MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
05/07/2013
MATÉRIA: SUPERMAN - 75 ANOS DO PRIMEIRO SUPER-HERÓI
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


18 de junho de 1938. Essa é a data oficial de “nascimento” do primeiro (e para alguns o maior) dos super-heróis. Mas embora a Action Comics traga a data de junho nas capas, a verdade é que a revista foi distribuída dois meses antes, no final de abril, nas bancas norte-americanas. Desde sempre as revistas em quadrinhos estadunidenses trazem na capa a data do mês de recolhimento dos gibis dos pontos de venda, de forma a não parecer que a publicação é do “mês passado”.

O fato é que Superman comemora 75 anos em 2013, e não poderia receber melhor presente: um filme blockbuster leva novamente o mítico personagem ao grande público, reconsolidando sua imagem de ícone. Sendo um personagem de inúmeras camadas e várias interpretações ao longo das décadas, não é difícil encontrar algo em que o público se identifique e se inspire no Superman.

Apesar da lenda ter começado de forma modesta e mais simples, desde o começo Superman era um diamante bruto, que trazia consigo todas as potencialidades que um grande personagem precisa para se desenvolver e se tornar imortal no imaginário popular.

Sua gestação começou em 1933, quando a dupla de adolescentes Jerome Siegel e Joseph Shuster resolveram criar uma história pulp ilustrada chamada “The Reign of Superman”. O personagem era um vilão telepata que tenta dominar o mundo (curiosamente sua fisionomia é parecida com a daquele que seria chamado posteriormente de Lex Luthor!).

As grandes inspirações para a criação do Superman foram a novela Gladiator e Doc Savage, uma pulp fiction de grande sucesso na época. Escrito por Phillie Wylie e publicada em 1930, Gladiator é a história de um cientista que cria um soro que lhe dá a força de uma formiga e a capacidade de salto de um gafanhoto. Essa imagem seria utilizada para explicar os poderes do Superman na sua primeira página em Action Comics #1.

Doc Savage era uma revista sobre as aventuras de um cientista e aventureiro chamado Clark Savage Jr., escritas na sua maioria por Lester Dent, que lidavam bastante com ficção científica e fantasia. Savage era fruto da eugenia, mais forte e rápido que um homem normal, com vigor e capacidade de se curar incrementadas, e podia até parar uma bala com as próprias mãos! Sua pele dourada lhe conferiu o apelido de “homem de bronze”, e sua base secreta se encontrava no Pólo Norte, se chamando... a Fortaleza da Solidão!

Siegel e Shuster queriam criar uma tira em quadrinhos para vender aos jornais norte-americanos, pois lá é que estava o prestígio e o dinheiro na época. Eles pegaram o seu Superman original e lhe deram a aparência de um herói, mais de acordo com o popular Doc Savage. Criaram um uniforme colorido, baseado no que os artistas de circo, principalmente halterofilistas, utilizavam naquele tempo. Shuster era fã e praticante de halterofilismo, além de, segundo as lendas, ter colocado um pouco do seu próprio rosto na figura do Superman.

Mas os sindicates, que eram as empresas que distribuíam tiras de quadrinhos para jornais nos EUA e no mundo, recusaram o projeto. A cada nova recusa, Siegel e Shuster voltavam para a prancheta, e alteravam ainda mais sua criação, lapidando o diamante... Enquanto isso eles finalmente começaram a ter material seu publicado, mas na recém-nascida indústria das revistas em quadrinhos. Na verdade, havia apenas uma revista que comprava material inédito para publicar nos gibis, já que as demais se tratavam apenas de compilação/republicação das bem sucedidas tiras dos jornais.

Essa revista se chamava New Fun (futuramente More Fun Comics), primeiro rebento da recém-fundada National Allied Publications, empresa do major Malcom Wheller-Nicholson. Ele não tinha dinheiro para comprar os direitos de publicações das tiras em quadrinhos dos jornais, e na verdade, todas elas praticamente já tinham sido compradas por outras editoras de revistas em quadrinhos. Então foi um pioneiro em lançar a primeira revista com material inédito, aceitando HQs de jovens artistas, até porque podia pagar barato, já que muitos só estavam ávidos em publicar e finalmente começarem a aparecer.

Siegel & Shuster estrearam no número 06 da revista, publicando duas séries a partir dali: as aventuras do mosqueteiro Henry Duval e o detetive sobrenatural Doutor Oculto. O material estava longe de ser um sucesso, e a dupla era apenas mais uma entre vários criadores. Quando Nicholson lançou uma segunda revista, a New Comics, a dupla emplacou mais duas séries, uma chamada Federal Men, e outra, Police Patrol, onde o estilo de ambos começou a amadurecer.

Por isso, quando da criação da primeira revista em quadrinhos temática dos Estados Unidos, a Detective Comics, Siegel & Shuster conseguiram que sua série Slam Bradley, um detetive boxeador durão, aos moldes das populares pulps fictions do gênero, fosse escolhida como carro chefe da nova publicação. Nesta revista eles também criaram uma série mais curta, chamada Spy.

Enquanto tentavam a sorte com todas essas séries nos gibis da National Allied e Detective Comics Inc, Superman continuava perambulando as mesas dos diretores dos sindicates. Siegel e Shuster acreditavam que o personagem era bom demais para ser “desperdiçado” num gibi, que era uma mídia bastante recente e desprestigiada, que pagava muito pouco, em comparação com todo glamour que rondava a indústria das tiras em quadrinhos, que estava no seu auge. Mas o herói continuava sendo rejeitado, porque os sindicates o achavam “surreal demais”, acreditando que as pessoas não iam aceitar um herói com tantos poderes impossíveis.

Finalmente, dando-se por vencidos, quando o editor Vin Sulivan procurava material para a nova publicação que a Detective Comics Inc iria lançar, uma revista chamada Action Comics, a dupla apresentou as tiras que tinham feito para o Superman. Pela quantia de 130 dólares Sulivan comprou o material para a DC, provavelmente porque após ter sido rejeitada por tantos sindicates, a dupla já não acreditava que seu herói poderia de fato ser grande coisa.

Apesar do Superman sair na capa da Action Comics #1, e ser desde o começo o carro chefe da revista, demorou um pouco pra ficha cair e os editores perceberem que tinham uma mina de ouro nas mãos. Superman ficou ausente das próximas seis capas da Action Comics, enquanto cada edição vendia mais do que a outra. Até que conversas com meninos nas bancas de revista, e cartas que chegavam à redação (apesar da revista não ter sessão de correspondência) revelaram a a verdadeira causa do sucesso. Superman então foi para a capa da Action Comics a partir do número 8 onde com poucas exceções, nunca mais saiu.

Ironicamente, um ano depois, as tiras em quadrinhos do Superman começaram a sair também nos jornais, realizando o sonho inicial de Siegel & Shuster. Mas apesar do contrato de dez anos assinado com a Detective Comics Inc ser um bom pagamento para a época, o grande beneficiado com todo esse sucesso foi o empresário Harry Donenfeld, dono da editora, que construiu a partir do Superman o império editorial que seria a DC Comics. Um personagem cujos direitos lhe custaram apenas 130 dólares!

O HERÓI ORIGINAL
Superman quando surgiu nas páginas da Action Comics, em 1938, era um herói bem mais modesto do que hoje em dia. Ele não podia voar, mas apenas dar grandes saltos, capazes de cruzar um edifício. Ele podia se mover em grande velocidade, ultrapassando um trem, o veículo mais veloz da época. Era realmente muito forte, capaz de dobrar aço com as mãos, e era invulnerável a balas, apesar de que uma explosão de morteiro poderia derrubá-lo, por exemplo. Ele não tinha visão de calor, ou superaudição, ou visão telescópica, supersopro, e outros poderes que apareceriam ao longo dos anos.

O jornal onde trabalhava se chamava Estrela Diária, e embora fosse retratado como um tímido repórter, principalmente quando tratava de cortejar sua colega de redação Lois Lane, o editor lhe confiava as principais matérias do veículo.

Suas primeiras histórias giravam em torno de problemas sociais contemporâneos dos Estados Unidos naquela época, como violência doméstica, violência no trânsito, direitos dos trabalhadores, golpistas estelionatários, a indústria armamentista, corrupção política e nos esportes, condições de moradia, delinquência juvenil etc. O primeiro supervilão, o cientista Ultra-Humanoide, só apareceu em Action Comics #13.

Superman também era um herói mais justiceiro, que apesar de não tomar a vida de ninguém, não tinha problemas em ameaçá-los ou usar da força quando necessário. Ele enfrentava inclusive as autoridades, chegando ao ponto de destruir uma favela, somente para que o governo fosse obrigado a construir moradias dignas para a população de baixa renda, como fazia quando eram vítimas de um desastre. Por conta disso a polícia colocou até um prêmio por sua captura.

Mas para a redação do Estrela Diária Superman sempre foi um herói, principalmente para Lois Lane, salva de tantas confusões que se metia, em busca de uma matéria, pelo herói. Enquanto desprezava Clark Kent, ela não perdia uma oportunidade de beijar o homem de aço, que após resgatá-la, sumia sem dar maiores explicações.

O primeiro editor de Clark Kent se chamava George Taylor, e o elenco de coadjuvantes era bastante reduzido. O casal de idosos que resgatara o pequeno bebê alienígena de um foguete experimental que viera do condenado planeta Krypton era chamado de Eben e Sarah Kent originalmente, e haviam morrido devido à idade. De forma que só após a morte dos pais adotivos que Clark saíra da pequena cidade onde crescera, e viria para a cidade grande, se tornando o Superman.

A explicação “científica” para os poderes do Superman de então era a estrutura genética dos kryptonianos, milhares de anos mais avançada que dos humanos. Sendo Krypton um planeta de gravidade muito mais elevada, isso explicava os enormes saltos que Clark podia dar na Terra, bem como a força dos seus músculos, capazes de erguer dezenas de vezes o seu peso. Por todos os poderes do Superman serem eminentemente físicos, era até simples explicá-los em virtude do desenvolvimento dos seus músculos.

Mas essa situação não tardou a mudar. Com o sucesso do Superman, várias outras editoras tentaram embarcar na onda e lançar outros super-heróis. Existiram alguns plágios descarados como o Wonder Man, da Fox Publications (editora do primeiro Besouro Azul), que a DC logo conseguiu tirar das bancas, vencendo na Justiça. O caso mais polêmico foi o do Capitão Marvel, que também era um super-herói de capa e grande força física. O processo da DC acusando a Fawcett Publications se arrastou por anos, e somente foi encerrado nos anos 50, quando as vendas do Capitão não compensavam mais sua publicação, de forma que a editora desistiu de publicá-lo, e cedeu seus personagens para a DC, a fim de pagar as custas jurídicas.

Mas foi graças ao Capitão Marvel e outros heróis que Superman começou a adquirir uma leva de novos poderes. Se Marvel podia voar, então os editores decidiram que Superman também deveria. Se Marvel tinha a “sabedoria de Salomão”, então Superman teria superinteligência.

Outra mudança que logo se impôs no Superman foram suas histórias já começarem a ser mais fantasiosas nos anos 40, deixando de lado a preocupação social. Lex Luthor logo se tornou o arqui-inimigo do herói, mas havia outros, como o Galhofeiro, Homem dos Brinquedos e o Sr. Mxyzptlk.

A ERA DE PRATA
Em meados dos anos 50, 1956 mais especificamente, a DC passou a viver a “era de prata dos quadrinhos de super-heróis”. Esse movimento significou não só o surgimento de novos super-heróis, mais também uma reformulação dos antigos. Nem o Superman escapou desta tendência.

O editor Mort Weisinger comandou a reestruturação das revistas do personagem, dando gibis próprios para Lois Lane e Jimmy Olsen, além de promover a volta de Jerry Siegel aos roteiros, sendo inclusive nesse período que ele escreveu suas melhores histórias para o personagem, com clássicos como “A morte do Superman” e “Retorno a Krypton”.

Agora não mais o último sobrevivente de Krypton, Superman logo ganhou a companhia da Supergirl, sua prima; a cidade engarrafada de Kandor, que havia também sobrevivido à explosão do planeta porque foi sequestrada antes dela; e claro, os criminosos da Zona Fantasma.

Novos e interessantes adversários foram criados, como Brainiac, Metallo, Homem de Kriptonita, Bizarro, General Zod, entre outros. Em compensação, os poderes do Superman foram aumentados, sendo esta sua versão mais poderosa. Agora ele tinha vários tipos de visão (telescópica, microscópica, raios-X, de calor e infravermelha), supersopro, supermemória, superaudição, superdicção, além da capacidade de viajar no tempo se quisesse. Para detê-lo foi necessário os roteiristas criarem uma profusão de Kryptonitas: além da clássica verde, que poderia matá-lo, havia a preferida do período, a vermelha, que causava as mais incomuns mutações, sendo tema de muitas histórias. A Kryptonita dourada poderia tirar os poderes de um kryptoniano para sempre, enquanto a negra poderia gerar um duplo maligno.

A Era de Prata também confirmou a alteração da origem do personagem, pela primeira vez. Ainda durante a Era de Ouro, a DC havia começado a publicar uma série de histórias curtas, atendendo uma pergunta dos fãs, como teria sido a infância do Superman? A resposta apareceu com as aventuras do Superboy, a partir de 1945.

O problema é que na origem original Superman havia começado sua carreira já adulto, logo após seus pais morrerem. Por um tempo se convencionou que as aventuras do Superboy eram “fantasiosas” ou seja, não valeriam para a incipiente cronologia de então. Também foi na série do Superboy que ficamos sabendo mais sobre os pais adotivos de Clark Kent, que tiveram os nomes alterados para Jonathan e Martha Kent.

No entanto, nos anos 50, vilões que apareceram primeiros em histórias do Superboy começaram a aparecer nas histórias do Superman, até que a própria Lana Lang, namorada do herói na adolescência, fez sua estréia na versão adulta, sendo a principal rival de Lois Lane pelo coração do homem de aço. Não havia mais dúvidas: Superman havia sido Superboy na juventude e isso valia sim para a cronologia.

Como Superboy, o herói viajou para o futuro e entrou para a Legião dos Super-Heróis, que surgiu nas páginas dos seus gibis. Por anos, a Legião foi coadjuvante das histórias e revistas do Superboy até merecer sua revista própria.

A Era de Prata também se caracterizou pela grande amizade que o unia a Bruce Wayne, o Batman. Tal amizade acabara acontecendo por mudanças editoriais no formato dos gibis, diga-se de passagem. Ambos os heróis estrelavam desde 1941 uma revista chamada World´s Finest (Melhores do Mundo), onde cada um aparecia em histórias separadas em sua maioria, assim como outros super-heróis menores que dividiam a revista. Mas a revista que começou com 96 páginas, foi reduzida para 76, depois 52 páginas no decorrer da década, até que nos anos 50 chegou às 36 páginas dos gibis americanos atuais.

Como antigamente as histórias eram mais curtas, havia ainda como comportar uma história do Superman e do Batman no gibi. Mas a partir da Era de Prata, foi proposta uma mudança, para World´s Finest não ser apenas mais uma revista com histórias dos dois heróis, já que ambos estrelavam outras publicações. A partir do número #71, de 1954, eles passaram a ser uma dupla. Ambos conheciam suas identidades secretas, e se tornaram grandes parceiros e amigos.

Mas Superman e Batman também contracenariam juntos em outra série, o grande sucesso comercial da DC na Era de Prata: a Liga da Justiça da América. Ambos não haviam feito parte pra valer da Sociedade da Justiça da América nos anos 40, a primeira superequipe dos quadrinhos, por serem populares demais para precisarem aparecer no grupo, que era visto como um reforço para personagens menores.

Com a Liga foi diferente, o editor Julius Schwartz fez pressão para que os editores de Batman e Superman cedessem os personagens, ainda que inicialmente, eles fossem praticamente figurantes da equipe, cujas aventuras davam mais destaque para os outros membros. Havia inclusive a imposição de que eles não podiam aparecer na capa, o que felizmente não durou muito.

A ERA DE BRONZE
Em 1970 começou a “Era de Bronze” dos quadrinhos, e como os demais super-heróis dos Estados Unidos, Superman também foi afetado por ela. A Era de Bronze se caracteriza por histórias mais sérias, de preocupação social inclusive, além de roteiros mais maduros, e presença firme de continuidade. Foi justamente um dos principais alicerces da Era de Bronze, Dennis O´Neil (na revista do Lanterna Verde), que trouxe o Superman para esse novo patamar.

A fim de modernizar o personagem, ele tirou Clark Kent do jornal Planeta Diário, e o fez apresentador de telejornal na TV Galáxia. O´Neil tentou dar fim ao irritante expediente de que qualquer bandido achava Kryptonita facilmente e assim debilitava o herói, fazendo uma história onde toda a Kryptonita do mundo perdia o efeito. Mas ele não queria que o Superman ficasse invencível, pelo contrário. Ele articulou um modo para que a potência dos seus poderes fosse reduzida pela metade, através das artimanhas de um vilão que o dividiu em dois. Com o tempo, Superman acabaria recuperando os poderes, sob argumento de que “metade de uma força infinita é o infinito”.

Mas o autor mais importante nesse período não foi O´Neil, e sim Elliot S! Maggin. Sua história mais clássica, “O mundo precisa de um Superman?” teria sido inspirada numa conversa com um jovem fã de 13 anos, chamado Jeph Loeb. Nessa história, os Guardiões do Universo (líderes da Tropa dos Lanternas Verdes) alertam o Superman de que sua interferência como anjo da guarda do planeta Terra poderia estar atrasando o desenvolvimento dos terráqueos, que em vez de procurarem solução para seus problemas, ficariam esperando pelo socorro do herói. Isso levaria Clark Kent a questionar quando deveria ou não agir, mas principalmente mostrou que a principal função do herói era servir de inspiração para as pessoas buscarem seu melhor. Foi a partir principalmente desta época que ele passou a ser também conhecido como “O Homem do Amanhã”.

Outra contribuição inestimável de Maggin foi no desenvolvimento da personalidade do vilão Lex Luthor, que deixou de ser apenas um vilão ganancioso para se tornar um personagem bem mais complexo. Nas histórias do Superboy, Maggin mostrou a amizade entre Lex e o herói, até o dia em que tentando achar uma cura para o envenenamento por Kryptonita, aconteceu um acidente em seu laboratório. Superboy interviu para salvá-lo, mas seu supersopro lançou os vapores químicos para cima de Lex que perdeu seus cabelos no processo, o que teria sido o início do rancor de Luthor pelo kryptoniano. Mas mais importante ainda, com o tempo, Lex começou a temer que a presença de um superalienígena no planeta Terra também iria tolher o desenvolvimento da humanidade, e que combater o Superman era uma questão de tentar proteger a humanidade.

Foi também durante os anos 70 que Superman voltou a ser um ícone mundial: o filme Superman, de Richard Donner, com roteiro de Mario Puzo (autor de O Poderoso Chefão), foi a primeira adaptação bem sucedida de um personagem de quadrinhos para o cinema. A trilha sonora de John Williams se tornou a música tema característica do herói, reconhecida por qualquer um como “a música do Superman” até hoje.

Puzo bebeu fundo nas histórias de Maggin e foi além no paradigma de que o Homem do Amanhã seria uma espécie de “messias” para a humanidade. Tal como Deus, Jor-El manda seu único filho, Kal-El para a Terra. Aqui ele terá sua cota de sacrifícios, onde até mesmo o amor lhe será proibido, motivo pelo qual sua relação com Lois Lane não pode evoluir.

Apesar de algumas boas histórias, muitos outros autores escreviam as várias aventuras do Superman, e nem todas estavam à altura do ícone. A partir do começo dos anos 80, as vendas diminuíam cada vez mais, e o fracasso do filme Superman III, em 1983, representou o fim da ajuda bem vinda que esse tipo de mídia dava nas vendas das revistas.

Superman já não conseguia conquistar novos fãs entre as novas gerações de leitores. Alguma coisa estava errada, de fato. Então os editores decidiram começar tudo de novo.

O SUPERMAN PÓS-CRISE
Em 1985 a DC lançou o primeiro megaevento de fato das histórias em quadrinhos: Crise nas Infinitas Terras. Embora a rival Marvel Comics, no ano anterior tenha lançado Guerras Secretas, esta era uma minissérie fechada em 12 edições, que reunia apenas os principais heróis da editora e seus vilões.

Crise, pelo contrário, se estendia por todas as revistas da DC, e envolvia absolutamente todos os personagens, e de todas as Terras. Pois na DC havia várias “Terras”, várias realidades, onde se passavam suas revistas. As histórias da Sociedade da Justiça e da Corporação Infinito, por exemplo, se passavam na Terra 2; as histórias do Capitão Marvel se passavam na Terra S; as histórias dos Combatentes da Liberdade se passavam na Terra X. E assim por diante.

Para os editores, esse era um dos motivos pelos quais as histórias da DC podiam ter ficado confusas para os jovens leitores. Afinal havia dois Supermen, o “oficial” da Terra 1, e sua contraparte mais velha, o “original”, da Terra 2. Da mesma forma havia dois Superboys, o principal da Terra 1, e o Superboy da Terra Primordial. Nas suas constantes reformulações nas Eras de Prata e Cobre, histórias passadas foram desconsideradas, e os leitores já não sabiam mais o que valia ou não para a cronologia. A DC tentava então, desesperadamente, criar uma continuidade coesa, a exemplo da rival Marvel, que tinha no respeito à cronologia sua principal virtude.

Crise nas Infinitas Terras então seria a história que mostraria o fim das Terras paralelas e a fusão delas numa única Terra, um único universo. O fim da série apontaria reformulações dos principais heróis da casa, e alguns deles teriam todas as histórias anteriores apagadas da cronologia.

O principal herói na crista das mudanças era, claro, o Superman. Sua prima Supergirl morre em Crise, e sequer existiria no universo recriado. O herói voltaria novamente a ser o último filho de Krypton, sem outros sobreviventes do planeta moribundo.

Para recontar sua origem e comandar suas novas histórias doravante, a DC foi à rival e contratou uma das suas maiores estrelas: John Byrne, que havia feito muito sucesso em passagens memoráveis pelas revistas dos X-Men e do Quarteto Fantástico, ajudando ambas a se tornarem campeãs de vendas.

Com a minissérie The Man of Steel (O Homem de Aço), Byrne atualizou a origem do herói para uma versão mais moderna em vista dos gostos próprios dos anos 80. Krypton era um planeta frio e moribundo, de uma raça decadente, que havia se tornado excessivamente racional e abolido todas as emoções. As crianças eram geradas “in vitro” através da seleção genética dos kryptonianos, que não escolhiam com quem iriam procriar.

Ao invés de ser mandado para a Terra ainda bebê, Kal-El sequer havia nascido, quando seu embrião havia sido colocado por seu pai biológico, Jor-El, numa “câmara matricial” que foi enviada para a Terra. O cientista escolhera o planeta por ele ser o que melhor daria condições de sobrevivência ao filho, onde deveria desenvolver poderes muito além dos terráqueos, devido ao sol amarelo, que carregaria seu corpo como uma bateria.

Esse Superman era muito mais humano que os demais em vários aspectos. Jonathan e Martha não eram velhos quando encontraram a criança na nave experimental, e para todos os efeitos declararam que Clark era seu filho natural. O jovem só iria descobrir que fora adotado aos 18 anos, quando seu pai resolve contar a origem dos seus miraculosos poderes, incomodado pelo filho os estar usando em proveito próprio, para se sobressair no futebol.

Durante essa nova fase, doravante, Jonathan e Martha agiriam como conselheiros de Clark, se tornando uma bússola moral em vida, e também servindo de ponto de apoio e conforto durante suas piores crises. Assim, para Clark, seus pais terráqueos eram os verdadeiros, e não os biológicos, como anteriormente. Quando descobre que é um kryptoniano graças a uma gravação mental de Jor-El, que lhe repassa a língua, conhecimentos científicos e cultura de Krypton, Kal-El renuncia sua herança kryptoniana, pois se sente também um terráqueo, por ter nascido aqui.

Sem nunca ter sido um adolescente uniformizado na juventude, após a escola e a universidade, o jovem Clark viajou pelo mundo ajudando as pessoas como pôde, anonimamente. Nunca lhe passou pela cabeça assumir uma identidade super-heróica. Até o dia em que, estando em Metrópolis, teve que se revelar, no meio de uma multidão, para salvar uma nave experimental, onde se encontrava a repórter Lois Lane. De repente seu rosto era conhecido, e não havia mais como se esconder.

Desesperado, volta para casa, sem saber o que fazer. São seus pais que tem a idéia de “disfarçá-lo” como um super-herói de cores coloridas, fazendo com que as pessoas não prestassem tanta atenção no seu rosto. Para que Clark pudesse manter sua identidade secreta (as pessoas tinham visto seu rosto, mas não sabiam seu nome), teria que alterar sua aparência, usando cabelos penteados pra trás, óculos, roupas largas e folgadas, de forma a parecer mais gordo, que o malhado Superman em sua roupa colorida colante. Alterações no timbre de voz, além de andar encurvado e com a barriga estufada faziam parte do disfarce.

Seu teste de fogo foi enganar Lois Lane, que a principio desconfiou, mas achou que por estar interessada pelo Superman poderia está-lo vendo em todos os homens. Ajudava muito o fato de Lane odiar, inicialmente, Clark Kent, por este ter chegado à frente com a primeira entrevista do Superman, modo como conseguiu seu emprego no Planeta Diário! Mas após esse deslize de “ética jornalística”, doravante, ele procurou evitar maiores associações entre si e o Superman, de forma que Lois se tornou a repórter que mais matérias cobria sobre o herói.

Mas ao contrário da sua identidade anterior, esse Clark Kent estava longe de ser um repórter tímido, mas sim um dos mais arrojados e competentes do Planeta Diário, inclusive autor de três livros e ganhador de um prêmio Pullitzer. Esse Superman tinha uma vida, e para ele, Clark Kent era o personagem real, e Superman apenas um disfarce.

Lex Luthor também foi reformulado, e passou a ser um empresário inescrupuloso, que enriquecera graças tanto as suas invenções científicas quanto sua falta de ética nos negócios. Sendo o “rei” de Metrópolis, patrão da maioria dos cidadãos, dono de tudo que fosse legal e ilegal na cidade, fica incomodado quando aparece alguém capaz de ser “o maior homem da cidade” no lugar dele. Inicialmente ele tenta contratar Superman para sua folha de pagamento, mas a recusa só aumenta sua raiva. Ao tentar chamar a atenção do Superman forjando um atentado terrorista, a descoberta da artimanha faz com que o herói prenda o vilão, que pela primeira vez na vida, passou 24 horas na cadeia, insulto que sedimentará o antagonismo entre ambos doravante.

Apesar de mais humano, a amizade com Batman inicialmente não existia, pois Bruce Wayne, durante sua reformulação havia passado pelo processo contrário. Ele agora era um amargurado justiceiro, que utilizava métodos que o Superman não concordava totalmente. Após uma tentativa de prisão frustrada do vigilante, Superman concordou em deixá-lo cuidar de Gotham City da forma que era mais adequada para aquela cidade, começando a partir dali um respeito mútuo entre ambos.

Mas mudam-se os tempos e as vontades. Com o passar dos anos, novos autores, que haviam crescido com os personagens das eras de prata e bronze passaram a assumir o comando das revistas, e vários elementos pré-Crise foram resgatados. Superman e Batman descobriram a identidade um do outro e passaram a agir cada vez mais juntos. Kara Zor-El, a Supergirl voltou, e também os criminosos da Zona Fantasma, assim como a cidade engarrafada de Kandor. Novas origens tiveram que ser contadas, a fim de acomodar esses elementos na cronologia em constante mutação da DC, primeiro com a minissérie O Legado das Estrelas, escrita por Mark Waid, e poucos anos depois, Origem Secreta, por Geoff Johns.

Talvez o fato mais marcante desse enorme período de 25 anos tenha sido o desenvolvimento do relacionamento entre Lois e Clark. Inicialmente rivais, depois colegas e amigos, até se tornarem namorados, noivos, e finalmente, após décadas de espera, se casarem numa edição especial que foi muito badalada, na época do seu lançamento.

A história de amor inclusive motivou o lançamento de uma nova série de TV, no começo dos anos 90, chamada justamente de Lois & Cark: As Novas Aventuras do Superman. Foi por causa dela que o casamento que estaria marcado para acontecer em 1992 foi adiado, pois os chefões da Warner decidiram que daria para capitalizar melhor o evento se acontecesse ao mesmo tempo na telinha e nos quadrinhos, e a telessérie estava só começando. Portanto os autores dos gibis tinham que esperar. Desesperados e em busca de ideias, foi assim que nasceu um dos maiores eventos mediáticos dos quadrinhos de todos os tempos, A Morte do Superman.

O que era para ser uma simples saga onde o herói morre, o mundo sente sua falta, e ele volta triunfante, de repente, por causa de um dia magro de notícias, a informação de que a DC iria “matar” seu principal herói tomou de assalto toda a imprensa norte-americana, e por tabela, do mundo. Os holofotes de repente se voltaram para as até então quase-esquecidas revistas do Superman.

O sucesso da Morte do Superman também deu início, infelizmente, a tendência dos eventos “bombásticos” nas histórias de super-heróis dos anos 90, com o Batman sendo aleijado e substituído, o Lanterna Verde enlouquecendo, Aquaman perdendo a mão, o Homem-Aranha sendo trocado por um clone, e até a Mulher-Maravilha e o Arqueiro Verde também sendo substituídos. Mas pelo menos o Superman havia novamente se tornado um “criador de tendências” no mercado, como antigamente.

O SUPERMAN ATUAL
Na primeira década do ano 2000, Superman passou por alguns altos e baixos nas suas revistas. Após a saga Crise Infinita, em 2006, houve um breve alento, sobre o comando do escritor Geoff Johns, que contou com a colaboração de Richard Donner em algumas histórias, e Kurt Busiek em outras revistas.

Johns extrapolou os elementos da Era de Prata, os modernizando e explorando sua carga dramática. O General Zod ganhou camadas da sua personalidade, de simples criminoso ambicioso, para grande herói kryptoniano, apesar de seu desprezo pelos humanos. Jonathan Kent morreu de forma dramática, numa história onde Johns tentou apresentar a versão definitiva de Brainiac, num épico que também marcou o retorno da cidade engarrafada de Kandor, e a criação de um planeta chamado Novo Krypton.

Até mesmo a inclusão de um “filho” foi tentada, com a excelente história “O Último Filho”, onde Clark e Lois adotam uma criança kryptoniana que descobrem depois ser filho do próprio General Zod! E o garoto ainda serviu como homenagem ao ator Christopher Reeve, adotando a identidade humana de Christopher Kent.

Mas justamente esse fator “família” foi apontado por muitos como um dos fatos que estariam fazendo as histórias do Superman parecerem mais chatas para os jovens, já que o herói se tornara “maduro demais”.

A contratação do então badalado escritor J. Michael Straczynski acabou se tornando um desastre, com uma longa e burocrática história chamada “Solo” que afundou de vez as vendas do homem de aço, na esteira da crise de vendas das revistas em quadrinhos nos Estados Unidos no início desta década.

A crise fez com que a Warner exortasse a DC a fazer algo drástico, a fim de garantir a continuidade de sua divisão editorial. E esse algo drástico acabou se tornando um novo reboot, com o relançamento de todas as revistas da editora.

Foi a oportunidade para muitos dos que acreditavam que o casamento de Lois e Clark havia tirado muito da graça das histórias, por ter dado segurança romântica para o herói, agirem e eliminarem esse evento da continuidade. Um Superman novamente solteiro poderia se envolver romanticamente com outros personagens, como por exemplo, a Mulher-Maravilha.

O novo Superman ganhou nova roupa - uma versão “atualizada” do seu uniforme, agora uma “roupa kryptoniana” - e até novo penteado (tanto como Clark quanto como Superman). Para recontar sua origem e redefini-lo para novas gerações, a DC deu o trabalho para um dos seus maiores fãs: o escritor escocês Grant Morrison, que já havia feito muito sucesso com a premiada Grandes Astros Superman, uma maxissérie onde apresenta uma versão épica e icônica do personagem.

Morrison foi beber direto nas origens do herói: assim como imaginado por Jerry Siegel e Joe Shuster, Superman foi apresentado como mais “durão”, mais “justiceiro”, sem medo de usar a força para conseguir seus objetivos, nem tolerar os desmandos das autoridades da Terra na hora de fazer justiça. A sede de justiça desse Superman é tão grande que ele escolheu justamente o jornalismo para fazer a contraparte da sua atuação como super-herói, garantindo a denúncia e lutando pela punição dos criminosos.

Novamente batendo de frente com problemas sociais, oriundos agora da crise econômica mundial atual, esse Superman se encontra antenado com a mesma geração do movimento Occupy, compartilhando dos mesmos ideais e objetivos. Um Superman que também não tem vergonha da sua herança alienígena, e não é de “muita conversa” nem discursos inspiradores, ao contrário do antigo.

Haja vista que muito dessa “atitude” também se encontra presente no filme do violento diretor Zack Snyder, parece que estamos diante de uma nova versão do personagem que veio para ficar. Pelo menos até a próxima reformulação...

Veja também:
- Notícias diversas sobre o Superman
- Outros reviews e matérias

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