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07/10/2013
MATÉRIA: ANIMA MUNDI 2013 - MAIS ANIMADO DO QUE NUNCA!
 
 
Anima Mundi 2013
 
 
Minhocas - O Filme
 
 
Trespass
 
 
Uma História de Amor e Fúria
 
 
War Game
 
 
Instintos Animais, na mostra Spike & Mike
 
 
História Inundada, de Maarten Isaak de Heer
 
 
Feral, de Daniel Sousa - Melhor Filme Anima Mundi 2013
 


Animações animadas, pouco animadas e até desanimadas. Havia de tudo na 21ª edição do Festival Internacional de Animação do Brasil, o Anima Mundi 2013, que aconteceu em duas capitais brasileiras, Rio de Janeiro (2 a 11 de agosto) e São Paulo (14 a 18 de agosto), e depois percorreu outras cidades do Brasil em sua versão itinerante.

Neste ano, a edição carioca do Anima Mundi teve alguns privilégios em relação à versão paulistana, já que  foi contemplada com 10 dias de festival contra 5 em Sampa, e somente no Rio foram oferecidas as oficinas do Estúdio Aberto, na Fundição Progresso e no Oi Futuro Flamengo, nas quais o público tinha a oportunidade de desenhar, modelar e atuar em frente às câmeras.

Foram sete oficinas-laboratório gratuitas e instantâneas com diferentes técnicas de animação, desde o histórico zootrópio e o desenho direto na película até diversas variações do stop motion usando o software livre MUAN - Manipulador Universal de Animações (www.muan.org.br), concebido pelo Anima Mundi e desenvolvido pelo IMPA - Instituto de Matemática Pura e Aplicada, com apoio da IBM. Além disso, somente na Cidade Maravilhosa, no Monumento Estácio de Sá, houve a Exposição Minhocas - O Filme, na qual foi possível ver cenários, personagens, adereços e artes do primeiro longa em stop motion produzido no Brasil, realizado pela produtora Animaking, sediada em Florianópolis, e distribuído pela Fox/Globo Filmes, com lançamento previsto para dezembro de 2013.

Na Cidade da Garoa, o Anima Mundi também ocorreu em dois locais, no Espaço Itaú de Cinema, na famosa Rua Augusta, e na Galeria Olido, bem no centrão da cidade. E foi lá onde aconteceu a abertura do evento, às 10 da manhã. No local, apenas um painel gigante, posicionado no início da escada que dava acesso ao espaço chamado Galeria, fornecia alguma indicação sobre a realização do Anima Mundi 2013. Quem passava em frente não tinha como saber da mostra, o que deve ter deixado de atrair as pessoas que passavam por ali.

Lá dentro, uma tela exibia dezenove curtas que buscavam “romper fronteiras, experimentar sentidos e transcender a tela tradicional de cinema”, conforme a produção do evento. A ideia era que esses filmes pudessem ser apreciados como numa galeria de arte. O problema é que havia poucos lugares para sentar, a tela era de tamanho muito modesto e o som estava muito baixo, fatores que dificultavam a apreciação das animações, ainda mais que o público parecia mais interessado em interagir entre si para trocar informações e estabelecer um networking, o que se configurou em uma boa oportunidade para quem trabalha no ramo, mas um incômodo a quem estava apenas interessado em apreciar os filmes.

Algumas produções estavam mais próximas do que se conhece por vídeo-arte, como o português Compositio III e o estoniano The End, muito bem executados, mas bastante abstratos e difíceis de prender a atenção. Outras flertavam fortemente com a literatura, como o japonês minimalista 663114 e o polonês Kigo, uma visualização abstrata dos poemas japoneses chamados haikai. A proposta da mostra Galeria era o experimentalismo, o design e a execução, sem muita atenção à narrativa. Algumas ideias eram belíssimas; outras chamavam a atenção de início, mas cansavam rapidamente; e havia aquelas que eram bem entediantes, e isso ficava nítido no semblante das pessoas. O filme austríaco Trespass, dirigido por Paul Wenninger e produzido por Gerald Weber, foi um dos mais interessantes, misturando técnica de computação 2D, pixilation e stop motion.

Além da Galeria, diversas mostras competitivas e informativas menos experimentais exibiram curtas, médias e longas na Galeria Olido e no Espaço Itaú de Cinema. Ao todo foram 510 animações vindas de 46 países dos cinco continentes, com bem-vinda predominância de filmes nacionais, o que possibilitou ao público verificar a amplitude das produções de animações no Brasil. Foi possível assistir filmes das mais variadas técnicas: animação tradicional, digital, recortes, live-action, cel shading, stop-motion, claymation, pixilation, pinscreen, rotoscopia, areia e diversas técnicas experimentais de difícil categorização. As mostras foram divididas da seguinte maneira:

Sessões competitivas: Curta-Metragem, Curta-Metragem Infantil, Longa-Metragem, Longa-Metragem Infantil e Portfólio (trabalhos de animação feitos por encomenda: propaganda, videoclipes, institucionais, cenas para longas e outros).

Sessões não competitivas: Panorama Internacional (filmes que revelam tendências estéticas e temas relevantes da recente produção internacional), Longa Panorama (longas com a mesma proposta da mostra anterior), Animação em Curso (seleção dos melhores filmes realizados em escolas profissionais de animação do mundo todo), Futuro Animador (animações realizadas por crianças e adolescentes e adultos de diversas profissões, frutos de oficinas e cursos livres de animação promovidos em todo o mundo), Longa Especial (com a animação nacional de ficção científica Uma História de Amor e Fúria, lançada em abril deste ano, com direção e roteiro de Luiz Bolognesi) e Mostras e Retrospectivas Especiais. Esta última sessão, a que mais gostei entre todas, estava dividida em cinco mostras:

• A Escola Polonesa de Animação: antigas e futuras gerações - A Polônia tem uma das cinematografias mais fortes e interessantes que há no mundo. Desde o fim da Segunda Guerra, os animadores de lá aprenderam a driblar as limitações trazidas por longos anos de submissão a regimes opressivos por meio da poesia visual, criando filmes com impressionante diversidade de temas, estilos e técnicas. O poder de síntese, bem como o uso exclusivo e estratégico da imagem na fabricação de sentido, são alguns dos recursos subversivos que foram aprimorados por esses artistas, seja para criar alegorias eficientes e profundas ou simplesmente para burlar a censura. Pessimismo e tristeza podem ser frequentemente observados em primeiro plano. Mas um pessimismo temperado com reflexão filosófica e senso de humor sarcástico, quase sempre amargo. Grande parte dos filmes independe da tradução para ser compreendida, ultrapassando as limitações das barreiras nacionais. A seleção de 28 curtas procurou revelar a herança deixada pelos animadores pioneiros do pós-guerra e sua relação com a nova geração de artistas, deixando a forte impressão de que a arte da animação talvez seja também uma vocação nacional polonesa, que se realiza quadro a quadro de forma sempre nova e espontânea.

• Illuminated Films: aniversário de 20 anos - O premiado estúdio de animação Illuminated Film Company. Situado em Londres e fundado pelo produtor Iain Harvey em 1993, é conhecido por sua produção eclética de curtas e longas-metragens, bem como de séries para TV. Entre as produções mais bem-sucedidas do estúdio, estão as séries The Very Hungry Caterpillar & Other Stories, baseada nos livros de Eric Carle, e Little Princess, uma adaptação dos livros ilustrados de Tony Ross, bem como o curta T.R.A.N.S.I.T. (1997), de Piet Kroon, e o longa Chrsitmas Carol - The Movie. Foram duas sessões, uma adulta, com os filmes The Rubbish World of Dave Spud, Prince Cinders e os sensacionais War Game e T.R.A.N.S.I.T.; e uma seleção infantil com oito curtas.

• Rencontres Audiovisuelles - A RAV (abreviação de Rencontres Audiovisuelles) elegeu a arte da animação como o elemento aglutinador de ações culturais em torno da cidade de Lille, ao norte da França. Fundada em 1998, a associação é especializada na exibição de criações audiovisuais independentes e de trabalhos de arte digital, além de desenvolver projetos educativos que giram em torno da imagem. Também organiza festivais de animação e faz a curadoria de uma mostra semanal do centro de audiovisual independente L´Hybride, fundado em 2007. Foram exibidos nove curtas feitos por estúdios independentes, autores e escolas profissionais da França e Bélgica.

• Spike & Mike - O Spike & Mike´s Sick and Twisted Animations é um festival dedicado exclusivamente à exibição de curtas-metragens que conjugam qualidade artística e excelência subversiva, com uma programação repleta de referências escatológicas, humor negro e crítica aos bons costumes, características não exatamente bem acolhidas em mostras clássicas. Os curtas que deram origem às séries Beavis and Butthead, de Mike Judge, e South Park, de Matt Stone e Trey Parker, foram exibidos pela primeira vez sem censura nesse festival. Em 2006, o Anima Mundi trouxe a mostra Spike & Mike para o festival. Nesta edição 2013, foi apresentada uma nova seleção com 25 filmes doentios e distorcidos para o deleite do público.

• Instalação: [mu:stәrman] A flood story - História Inundada, de Maarten Isaak de Heer, é uma instalação inédita montada especialmente nesta edição do festival. A animação exibida em loop revela a paisagem de um condomínio ecológico habitado por bichos da Europa Ocidental. Quando a maré inunda as suas casas, eles não parecem assustados ou surpresos. Apenas seguem o fluxo, pois é uma história que se repete infinitamente.

• Olho Neles! - Seleção de 25 produções que merecem atenção por contribuir para a diversidade de propostas e técnicas da atual animação brasileira.

E como se não bastasse todo esse conteúdo recheado com centenas de animações – cuja qualidade variava muito de filme para filme em todas as exibições –, o público ainda pôde ver de perto experientes profissionais da animação falando sobre seu ofício. Nas Masterclasses, os convidados internacionais do festival apresentavam detalhadamente os seus processos de trabalho para profissionais e estudantes de animação inscritos. Ao todo foram três masterclasses:

• Masterclass 1: Nas Trincheiras do Storyboard, com Ennio Torresan
• Masterclass 2: Da Pedra ao Pixel, com Regina Pessoa
• Masterclass 3: Desenhando o Futuro, com Andrew Probert.

Além disso, também aconteceram cinco edições do Papo Animado, em que profissionais renomados conversavam de maneira informal com o grande público sobre suas realizações e experiências. Os convidados foram:

• Ennio Torresan: formado em Belas Artes, o animador carioca vive há mais de uma década em Los Angeles, onde atualmente é chefe do departamento de histórias da DreamWorks. Trabalhou como roteirista e diretor de storyboard de Bob Esponja, da Nickelodeon; foi responsável pela direção de Teachers Pet, da Disney; e, na DreamWorks, ajudou a desenvolver como chefe de storyboard os longas Madagascar 1, 2 e 3, Kung Fu Panda 1 e 2, Megamente e, o mais recente, Turbo. E o animador não abandonou as parcerias no Brasil, onde divide os créditos de direção do longa em 2D Até Que a Sbornia nos Separe, produzido pela Otto Desenhos Animados.

• Chris Wedge: formado em Cinema e com mestrado em Computação Gráfica, começou sua carreira em animação fazendo stop motion no estúdio Magi, pequena empresa de computação gráfica que produziu as sequências do filme Tron (1982), da Disney. Foi ali que Wedge conheceu uma parte do grupo que fundaria com ele, em 1986, o renomado Blue Sky Studios. O animador dirigiu os dois longas de sucesso do estúdio, A Era do Gelo (2002) e Robôs (2005), e produziu os filmes A Era do Gelo 2 (2006), A Era do Gelo 3 (2012), Rio (2011) e Horton e o Mundo dos Quem (2008). Seu mais recente projeto como diretor é o longa-metragem Reino Escondido (2013), um passeio pelo mundo fantástico de criaturas invisíveis a olho nu.

• Wendy Tilby e Amanda Forbis: as canadenses se conheceram no Emily Carr College of Art and Design em Vancouver, onde estudaram cinema, vídeo e animação. Começaram a carreira em animação no National Film Board of Canada, onde Tilby dirigiu Strings (1991) e Forbis, The Reluctant Deckhand (1995). When the Day Breaks (1999), primeiro projeto em parceria da dupla, recebeu trinta prêmios, entre os quais o Grand Prix no Festival Internacional de Animação de Annecy e o Palm d´Or de melhor curta-metragem em Cannes, além de ter sido indicado ao Oscar. Em 2012, Tilby e Forbis lançaram o curta-metragem Wild Life, indicado ao Oscar e premiado no Festival Internacional de Animação de Ottawa. Além dos projetos pessoais, Tilby e Forbis fazem filmes de encomenda. A campanha publicitária para a companhia de aviação United Airlines talvez seja um de seus trabalhos mais conhecidos.

• David O´Reilly: os curtas deste animador irlandês que mora em Los Angeles conquistaram uma legião de fãs mundo afora. Os dois últimos curtas de O´Reilly, Please Say Something (2009) e The External World (2011),  foram premiados em importantes festivais, como os de Berlim e Ottawa. Em sua obra, elementos freaks e fofinhos parecem estranhamente harmônicos, como na história turbulenta de amor entre uma gata e um rato em Please Say Something, e na saga existencialista The External World. Para O´Reilly, menos é mais. A estética minimalista, com aparência de rascunho, além de poupar tempo e investimento, por se tratar de projetos autorais que raras vezes têm verba, exigem personagens cativantes e roteiros cuidadosamente elaborados.

• Regina Pessoa: começou sua carreira em animação trabalhando para a produtora de Abi Feijó, na cidade do Porto, em Portugal. Após ter codirigido Ciclo Vicioso (1996) e Estrelas de Natal (1998) com Abi Feijó, Regina então iniciou o que viria a ser uma premiada trilogia autoral sobre o tema da infância: A Noite (1999), História Trágica com Final Feliz (2005), e Kali, o Pequeno Vampiro (2012), numa coprodução entre Portugal, Canadá, França e Suíça. As histórias de seus filmes giram em torno dos medos infantis, da incomunicabilidade e da aversão das pessoas à diferença. Para contar suas histórias, Regina fez uso de sua formação em Belas Artes, explorando uma técnica em animação a partir de gravuras feitas sobre placas de gesso.

O Anima Mundi, festival que já está mais do que consagrado no Brasil e no mundo, encerrou sua 21ª edição com a passagem de mais de 76 mil pessoas em seus 15 dias de evento entre Rio de Janeiro e São Paulo, com um saldo bastante positivo tanto para o público quanto para o mercado de animação.

Confira a lista de premiados no Anima Mundi 2013:

ANIMA MULTI
Júri Popular: Separated, de Mark Borgions, Bélgica
Júri Profissional: Shave It, de Jorge Tereso e Fernando Maldonado, Argentina

PRÊMIO CANAL BRASIL
Ed., de Gabriel Garcia, Brasil

PRÊMIO BNDES
Para a melhor animação brasileira de júri popular, com os votos dos espectadores do Rio de Janeiro e São Paulo: Graffiti Dança, de Rodrigo Eba!, Brasil

PRÊMIO NÚCLEO DE CINEMA DE ANIMAÇÃO DE CAMPINAS
Prêmio para o melhor filme brasileiro de estudante, com os votos de público do Rio de Janeiro e São Paulo: Ex Machina, de Eduardo Watanabe Ribeiro e Daniel Hodge, Brasil

PRÊMIOS DO JÚRI POPULAR
Melhor Curta RJ e SP: Der Notfall, de Stefan Muller, Alemanha
Melhor Curta Infantil RJ e SP: Room on the Broom, de Max Lang e Jan Lachaue, Reino Unido
Melhor Curta Brasileiro RJ: Faroeste: um autêntico Western, de Wesley Rodrigues, Brasil
Melhor Curta Brasileiro SP: Graffiti Dança, de Rodrigo Eba!, Brasil
Melhor Curta de Estudante RJ e SP: Oh Sheep!, de Gottfried Mentor, Alemanha
Melhor Longa RJ e SP: Couleur de peau: Miel, de Laurent Boileau e Jung, França/Bélgica
Melhor Longa Infantil RJ: Zambézia, de Wayne Thornley, África do Sul
Melhor Longa Infantil SP: AninA, de Alfredo Soderguit, Uruguai/Colômbia

PRÊMIOS DO JÚRI PROFISSIONAL
Melhor Concepção Sonora: Beep Beep Beep, de Jeremy Diamond, Canadá
Melhor Direção de Arte: Requiem for Romance, de Jonathan NG, Canadá
Melhor Roteiro: A Coelha e o Veado, de Péter Vácz, Hungria
Melhor Técnica de Animação: Le Grand Ailleurs et le Petit Ici, de Michèle Lemieux, Canadá
Melhor Filme de Encomenda: Dumb Ways to Die, de John Mescall e Pat Baron, Austrália

MELHOR FILME ANIMA MUNDI 2013
Feral, de Daniel Sousa, EUA/Portugal

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