o Além. A grosso modo, Carnacki poderia ser definido como uma balanceada mistura de John Constantine (o mago fanfarrão da DC Comics / Vertigo) com os Caça-Fantasmas (quem não se lembra desse clássico dos anos oitenta?), agregando também óbvias pitadas de Sherlock Holmes. Aliás, as aventuras de Thomas Carnacki são reconhecidas por especialistas em Literatura como pioneiras na mescla de elementos policiais com sobrenaturais, porém tal pioneirismo não garantiu grande sobrevida ao herói.

Após a publicação de The Gateway of the Monster, mais oito histórias com o detetive foram publicadas em The Idler e The New Magazine entre 1910 e 1912, e posteriormente, em 1913, todos esses contos foram reunidos no livro Carnacki the Ghost-Finder. A partir de 1918, mais três contos póstumos foram adicionados ao livro, porém isso não evitou que o investigador de fenômenos sobrenaturais caísse em um relativo esquecimento. Somente nos anos setenta ele foi redescoberto por uma nova geração de leitores e, em 1971, chegou inclusive a estrelar um episódio da série televisiva britânica The Rivals of Sherlock Holmes (Os Rivais de Sherlock Holmes), sendo interpretado pelo ator Donald Pleasence. De lá para cá, talvez o Caçador de Fantasmas não tenha obtido um grande destaque, porém ele foi eventualmente citado em histórias escritas por autores renomados como Warren Ellis e Kim Newman, até chegar o momento em que Alan Moore o trouxe novamente à baila em Século: 1910, juntamente com certo personagem de caráter um tanto quanto dúbio que surgiu no mesmo período e sobre quem iremos falar agora.

Quem não gosta de um cínico anti-herói, principalmente quando ele esbanja classe e categoria? Essas são as características que o autor inglês Ernest William Hornung (1866-1921) imprimiu a A. J. Raffles, um bem-nascido, elegante e milionário membro da alta sociedade londrina que, apenas para “matar o tédio”, praticava furtivos assaltos cujas principais vitimas eram justamente os seus “colegas” ricaços! Dono de grandes dotes intelectuais e mestre em disfarces, Raffles quase sempre se dava bem quando aplicava seus golpes, principalmente devido a ajuda do seu amigo de infância Harry "Bunny" Manders, que também fazia as vezes de “bússola moral” para o refinado ladrão. No final das contas, de certa forma Raffles era uma espécie de “cópia invertida” de Sherlock Holmes, uma vez que ele tinha habilidades similares ao detetive de Baker Street, porém usando-as para praticar crimes. E, para o leitor mais desavisado, cabe avisar que tais semelhanças talvez não sejam coincidência, uma vez que Hornung era cunhado de Arthur Conan Doyle, o criador de Holmes!

Raffles surgiu em uma série de contos publicados na década de 1890 e 1900 em revistas dedicadas ao gênero policial, e esses escritos foram reunidos nos livros The Amateur Cracksman (O Ladrão Diletante, em uma tradução livre), The Black Mask (A Máscara Negra), A Thief in the Night (Um Ladrão na Noite) e, por fim, a “carreira” literária do ladrão criado por Hornung se encerrou com o romance Mr. Justice Raffles (O Justiceiro Raffles, em tradução livre), lançado em 1909. Todavia, isso não significou necessariamente o fim da linha para Raffles: na primeira metade do século XX, as aventuras do anti-herói foram copiosamente adaptadas pela indústria cinematográfica britânica, e atores renomados como John Barrymore e David Niven deram vida ao personagem na telona, isso sem falar nas adaptações televisivas e radiofônicas que surgiram na Inglaterra a partir dos anos setenta. Nada mal para um ladrão criado pelo cunhado de Conan Doyle, não é mesmo? Mas se Raffles era apenas um grã-fino que roubava por prazer, o último membro da equipe de Mina Murray, que iremos descrever a partir desse momento, sem dúvida era um indivíduo especial, já que ele era imortal!

Orlando foi criado por Virginia Woolf (1882-1941), poetisa, romancista e ensaísta que é considerada uma das fundadoras da Moderna Literatura Britânica do século XX, e surgiu em outubro de 1928 nas páginas do romance Orlando: A Biography (Orlando, Uma Biografia). Inspirado na vida e na personalidade de Vita Sackville-West (também escritora e amiga pessoal de Woolf), o romance se inicia por volta do inicio do século XVII, relatando as aventuras e desventuras de um belo nobre que estranhamente não envelhecia chamado Orlando. Após viver alguns percalços amorosos, Orlando foi servir à Coroa Britânica como diplomata em Constantinopla, e por lá um fato inesperado aconteceu: após dormir ininterruptamente por sete dias Orlando se transformou em mulher! Passando a enxergar a Vida e o mundo com olhos femininos, Lady Orlando viveu centenas de anos, teve vários amores e se dedicou à sua grande paixão que era a Arte, até que, por fim, no crepúsculo do século XIX, ela sossegou o seu coração com o misterioso Marmaduke Bonthrop Shelmerdine, de quem fica grávida.

Orlando: A Biography permite diversas interpretações: para muita gente, é uma declaração de amor à Arte, Literatura e História Inglesa; para as feministas, é uma reflexão sobre o papel feminino na sociedade e uma demonstração da superioridade da percepção feminina sobre a masculina; para alguns membros do Movimento GLBT é uma grande parábola sobre a transexualidade humana, e foi em cima dessa última perspectiva que a diretora Sally Potter criou uma premiadíssima adaptação cinematográfica da obra em 1991, com Tilda Swinton (o anjo Gabriel do filme Constantine) no papel-titulo e Billy Zane (o vilão de Titanic, e também o Fantasma, de Lee Falk, dos cinemas) interpretando Marmaduke Shelmerdine, e que aqui no Brasil se chamou Orlando, a Mulher Imortal. Aliás, Orlando ganhou vida nos palcos brasileiros a partir de 1989, através da direção de Bia Lessa e com Fernanda Torres e, posteriormente, Betty Goffman interpretando a imortal. E, já que falamos de Brasil...

Após ler as “biografias” de Thomas Carnacki, A. J. Raffles e Orlando, a nossa audiência deve estar se perguntando se os livros e filmes aqui citados estão traduzidos e disponíveis para o público brasileiro. Infelizmente não conseguimos descobrir se algum dia os contos de Carnacki foram publicados aqui; quanto a Raffles, nos anos cinquenta, a editora Vecchi lançou uma edição de The Amateur Cracksman (batizada com o título O Ladrão Granfino) e não foi possível determinar se as adaptações para o cinema e televisão da obra de Hornung estão disponíveis em DVD. Quanto a Orlando, o livro é facilmente encontrado nas livrarias “brazucas” – com uma bela tradução de Cecília Meirelles –, e a versão em DVD de Orlando, a Mulher Imortal aparentemente está fora de catálogo no território nacional. Caso a nossa audiência tenha mais alguma informação sobre essas obras no Brasil, por favor, entrem em contato conosco!

O Prisioneiro de Londres
Em uma entrevista concedida a revista Trip, Alan Moore foi questionado sobre quem eram os seus autores favoritos. Na bucha, o Bardo de Northampton afirmou: “Há uma porção deles que ainda está viva. O meu favorito no momento é Ian Sinclair, um romancista inglês que eu acredito ser provavelmente um dos melhores dos últimos cem anos”. Afirmação forte, não acham? Mas aí vocês se perguntarão: quem diabos é esse Ian Sinclair, tão admirado por Moore?

Nascido em 1943 no País de Gales, o cineasta, escritor e poeta Ian Sinclair é dono de uma obra prolífica, caracterizada por um alto nível de erudição e por um desbragado amor pela cidade de Londres. A paixão pela capital inglesa levou Sinclair a estudar a Psicogeografia, uma ciência que tenta determinar a interferência (intencional ou não) de espaços geográficos sobre a psiquê das pessoas que neles vivem, e esse foi justamente o mote que levou o escritor a conceber o livro Slow Chocolate Autopsy: Incidents from the Notorious Career of Norton, Prisoner of London (A Lenta Autópsia do Chocolate: incidentes na notória carreira de Norton, o Prisioneiro de Londres, inédito no Brasil). Essa obra contou com ilustrações de Dave McKean (o capista da série em quadrinhos Sandman), e nela é retratada, em doze capítulos, a vida de Andrew Norton – O Prisioneiro de Londres, um indivíduo incapaz de deixar Londres, uma vez que ele está aprisionado no fluxo temporal da cidade, se transformando em testemunha ocular de alguns dos principais momentos históricos da capital inglesa.

Como falamos acima, Moore tem verdadeira veneração pela obra de Sinclair, e em Século: 1910 ele fez uma singela homenagem a um dos seus escritores prediletos, fazendo com que um enigmático Norton se encontre com Mina Murray e A. J. Raffles. Aliás, por uma incrível “coincidência”, em Século: 1910, Kevin O´Neill desenhou o Prisioneiro de Londres com uma aparência idêntica a de seu criador! Mas essa é apenas uma entre tantas outras homenagens encontradas em todas as edições da Liga Extraordinária... Continuem nos acompanhando e vejam como Moore e O´Neill exploraram uma das figuras mais polêmicas da sociedade britânica na primeira metade do século XX.

O homem mais perverso do mundo
Ocultista, escritor, alpinista, hedonista, enxadrista, bissexual assumido, polemista, suposto espião, carismático e tremendo marqueteiro de si mesmo, Edward Alexander “Aleister” Crowley (1875-1947) chocou a sociedade inglesa quando, no começo do século XX, criticou as religiões institucionalizadas e pregou a prática de rituais mágicos, o individualismo extremado e o amor livre. Além de notoriedade, essas ideias tão pouco ortodoxas renderam a Crowley a “honrosa” alcunha de “o homem mais perverso do mundo”, o que talvez não tenha sido de todo mal para ele: sua fama perdura até os dias de hoje, e artistas como Raul Seixas e os músicos das bandas Led Zeppelin e Black Sabbath criaram canções inspiradas nos ideais do ocultista inglês. Aí, a nossa audiência deve ter chegado a conclusão de que uma figura tão interessante quanto Crowley foi usada por Moore e O´Neill em Século: 1910, não é mesmo? Para falar a verdade, não!

Sempre que possível, Moore e O’Neill evitaram utilizar personagens reais em todos os volumes da Liga Extraordinária, contudo nada os impedia de fazer uso de personagens fictícios inspirados em figuras históricas, e foi o que eles fizeram com Crowley quando retrataram em Século: 1910 o ocultista Oliver Haddo.

Haddo é o personagem principal do livro The Magician (O Mago), uma deslavada paródia da figura de Crowley e de suas pregações escrita por William Somerset Maugham (1874-1965) e lançada em 1908. Nesse romance, Haddo (na verdade, Crowley) é caracterizado como um charlatão obcecado em criar homúnculos (formas de vida artificiais animadas por magia) e, com um misto de lisonja e raiva, o verdadeiro Crowley escreveu uma pesada critica ao livro, onde acusou Maugham de plagiar outras obras. Publicada na Vanity Fair (revista inglesa criada na segunda metade do século XIX e dedicada à política e literatura), curiosamente Crowley assinou sua critica com o pseudônimo de... Oliver Haddo! Mas não pensem que as homenagens a Crowley em Século: 1910 ficaram restritas apenas ao uso de Haddo na história.

Em 1917, Crowley botou nas prateleiras a novela Moonchild (A Criança Lunar), que relatava uma disputa entre uma equipe de “feiticeiros brancos” liderados pelo heroi Simon Iff e um autodenominado grupo de “feiticeiros negros” pela Criança Lunar, uma entidade mística que estava destinada a trazer grande poder para aqueles que estiverem ao seu lado. Durante a leitura de Século: 1910 os leitores perceberão que Oliver Haddo alimenta uma estranha obsessão pela Criança Lunar, e todos os seus asseclas (Cyril Grey, Irmã Cybele, Iliel e o próprio Simon Iff) são personagens recorrentes em Moonchild.

Não conseguimos descobrir se os livros The Magician e Moonchild algum dia foram traduzidos para o Português e se foram publicados no Brasil, mas pelo menos uma dica podemos dar aos metaleiros que estão lendo esse artigo: quando a banda de metal inglesa Iron Maiden gravou a música Moonchild (no álbum The Seventh Son of A Seventh Son, de 1988), podem ter certeza que eles estavam homenageando a obra de Aleister Crowley! E, por falar em música, vocês sabiam que ela é parte fundamental de Século: 1910?

O que mantém viva a Humanidade
Os leitores que leram Século: 1910 certamente notaram que a trama é entrecortada por alguns habitantes do cais londrino soltando a voz e cantando estranhas canções. Essa cantoria fora de hora não foi colocada na história à toa, já que Moore e O´Neill prestaram homenagem a um dos maiores musicais de todos os tempos!

A Ópera dos Três Vinténs (Die Dreigroschenoper, em alemão e Threepenny Opera, em inglês) é uma peça musical concebida pela dupla de compositores alemães Bertolt Brecht (1898-1956) e Kurt Weill (1900-1950), e teve sua primeira montagem executada em 1928, na cidade de Berlim. Livremente inspirada em Beggar´s Opera (A Ópera dos Mendigos, musical inglês do século XVIII escrito por John Gay), A Ópera dos Três Vinténs é ambientada em plena Inglaterra Vitoriana e descreve em três atos o miserável dia-a-dia do bairro do Soho, com suas prostitutas, bêbados e ladrões. Entre os personagens mais proeminentes da peça estão Macheath (também conhecido como Mack the Knife, um brutal assaltante e assassino), Polly Peachum (a noiva de Macheath), Jack “Tiger” Brown (um policial corrupto que por amizade acoberta as falcatruas de Macheath), Suky Tawdry e Low-Dive Jenny (duas prostitutas que se relacionam com Macheath). Todas essas “agradáveis” figuras citadas aqui constituem uma alegoria marxista elaborada por Weill e Brecht que visava demonstrar como o Capitalismo embrutece o ser humano, e pelo visto os autores foram bem sucedidos em seu intento, já que o público adorou o musical e desde a sua estréia a peça foi traduzida para dezenas de línguas, sendo que aqui no Brasil ela inspirou a criação da Ópera do Malandro, uma das mais belas obras do compositor Chico Buarque. Mas, de um jeito ou de outro, a nossa audiência se pergunta: como a Ópera dos Três Vinténs se encaixa em Século: 1910? Bem, Moore e O´Neill fizeram uso de três canções oriundas da Ópera, adaptando-as às circunstâncias mostradas na história, como iremos explicar logo abaixo.

Tudo começa com Janni, a única filha do Capitão Nemo (importante herói dos dois primeiros volumes da Liga Extraordinária, estão lembrados?).  Personagem criada por Moore e O´Neill, a primogênita do pirata submarino se rebela contra o seu pai e seu legado de pirataria, e foge para Londres. Ao chegar na capital inglesa, ela passa a viver na parte mais barra-pesada da cidade, e assume a alcunha de Jenny Diver, descobrindo o quão dura pode ser a Vida. O “tema musical” da dura vida da filha do Capitão Nemo é a canção Pirate Jenny (Seeräuberjenny em alemão, Pirata Jenny em português), que narra o desprezo que os malandros da área tem pela pobre Jenny e que faz menção ao Cargueiro Negro, uma estranha embarcação que trará a perdição para todos aqueles que maltrataram a jovem. A nossa audiência tomará conhecimento sobre qual é a “perdição” que recairá sobre aqueles que destrataram Janni assim que lerem Século: 1910, porém pediremos licença para abrir um pequeno parêntese aqui: a versão mais famosa de Pirate Jenny foi gravada pela jazzista Nina Simone, em 1964, e tal versão faz parte da trilha sonora de Watchmen – O Filme. Mas por que ela fez parte da trilha sonora da adaptação cinematográfica da mais famosa obra de Alan Moore? Muito simples, meus caros: segundo o próprio Moore, Pirate Jenny foi uma das inspirações que o levaram a criar os Contos do Cargueiro Negro (Tales of the Black Freighter), uma das mais instigantes partes da premiadíssima minissérie!

A segunda canção de Weill e Brecht usada em Século: 1910 é Mack the Knife (Mackie Messer em alemão, Mack o Navalha em português). Imortalizada em versões gravadas por Bob Darrin, Frank Sinatra e Ella Fitzgerald e versionada para o português por Chico Buarque para a Ópera do Malandro (onde ganhou o título de O Malandro), assim como na Ópera dos Três Vinténs, essa canção introduz Macheat na trama concebida por Moore e O´Neill, e os leitores mais atentos da obra perceberão que o “agradável” ladrão recebeu da dupla o prenome de Jack. Tal fato não foi mero acaso, uma vez que Macheat está de certa forma vinculado a um certo Estripador que aterrorizou Whitechapel no final da década de 1880! Ah, esquecemos: havíamos prometido não revelar nenhum spoiler! Nos perdoem, por favor!

Second Threepenny Finale (em alemão Zweites Dreigroschenfinale) é a canção que fecha o segundo ato da Ópera dos Três Vinténs, e com o passar dos anos e sucessivas regravações por artistas americanos e ingleses (entre eles Tom Waits e Pet Shop Boys) ela passou a ser mais conhecida como What Keeps Mankind Alive (O que mantém viva a Humanidade). Um grande libelo sobre a degradação moral do ser humano, What Keeps Mankind Alive é fundamental para Século: 1910, já que ela batiza a história apresentada nesse capitulo e, principalmente, dá o tom geral da obra, fechando, digamos assim, com “chave de ouro” esse sensacional trabalho de Moore e O´Neill.

Todas as canções citadas aqui estão disponíveis para exibição no Youtube, e com elas encerramos a nossa modesta lista de referências literárias usadas em Liga Extraordinária – Século: 1910. Contudo, os fãs de Alan Moore e Kevin O´Neill no mínimo estão aguardando ansiosamente as surpresas que a dupla reservou para o futuro. Então, façamos algumas considerações rápidas sobre elas.

1968 e 2009
Os dois primeiros volumes da Liga Extraordinária foram publicados pelo selo ABC / Wildstorm da DC Comics entre os anos de 1999 e 2003, e sua releitura de personagens clássicos da Literatura foi consagrada tanto pelo público quanto pela critica estadunidense. No Brasil, a Liga teve seu primeiro volume publicado pela Pandora Books em forma de minissérie e mais tarde sendo encadernado, tal volume posteriormente foi reeditado pela Devir Livraria, que também publicou o segundo volume, e por aqui as duas obras foram tão bem recebidas quanto nos States. Tanto sucesso motivou Moore e O´Neill a conceberem um terceiro volume, porém antes de lançá-lo, em 2007 eles botaram na praça The Black Dossier (O Dossiê Negro), uma graphic novel de quase duzentas páginas que mistura quadrinhos, prosa e até mesmo música, já que Moore gravou algumas canções especialmente para esse trabalho.

Apesar do tamanho, a proposta por trás de The Black Dossier era relativamente simples: ambientada em 1958, a graphic novel serviria como guia para todo universo ficcional da Liga Extraordinária e prepararia o terreno para o terceiro volume da saga. Porém, desavenças acerca de direitos autorais (estão lembrados do horroroso filme da Liga Extraordinária?) e uma pesada censura imposta pela cúpula editorial da DC Comics, fizeram com que Moore e O´Neill abandonassem o barco e levassem o terceiro volume para a Top Shelf, que em parceria com a editora inglesa Knockabout Comics lançou o primeiro capitulo do terceiro volume em maio de 2009. Esse primeiro capítulo chegou no Brasil via Devir Livraria e suas principais referências literárias foram explicadas nesse artigo.

Recentemente, a Panini Comics (detentora no território brasileiro dos direitos de publicação do primeiro e do segundo volume da Liga Extraordinária e de The Black Dossier) anunciou uma republicação luxuosa do primeiro volume, com direito a extras inéditos. Quanto a The Black Dossier, bem, até agora nenhum anúncio foi feito pela Panini sobre a possibilidade de lançar ou não essa obra por aqui. A nossa sorte é que felizmente Moore e O´Neill não são obrigados a lidar com os humores do mercado nacional, e os dois próximos capítulos do terceiro volume já estão mais do que prometidos para 2011 e 2012, respectivamente.

O segundo capítulo do terceiro volume terá como cenário o ano de 1968, enquanto o terceiro transcorrerá em 2009, e nessas duas aventuras Alan Moore promete ir além da Literatura, inserindo nelas referências oriundas do Teatro, Cinema, Televisão e Música Popular. Assim que tivermos noticias sobre eles, podem ter certeza que elas serão publicadas no HQM e, dito isso, encerramos definitivamente esse artigo com um enorme agradecimento a você, que cotidianamente acessa o nosso sitio eletrônico. Obrigado e até a próxima!

P.S.: A elaboração desse artigo seria impossível sem a pesquisa prévia feita por Jess Nevins. Fã ardoroso da obra de Moore, Nevins coletou a maioria das informações apresentadas aqui e cabe a ele todos os eventuais méritos que esse artigo possa ter. Thank you, Mr. Nevins!

Cláudio Roberto Basílio, ou Brodie Bruce, como também é conhecido, é pesquisador de histórias em quadrinhos e colaborador do HQM. Acesse o seu blog no endereço
http://gibicomics.blogspot.com/.

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Janni, a filha do Capitão Nemo
Suky Tawdry e Jack Macheat
 
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