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20/09/2011
REVIEW - LIVRO: SUPERGODS
 
 
Supergods: What Masked Vigilantes, Miraculous Mutants, and a Sun God from Smallville Can Teach Us About Being Human
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Batman
, Mulher-Maravilha, o Quarteto Fantástico, Homem de Ferro e os X-Men - esta lista é muito familiar a todos nós. Em menos de um século, eles deixaram de ser anônimos e restritos a um pequeno grupo para estar em todo lugar que vemos: nas telas de cinemas e TV, nos jogos de videogame e em nossos sonhos. Mas o que eles querem nos dizer realmente?

Para Grant Morrison, esses heróis são poderosos arquétipos cujo curso colide com a própria existência humana. Através destes, contamos a estória complicada de nossa vida e nossas aspirações. Em Supergods, o autor traça um histórico destes seres e explica porque são importantes para nós, porque vão estar sempre aqui e o que podem contar sobre a gente.

Grant Morrison realmente é uma figura ímpar no mundo das HQs. Suas atitudes quando aparece em convenções, em entrevistas ou quando é protagonista de documentários, são marcadas pelo status de “semideus” – característica que seus fãs parecem adorar. E quando não se põe a fazer aquilo que com toda a certeza sabe fazer, surge com alguma novidade. Desta vez ele tirou um livro de sua grande cartola mental. Um grande ensaio sobre a história dos super-heróis e o que eles podem dizer sobre nós.

O livro é dividido em quatro partes (Era de Ouro, Era de Prata, Era Sombria e Renascença) que contam, cronologicamente, a origem dos personagens dos quadrinhos norte-americanos. Obviamente, sendo um escritor exclusivo da DC Comics, ele tende a favorecer a editora-mãe de Superman e Batman.

Ele abre a Era de Ouro com um capítulo chamado “The Sun God and The Dark Knight”, (O Deus Sol e o Cavaleiro das Trevas, em tradução livre), que é uma verdadeira ode ao homem de aço, apesar da menção ao Batman no título. Aliás, durante toda a leitura, Morrison deixa clara sua predileção pelo personagem, e mais ainda, dá a entender que gostaria de ter sido o “pai” de Superman - coincidentemente ele é um dos roteiristas mais atuantes no reboot da DC, inclusive escrevendo a icônica Action Comics - dando informações polêmicas e equivocadas sobre as condições em que Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o personagem.

As duas primeiras eras são bem sucintas e rápidas de ler, mas isso não significa falta de bom conteúdo. Morrison explica bem a gênese dos personagens, o declínio do Comic Code (o famigerado código de ética norte-americano) e o ressurgimento dos heróis com uma grande ênfase no cósmico. Ele busca respaldo no movimento hippie que, na visão de Morrison, foi uma grande influência da Era de Prata.

Ao mesmo tempo em que o autor conta essas histórias, ele traça um paralelo com sua vida pessoal. A influência que a ameaça nuclear causou em sua família, a primeira vez que leu histórias em quadrinhos e também o divórcio de seus pais.

Passagens interessantes de sua vida pessoal também estão presentes, como, por exemplo, quando ele conta sobre a primeira história do Capitão Marvel - o da Marvel Comics - que leu. A HQ trazia uma mudança profunda no personagem e que ilustra bem o enorme subtítulo do livro: “(...) para um garoto de 14 anos (...) conhecimento era tortura. O que significava que teria que existir uma consciência antes da mudança. Para um adolescente introspectivo, imaginativo e reprimido que rejeitou a Bíblia timidamente, este credo cósmico era bom como qualquer outro.”

Isto é Morrison falando dele próprio, mas fazendo eco à maioria dos adolescentes que começaram a se aprofundar nos quadrinhos. Isso é ele correspondendo à primeira proposta do livro: mostrar o que os quadrinhos podem dizer sobre os próprios leitores.

Na Era Sombria, a qualidade do conteúdo analisado aumenta, pois aqui é o começo oficial de sua carreira nos roteiros. Morrison explica que as histórias fincam o pé no chão, com uma grande influência da linguagem jornalística nas revistas. Os principais assuntos a serem discutidos eram drogas, violência e conflitos sociais. Ele explica bem o rumo desta era com a seguinte citação: “Era uma aventura de super-heróis, ou um iluminado estudante de inglês reclamando sobre a poluição, com exemplos de Walt Whitman funcionando como um contraponto irônico à ação?” Whitman foi um grande poeta norte-americano que tratava de assuntos de cunho social em suas obras e é considerado o primeiro poeta da democracia americana.

Morrison fala de clássicos como Green Lantern/ Green Arrow, de Dennis O´Neil e Neal Adams, até a loucura dos heróis deformados de Marshal Law, passando pela editora inglesa 2000 A.D. O autor também discorre sobre a famosa “invasão britânica” nos quadrinhos americanos. Na visão - exagerada, diga-se de passagem - do autor, esta fase trouxe mais prejuízo do que benefícios à indústria. Seus ataques ao “cinismo” inglês presentes nas histórias também servem como críticas ao trabalho de Alan Moore. São alfinetadas sutis e por vezes engraçadas, entretanto, depois de um tempo, passa uma impressão de birra infantil.

Para Morrison, a era que viu Watchmen e Batman: O Cavaleiro das Trevas “nascer” fez os quadrinhos saírem do gosto popular. O autor pontua que as histórias desta fase tinham como inspiração as artes, e que o pé fincado no realismo foi prejudicial. Em mais um ataque a Moore, conclui que Watchmen não era um marco e sim uma determinada linha de indagação aos super-heróis. Assim, os “heróis realistas” viram seu fim com a chegada da editora que personificou a "geração X" nas HQs: a Image Comics.

Na Renascença, as ideias do autor ficam mais confusas - viagens espirituais, teorias de tempo e espaço, dentre outros credos de Morrison - e apenas parece que os quadrinhos ficam em segundo plano. Segundo Morrison, essa é a era da “reconquista”, ou multimídia, dos superseres. O surgimento de filmes e desenhos, a aceitação do grande público e até o aumento significativo de fanboys nas convenções, são fatores levados em conta.

Esta também é a era dos grandes eventos. Guerra Civil, Crise de Identidade, Crise Final, entre outros, deram o tom aos quadrinhos do século XXI e da invasão da realidade nas HQs, o oposto da Era Sombria. Essa parte do livro termina com uma breve descrição da criação de Grandes Astros: Superman - de autoria do próprio Morrison - deixando no ar que esta seria a obra máxima desta fase dos quadrinhos.

A obra também serve como uma boa fonte para os leigos nas HQs, com detalhes sobre personagens pouco conhecidos e até esquecidos do público brasileiro. Negativamente, em alguns momentos seu texto parece andar em círculos, indo e voltando a assuntos que podem confundir o leitor rapidamente.

O livro, a primeiro momento, pode ser considerado facilmente uma egotrip de Morrison. E, dependendo do capítulo, é realmente do que se trata. Em uma leitura crítica, a impressão que fica é a de que o autor pensou nesta como a última grande obra sobre os quadrinhos antes de sua renovação (pense nisso junto com a eminência do novo Universo DC, que, inclusive, é citada por Morrison na última página do livro). Agora, analisando o lado humano do autor - sim, ele tem um - é um tratado sobre quadrinhos, feito com um ponto de vista às vezes exagerado e deveras emocional.

Supergods está longe se ser uma pedra fundamental no universo dos super-heróis. Porém, quando se trata de Morrison, o melhor que se tem a fazer é lê-lo, mesmo que seja para apontar os erros - e os acertos - deste controverso escritor.

A obra, lançada em julho deste ano nos Estados Unidos, está prevista para chegar por aqui em 2012, pela editora Pensamento/Cultrix.

Supergods: What Masked Vigilantes, Miraculous Mutants, and a Sun God from Smallville Can Teach Us About Being Human (2011, EUA - Inédita no Brasil) - De Grant Morrison - 464 páginas - formato 15,4 x 23,6 cm - US$ 28.00 - Spiegel & Grau.

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